segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quase-Hermes


Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
Guimarães Rosa.

Introdução
Desde a Grécia antiga, filosofia e literatura sempre caminharam juntas, ora mais próximas, irmanadas; ora distanciadas, inimigas. Tanto o logos, quanto o mito são maneiras de pensar o real e a vida, mas enquanto o primeiro procura a verdade, o segundo a cria. Literatura e filosofia são tentativas, por caminhos diferentes, de ganhar e tentar responder as mesmas questões. Para nós, o filósofo e o escritor têm em comum o fato de partilharem o mesmo estranhamento diante do mundo. A pergunta que a filosofia lança por meio de Martin Heidegger no início do seu Introdução à metafísica: por que existem os entes e não antes o nada? Atravessa a obra de escritores fundamentais como Franz Kafka, Virgínia Woolf e Clarice Lispector. No entanto, enquanto a filosofia empreende a tarefa absurda de compreender e explicar a realidade por meio do conceito, a literatura funda um mundo, que, embora dialogue com o mundo real e intervenha nele, mantêm-se autônomo, de pé sobre suas próprias fundações. Quando Drummond diz: “As casas espiam os homens / que correm atrás de mulheres” cria uma casa que não tem qualquer intimidade com a palavra casa e nem com a casa real, porque aqui a casa espia. É a partir do poema que tal casa existe e passa a ser. A palavra poética não rotula, ela funda, faz e é.
[...] também o poeta usa a palavra, mas não assim como os que habitualmente falam e escrevem, que precisam desgastar as palavras. Ele pelo contrário, usa-a de tal maneira que somente assim a palavra se torne e permaneça verdadeiramente uma palavra. (HEIDEGGER, 2010, p. 119)

Enquanto a filosofia busca saber, a literatura busca fazer – a palavra poesia vem do grego ποιησις (poiésis) derivado de poiein, que significa realizar, fazer - e, no entanto, ambas só existem por meio da palavra, ambas buscam a verdade possível da palavra.  Tanto uma quanto a outra intentam “a libertação da linguagem dos grilhões da gramática e a abertura de um espaço essencial mais original [que] está reservado como tarefa para o pensar e o poetizar.” (HEIDEGGER, 2005, p.09)
Neste ensaio, procuraremos demonstrar de que maneira a filosofia por meio da hermenêutica busca compreender as obras literárias. Tomaremos por base o trabalho de Benedito Nunes, Hans-Georg Gadamer e Martin Heidegger.

A linguagem é a casa do Ser

            Não é exagero dizer que o homem é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um coração... Um rim... Um emaranhado de cadeias de carbono... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não nos define, somos feitos, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz morada - poeticamente, o homem habita - e a natureza até então viva, mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem jamais saber que são. Nós, que nascemos já na segunda metade do século XX, fomos lançados do ventre materno para um mundo dado. As ferrovias já estavam aí, as bibliotecas já estavam aí, o conhecimento já estava aí e os livros também. Tornamo-nos gente à medida que interpretamos o mundo ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma, enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo que se enriquece enquanto compreendemos um pouco mais quem somos, onde estamos e de onde viemos. Mas, afinal de contas, o que é compreender? Compreender não se separa da vida, mas adere-se à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido. Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida, e, a nosso ver, a questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é olhe o rio, mas  entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o musgo verde no fundo, o cheiro de lírios; ouça os gritos dos afogados.

A compreensão não vem depois da vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos. (NUNES, 2011, p. 270).



Se vamos falar da obra, e o assunto aqui é a obra literária, ou melhor, o olhar da filosofia sobre a literatura, então o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja por ela penetrado. A obra é viva, é vida. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções humanas. Vejamos de que maneira a hermenêutica trata a obra de arte literária.
Antes de prosseguirmos, cumpre, porém, deixar claro o que significa de fato a palavra hermenêutica. O termo, cuja origem é o verbo grego herméneuein e significa exprimir, explicar, traduzir, remete ao deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam à origem da linguagem e da escrita e a quem consideravam o patrono da comunicação e do entendimento humano.  Segundo Benedito Nunes:

Desde a Antiguidade grega, sob a custódia do deus mensageiro Hermes, patrono-mor da interpretação de Homero na época helenística e depois do labor interpretativo das Escrituras hebraico-cristãs, a hermenêutica é, na acepção corrente e generalizada, a arte de extrair as mensagens implícita ou explicitamente contidas nos escritos literários, jurídicos ou religiosos. Sua incumbência consiste, portanto, na interpretação dos textos, mediante um trabalho de exegese. (NUNES, 2011, p. 269).


            Basicamente, a hermenêutica se divide em duas escolas: Sensus litteralis, que se ocupa da interpretação gramatical e filológica dos textos e Sensus allegoricus, que se ocupa do sentido espiritual dos textos. O reponsável pela entrada definitiva da hermenêutica para o âmbito da filosofia é Friedrich Schleiermacher, que a definiu como uma teoria geral da compreensão. Para Schleiermacher, a hermenêutica deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações lingüísticas. Onde houvesse linguagem, ali se aplicaria sempre a interpretação, pois tudo o que é objeto da compreensão é linguagem. Mais recentemente, filósofos das mais variadas tendências como Martin Heidegger, Wilhelm Dilthey, Paul Ricour e Hans-Georg Gadamer utilizaram o método hermenêutico na construção de seu pensamento filosófico.
            Como vimos, a hermenêutica é uma teoria da compreensão que não se liga só ao texto escrito, mas a diversas atividades. No dia a dia, estamos o tempo todo interpretando. Nosso modo de compreender se organiza por meio de uma cadeia de perguntas e respostas. Paramos no posto de gasolina. Abastecemos o carro. Perguntamos ao frentista:
- Ei, amigo, quanto ficou?
E ele reponde:
- Duzentos reais.
- Aceita cartão de crédito?
- Sim, senhor, a propósito, o senhor já verificou o óleo? Estamos com uma promoção sensacional.
- Não é necessário, troquei o óleo semana passada.
- Então, só isto mesmo?
- Só.
Perguntas e respostas, sempre perguntas e respostas. Por meio da palavra nos localizamos no mundo, nos entendemos ou nos desentendemos, mas conseguimos nos comunicar. Quando há dúvidas, sempre se pode parar, perguntar uma vez mais, pedir que o interlocutor esclareça aonde quer chegar. A palavra falada é viva. A palavra escrita não é morta, todavia o interlocutor, geralmente, não está mais lá para esclarecer dúvidas, ou explicar exatamente o que quis dizer. Sem contar que o texto que se pode chamar de artístico, ou literário, sempre vai além das intenções de seu autor. Dostoiévski queria escrever um panfleto para alertar o povo russo a respeito dos problemas que o uso excessivo de álcool poderia causar: saiu-lhe Crime e castigo.
Além disso, grandes mestres da humanidade foram, sobretudo, mestres orais. Pitágoras, Buda, Jesus de Nazaré e Sócrates não escreveram. O Cristo até escreveu algumas palavras que ninguém jamais soube o que diziam porque a areia se encarregou de apagá-las e Sócrates, além de não escrever, desconfiava da palavra escrita, assim como seu discípulo mais eminente, Platão,  que escreveu muito, mas procurou resolver está inércia do texto escrito por meio da criação de diálogos. Para dificultar ainda mais o nosso trabalho, sobrevem ainda a questão de que, nos nossos diálogos cotidianos, falamos de coisas que existem, a gasolina, o carro, a rua, o cartão de crédito. Na literatura e na filosofia, entretanto, falamos do que não há no mundo concreto. Que é o ser? O espírito? Mônada? Uma tarde azul, como a de Drummond? Compreender um texto não literário, uma reportagem, por exemplo, não é tão difícil, pois nos reconhecemos nele, temos os referenciais no mundo concreto:

Quando leio uma frase em um ensaio qualquer, em um texto científico, em uma carta, ou em uma notícia, então é simples dizer o que significa aí compreender, a saber, o fato de eu saber o que o outro quer dizer. Eu compreendi a pergunta em vista da qual o que é dito conquista a sua significação. Este modelo de pergunta e resposta caracteriza todo o nosso conhecimento. (GADAMER, 2010, p.99)


Como, porém, interpretar poetas como Lautreámont, ou Rimbaud, ou mesmo o São João que escreve o Apocalipse? Quando lemos uma carta ou um jornal, podemos jogá-los fora, eles cumpriram sua missão de comunicar, mas um poema não se esgota, mesmo que o decoremos. Um poema funda um mundo. Mantem-se e é vivo independentemente do tempo histórico e do mundo historicamente instituído e, se o mundo real não o reconhece, tanto pior para o mundo real. As palavras cotidianas são como as fôrmas que usamos para assar um bolo, elas nos dão uma noção das coisas, de como o bolo é, dão a forma ao bolo, mas tais palavras não são o bolo, o bolo é maior, extravasa as extremidades da fôrma. No poema, forma é conteudo, a própria fôrma é bolo. Heidegger, em Origem da obra de arte, pergunta pela arché da obra, afirma que é impossível separar forma e conteúdo. Se no próprio utensílio a forma já é conteúdo (quando vou fazer uma capa de chuva, devo conseguir material impermeável, quando vou colocar um cabo num machado, devo usar madeira resistente), como então dissociar uma coisa da outra na obra de arte? Pior ainda, se ao menos colocamos a questão em termos de forma e conteúdo, no caso do texto literário som e sentido, já estamos no caminho errado, o caminho da metafísica. Depois da descrição de um sapato de camponês, não por meio do sapato real, ou da descrição da fabricação do sapato, mas por meio dos sapatos de camponeses pintados por van Gogh[1], Heidegger sentencia: “Então a essência da arte seria esta: O pôr-se em obra da verdade do sendo. Mas até agora a arte só tinha a ver com o belo e a beleza e não com a verdade.” (HEIDEGGER, 2010, p. 87). Na China antiga, quando alguém pintava uma palmeira, não retratava a palmeira, mas o TAO por meio da palmeira, e na Índia, os Upanixades...
Parece que estamos nos dispersando. Já fomos até a China antiga. Voltemos. Falávamos de literatura e filosofia, texto e compreensão, dissemos que compreendemos as coisas na linguagem por meio de um mecanismo de pergunta e resposta, mas que o texto literário é mudo, fechado, nenhuma palavra mais pode ser inserida. Chegamos então a um impasse. Como ganhar no texto e pelo texto a pergunta possível?
Gadamer divide a questão em três partes:
1-) A obra literária é sempre escrita.
2-) A transposição para a escrita significa a perda da imediatidade própria à fala “Só compreendemos quando alguém lê como se falasse”. (GADAMER, 2010, p.99)
3-) “Uma espécie de idealidade é própria a toda transposição para a escrita”. (GADAMER, 2010, p.97). E é aqui que ganhamos a pergunta de fato. O texto fala quando penetramos em sua idealidade atemporal. A comunicação ocorre apesar da palavra e não por causa dela. E, se há buracos no tecido, eles são preenchidos; e, se há vazios, eles são completados. Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que não se esmaguem com palavras as entrelinhas.” Voltemos ao provébio zen “O sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo.” O texto fala quando olhamos a lua e não o dedo. Para os muçulmanos,

o Corão é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não uma obra de Deus; é como sua misericórdia ou sua justiça. No Corão fala-se de forma bastante misteriosa da mãe do livro. A mãe do livro é um exemplar do Corão escrito no céu. Viria a ser o arquétipo platônico do Corão, e esse mesmo livro – afirma o Corão -, esse livro está escrito no céu, que é atributo de Deus e anterior à criação. É o que proclamam os ulemás, os doutores muçulmanos.  (BORGES, 2010, p. 14-15).



E os versos que abrem o Tao Té Ching são: “O caminho que poder seguido / não é o caminho perfeito. / O nome que pode ser dito / não é o nome eterno. / No princípio está o que não tem nome.” (TSÉ, L. 1993, p.1) Se achamos os dois exemplos anteriores místicos demais, fiquemos com Blanchot:

“As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira que não satisfazia, que apenas dava a entender em que direção se abriam as verdadeiras fontes e a verdadeira felicidade do canto. Entretanto, por seus cantos imperfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir, conduziam o navegante em direção àquele espaço onde o cantar começava de fato. Elas não o enganavam portanto, levavam-no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingido o objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde só se pode desaparecer, porque a música, naquela região de fonte e origem, tinha também desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo; mar onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa vontade, acabavam desaparecendo elas mesmas.” (BLANCHOT, 2005, p.3)

            Sim, é preciso penetrar a idealidade do texto porque a

tese é, a de que a obra literária tem em uma medida maior ou menor a sua existência voltada para o ouvido interior. O ouvido interior apreende a construção linguística ideal – algo que ninguém nunca pode ouvir, pois a construção linguística ideal exige da voz humana algo inatingível – e justamente este é o modo de ser de um texto literário. (GADAMER, 2010, p.98).


            Para alcançar um diálogo verdadeiro e uma certa intimidade com a obra de arte literária “temos de afastar das coisas o escutar, distanciar delas o nosso ouvido, ou seja, escutar abastratamente.” (HEIDEGGER, 2010, p. 59-60). Ninguém disse que seria fácil, mas quem foi que disse que Arte tem alguma coisa a ver com facilidade?
            Até agora tratamos de como ganhar a questão, do que a hermenêutica procura fazer. Em nenhum momento nos referimos ao como. Isto não é em vão. É que não acreditamos em métodos puros, cristalinos. Segundo Benedito Nunes, Paul Ricouer teceu o seguinte comentário a respeito do livro Verdade e Método, de Hans-Georg Gadamer: “A questão é de saber até que ponto a obra de Gadamer merece denominar-se Verdade e Método; talvez fosse preferível intitular-se Verdade ou Método. (NUNES, 2011, p. 270).
Toda forma de se aproximar de um texto é uma boa forma, desde que a crítica não procure fazer ciência. Não existe objetividade de fato, pois o intérprete chega ao texto a partir de seu presente, que é diferente do presente do autor. Ele, o intérprete, não chega ao texto vazio, feito uma folha em branco, existe toda uma formação anterior,

nisso os românticos estavam certos. A interpretação de um texto não começa no grau zero de escrita ou num patamar nulo de sentido a ser preenchido, pouco a pouco, pelo verdadeiro. Ele começa in media res, com certos referenciais, numa determinada perspectiva. O preconceito nada mais é do que o correspondente histórico da antecipação da experiência humana. Mas constitui a única entrada possível na matéria – entrada a que necessariamente não ficamos presos. (NUNES, 2011, p. 273).

            Para a hermenêutica, o intérprete de um texto é aquele que avança até este outro presente que foi o passado, para daí penetrar no tempo da obra que não é história, mas origem:

é na direção do passado que avança o historiador, seguindo a pista, o vestígio, que lhe deixou uma fonte documental [o próprio texto] [...] no entanto, o tempo decorrido não é neutro: interpôs-se entre nós e a sociedade pretérita uma distância insuperável – o que não significa bloqueio, fechamento, mas a abertura, sobre essa sociedade outra, de uma perspectiva que só o presente pode dar-nos. Compreendemos essa época distante, infamiliar, aproximando-a do presente, do familiar, onde nos situamos.” (NUNES, 2011, p. 274) 

A partir do confronto entre os tempos históricos, o que é essencial na obra vem à tona.

Conclusão

            Procuramos nestas poucas páginas demonstrar de que modo a filosofia se debruça sobre a literatura para criticá-la por meio do método hermenêutico. Para isto nos baseamos na obra de filósofos fundamentais como Heidegger e Gadamer. Contudo, por mais que tenhamos defendido o método hermenêutico, acreditamos que não há um método puro, exato, certeiro, para a análise de uma obra de Arte. A obra sempre esgota a interpretação, mas a interpretação jamais poderá esgotar a obra. Há sempre uma espécie de silêncio da obra, no qual ela se fecha e de onde continua jorrando seu mistério através dos tempos. Para encerrar, nada melhor do que evocar mais uma vez o pastor alemão, que a nosso ver, penetrou mais fundo neste mistério que qualquer outro homem:
            “As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a pretensão de resolver o engima. Permanece a tarefa de ver o enigma.” (HEIDEGGER, 2010, p. 81). Trocando em miúdos, foi isto que procuramos fazer, nada mais do que trazer o enigma à luz.

Bibliografia

BLANCHOT, M. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
BORGES, J.L. Borges oral & sete noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GADAMER, H.G. Hermenêutica da obra de arte. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
HEIDEGGER, M. A origem da Obra de Arte. São Paulo: Edições 70, 2010.
____________. Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.
____________. Ensaios e Conferências. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.
NUNES, B. Ensaios Filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
TSÉ, L. Tao Té Ching, o livro do caminho perfeito. São Paulo, 1993.



[1]  Um par de sapatos de camponês e nada mais. E contudo...
Da escura abertura do interior gasto dos sapatos a fadiga dos passos do trabalho olha firmemente. No peso denso e firme dos sapatos se acumula a tenacidade do lento caminhar através dos alongados e sempre mesmos sulcos do campo, sobre o qual sopra contínuo um vento áspero. No couro está a umidade e a fartura do solo. Sob as solas insinua-se a solidão do caminho do campo em meio à noite que vem caindo. Nos sapatos vibra o apelo silencioso da Terra, sua calma doação do grão amadurecente e o não esclarecido recusar-se do ermo terreno não-cultivado do campo invernal. Através deste utensílio perpassa a apreensão sem queixa pela certeza do pão, a alegria sem palavras da renovada superação da necessidade, o tremor diante do anúncio do nascimento e o calafrio diante da ameaça da morte. À terra pertence este utensílio e no Mundo da camponesa está ele abrigado. A partir deste pertencer que abriga, o próprio utensílio surge para seu repousar-em-si. (HEIDEGGER, 2010, p. 81).