segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Kerouac e as relações entre corpo e pensamento

            O romance On the road, principal obra do escritor Jack Kerouac, foi lançado em 1957 e em poucos meses se tornou um fenômeno de vendas, dando início a um novo segmento social, a cultura da juventude. Antes de 1957, ano de lançamento de On the Road, praticamente não havia cultura jovem. Ou se era adulto, ou se era criança e, mesmo a criança, era enxergada como um adulto pequeno. Depois de 1957–58, anos de James Dean, do primeiro disco de Elvis Presley e do livro de Kerouac, o mundo observou atônito a explosão do Rock n´ Roll, da contracultura, o surgimento de Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones, a exibição em tela grande de Easy rider, enfim a formação de um novo segmento social. A literatura é um caso de relógio que adianta. Não é nossa intenção neste trabalho demonstrar de que maneira On the Road influenciou a formação da cultura jovem. Não afirmamos aqui que foi o livro de Kerouac sozinho que desencadeou todo o processo. Não. Mas, sem dúvida, muitos jovens no final dos anos 50 e 60 leram On the Road, como dissemos anteriormente, o livro se tornou um best seller.
Grosso modo, On the road conta a história de Sal Paradise e Dean Moriarty, dois amigos que procuram alguma coisa na estrada e não encontram. Não se sabe exatamente o que os dois procuram. Pode ser o pai de Dean, a face velada de Deus, como Kerouac costumava dizer em suas entrevistas, ou simplesmente o “AQUILO” que Dean repete o tempo inteiro. O fato é que não encontram. Não há transcendência na estrada. Cada aventura, cada festa, cada carona, cada viagem, só valem por aquilo que são. Velocidade é a palavra chave. A viagem é mais importante que o destino. O narrador está o tempo todo em movimento, nunca para para se entregar a uma reflexão imóvel, trata–se de uma escrita que penetra no leitor por meio dos afetos e não apenas pelo intelecto. Logo nas primeiras páginas, Sal Paradise, o narrador, anuncia:

Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam numa viagem baixo-astral, naquele pesadelo negativista de combater o sistema, citando suas tediosas razões literárias, psicanalíticas ou políticas, enquanto Dean simplesmente mergulhava nessa mesma sociedade. Faminto de pão e amor; e ele estava pouco se lixando pra tudo isso, “desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto” ou “contanto que eu arranje o que comer , meu filho, sacou? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!” – e lá íamos nós comer, no primeiro lugar que surgisse, como diz o Eclesiastes: “Eis sua porção sob o sol”. (KEROUAC, 2004, p. 27-28)

          Como podemos notar no fragmento, o herói do romance esbanja vivacidade, alegria, juventude. Enquanto os amigos nova-iorquinos do narrador estavam numa viagem baixo-astral, num pesadelo negativista de combater o sistema citando razões literárias, psicanalíticas ou políticas, Dean Moriarty simplesmente vivia, faminto, e a fome é uma função fisiológica, de pão e de amor. Querendo apenas conseguir uma garota mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas. Contra o pensamento dito “espiritual” Dean Moriarty opõe o sexo. Contra o pessimismo e o baixo-astral, a fome, fome de alimento e de vida. Também para Nietzsche a alegria tem algo de subversivo. Todas as revoluções triunfantes, principalmente em seus primórdios, são festivas.

            Outro ponto importante, que não podemos deixar à margem quando tratamos das relações entre o corpo e a literatura de Jack Kerouac, é o envolvimento do autor com a música, mais precisamente com o jazz. Embora em On the road, Kerouac ainda não se utilize de sua prosa espontânea - que consistia em estender a frase o máximo possível, improvisando como um músico de jazz -, é fato que o jazz influenciou muito durante a escrita do livro. Além disso, várias cenas ocorrem em boates, aonde as personagens iam para se perder ao som do ritmo de origem negra. Sobre o jazz e o corpo é preciso dizer mais algumas coisas. Segundo o professor Massimo Canevacci, na introdução ao livro A cultura da juventude de 1950-1970, do professor da ECA-USP Waldenyr Caldas, toda a revolução juvenil que viria a desaguar na contracultura nos anos 1960-1970 teve início nos anos 1950, quando os jovens se rebelaram contra a moral vigente e buscaram novas formas de amor, longe da estrutura patriarcal-familiar da sociedade da época. Tal rebelião tem como princípio primeiro a tomada do corpo por meio da música, de uma música que misturava nos Estados Unidos da América, país que neste momento emergia como a maior potência mundial, negros e brancos, homens e mulheres. A música era o jazz. De fato, “parece que a matriz da palavra jazz deriva de “ass”, significando os movimentos ondulatórios e rítmicos de base de coluna que aquela música favorecia e que eram anulados e controlados pela música culta”. (CALDAS, p.13) - E viva Jorge Ben também!
            De fato, parece que Kerouac faz uso do jazz para se voltar diretamente contra a moral vigente, transformando o corpo, a música, a sensualidade, numa potência revolucionária.
           
         

Bibliografia

CALDAS, Waldenyr. A cultura da juventude de 1950 a 1970.  São Paulo: Editora Musa, 2008.

KEROUAC, Jack. On the road. Trad. Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM Editora, 2004a.

KEROUAC, Jack. On the road. London: Peguin Books, 2004b.


KEROUAC, Jack. On the road, o manuscrito original. Trad. Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM Editora, 2011.


WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: LP&M, 2009.






                

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A questão da verdade em Heidegger e Deleuze

Chaïm Soutine
A verdade, meu amor, mora num poço
Noel Rosa
Este texto busca compreender o conceito de verdade em dois autores que produziram suas obras no século XX. O primeiro, Gilles Deleuze, começou a publicar na segunda metade do século passado; o segundo, Martin Heidegger, despontou nos anos vinte, mas continuou produzindo até 1970, pouco tempo antes de seu encantamento em 1976.
            Ambos os autores têm o intuito de superar o conceito de verdade estabelecido pela tradição metafísica, entretanto, enquanto Deleuze se volta para Nietzsche em sua crítica da verdade e consequente afirmação da potência do falso, Heidegger retrocede ainda mais, voltando até os gregos antigos e ao conceito de Alethéia, entendendo a verdade enquanto desvelamento, pois, para o filósofo alemão, Nietzsche, ao conceber a verdade como valor, ainda é presa de certo humanismo e, consequentemente, da metafísica.
            Não é nossa intenção aqui apontar quem está certo ou errado. O que pretendemos é demonstrar como a questão da verdade é tratada em ambos os filósofos e, a partir daí, apontar possíveis aproximações ou distanciamentos.

  1. Verdadeiro, falso e construção de sentido em Nietzsche e Deleuze

            A busca da verdade sempre foi preocupação para muitos pensadores ao longo da história da filosofia. Para Gilles Deleuze não. Mais importante que a busca da verdade, seria a construção de sentido, principalmente porque o conceito de verdade sempre esteve ligado à representação e à imagem dogmática do pensamento. Deleuze relaciona aquilo que chama de imagem dogmática do pensamento a diversos filósofos, de Platão a Hegel, passando por Descartes e Kant. No terceiro capítulo de Diferença e repetição, o filósofo francês, em oito postulados, elenca, analisa e constrói uma crítica contundente aos fundamentos da imagem dogmática. De maneira resumida, a filosofia assim concebida teria três teses essenciais: 1º – O filósofo, enquanto pensador, quer e ama o verdadeiro. O pensamento, por seu turno, contém o verdadeiro que se desvela por meio do exercício natural e cooperativo das faculdades, supõe-se assim uma natureza reta do pensamento e o bom-senso universalmente partilhado. Pensar seria, aqui, o encontro com a verdade que se entrega ao pensador por meio de um método eficiente. 2º –  O corpo, as paixões e os sentidos nos desviam do verdadeiro, são obstáculos ao pensamento. Induzem aquele que quer pensar ao erro, ao falso. 3º – É preciso um método para pensarmos bem e verdadeiramente.  Deleuze encontra e expõe inúmeras falhas na filosofia assim concebida. Para o filósofo da diferença, e aqui há um nítido diálogo com Heidegger, talvez nem sequer tenhamos pensado ainda. A imagem dogmática concebe o pensamento a partir da reminiscência e da recognição. Para Deleuze, pensar é parir o novo, o irreconhecível, o extemporâneo; tem a ver com produção de sentido e não com verdade. Em seu livro sobre Nietzsche, Deleuze escreve:
“Não há verdade que antes de ser uma verdade, não seja a efetuação de um sentido ou a realização de um valor. A verdade como conceito é totalmente indeterminada. Tudo depende do valor e do sentido do que pensamos. Temos sempre as verdades que merecemos em função do sentido daquilo que concebemos, do valor daquilo em que acreditamos.”[1]
            A verdade é, portanto, uma construção de sentido. Seguindo os passos de Nietzsche, Deleuze percebe que muitas forças operam sobre a verdade. Ela é a realização de um valor e existem valores nobres e vis, valores do senhor e do escravo, valores de bom gosto e de mau gosto. A imagem dogmática supõe que a verdade seja algo bom, um universal abstrato ligado à ideia do Bem, mas não existiriam verdades que são da baixeza? Verdades coniventes com os poderes instituídos? Para a filosofia da representação, que é o mesmo que a imagem dogmática, “a verdade aparece como uma criatura bonachona e amiga das comodidades, que dá sem cessar a todos os poderes estabelecidos segurança de que jamais causará a alguém o menor embaraço.”[2] Segundo Deleuze, foi Nietzsche quem, ao atribuir a seu conceito de vontade de potência o papel de condutor da crítica, substituiu a forma do verdadeiro pela potência do falso. Vejamos de que modo Nietzsche faz uso do martelo para destruir o conceito de verdade estabelecido pela imagem dogmática do pensamento.
A crítica nietzschiana da verdade tem quatro pilares discerníveis. Primeiro, crítica à crença num mundo verdadeiro suprassensorial. Nietzsche afirma no Crepúsculo dos ídolos que para o cristianismo, o mundo verdadeiro não seria este mundo, telúrico, imanente, natural. O mundo verdadeiro seria o transcendental, o ideal, o moral, em suma, o verdadeiro seria o falso e vice-versa. Inversão de valores. É a moral do escravo quem coloca a verdade no além é não na Terra. Sê fiel à Terra, incita-nos Nietzsche. Ainda no Crepúsculo dos ídolos, no capítulo De Como o “Mundo Verdadeiro” Tornou-se uma Fábula, o criador de Zaratustra apresenta como etapas da história de um erro as concepções platônica, cristã, kantiana e positivista de “mundo verdadeiro”. Nietzsche defende a eliminação tanto desta ideia transcendente de mundo verdadeiro, como da ideia de mundo aparente. É uma proposta radical. Para Nietzsche, o platonismo é a doutrina que dividiu o mundo em dois: o mundo sensível e o mundo suprassensível. Já sabemos a que extremos o cristianismo levou esta doutrina, levou-a ao nojo da imanência, ao nojo deste mundo, ao nojo da Terra. Nietzsche nos propõe pensarmos além de noções como verdade e aparência:  “O mundo verdadeiro – nós o abolimos: que mundo restou? O aparente, talvez?... Qual o quê! Junto com o mundo verdadeiro abolimos também o aparente.
(Meio-dia; momento em que a sombra é mais curta; fim do mais longo dos erros; ponto alto da humanidade; INCIPIT ZARATUSTRA).”[3] Conclui no final do segundo capítulo de Crepúsculo dos ídolos.
            Segundo, crítica da ideia de um homem verídico. Que quer o homem verídico? Ele quer a verdade a qualquer custo, para ele nada é mais necessário que a verdade. O verdadeiro é melhor que o falso e para este homem o mundo verdadeiro é um além-mundo. O falso seria este mundo. Transvaloração dos valores à moda platônica e cristã.
O homem verídico supõe um mundo verdadeiro que se encontra além deste mundo, mas tal desejo por um além-mundo esconde e, ao mesmo tempo pressupõe, um ressentimento, um ressentimento contra este mundo e contra os que nele exercem sua soberania. A moral do escravo, neste caso do homem verídico, diz: somos escravos neste mundo, mas, no outro, seremos os senhores, e veremos estes que nos fazem escravos sofrerem infinitas tormentas. O homem verídico é, enfim, um ressentido.  “O mundo verdadeiro supõe um homem verídico,[...] mas tal homem tem estranhos móveis, como se ele escondesse em si outro homem, uma vingança: Otelo quer a verdade, mas por ciúmes, ou pior, por vingar-se de ser negro.”[4]  Ao homem verídico, Nietzsche opõe o homem em concordância com a vontade de potência. Se seguíssemos este raciocínio ao extremo, mesmo conceitos como verdadeiro ou falso não teriam qualquer importância, pois o que importa é a vida, a vontade de potência, e ela, a vontade de potência, não se pergunta sobre a verdade. “Não existe valor superior à vida, a vida não tem de ser julgada, nem justificada, ela é inocente, tem a inocência do devir, para além do bem e do mal.” [5]
            Terceiro, crítica à relação entre verdade, moral e julgamento. A verdade seria sempre uma verdade moral. Deleuze diz claramente, no capítulo sobre as potências do falso, do livro Cinema2 - A imagem-tempo: “O homem verídico só quer finalmente julgar a vida, ele exige um valor superior, o Bem, em nome do qual poderá julgar: tem sede de julgar, vê na vida um mal, um erro a ser expiado: origem moral da noção de verdade.”[6] O homem que quer o verdadeiro, nega a inocência e a leveza. O que ele quer é acusar e julgar a vida.
            E, por último, mas não menos importante, a crítica da verdade tem como contrapartida uma apologia da arte, posto que a arte está em consonância com a força vital, com a vontade de potência. Na arte, a vontade de enganar tem a boa consciência ao seu lado. Ela, a arte, opera uma transvaloração dos valores vigentes, que são valores do escravo. A vontade de verdade nega o mundo sensível, nega a vida em prol de uma determinada verdade metafísica. A arte assume-se enquanto criação, nada tem a ver com verdade. Em outras palavras, Deleuze usa Nietzsche para afirmar que pensamento é criação e não vontade de verdade. Assim como a natureza, a arte, mesmo quando é cruel, é inocente, mente sorrindo como uma criança. A arte se cria em consonância com o devir e “Se o devir é a potência do falso, o bom, o generoso, o nobre, é o que eleva o falso à enésima potência, ou a vontade de potência até o devir artista.” [7]

  1. Heidegger e a questão da verdade

            Diferentemente de Deleuze, para quem a verdade, em consonância com Nietzsche, é a realização de um valor, em Heidegger a verdade está ligada ao conceito grego de Alethéia, trata-se de um desvelamento do ser, sempre ligado à liberdade e que, quando oculto, impele o homem à errância. Para Heidegger, Nietzsche, e neste caso a afirmativa também é válida para Deleuze, ainda se mantém preso ao humanismo, uma vez que a verdade, ao se tornar valor, fica à mercê do homem, submetida às forças humanas. Tanto faz se tais forças são oriundas de senhores ou de escravos. De qualquer maneira, elas continuam sendo provenientes do humano. O ser humano permanece, sob este ponto de vista, sujeito no processo de instauração da verdade. Para Heidegger, a verdade não é a verdade do homem, mas a verdade do ser.
            A reflexão heideggeriana busca um retorno aos gregos, investigando a verdade enquanto Alethéia. A questão da verdade é instaurada assim no âmbito de uma hermenêutica ontológica que busca investigar as palavras geradoras dos pensadores originários da Grécia pré-socrática. A intenção do filósofo alemão é restabelecer o sentido que a palavra Alétheia, por exemplo, tinha para um grego da Grécia antiga, não deixando que o vocábulo se contamine pelos séculos da tradição metafísica ocidental: é o passo para traz rumo ao originário.
            Segundo Heidegger, na conferência Sobre a Essência da Verdade, a tradição metafísica ocidental define a essência da verdade enquanto concordância. Deste modo, a verdade é a adequação da coisa com o conhecimento Veritas est adaequatio rei et intellectus; contudo a verdade aqui considerada pode também referir-se à adequação do conhecimento com a coisa: Veritas est adaequatio intellectus ad rem. Estas duas concepções da essência da verdade significam a conformidade com alguma coisa. No entanto, a segunda concepção não resulta simplesmente de uma inversão da primeira. Pelo contrário, intellectus e res são pensados de modo inteiramente distintos. Para que percebamos tal diferença é necessário conduzir a expressão corrente do conceito de verdade à sua origem, a saber, a idade média. A veritas, interpretada como adaequatio rei ad intellectum decorre da fé cristã e da ideia teológica segundo as quais as coisas em sua essência e existência, isto é, enquanto ens creatum, correspondem à ideia previamente concebida pelo espírito divino. Deste modo, elas concordam com a ideia e com ela se conformam, sendo, neste sentido, verdadeiras. O intelecto humano também é um ens creatum, uma vez que é também faculdade concedida por Deus e, assim como os demais entes, deve adequar-se à ideia. Assim, o intelecto só é conforme com a ideia porque realiza a adequação do que pensa com a coisa, tendo de ser conforme à ideia. “A possibilidade da verdade do conhecimento se funda, se todo ente é criado, sobre o fato de a coisa e a proposição serem igualmente conformes com a ideia e serem, por isso, coordenado um ao outro a partir do plano de criação.”[8]  Veritas significa, deste modo, concordância entre os entes que, por sua vez, fundam-se na ideia de concordância entre as criaturas e o criador.
            Na modernidade, com o progressivo afastamento do homem do conceito de Deus, tal ordem ainda é mantida, mas em vez de remeter a Deus, o que possibilita a ordenação de todos os objetos pelo espírito é a razão universal (mathesis universalis) que se dá a si mesma sua lei e postula, deste modo, a inteligibilidade das articulações de seu processo. Assim, a verdade da coisa significa a adequação da coisa ao seu conceito essencial, tal como o espírito, ou melhor, a razão, o concebe. De certo modo, pode parecer que esta concepção de essência da verdade seja independente da interpretação relativa à essência do ser de todo ente. No entanto, tal concepção inclui necessariamente uma interpretação do homem como sujeito que é portador e realizador do intellectus. Assim, a fórmula da essência da verdade (veritas est adaequatio intellectus et rei) adquire, para cada um, validade. Neste caso, a não-verdade seria a não conformidade da proposição com a coisa. Como se apontássemos para uma cadeira é disséssemos: é um automóvel! Ceci nést pas une pipe!
René Magritte
Para Heidegger, a essência da verdade historicamente constituída é concordância. O pensador alemão distingue duas maneiras de compreender a verdade assim pensada: a medieval, centrada na ideia de Deus e a moderna, na qual a mathesis universalis possibilita a ordenação de todos os objetos por meio da lógica, estabelecendo o ser humano como sujeito. Heidegger refuta as duas visões e, dando um passo para trás até os pré-socráticos, busca entrelaçar a verdade ao desvelamento e ao conceito de liberdade. Para as concepções medieval e moderna de verdade, o erro seria a não concordância entre a proposição e o objeto. Para Heidegger, o erro seria o esquecimento do ser e, por conseguinte, toda a concepção metafísica da verdade, o que torna o homem um exilado sobre a Terra, condenado a errar sobre a superfície do planeta, ao mesmo tempo em que se imagina senhor dos entes e se torna mais uma ferramenta da técnica. A seguir, buscaremos compreender um pouco mais detalhadamente o conceito de verdade enquanto liberdade e o erro não como não-conformidade, mas como errância.

2.1.Liberdade e Verdade

            Segundo Heidegger, a essência da verdade é liberdade. Liberdade aqui, entretanto não tem qualquer conexão com o humanismo, no sentido de colocar o ser humano no centro, como se os demais entes fossem apenas objetos a serem dissecados, calculados, submetidos a uma autopsia. O homem não é o senhor do ente, o homem é o pastor do ser. A liberdade aqui é a liberdade de deixar os entes serem, deixar que eles brilhem, mostrem-se como são de fato no seio do aberto. A liberdade não é liberdade apenas do homem de manusear os entes como bem entender, mas a liberdade de deixar que cada ente seja o que é. “A liberdade se revela então como o que deixa-ser o ente.”[9]
            É necessário esclarecer que o verbo deixar para Heidegger, entretanto, não tem o sentido de renúncia, ou de negação, como quando dizemos, por exemplo: “Ah! Deixa isso pra lá!”. O verbo deixar aqui não exprime uma indiferença ou mesmo uma omissão, é bem o contrário disso. Deixar-ser significa o entregar-se ao ente. Todavia, este entregar-se ao ente, jamais pode ser compreendido no âmbito de um projeto, de uma ocupação, de uma preocupação com cada ente que se encontra ou que se procurou. Deixar-ser o ente nos impele a uma entrega, entrega ao aberto e à sua abertura, na qual todo ente entra e permanece, e que cada ente traz, por assim dizer, consigo.  Heidegger nos conclama a um viver poético, a um habitar que se instala na poesia, como no verso de Holderlin: Poeticamente o homem habita esta terra. Ou como no poema de Adélia Prado, no qual o ente trem de ferro se mostra em toda sua inteireza:
 “Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.”[10]
            A verdade heideggeriana não é científica, mas poética. Assim compreendida a verdade é desvelamento, em grego alethéia. Segundo Heidegger:
“Se traduzimos a palavra alethéia por “desvelamento”, em lugar de “verdade”, esta tradução não é somente mais “literal”, mas ela compreende a indicação de repensar mais originalmente a noção corrente de verdade como conformidade da enunciação, no sentido, ainda incompreendido, do caráter de ser desvelado e do desvelamento do ente. O entregar-se ao caráter de ser desvelado não quer dizer aquilo que é e como é, de tal maneira que a adequação apresentativa dele receba a medida. Semelhante deixar-ser significa que nós nos expomos ao ente enquanto tal e que transferimos para o aberto todo o nosso comportamento. O deixar-ser, isto é, a liberdade é, em si mesmo, exposição do ente, isto é, ek-sistente. A essência da liberdade, entrevista à luz da essência da verdade, aparece como ex-posição ao ente enquanto ele tem o caráter de desvelado.”[11]
            Como vimos, para Heidegger, a verdade é liberdade, não é, entretanto, o arbítrio humano que dispõe da liberdade. A verdade não é a verdade do homem, mas do ser. O homem não possui a liberdade como uma propriedade. É bem o contrário, a liberdade, o ser-aí, ek-sistente e desvelador, possui o homem, e isto tão originariamente que somente ela, a liberdade, permite ao ser humano inaugurar a relação com o ente em sua totalidade e enquanto tal. No exato instante em que o primeiro pensador é tocado pelo desvelamento do ente e se pergunta assustado: que é o ente? Neste instante, e apenas a partir deste instante, o homem ek-sistente é historial.
            Se a verdade é desvelamento, este se compreende a partir do velamento da não-verdade, mas o contrário também pode acontecer, pois a liberdade é a essência da verdade. Assim, o ser tem também a liberdade de se dissimular, de provocar o ek-sistente se mostrando no aberto de modo distinto. A partir da dissimulação, o homem historial pode também, deixando que o ente seja, não deixá-lo ser naquilo que ele é e assim como é. O ente é então encoberto. Para Heidegger, o errar do homem na dissimulação do ser constitui a errância, conceito que veremos a seguir.

2.2.Errância

            A errância é o vagar do homem na ocultação do ser. Ela não é como o erro que a tradição metafísica ocidental consolidou e que consiste na não conformidade do juízo e na falsidade do conhecimento. Para Heidegger, este é apenas um modo, e ainda assim o mais superficial, de errar. A errância tem origens mais profundas, ela não é subjetiva, mas historial. Principia quando o homem resolve ignorar o mistério e decide que a totalidade do ente é um objeto a ser conhecido e desvendado por meio do cálculo. Não há traição maior que o esquecimento do mistério! O que se nos oculta neste momento é, justamente, o ente em sua totalidade. Entretanto, se a verdade enquanto alethéia, ou seja desvelamento, é um aparecer emergente que saiu do mistério, então o encobrimento também pertence à essência da verdade historial do ser. A não-verdade original, isto é, o velamento do ente em sua totalidade, é mais antigo do que toda a revelação de qualquer um dos entes. O que preserva o deixar-ser nesta relação com a dissimulação é o mistério (Geheimnis), o velamento do ente como tal é o que possibilita a relação de dissimulação com o deixar-ser (Seinlassen). Nem mesmo o posicionamento do homem como sujeito é um erro do homem enquanto sujeito, mas uma dissimulação do ser. Segundo Heidegger, “o desvelamento do ente enquanto tal é, ao mesmo tempo e em si mesmo, a dissimulação do ente em sua totalidade. É nesta simultaneidade do desvelamento e da dissimulação que se afirma a errância. A dissimulação do que está velado e a errância pertencem à essência originária da verdade.”[12]
            Em Ser e Tempo, a existência do erro é justificada por Heidegger através da relação ek-sistente-insistente que constitui o Dasein. O homem in-siste ek-sistindo, entregue à frenética agitação cotidiana, correndo de um lado para outro, fugindo do mistério e encobrindo o fato de que é finito – isto é o errar. O homem erra, move-se no centro da errância. Ele não cai na errância num dado momento, mas erra sobre a Terra. “A errância em cujo seio o homem se movimenta não é algo semelhante a um abismo ao longo do qual o homem caminha e no qual cai de vez em quando. Pelo contrário, a errância participa da constituição íntima do ser-aí à qual o homem historial está abandonado. A errância é o espaço de jogo deste vaivém no qual a ek-sistência insistente se movimenta constantemente, se esquece e se engana novamente.”[13]
            O Dasein possui uma estrutura essencialmente ambígua, ele é ao mesmo tempo ek-sistência e in-sistência. Esta essência dupla do Dasein explica a errância como o caminho pelo qual a humanidade deve caminhar.
            Entretanto, o homem não sucumbe no desgarramento e na errância se for capaz de provar a errância enquanto tal e não fechar os olhos para o mistério. O mergulho na agitação cotidiana é útil ao homem, protege-o, funciona feito um narcótico, arranca de seus olhos o espanto e impede que o homem sinta aqui o frio de lá. O homem se entrega de bom grado à errância para não encarar sua própria finitude, mas se “salva” no momento em que ou forçado por um tumor, ou arrastado por alguma tragédia, ou, uns poucos, por terem sempre os olhos inundados de interrogações coloca a pergunta essencial: que é o ente enquanto tal em sua totalidade? Esta é uma pergunta que o cálculo não responde e a ciência contemporânea sequer coloca, mas que habita o homem em seus abismos mais profundos.
É o próprio abismo tornado pergunta.

Considerações finais

            Vimos como tanto Heidegger quanto Deleuze tecem uma crítica contundente à Metafísica e àquilo que Deleuze chama de imagem dogmática do pensamento e Heidegger de imagem de mundo; para o alemão, algo característico da modernidade. Deleuze, em consonância com Nietzsche, entende a verdade como valor, muda conforme a perspectiva e opõe à vontade de verdade a potência do falso, cujo domínio é a criação artística. Para Heidegger a verdade é a verdade do ser[14]. A interpretação heideggeriana sobre o ser encontra-se no encalço da interpretação grega da verdade como Aléthea. A questão é problematizada por Heidegger no âmbito do que poderíamos chamar de hermenêutica ontológica, a qual investiga as palavras originárias do pensamento grego, buscando desvelar o sentido mais profundo que elas possam ter em relação à interpretação do ser. A reflexão hedeggeriana, assim como também acontece em Deleuze, buscará, naquilo que alguns comentadores chamam de Heidegger segundo, uma aproximação com a obra de Arte. Entretanto, enquanto Deleuze concebe a Arte como a mais alta potência do falso, em Heidegger, a obra de arte é o pôr-se em obra da verdade, mas isto já é assunto para outro estudo.

Bibliografia

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 1988.
_______________. Nietzsche e a filosofia, Trad. Ruth Joffily e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.
_______________. Cinema II – A imagem tempo, Trad. Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 2013.
_______________. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.
_______________. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.
________________. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.
HEIDEGGER, Martin. Introdução à Metafísica.   Rio de janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.
________________. Ser e Tempo  (Parte I). Petrópolis: Vozes, 1988.
________________. Sobre a Essência da verdade (Coleção Os Pensadores – Heidegger) São Paulo: Abril Cultural,1979.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos – Como filosofar com o martelo. São Paulo: Golden Books, 2009.




[1] DELEUZE, 1976, p. 49
[2] Idem,  Ibidem, p. 49
[3] NIETZSCHE, 2009, p. 48
[4] DELEUZE, 2013, p. 168
[5] Idem, Ibidem,  p. 168
[6] Idem, Ibidem,  p. 168
[7] Idem, Ibidem, p. 173
[8] HEIDEGGER, 1979, p.134
[9] Idem, Ibidem, p. 138
[10] Em http://www.jornaldepoesia.jor.br/ad01.html, acessado em 20 de setembro de 2014.
[11] HEIDEGGER, 1979, p.138
[12] Idem, Ibidem, p.143
[13] Idem, Ibidem, p.143
[14] O grande problema é que não sabemos que é o ser, ser não se define. Assim em determinados momentos, ele pode carregar, ou dissimular, uma cruz suástica no ombro, cabelo que a vaca lambeu e bigodinho fino.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A delicadeza dos hipopótamos

"Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/todo artista tem de ir aonde o povo está".
Eu vou e é por isso que te convido a me acompanhar.

domingo, 16 de novembro de 2014

Hurso

As bestas uivam na rua
mantenho a loucura trancada &
as janelas hermeticamente fechadas
mas espio pelo buraco da fechadura
os filhos da Aranha
saírem de mãos dadas pra brincar no roseiral
Enquanto Thelonius Monk ressuscita nas bolhas de sabão
& o enigma golpeia a banda

sábado, 25 de outubro de 2014

Desculpe, Robin Williams

 Desculpe Robin Williams por não ter respondido a tempo ao teu olhar. De qualquer modo, tornei-me professor - Oh! Captain my captain - e deixo meu Folhas de Relva aberto sobre o criado mudo, feito um livro sagrado. Desculpe Robin Williams, por não ter respondido a tempo ao teu olhar, ao teu desencaixe, a tua maneira certeira de dizer a piada certa na hora certa. Só tem este timing quem sofre, só tem um sorriso como o teu quem sofre, quem presa o riso como um metal precioso porque não o tem fácil. Eu sou da América do Sul, eu sei... você nem vai saber, mas agora respondo, não para mim, nem para você, porque a gente não responde ao remetente, mas a um outro destinatário desconhecido. Assim como Vincent tentou responder a Millet, mas chegou a mim. Assim como Lô tentou responder a Lennon e McCartney, mas chegou a mim. Respondo agora, eu sei... você nem vai saber do menino que brincava de caubói com estrela de xerife... é que esta chama não se devolve, mas se passa adiante, Robin. É o fogo entregue aos homens e que os homens dividem entre si nas noites frias, de solidão, em que nem mesmo os dvds pornográficos parecem funcionar e então a gente, em nostalgia, volta ao velho Nostalgia do velho Tarkovsky, e se transforma no louco tentando atravessar a fonte com a chama acesa. Essa chama é o amor que tenta se manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica. A gente levanta a chama, velho, e espera que um outro solitário responda, aqui, acolá, do outro lado do mundo. Essa chama é a chama que Milton Nascimento protege, que Leandro assopra para que ganhe força, que Fernando recolhe no olhar das crianças que repartem a merenda. Essa chama é você tentando curar o gênio problemático, mantendo o mesmo olhar no teu último filme ruim, de bigodes e óculos de John Lennon em Uma noite no museu. Fala sério, este último você poderia muito bem ter passado. I´m so sorry, Robin, por só agora ter comprado meu uniforme de palhaço, meu quepe de vigia... é que a gente sempre só percebe quando perde. Não faz mal, também tenho uns truques na manga, umas piadas antigas que sempre funcionam e as novas que brotam a todo instante em qualquer conversa, mas que eu sei e você sabe, vêm, inapelavelmente, do pântano. Desculpe só agora ter me preocupado... é que você estava tão distante, mas este seu sorriso puro e triste, este seu olhar puro e triste, está também, agora e sempre, espalhado por aí, nos cabelos estranhos dos jovens tristes que se reúnem pelas praças em busca de compreensão, nos velhinhos que jogam dama nesta mesma praça enquanto a noite cai inevitavelmente. Desculpe a minha letargia, eu buscava outros, mais próximos de mim, para socorrer, meu pai e a próstata, e esqueci que, do outro lado da tela, você gritava por socorro. Desculpe a lágrima que escapa por um olho só enquanto todos dormem, é que sou homem e não pega bem chorar com os dois olhos. Desculpe, Robin Williams, desculpe. Desculpe a todos os que estão andando por aí... sofrendo, a gente se sente frustrado. É que nunca chegamos a tempo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Resenha sobre o conto Pianista Boxeador

http://homoliteratus.com/programado-para-2-10-marcia-barbieri-resenha-seu-conto-predileto-pianista-boxeador-de-daniel-lopes/

Por Márcia Barbieri
Cola lá!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Erosão

Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos
Mateus, 10:16

            Ela nunca havia me dito uma única palavra, até o dia em que o encanamento da cozinha entupiu.
            - Começa como uma manchinha preta entre os azulaijos. A princípio, não dámos importância. Botamos um pouco mais d’alvejante. Esfregamos o pano com mais vontade. Adianta pouco, ó João. No dia seguinte, a mancha está lá d’novo, um pouco mais graúda. Então surge um buraco ao redor do ralo que se espalha pela cozinha, engole a casa, a Pátria, nosso coração, todo nosso povo. A vida continua, mas, agora, nos desprendemos dela. Há um abismo entre nossa alma e o mundo lá fora.
            - Dona Carmelita, o buraco pode parecer grande, mas não é nada demais. A água foi infiltrando aos poucos no concreto, umedeceu a terra, por cima parecia que tava tudo bem, mas debaixo do piso tava tudo oco. Um buraco enorme, reconheço, mas, numa tarde de trabalho, resolvo o problema. É só trocar as manilhas próximas da caixa de esgoto que podem estar rachadas, comprar um saco de cimento, um pouco de pedra e areia e construir uma caixinha nova. Dia seguinte, tá tudo seco.
            - Pois bem, conversa com o Andrade – ela disse e subiu para a parte de cima do prédio, onde ficavam tanto o escritório, quanto o quartinho no qual eu dormia.
            Eu saí de dentro do buraco, onde tinha entrado para avaliar o tamanho do estrago e fui procurar meu patrão. Era de manhã, o comércio estava fechado. Seu Andrade, marido de Dona Carmelita, um português da Ilha da Madeira, estava na parte da frente da pizzaria, conferindo o estoque e anotando os pedidos que precisavam ser feitos.
            - Como é João? Podes consertar?
            - Fácil, fácil, mas preciso comprar algum material.
            - Podes pegar no depósito, quando abrir, diga ao Lima que depois passo lá e acerto, ora pois!
            Comprei o material, consertei o encanamento e esta ficou sendo a primeira vez que Dona Carmelita me dirigiu a palavra. Dona Carmelita tinha uns quarenta e cinco anos, era loira, magra, os olhos azuis. Os bicos de seus peitos faltavam furar a blusa. Pareciam dois beija-flores enfurecidos, dois beija-flores endemoniados. Ela povoava todos os meus sonhos eróticos e minhas masturbações. Eu poderia plantar uma roseira no rabo dela, fazer um colar de contas com seus pentelhos amarelos, esculpir um Buda sorrindo de pernas cruzadas no bico dos seus seios, mas havia Seu Andrade e meu dono era a solidão.
A pizzaria ficava na Aclimação, numa travessa da Lins de Vasconcelos. Outro dia passei por lá. Incrível. Coincidências dessas que acontecem e indicam que dois raios podem sim cair no mesmo lugar. O rapaz entrou no meu táxi e deu o mesmo endereço do lugar onde eu tinha vivido e trabalhado havia mais de vinte anos. Quase abri mão da viagem, mas no final acabei aceitando. As contas chegam todo mês enfurecidas na caixinha do correio – nunca uma notícia boa – e não podemos nos dar ao luxo de preservar o coração. O prédio tinha sido reformado. Era completamente outro. Abrigava um escritório de advocacia. Havia agora carpete verde-escuro no chão e portas de vidro. Ali, eu poderia ter comido dona Carmelita, Bruna Lombardi da Aclimação, se soubesse que se tratava de um adeus, de uma despedida. Ela era toda ternura e delicadeza no trato com os outros, com qualquer um. Mal sabia que todos nós, hienas, lobos ou chacais, tínhamos ânsia era de devorá-la. Seu Andrade, talvez o mais faminto de todos nós, desconfiava e seu ciúme era fera a espreitar a mulher a cada passo, a cada riso. Evocar Andrade é preciso.
O português era baixo, menos de um metro e setenta. Atarracado, forte, meio calvo, geralmente irritadiço, Seu Andrade era um putanheiro. Em dia de pagamento, quando o movimento na pizzaria era maior, fechávamos o estabelecimento mais tarde e depois íamos todos juntos, patrões e funcionários, para a zona. Seu Andrade pagava. Era sem vergonha, logo ciumento.
Eu poderia ter comido minha patroa, se soubesse que se tratava de uma despedida, de um adeus. Um dia, eu estava no meu quartinho, na parte de cima da pizzaria. Era de manhã. Sempre sofri de insônia. Hoje, na minha profissão, isso até que é bom. Para corrida noturna, a taxa é sempre dobrada. Naquela época, eu me dava mal. Passava a noite acordado e, dia seguinte, trabalhava o dia inteiro com sono, meio mole, tendo vertigens, alucinações, vendo por toda parte imagens estranhas, demoníacas. Na manhã em que Dona Carmelita entrou no meu quartinho, eu tinha passado a noite toda acordado, pintando. Eu pintava cavalos incendiados correndo pela campina, esculpia, com o bisturi, bichos híbridos na massa da pizza, pássaros com cabeça de serpente, peixes com cabeça de hipopótamo, e depois colocava pra assar. Dormir era difícil. De dia eu trabalhava, mas, uma hora da manhã, quando a pizzaria fechava, os demônios saíam do porão. Lembranças de ofensas sofridas há muito tempo, na minha cidade do interior, lembranças de pessoas que eu tinha magoado e para quem eu nunca mais poderia pedir perdão, lembranças de amigos que tinham sumido assim, pra nunca mais e de Ana, a menina com quem eu tocava violão junto à fogueirinha de papel. Diabo, eu sempre senti a passagem do tempo com dor. O prédio onde funcionava a pizzaria, hoje é um escritório de advocacia. Onde foi parar o cheiro bom de azeite, orégano e queijo assando? Sempre vivi atormentado, entre a foice e o ponto de interrogação. É por isto que hoje dirijo a noite inteira. Mas, naquela manhã, eu estava suado, sem camisa, os cabelos molhados, pintando meus cavalos em chamas, quando Dona Carmelita entrou. Usava óculos escuros, havia uma ferida perto da boca, seus braços estavam roxos. Ela tinha um livro nas mãos. Olhou meus próprios poucos livros, acomodados nas caixas de madeira que eu havia pintado e feito de estante.
- Então, tu também gostas de ler, ó João?
Balancei a cabeça afirmativamente.
- E também pintas? - prosseguiu, observando meus cavalos pelas paredes.
Outra vez balancei a cabeça.
- Então és um artista!
Fiquei quieto. Sou um camarada cheio furor, certa vez abri a cabeça de um cara com um taco de sinuca no Bilhar do Papai, ali na Rua Aurora, só porque ele me secou numa bola, mas, quando querem saber de mim assim, fico sem saber o que fazer, quero sair correndo, pular pela janela mais próxima.
Ela me pegou pela mão e me levou até o escritório. Abriu o livro em cima da mesa e então disse:
- O título deste é Fanatismo, como muitos outros, foi escrito para o irmão. Ela era apaixonada pelo irmão – e então, Dona Carmelita leu:
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
- Não é lindo? Ela amava o próprio irmão. Mais que amor, sentia fanatismo. Bem que eu poderia amar alguém deste jeito.
Eu emudeci, acho que fiquei com a cara parecida com a do Jim Carey, no filme Debi & Loide, quando passa um ônibus cheio de líderes de torcida pedindo informação e ele e seu amigo Loide dão a informação e ficam pensando que, caso fossem caras de sorte, poderiam muito bem entrar no ônibus e guiar as moças até seu destino.
- Tu gostaste do poema?
- É a coisa mais linda que já ouvi. Como é o nome?
- Fanatismo, já te disse.
- Não, o nome de quem escreveu.
- Florbela Espanca.
- Até o nome é bonito, profundo.
Ela tirou os óculos escuros. Seus dois olhos estavam roxos. Eu sabia que Seu Andrade era ciumento, que às vezes dava uns catiripapos na mulher, mas, daquela vez,  ele tinha ultrapassado todos os limites. Ela encostou seu rosto no meu. Leu outro poema, mas não pude entender mais nada. Apertou meu mamilo e o pau incendiou na mesma hora, com chamas ainda maiores e mais vermelhas que aquelas que devoravam os cavalos que eu pintava. Foi aí que eu abri a porra da boca:
- Dona Carmelita, – disse – Seu Andrade pode subir a qualquer minuto por aquela escada ali – e apontei para a escada onde, depois do primeiro degrau, tudo era consumido pela escuridão. Dona Carmelita estancou. Colocou os óculos escuros outra vez. Fechou o livro e mergulhou na escuridão da escada sem dizer mais nada.
Depois daquele dia, ela nunca mais apareceu na pizzaria. Tempos depois, numa noite de orgia, Seu Andrade nos falou baixinho, chorando, que ele e a mulher haviam se separado. Ela tinha voltado para Portugal, para sempre, ele disse. E ainda repetiu duas ou três vezes: para sempre!
A pizzaria ainda funcionou por uns tempos, mas Seu Andrade começou a beber demais e, em menos de um ano, se desfez do estabelecimento. Eu persisti o quanto pude com os novos donos, sempre gostei de trabalhar, mas parecia que tínhamos profanado alguma coisa. Os clientes diminuíram, os ratos aumentaram, uma ratazana, inclusive, passou em cima do pé de um fiscal enquanto ele fazia a inspeção no recinto, gerando um multa de proporções astronômicas. As baratas proliferavam nos vãos entre as chapas de fórmica. Os novos donos reformaram o estabelecimento, mas de nada adiantou, as baratas não diminuíram, muito pelo contrário. Pouco antes de a pizzaria fechar as portas, prestei vestibular numa universidade estadual e passei. Voltei para o interior com o intuito de estudar, financiado por uma bolsa do governo. Tempos depois, já formado, consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um táxi. Outro dia, um passageiro entrou no meu carro e me deu o endereço do lugar onde antes funcionava a pizzaria. Hoje lá funciona um escritório de advocacia com portas de vidro e carpete verde-escuro, mas tudo o que vi foi um buraco, um buraco enorme, uma cratera, que engolia mais da metade da Aclimação, mesmo o parque havia desaparecido, mesmo o cemitério israelita havia sido engolido com suas lápides e seus mortos. E dona Carmelita, se ainda estiver viva lá no seu Portugal, tem hoje mais de sessenta e cinco anos. E eu tenho em casa as obras completas de Florbela Espanca. Jamais pude olvidar o nome, toda manhã, quando chego do trabalho, antes de dormir, leio um poema.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Resiliência dos Peixes

No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra estava informe e vazia;
as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Gênese, cap. 1, vers. 1-2

            Acordar. Arrumar a cama. Fazer café e esperar o dia passar, olhando os peixes no aquário. A solidão é um privilégio que custa caro. Abrir janelas. Juntar pedras no canto da sala. Tarefas que nada constroem. A vida dói e eu deixo ela doer, mãe. Como você, ela não é do tipo que passa a mão na cabeça. Antes de voltar a me deitar, observo a cama. Desde sempre, mantenho os olhos em espanto. A cama pede que o olho se deslumbre. Ela não quer o olho-indiferença, o olho-cotidiano, o olho-razoável, o olho-que-vê-a-cama-como-local-de-descanso e não de sonho. E eu... Eu, mãe, carrego pesadelos: olho-pesadelo. E eu... Eu, mãe, crio meus próprios fantasmas[1]. Enfim, o que quero dizer é que, hoje, você é em mim. Deito outra vez e te procuro. Para minha surpresa, percebo que aos poucos você está desaparecendo. Aos poucos, a barra do seu vestido se esfumaça. Aos poucos, seus olhos vão perdendo a expressão. Aos poucos, suas mãos vão perdendo o contorno, seus cabelos vão perdendo a cor, mais um grama de energia e eles se tornariam nova água viva no aquário. Levanto. Faço café e bebo. Abro o guarda-roupa e pego nossos álbuns de fotografia. Não quero te perder. Com a lupa, sondo seu rosto magro, seus olhos claros, sua expressão de orfandade. Procuro você por fora, nas fotos, porque sinto que por dentro você me deixa. Quer de vez partir. Nossos monólogos a dois se tornam cada vez mais raros. Chamo e você não vem. Pergunto e você não responde. Aceno e você finge que não vê. Eu estou aqui. Ó mãe, porque em vez de ternura e compreensão, o que tínhamos eram gritos e portas batendo? Por que, em vez de solidariedade, o que tínhamos era solidão? Em vez de amor, bofetadas, tapas ardentes, recriminações? Agora posso ver tudo, porque a alma vê a vida como um filme no cinema. Lá está você, deitada com um de seus amantes na cama, enquanto eu estou na sala, tentando me concentrar no Patolino, em meio aos seus gemidos. Lá está você, deitada na cama com outro de seus amantes, enquanto eu estou no chão, tentando engatinhar, mas recuando diante das palhas de aço no chão, limitado, da mesma maneira que os peixes no aquário. Você espalhou palha de aço ao redor de mim e me deixou conjurado, como demônio conjurado por fogo na idade média. Tudo isto pra você poder foder melhor, pra trepar em paz, para chegar ao orgasmo mais profundo. Vejo que minhas mãos sangram e eu choro, tenho apenas seis meses, porra! A cama é lugar de sonho, mãe, e nela você construiu, um por um, todos os meus pesadelos. Eu era jovem, também tive meus sonhos frustrados, também fiquei sozinha, aos dezesseis anos, com um bebê pra cuidar. Sei. Sexo, Drogas e Rock n´ Roll, não é? Essa sua vontade de cantar... Essa sua vontade de ser uma estrela do showbizz... Dou graças ao seu fracasso! Todo seu amor sempre foi direcionado à música, enquanto eu ficava pelos cantos, catando as migalhas, suportando o frio, o deserto e a solidão. Esperando a minha chance de te dar um beijo. Esperando infinitamente aquele beijo de boa noite; com medo do diabo embaixo da cama; com medo do demônio dentro do guarda-roupa; com medo de tudo e de todos. E quando eu me aproximava pra te beijar... Pra te acariciar... Era tapa na cara que eu recebia. Por quê? Por quê? Se o ser humano produz calor, amor não vai faltar, caramba. Você não percebia, mas, se eu deixasse, teu ciúme me sufocaria. Você não me deixaria ser se eu deixasse, Dan. Você me escravizaria. Como? Eu era só uma criança! Lembra do doutor Santana? Lembro. Então, numa das muitas vezes em que te levei pra consultar, ele foi taxativo comigo: - O menino sofre dos nervos, disse. Você vai ter de ser dura com ele. Qualquer deslize pode ser fatal. Nada de mimos. Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. É só uma criança, mas já é possessivo, manipulador, inteligente, ciumento, arrogante... E dá-lhe tapa então... Uma criança, porra... Não posso acreditar que eu fosse, que eu sou, tudo isso... Mas é, do contrário, o que explicaria tantos relacionamentos fracassados? Não é culpa minha. Foram os tapas, a palha de aço, o peito que você sempre me negou. Fiquei imprestável para o amor. Um trapo dos afetos... Um tarado da ternura... Um vampiro... Claro, é fácil me culpar. Nem depois da morte nos entendemos. Como disse, é sua personalidade, você está sempre incriminando alguém, colocando a culpa nos outros. Eu tentei me aproximar. Tentei te beijar na sua primeira exposição individual... Quadros tão tristes! Mas você me esbofeteou e me colocou pra fora, como uma prostituta. Já era tarde demais. Nunca é demasiado tarde para o perdão. É muito cômodo para quem quer ser perdoado. Quem bate esquece, quem apanha não. E eu levo bem guardado, na latência da pele, na latência da face, cada tapa que levei. E eu levo bem guardado, nos bolsos e no armário, os imensos castigos que recebi, enquanto tudo o que você queria era trepar... Trepar... Trepar... Lembro bem do medo: a porta do quarto trancada por fora e os demônios soltos no quarto, gargalhando, dando piruetas, enfiando o dedo no meu cu, quando eu deitava de bruços e cobria com o  travesseiro a cabeça. Era tudo imaginação. Nunca houve demônios e eu estava sempre sozinha no quarto ao lado, pensando em você. Lemba o que o doutor Santana disse: Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. Como ousa dizer isso, que era imaginação, se você nunca veio comigo? Se nunca quis saber do meu mundo? Se sempre se manteve em sua placa tectônica e me manteve afastado, sozinho, com frio, na minha? Agora que você é adulto, me diz: É fácil? É simples? E você? Por que nunca vai ver seus filhos, hein? Acaso quer passar adiante a maldição? Acaso quer passar adiante o mármore da família? Era menino ainda e já estava aleijado para o amor. Cedo desaprendi a sentir, no estrondo de cada tapa, no gemido de cada orgasmo teu. Todos os teus amantes me negaram a alcunha, sim a alcunha, de pai. Olho. Olhe comigo, porra! Corro a lupa sobre minhas fotografias. Lá estou eu aos dois anos, reconhece este olhar? Lá estou eu aos quatro, aos cinco, aos seis! A boca banguela, o cabelo tigelinha e a expressão grave, feito um velho! Assim como hoje, homem, carrego comigo o menino que fui pra poder pintar, pra olhar o mundo com olhos de espanto, olhos-de-primeira-vez, e captar a luz-que-sente, a cor-que-sente, o traço-que-sente; ainda menino, carregava o velho que virei a ser. Do ponto de vista da alma, a vida é um cinema. Há anos reviro os álbuns de fotografia. Inspeciono detalhadamente cada uma delas com a lupa e em nenhum lugar estou sorrindo. Eu também, em nenhuma foto, criança ou adulta, estou sorrindo. A gravidade é genética. O caralho! Os tapas é que produzem a gravidade. Eu devia ter partido de vez, não vale a pena voltar pra ouvir, como que num disco arranhado, as mesmas recriminações de sempre. Eu jamais te deixaria partir, agora que você é dentro de mim, quem manda sou eu. Talvez agora você esteja contente. Talvez agora seja possível atender suas demandas. Lembro de uma vez que você estava dormindo no sofá, era um dia frio, você tinha bebido vinho e sua respiração estava ofegante, o ar saía branco de dentro, tão gelada estava a temperatura do lado de fora de você... E eu fiquei espantado de você respirar e ser e de eu também respirar e ser... E encostei meu nariz no seu corpo e quis te sugar, quis te sorver, quis te respirar e respirar-me para dentro de mim, entretanto, eu sabia que, a partir do momento em que te respirasse e me respirasse, viveríamos dentro de mim, mas de um mim incorporal, atemporal, pura intensidade, velocidade da luz, num minuto dourado, eterno, sagrado, longe das rodas do devir. Toda criança é metafísica e cabeçuda, mãe, como certos filósofos. Quando ainda brincava, minha brincadeira favorita era vivo ou morto: vivo... Morto... Vivo... Vivo... Morto... Morto. Depois, deixei de te cheirar, te troquei pela cocaína, podes crer. Ela era mais fácil. Só exigia dinheiro. Será que eu sou mesmo possessivo? E você ainda tem dúvidas? Mãe? Que? Havia alguma possibilidade, por menor que fosse, de nós termos dado certo? Falhei com você, filho, e reconheço. Fiz muita merda, muita coisa feia na vida, mas nunca... Nunca deixei de te amar... Você podia ter dito, ter demonstrado... É sempre muito tarde quando nos damos conta. Mãe? Que? Posso pentear seus cabelos? Sempre fui louco por eles, sempre sonhei tocá-los e penteá-los e tocá-los e penteá-los, por horas e horas a fio. A escova é toda sua. Vê, no aquário, como a água viva se movimenta entre os outros peixes? Lenta, leve, fugidia, transparente... De todas as criaturas de Deus, a água viva é a mais maligna.




[1] Demônios são entidades externas, fluxos que passam, se detém por um tempo, e se vão. Fantasmas são internos. Corpo é possessão, campo de forças onde a vencedora mantém as outras sob domínio. Identidade é legião: sou todos os nomes da história. Também os peixes no aquário são a ponta, a extremidade de uma força que se anula no vidro, mas não parecem se importar. O olho do peixe é a imagem da resignação. Já as águas-vivas não têm olhos, são a efetivação de uma potência demoníaca, o escalpo transparente de bruxas ancestrais.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Minas

Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você.
Beto Guedes e Márcio Borges

            Outra vez amanhece na fazenda. Entre a pílula e o pesadelo, consegui conciliar de maneira razoável o sono durante a noite. Rosa me traz o café da manhã na cama. Biscoito de polvilho, requeijão amarelinho, café, leite, pão de queijo, um pedaço de rapadura. Rosa deixa a bandeja sobre o criado mudo, mas não sai. Espera que eu diga alguma coisa. Desde que voltei, há uma semana, não nos falamos. Eu tenho muito que dizer. Sei que ela entenderia, mesmo que a palavra provoque feridas. Rosa ainda é humana, a fazenda não foi automatizada, ainda. Aqui bicho ainda é bicho, onça ainda é onça, gente ainda é gente, peixe ainda é peixe. Diferente de lá, do lugar para onde parti há doze anos com o intuito de estudar. Ela foi meu primeiro amor, Rosa, e eu acho que fui o único amor dela. Desde que voltei da cidade, há uma semana, ela sempre traz as refeições e espera que eu coma ou diga alguma coisa. Tenho comido pouco, falado menos e dormido menos ainda. Sempre que fecho os olhos, vejo a imagem de Marina sendo recolhida do mar, o corpo inchado, os olhos brancos, sem íris, sem pupilas, sem nada. Sempre que fecho os olhos, vejo o musgo verde-escuro agarrado à pele que se solta da carne inchada, as pernas presas às rédeas do cavalo, como se Marina fosse um verme que se desprendesse do interior do cavalo e o próprio cavalo, um cachalote, rei dos cetáceos, o grande Leviatã capturado das profundezas do mar, onde os peixes não têm olhos. Marina está morta. Entrou com o cavalo e tudo no mar, para morrer. Não pude impedir. Também não consegui até agora chorar. Parece que a visão de Marina morta sobre a areia quente, fez com que eu me distanciasse de tudo, até de mim mesmo. A superfície lisa dos meus sentimentos não deixa que as correntes mais profundas, caudalosas, violentas, negras se manifestem no rosto. O rosto é de plástico, uma máscara que esconde gritos e um desespero de quebrar os dentes, trincar os ossos.  É como se eu fosse dois, um que se desespera e outro que nada sente, a superfície continua lisa.
            - Não vai comer de novo?
            Encho uma xícara de café. Corto um pedaço de requeijão. Aos poucos, pequenas gotas de gordura se formam na peça recém-cortada. Tento mastigar. O gosto é bom, mas minha boca se enche demais de saliva. As gotas de gordura no queijo me fazem lembrar o corpo deformado de Marina, o cavalo cuja barriga rachada expelia pequenos animais marinhos. Largo o queijo. Bebo um pouco de café.
            - E seu irmão? – Pergunto, só assim, para disfarçar.
            - Nenzinho?
            - É.
            - Que é que tem?
            - Está trabalhando? Já tirou o leite hoje?
            - Não, hoje não. É sexta-feira santa, esqueceu? Ninguém tira leite na semana santa. Se alguém tiver a ousadia de ordenhar, não vai sair leite, vai sair sim o sangue de nosso Senhor.
            Rio das crendices de Rosa, da fé do povo. Sou um homem sem deuses. Fui para longe. Já faz tempo. Deixei Rosa e seu irmão, o Nem, na estação. Atravessei as Serras. Vi o mar. Estudei. Escrevi. Publiquei. Casei-me, ou melhor, juntei-me com Marina. Nunca mais voltei. Rosa ficou me esperando para casar. Nem ficou me esperando pra gente tocar viola outra vez pelos bares da cidade, tomando cana, comendo carne seca frita com mandioca. O pai ficou esperando que eu voltasse para administrar a fazenda. Todos aqui esperaram que um homem voltasse, mas o que desceu na estação foi um farrapo. Alguém rasgado, devastado pela morte e a loucura. E Marina, quando por fim conseguiram resgatá-la, parecia uma bexiga de tão inchada. Se tocássemos seu corpo com uma agulha, tenho certeza, aquilo que um dia fora Marina, explodiria... Como eu gostaria de chorar!
            - Tô indo no pé de embu. É tempo. Quero pegar um pouco, tá docim, pra fazer um suco no almoço. Tu vem comigo?
            Quero sair do quarto. Aos poucos, alguma coisa em mim se esforça com o intuito de levantar a cabeça para a luz.
            - Vamos – digo.
            - A mãe vai cozinhar um frango com pequi, do jeito que tu gosta, para o almoço. Vê se come, Dan, não vai fazê desfeita pra velha.
            - Vou tentar, Rosinha.
            Calço umas sandálias. Passo um pente no cabelo e saímos para o Sol. É preciso caminhar, enfrentar a poeira.
            - Como você está, Rosa?
            -Tô bem, como tu tá vendo.
            Eu olho para o chão. Chuto um caroço de manga.
            - Tá namorando?
            Ela me olha admirada. Surpresa com a pergunta. Sorri. Afunda as sandálias na poeira. Pequenas rugas se formam no canto dos olhos e no caminho que une o nariz à boca. Já não é uma menina. Agora Rosa já não é Rosinha, tem mais de trinta anos.
            - Tu te lembra do que disse? Antes de ir embora...
            Não respondo, caminho enfiando também meus pés na poeira. Há rancor na voz dela, mas não há ódio.
            - Tu disse que ia voltar, pra gente casar... Fiquei te esperando... Pode perguntar pra qualquer um, nem de casa eu saia, por mais de dez anos. Quer dizer, só saía pra ir pra igreja, pras festas da igreja, pras coisas da igreja, mas, mesmo assim, sempre ia com minha mãe... Fiquei te esperando, Dan.
            Ponho as mãos nos bolsos. Olho para o lado. Disfarço. Não respondo. Por mais que a gente tente, por mais que sejamos cuidadosos, delicados, bem intencionados e o diabo a quatro, é impossível passar pela vida sem ferir alguém, sem foder a vida de outro ser humano. No final, acabamos esfaqueando quem caminha ao nosso lado. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas – disse a raposa.
            - Eu tinha mesmo a intenção de voltar, Rosa, mas fui tragado pelo mar, pela cidade grande, era inexperiente. Pensei que você também tivesse me esquecido, que talvez já estivesse até casada. Além disso, Rosa, conheci o amor. Vi a alma machucada de outra pessoa e ela me enterneceu. Quando conheci Marina, percebi que estávamos dolorosamente conectados. Você sempre foi uma mulher prática, sempre soube cuidar de si. Marina, durante suas crises, mal conseguia levar o garfo à boca. Eu tinha de dar comida na boca dela. Ela despertou em mim o que ser homem tem de melhor. A minha masculinidade queria cuidar dela, queria protegê-la. Ela procurava um pai, e eu pude ser o pai dela. Ela procurava um amante e eu pude ser um amante para ela. Eu queria de todas as formas evitar que o mundo a ferisse, que ela sofresse, como todo pai quer evitar que a filha sofra, mas isto é impossível, ou não é? Ninguém passa pelo mundo sem sofrer, ninguém passa pela vida sem se despedaçar. Há momentos em que um homem quer ter o maior peito do mundo para proteger o que ama, Rosa, mas por mais que nos esforcemos, por mais que levantemos peso, pratiquemos halterofilismo, parece que nosso peito é sempre estreito demais diante do mundo. Nenhum homem é Deus. Todos somos indefesos.
            - Que coisa para se ouvir, depois de doze anos de espera. E quem pensou em mim? E quem pensou em me proteger ou esperou minha proteção?
            - Achei que, quando eu não voltasse, automaticamente, nosso compromisso estaria desfeito.
            - É, mas pensou errado. Você disse que conheceu o amor? E tudo que a gente viveu aqui? Antes de você ir estudar? Então não era nada? Esqueceu quando saíamos pra caçar? Quando corríamos pela estrada atrás de passarinho? Esqueceu quando íamos pescar, pegar umas tilápias... E você sempre pegava menos que eu, seu bobo?  Eu amei naqueles dias.
            - Desculpe, acho que falei demais. Não toco mais neste assunto.
            - Não é isso, pode falá. Fico feliz que você teja falando e falando comigo, mesmo que isso me fira. Essa Marina... Teu pai falou que ela não batia bem mesmo...
            - Não fale assim.
            - O que é que ela tinha, afinal de contas?
        -Não sei, os médicos nunca descobriram. Era sensível demais. Tinha sofrido muito na infância. Passou por coisas, ainda menina, pelas quais nenhum ser humano mereceria passar. Vivia em constante dor física e emocional. Às vezes, saíam pústulas em sua pele que coçavam e coçavam, ela ficava coberta de feridas, de chagas, passava dias sem conseguir dormir. Seus sentidos eram aguçados demais, qualquer ruído um pouco mais alto fazia com que ela tivesse dores de cabeça horríveis, seus olhos azuis ficavam esbugalhados, ela agarrava os cabelos com as duas mãos e sacudia o crânio, isso vivendo numa cidade grande como o Rio, percebe? Tinha de usar constantemente óculos escuros, porque a luz feria seus olhos. Às vezes perdia a visão, ficava completamente cega por semanas e semanas seguidas. Não usava roupas escuras, nem de tecido grosso, o próprio jeans deixava arranhões em suas pernas quando ela vestia uma calça. Parecia que o próprio corpo dela era uma alergia, mas quando ela estava bem... Ah! Quando ela estava bem... Quando o hotel Marina acendia, então brilhava por nós dois. Os demônios estiveram aqui por muito tempo e foi horrível enquanto eles ficaram, mas agora eles se foram, o passado já não dói, é tempo de pipa outra vez, dizia, e a gente caminhava pela areia da praia, passava o dia olhando o mar. Ela adorava o mar. E quando via um menino ou menina de rua, levava pra casa e dava comida, mas eles nunca se acostumavam e voltavam pra rua. Isto a dilacerava. Uma vez, umas meninas que dormiam embaixo dos arcos da Lapa, limparam todo nosso apartamento antes de partirem. Mas nós não nos importamos. Ficamos deitados no chão, em silêncio, pensando na vida. Ela colocava a cabeça no meu braço e falávamos da infância, dos nossos sonhos e da música... Eu assobiava Pachelbel, ou Satie, até que Marina adormecia nos meus braços, frágil e feliz, como se eu tivesse por responsabilidade velar o sono de um anjo... De uma santa. Isso dá sentido à vida. Os homens não se preocupam com liberdade, ninguém quer ser livre, todos queremos mesmo é dar um sentido à vida. Todos queremos mesmo é nos sentirmos especiais, realizar algo que só nós poderíamos realizar, como eu sentia quando cuidava de Marina. Ela queria ter filhos, sabia? Disse que queria ter um filho meu. Tentamos de tudo quanto foi jeito, mas ela não podia ter bebê. Toda sua estrutura era mirrada. Ela não era daqui. Bastava um olhar para saber que não estava destinada a durar, que seu corpo frágil jamais suportaria o peso dos anos e das amarguras. Bastava um olhar para saber que sua alma era leve e que jamais se insinuaria por meio de rugas profundas, ou cabelos brancos, ou todos estes modos pelos quais a alma pesa e se mostra no corpo ao longo dos anos. O mundo não se importa com o cristal, Rosa.
            - Bem sei, Dan. Bem sei que o mundo não se importa com nada.
            Chegamos ao pé de embu. Em dois movimentos, Rosa já está trepada lá em cima. Fico embaixo, agarrando as frutas que ela joga e olhando a calcinha vermelha entre as coxas grossas, quase musculosas.
            No tronco do embuzeiro, nossos nomes estão marcados a canivete dentro de um coração. Também a madeira tem sua memória.
Rosa desce. Eu perco um pouco de tempo acariciando a cicatriz dos nossos nomes dentro do coração tatuado na árvore.
- A árvore não se esqueceu de nós – ela diz.
- Pois é.
Colocamos os embus dentro de uma sacola de plástico. Menos um com o qual volto brincando pelo caminho, jogando de uma mão para a outra.
- E como foi que vocês se conheceram? - Rosa me pergunta, antes de chegarmos.
- Foi num haras. Quase todos os dias eu ia andar a cavalo para espairecer um pouco. A universidade é um ambiente difícil. Há pavões por todos os lados, fumando, conversando, às vezes usando cachecol. Eu procurava alguém que conhecesse o secreto sinal e sem dizer palavra chegasse a mim e sussurrasse: eu tenho a chave. Eu procurava alguém que me dissesse a palavra capaz de me tirar do automatismo espiritual. Não havia ninguém. Todos os pavões eram ocos e passavam a vida inteira estudando a obra de outros porque eram vazios. Quando por fim os pavões olhavam para si mesmos, não tinham alma, eram apenas penas coloridas. Aprendemos alguma coisa quando aquilo que estudamos se incorpora ao que somos. Quando não há nada lá, o que pode ser incorporado? Os pavões tagarelavam na cantina e repetiam o mesmo oco o tempo todo, feito um mantra. De minha parte, eu preferia os cavalos. Foi lá que eu a vi a primeira vez. Não precisamos dizer coisa alguma. Ambos sabíamos o segredo.
Chegamos a casa. Sinto leve o meu corpo. A palavra exorciza, espanta os demônios, limpa, põe pra fora a água suja. Se todos os homens fossem mudos, já teríamos explodido o planeta.
Rosa vai para a cozinha. Entro no meu quarto, deito na cama e então, só então, choro a morte de Marina... Meses depois.
Sem bater, Rosa invade o quarto, tira o vestido deixando exposto o corpo musculoso de fêmea, de animal potente. Eu enfio o dedo no embu que ainda tenho nas mãos e ele libera todo seu líquido e seu perfume.
Embu machucado como cheira!
Rosa se deita ao meu lado.