terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A solidão do carrasco

para Leandro Mendes
Era menino, vida inteira na mão, mas meus olhos eram velhos. Tinham mais de sessenta anos, meus olhos. Mãe era religiosa, pai também. Vô e vó ainda mais. Vô era pastor da Igreja Assembléia de Deus e mantinha seu rebanho sob rígida disciplina. Pai ia ser pastor também e o que me esperava não era diferente. Não sabia o que tinha de errado comigo, sabia, contudo, que não ia dar certo. Eu tinha um corpo e morava nele. Para o vô, corpo era diabo e diabo era corpo. Pai era fraco e aceitava. Eu não respondia, só que também não aceitava, toda vez que ia falar com o vô, tampava o umbigo com a mão esquerda para a palavra não entrar.
            - Escute, menino, não houve um só homem que se entregou aos prazeres do mundo e praticou a caridade. É preciso ser casto pra amar os outros. Cristo deu o exemplo.
            Culto era quase todo dia. De tarde e de noite. Os homens, colarinhos abotoados até o pescoço. As mulheres, coques na nuca, pernas peludas e saiotes até as canelas. Todo mundo: cara triste. Nenhum artista (hoje sou escultor) é tão atormentado quanto um cristão autêntico. Gente assim é palco da navalha. Estão rasgados ao meio. Sonham o céu, mas estão presos às tripas e às fezes. Ir ao banheiro, para quem ama o Cristo crucificado, é um pecado e uma humilhação. O Gótico é o mais profundo dos estilos.
            Mãe tinha asma e vivia trancada dentro daqueles templos fechados. Mesmo que não tivesse, seria difícil respirar ali. Era magrinha, mãe, canela fina, mas fazia cafuné em qualquer menino, nem precisava ser parente. O chão da nossa terra era seco, mas mãe tinha os olhos sempre molhados. Não eram lágrimas, porque não escorriam pelo rosto. Eram lagos soltos que não saiam por vontade própria. “A vontade da água sempre se impõe”. Mãe dizia pelo olhar, ainda que olho não fale. Tinha uma amiga, mãe, uma única e melhor amiga. É dela que me lembro agora. O nome era Emanuela, não Emanuela não, o nome era Emília. Isso mesmo. Emília era morena, alta, riso fácil, viúva. Era o contrário de mãe, e juntas elas formavam uma esfera. Isto aprendi depois que estudei as matemáticas. Lavavam roupas juntas. Faziam bolo de fubá e cuscuz para as festas da igreja. Quando terminavam o serviço de casa, uma sempre procurava a outra pra tomar café e falar da vida e da infância. Emília tinha um filho e viviam só ela e o filho, isso quando ele não estava na capital. Servia o exército. Era tudo. Na sala da casa dela, tinha uma foto enorme do filho vestindo a farda. Quando o rapaz vinha visitá-la, Emília corria pela vila, alegre, pulava no menino e o cobria de beijo, assim que ele atravessava o umbral. Beijava a testa, o pescoço, a bochecha, o nariz, as orelhas. No culto, meu avô repreendia, aquilo não era postura de gente séria, mas Emília não ligava e sorria seu sorriso de dentes brancos. Vô corava, retrocedia, não falava mais, a austeridade tem medo do riso franco.
***
            Estava dedilhando a rabeca, escondido atrás de uma árvore, perto do umbral de entrada da vila, quando vi Emília correndo doida, descabelada, chorando e gritando. A mãe vinha atrás. Pequena, mofina, tentando alcançar, mas se distanciando. Emília desapareceu na estrada. Ficou uma nuvem de poeira como se um carro grande tivesse passado.  Mãe parou. Escondi a rabeca e fui até lá.
            - Que foi mãe?
            Não conseguia respirar direito. Agachou no meio da estrada. Agachei também pra ajudar e foi aí que eu vi o que nunca tinha visto. A água dos olhos de mãe começou a escorrer. Mãe não chorava, nessa hora chorou e a poeira da estrada se juntou às lágrimas. Tinha um som de sanfona que vinha do outro vilarejo, mas eu reparei foi que minha mãe chorava era lama. Uma lama grossa, marrom. A lama sempre diz o marrom e o marrom é a mais gomosa das criaturas.
            - Que foi mãe? – Repeti.
            Tomou fôlego outra vez.
            Esperei.
            - Marcelo, o filho de Emília.
            - O que tem mãe?
            - Morreu. Chegou telegrama pra ela ainda agora. Parece que a arma disparou sozinha.
            Abracei minha mãe e fui levando ela de volta pra vila, devagar. Continuou chorando e chorava mesmo lama. Eu queria protegê-la, queria cuidar dela, porque, se Emília tinha perdido o filho, que Deus impediria que eu perdesse minha mãe? Antes de chegar a casa, estancou:
            - Me promete uma coisa filho?
            - Prometo mãe.
            - Quando você crescer, quando virar homem, saía daqui, não olhe pra trás. Vá ver o mar. Vá espiar a vida. Aqui nada cresce. Na geração de vocês, vai ser tudo deserto. Anda... Promete?
            Engasguei.
            - Promete logo pra sua mãe, porra!
            Assustei com o palavrão. Acho que arregalei os olhos. A mãe apertou meu braço com força.
            - Prometo, mãe. Eu prometo. Prometo.
***
            Emília não ia mais à Igreja. Também não trabalhava mais. Passava os dias trancada em casa, as janela fechadas. Não sei como ela conseguia naquele calorão imenso. A mãe tinha feito um bolo de fubá e me chamou.
            - Vamo comigo, Dan, lá na casa de Emília.
            Peguei as sandálias embaixo da cama e acompanhei. Batemos na porta. Ninguém abriu. Entramos. A casa estava limpa, limpa, mas parecia não haver gente. Atravessamos a sala. O retrato de Marcelo não ficava mais na parede. Fomos para a cozinha. Deixamos o bolo sobre a mesa. Mãe gritou Emília. Sem resposta. Abriu a porta do quarto dela: vazio. Se Emília não saía mais de casa, onde teria se enfiado? Só faltava um quarto para olhar. O quarto de Marcelo. A mãe olhou pra mim, senti um calafrio pior do que se tivesse com febre, nunca mais, em toda a minha vida, e olha que hoje tenho setenta e quatro anos, senti algo parecido com aquilo. Acho que a mãe também sentiu a coisa ruim, porque sussurrou:
            - Senhor tende piedade de nós!
            - Vambora daqui mãe.
            - Não. É necessário.
            A coragem de mãe pôs a mão na maçaneta, olhou pra mim, respirou fundo e aí abriu.
            Estava lá, Emília, deitada sobre a cama desarrumada. Abraçada ao quadro do filho, no meio do quarto imundo. Havia mofo em todas as paredes. Num lugar seco como aquele de onde saíra a umidade? Dezenas de aranhas imensas teciam teias que, à luz da porta aberta, julguei serem vermelhas. Num canto, perto de um prato com restos de comida, uma ratazana fizera ninho. Emília sentou-se na cama. Bem debaixo do quadro com um cavalo preto sem olhos. Tinha pintado ao redor das vistas de preto, mas as lágrimas fizeram a tinta escorrer por todo o rosto. O quarto fedia. A mãe chegou perto, tentou abraçá-la, mas Emília estava toda molhada de xixi e cagada também. Mãe recuou, mas depois pegou Emília no estado em que se encontrava mesmo e a levou para o banheiro. Mãe era forte. Lembrei do sermão na mesma hora: “Quando penso que estou fraco, estou forte. Quando penso que estou forte, ali mesmo é que estou fraco”.
            - Pega toalha pra mim, Dan, gritou do banheiro.
            Procurei a toalha de banho, mas não encontrei. Peguei a toalha de mesa mesmo e levei. O bolo caiu no chão. Abri a porta do banheiro e foi então que vi a gruta pela primeira vez. O aglomerado de pêlos inspirava o terror. Corri para a cozinha de novo e esperei. A realidade, por vezes, tem pinceladas de pesadelo.
            - Vá embora, Dan. – A mãe gritou do quarto.
            Era só o que eu queria. Abri a porta e saí correndo.
***
            Passou tempo. Era o culto de domingo. O mais cheio de todos. Emília tinha mudado de cidade. Os outros diziam que foi minha mãe quem deu conselho a ela. Eu cantava no coral e o coral era afinado. Jesus alegria dos homens. Não fosse Bach, hoje eu sei, Deus seria só mais um solitário. Bach, tão bonito. Ele ouvia os anjos. Acho que meu vô não gostava muito de Bach, não mesmo, porque interrompeu o hino no meio e começou a falar com suas palavras mais duras que estacas:
            - Se teu olho te faz pecar, arranca-o, porque é melhor perder um olho que perder o reino dos céus... Se teu...
            O avô estancou. Calou. Segurou firme para não cair do púlpito. Embranqueceu. Olhava fixo para a porta no fundo da igreja. Ato contínuo, toda a comunidade acompanhou seu olhar. Ninguém pôde acreditar. Houve silêncio. Talvez o maior silêncio do mundo.
            Era Emília.
            Entrou andando devagar. Gorda, morena, os cabelos longos soltos, vestindo só uma saia vermelha, sem qualquer peça de roupa na parte de cima. Os seios enormes de fora. Atravessou toda a assembléia e parou diante de meu avô. Abriu os braços, balançou o corpo e explodiu numa gargalhada de terror.
            Meu avô abriu a boca para falar, mas as palavras se recusaram a sair. Estavam envergonhadas. Emília se sentou num cantinho vago na primeira fila e ficou séria, como se esperasse o final do sermão. Sobre o seio esquerdo, bem em cima do coração, carregava desenhado numa tatuagem vermelha o rosto do filho morto.

            Lá fora o vento sacudia a poeira e sussurrava palavras indecifráveis. Não eram permitidos poetas nos limites da cidade.

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