sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quase-Hermes


Não é exagero dizer que o ser humano é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um coração... Um rim... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não nos define, somos feito, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz morada (Poeticamente, o homem habita) e a natureza até então viva, mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. A palavra é a fenda e o espelho em frente, por meio do qual a natureza se observa, se interpreta e se admira. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem jamais saber que são. “A linguagem é a casa do ser”. (HEIDEGGER, Carta sobre o Humanismo, p.8).

Nós, que nascemos no final do século XX, fomos lançados do ventre materno para um mundo dado. O conhecimento já estava aí, os livros já estavam aí. Nós nos tornamos gente à medida que interpretamos o mundo ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma, enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo. Compreender não se separa da vida, mas adere à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido. Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida e, a nosso ver a questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é o olhe o rio, mas entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o musgo verde no fundo, o cheiro de lírios e os gritos dos afogados.
 
“A compreensão não vem depois da vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos.” (NUNES, Ensaios filosóficos, p. 270).

A obra é viva, é vida, se vamos falar da obra, então o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja por ela penetrado. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções humanas.

Bibliografia:

HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro Editora, 2010.

NUNES, Benedito. Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.