terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quando o Halley Voltar

Para meu amigo Xavier

Queria ser cometa? Acredito que sim. Cometas
Têm a velocidade dos pássaros, florescem ao fogo
E na pureza são como crianças. A natureza humana
Não saberia nada maior para desejar.
Holderlin

            Venho visitá-lo depois de meses sem aparecer. O combinado era irmos pescar, mas choveu demais durante a noite e as estradas que levam ao rio estão intransitáveis, cobertas de lama.
            - Daniel, há cinco anos eles batem com o martelo nesta parede, mas o prego nunca terminam de pregar – diz apontando com a bengala a parede que fica atrás de mim. De fato, há o barulho de marteladas compassadas, feito o tic tac de um relógio, mas de um relógio macabro, cheio de maus presságios. Como se cada martelada nos fizesse lembrar do prego que um dia desses, mais cedo ou mais tarde, lacrará nosso próprio caixão. Tic tac. Tic tac. Tic tac.
            - E como foi lá no velório da sua mãe, Velho?
            - Normal, ela descansou, estava velhinha, tinha mais de noventa nos, já não vivia, sobrevivia apenas, feito uma planta. Já não reconhecia ninguém. Não conseguia sequer se limpar... Fazer as necessidades no banheiro. A vida já tinha acabado, mas ela continuava aqui. Agora seguiu seu caminho. Daniel, a velhice é uma merda, mano.
            Ele, apesar da idade (já tem mais de setenta anos), fala o tempo todo na gíria. Não se cansa de usar vocativos como mano, velho, parceiro, vacilão. Apesar do problema nas pernas, consequência da idade, artrite ou artrose, não sei ao certo, não quer parecer um mané, não quer esquecer a malandragem, porque ele é malandro. Só um malandro para trabalhar de chapa nos anos sessenta... Só um malandro para ter sido segurança no lendário prostíbulo 69, na boca do lixo... Só um malandro para dirigir um táxi por mais de vinte anos na noite de São Paulo... Domar leões no circo, no tempo em que se trocavam ingressos por cães e gatos nas cidades pequenas, garantia do jantar ao leão... Só um malandro mesmo para praticar todas essas atividades... Brincar com fogo... E sair ileso.
            - Quer café, Velho?
            - Se você fizer... Não estou aguentando de dor nas pernas. Já tomei uns três comprimidos de voltarem, umas duzentas gotas de dipirona, estou com uma dor de estômago terrível por causa dos medicamentos e a perna não melhora porra nenhuma. É por causa do velório. Fiquei uma pá de tempo em pé.
            - Não esquenta, eu faço o café. Sei bem onde você guarda o pó e o açúcar.
            - Ê que papo é esse de pó? Só tem coca aí na geladeira.
            - De café, Velho. Pó de café.
            Ele gargalha alto.
            Eu também, enquanto vou colocando a água no fogo e ajeitando as coisas para o café.
            Xavier está sempre de bom humor, apesar da vida. Só uma vez eu o vi chorar. Já faz tempo, mais de cinco anos. Eu tinha vinte e nove e minha vida estava desmoronando, puta que pariu. Corria o risco de perder o emprego, o casamento, a confiança das pessoas, até meu talento para fazer amizades eu corria o risco de perder. Admiro aqueles que conseguem fazer a mente e ainda assim seguir com a vida. Pra mim não deu. Eu odeio a realidade. E quando você é de escorpião com ascendente em peixes e odeia a realidade, o melhor a fazer é ficar longe de qualquer substância que lhe altere a consciência ou o estado de humor. Escorpião e álcool nunca deram certo. De modo que, naquela época, eu entrava e saía de clínicas de repouso e reabilitação. Logo que caía nas ruas porém, não conseguia ficar mais de dois meses careta e então começava tudo de novo... Fraturas expostas... Surras nos bares... Humilhações imensas por causa de uma moeda de um real... Pior, muito pior que escravidão.
            O velho estava lá naquela época, limpo havia mais de vinte anos. De modo que foi num domingo de manhã que eu cheguei ao grupo de ajuda mútua que frequentamos e pedi para ele me arranjar cinco reais para eu comprar pão.
            - Pão, Daniel? Tá me tirando?
            Eu estava virado, sem dormir havia mais de uma semana.
            - É, pão.
            - Sou macaco velho, tio. Te arrumo não os cinco reais, mas cinquenta. Tu pode comprar o que quiser. Nós vamos lá pra casa e você pode usar como bem entender, só que, quando acabar, acabou. Nós ficaremos trancados naquele meu quartinho, vendo bicho e o caralho a quatro até você ficar limpo, morou? E aí topa? Sai dessa porra dessa vida, moleque, tô vendo você sofrer, eu tô vendo você morrer e não posso ficar de braços cruzados, sem fazer nada. Porra, tu tens duas criança para criar.
            - Eu não tenho jeito, Velho. Por mais que tente, não consigo. Fracasso sempre... Pra mim, só morrendo mesmo.
            - É preciso crer, sempre há esperança.
            - Esperanças existem muitas, mas não para mim.
            - Quer tentar? – perguntou oferecendo a notona de cinquenta. A cisão gritava, implorava para que eu a enchesse com álcool e cocaína... A fissura sangrava...
            - E aí? – insistiu, ainda chacoalhando a nota em frente ao meu focinho.
            - Certo!
            Saímos dali e fomos direto para a boca. Da boca para uma padaria e da padaria, já com um litro de pinga dentro da sacola, para este mesmo quarto e cozinha onde agora preparo o café. Era mais ou menos dia dezoito, vinte de dezembro... Nem sequer gosto de me lembrar... Sofrimento de trincar os ossos... Choro e ranger de dentes... Delirium tremens... Visões tenebrosas... Ratos... Morcegos... Cobras... Todas as raças de macacos e pterodátilos querendo me devorar nos cantos do quarto.
            Passou o natal. Chegou o ano novo. E eu lá. Agora me sentia um pouco melhor. Durante aqueles dias, tínhamos saído na porrada umas três vezes, mas ele não abriu a porta ou a janela para que eu saísse, ganhasse outra vez a rua.
            - Aqui nós vamos ficar. Juntos. Até tudo isso passar – disse. – A gente pode se morder, chorar, se arrebentar na porrada, mas daqui nenhum de nós dois vai sair até que você melhore.
            Trinta e um de dezembro. Mais de onze horas da noite. Ouvíamos os fogos de artifício estourar lá fora.
            - Pode abrir a janela, Velho? Só um pouco que é pra gente ver os fogos.
            - Sem chance, mano.
            - Como assim sem chance? Fica tranquilo. Não vou pular. Além do mais, você vai estar aqui bem ao lado.
            Ele pensou por instantes. Acendeu um cigarro.
            - Vou dizer a você só o mesmo que o rei Davi disse a Salomão: Seja homem!
            - Pode deixar, fica tranquilo. Só quero ver os fogos mesmo.
            E ele abriu a janela.
            Os fogos coloriam o céu... Raios... Riscos iluminados... Cascatas coloridas... Lá fora as pessoas renovavam a fé e as esperanças. Tudo começaria outra vez. As famílias se confraternizavam vestidas de branco. Afinal de contas o que havia de errado comigo? Por que só eu não conseguia acreditar? Por que só eu sentia sob tudo aquilo um cheiro terrível de mentiras, cadáveres e podridão? Por que só eu era tão lúcido? Tão só? Tão miseravelmente incomunicável? Só conseguia ter uma ilusão de pertença... De fazer parte... Se estivesse completamente chapado... O comboio de cadáveres marchando solenes pelas ruas! Por que porra ainda festejam se todos estaremos completamente sós e desamparados agora e na hora da nossa morte, amém?
            E eu chorei, meus amigos.
            Chorei porque eu era um ser humano que tinha dado defeito. Todos os outros tinham exoesqueletos, armaduras que usavam para que os afetos não os rasgassem. Eu não. Se eu visse um mendigo, sentia o mesmo que o mendigo. Se eu visse uma criança de rua, sentia a fome dela. Se eu visse um cavalo sendo chicoteado, surgiam vergões na minha própria pele. E se fosse um cão, tinham de passar óleo diesel queimado em mim porque a sarna não cedia. As pessoas no meu trabalho perdiam a mãe, o pai, o filho, o cão, a gata, o peixe alaranjado no aquário, e, no dia seguinte, estavam de volta, falando em reponsabilidade, dando sermões, felizes por fazerem parte da máquina. Eu era desamparado como um caramujo sem casa, um joão-de-barro sem casa, como uma tartaruga sem casco. Não, pior ainda, eu era como o casco, cuja tartaruga fora devorada por ratos enquanto hibernava... O oco... O vazio... A ausência de buraco. Ainda assim, tudo me rasgava. Toda dor humana ou animal, fazia questão de passar pela minha fissura. Como se eu fosse um dínamo de tudo aquilo que sangra e sofre na Terra. Haja corpo!
            E eu chorei.
            E continuei chorando.
            Quando dei por mim, Xavier, o Velho, estava chorando ao meu lado.
            Ele disse apenas quatro palavras, mas foram quatro palavras que confortaram o desespero que eu carregava mais entranhado. Quatro palavras que me fulminaram como um raio, um despertar espiritual! Quatro palavras que soaram como se fosse a voz de um Deus poderoso qualquer que falasse comigo através da boca do meu irmão. As quatro cordas de um contrabaixo milagroso:
            - Você não está sozinho.
            Quando me virei para abraçá-lo, seu rosto, assim como o meu, estava coberto de lágrimas.
            Depois de uma eternidade chorando juntos, ele foi até essa mesma vitrola que se encontra aqui ao lado e colocou Bezerra da Silva para cantar e nós cantamos juntos: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão/se gritar pega ladrão, não fica um...”
            Logo que a música acabou, ele gritou no meio do quarto:
            - Nós somos cometas em paletós de pele humana... E eu pude ver o brilho vermelho da incandescência se acender por trás da roupa e da pele.
            Daquele dia em diante, a fissura cedeu.

***

            Agora entrego o café a ele.
            - E aí, Xavier... Experimenta, vê se tá bom.
            - Peraí, deixa comigo – ele diz e toma um gole de café. Faz umas caretas, finge forçar para engolir. Pelos trejeitos e as caretas parece ter bebido a pior coisa do mundo, mas, depois de engolir, dá um sorriso e grita: - Eita cafezinho bom! E nós caímos na gargalhada. Há cinco anos que, toda vez que bebemos o café que eu mesmo preparo, ele faz essa mesma graça.
            Como não temos muito que fazer, eu vou mexendo nos discos, procurando um bom pra pôr na vitrola.
            Encontro um dos Beatles e tiro da capa.
            - Daniel, não põe esse disco não, mano. Esse eu não aguento. Parece que essa semana, coisas que aconteceram há quase cinquenta anos resolveram voltar. Alguém está brincando o tempo todo com a gente, como se fôssemos homenzinho de plástico, brinquedo de criança...
            - Por que Xavier? O que você tá querendo dizer?
            - Daniel, vou te contar. Vou te contar tudo... Saiba que eu a reencontrei, quase cinquenta anos depois, no velório da minha mãe, anteontem. Daniel, meu velho, você não deve saber, mas, há muito tempo atrás, teve um cinema aqui em São Miguel, pois é, um cinema, ali onde hoje é a igreja universal, em frente à praça do forró...  Foi em sessenta e sete... Sessenta e oito... Nós tínhamos combinado de ir ao cinema. Eu tinha vinte... Vinte e poucos anos... Era cabeludo, parecia o Roberto Carlos, mano. Tava lá um bocado de moleque pra assistir um filme dos Beatles. Tava eu, minhas irmãs, meu irmão Aldelino que você conhece. Todo mundo queria ver esse filme. Foi uma febre. Chegou até aqui, nesses cafundós... Todo mundo queria ver esse filme. A gente tava lá esperando só a Claudí para entrar no cinema, nome estranho, né?
            - Parece nome de homem, Xavier.
            - Pois é, mano, mas a Claudí era uma mulher e que mulher... Uns peitão enorme, durinho... E as coxa? Ques coxa, velho! Foi a única mulher que eu amei na vida. Depois eu me casei, descasei, casei de novo, tive até amante no puteiro, mas não conseguia gostar de mais ninguém. Pois é, mano, no dia do filme, nós esperamos uma porrada de tempo. Todo mundo já tinha entrado no cinema e nada da Claudí aparecer. Então o Aldelino desceu ali pros lados da linha do trem e voltou branco, amarelo, verde... Sei lá. Puta que pariu, velho, o cara parecia que tinha visto polícia ou coisa pior. “Que foi, Aldelino?” Minha irmã perguntou. “A Claudí!” – ele respondeu – “Parece que a Claudí tá ali embaixo, no mato, com um cara!” Porra, bicho! Eu desci lá e não é que ela tava lá, sentada na grama, abraçada com um cara? Não tava pelada nem nada, mas tava abraçada com o cara, vai vendo. Eu voltei pra casa, não quis saber de filme nem nada. Daniel, eu passei uma semana sem comer, mano. Parecia que minha garganta tava travada, fechada. Eu mastigava e mastigava a carne, só que a porra do alimento parecia de borracha. Uma semana inteira sem dormir e sem comer. No sábado seguinte, teve uma festinha na minha casa. Aniversário de uma das minhas irmãs. A Claudí era amiga dessa minha irmã. Daniel, mano, eu era doido nessa época, bicho solto. O Aldelino queria me segurar com medo que eu enchesse a Claudí de porrada ou fizesse coisa pior. Moleque, eu só chorei três vezes na vida. Uma vez você tava lá. A outra vou te contar agora. E a outra você nunca vai saber. Eu atravessei a sala. Ela tava sentada. Começou a tocar a música desse disco aí, iésterdei, puta que pariu, meu irmão. Eu tirei ela pra dançar, baixei minha cabeça no ombro dela e dancei. Chorando. Umas dez vezes. Acabava a música, eu ia lá no toca-discos, levantava a agulha e colocava no começo outra vez. Chegou uma hora que a gente ficou dançando ao lado do som, pra eu poder voltar a música sem precisar levantar a cabeça. Eu tava com vergonha, sabe, a cara lavada de lágrima.
            Suspirei um pouco, disfarcei. Fui até a pia da cozinha.
            - Quer mais café, Velho?
            - Só um golinho.
            Encho duas xícaras de café e volto para o quarto. Ele toma o café devagar. Acende um cigarro.
            - Anteontem a Claudí tava lá, no velório da minha mãe. Ela nem anda mais, moleque, tá acabada, pior que eu, deve estar pesando mais de cento e cinquenta quilos. Os filhos têm de carregar ela escorada. Daniel, o tempo é cruel, mano, foda! O tempo fode com tudo.
            Ficamos em silêncio por instantes. Pela janela eu observo as pipas colorindo o céu lá fora. Penso nos meus próprios problemas. Minha sacolinha ali ao lado cheia de carnês e boletos, dívidas e mais dívidas para pagar e a grana que nunca é suficiente. Dois problemas se misturam a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Penso em me despedir agora do Xavier, mas antes vou uma vez mais até a janela onde um dia nós dois choramos e é então que tenho uma ideia.
            Vou até a velha vitrola extremamente bem cuidada e coloco o disco dos Beatles para tocar. Depois de uns poucos chiados, Paul McCartney começa: “Yesterday/All my troubles seemed so far away/Now it looks as though they're here to stay/Oh, I believe in yesterday”. Volto ao quarto e digo ao Xavier:
            - Vem, me dá a mão, vamos dançar.
            Ele ri.
            - Ai carai, tá me estranhando? Os moleques da rua vão achar que a gente é veado.
            - Foda-se.
            - Ai carai!
            Eu puxo o velho pela mão e o abraço. Ele encosta a cabeça cansada no meu ombro...
            E nós dançamos...
            Dançamos como cometas, como seres-humanos-incandescentes. Quando a música acaba, ele sai em silêncio, mancando o mais rápido possível para o banheiro, tentando se esconder. Envergonhado feito um menino. Eu noto que o colarinho da minha camisa está encharcado de catarro e lágrima. Não faz mal. Limpo com a mão e a lavo na pia da cozinha. Volto para o quarto e guardo o disco dentro da capa. Ele não sai do banheiro.
            - Já vou indo, Xavier.
            - Beleza, volta aí semana que vem pra gente ir pescar.
            - Firmeza.
            - Deu dor de barriga, mano. Antes de sair, tira essa choradeira toda aí e põe um Bezerra pra tocar.
            - Beleza.
            Vou até o som e atendo ao pedido do meu amigo. Antes de chegar às escadas, ouço-o tossindo lá dentro. Xavier não está bem de saúde. Seu irmão Aldelino me disse que ele foi recentemente diagnosticado com uma doença degenerativa no cérebro. Além disso, tem osteoporose, artrose, pressão alta e um enfisema no pulmão. Detalhe, continua fumando como um doido. Eu gostaria de lhe dar joelhos novos e azuis, um pulmão novo e azul, um cérebro novo e azul. Não posso, sou menos que poeira estelar. Como todos nós, aliás.
            Na rua, me dou conta de que o Xavier não estará mais aqui quando o Halley, nosso irmão-maior, voltar, mas, diabos, quem de nós estará?
            Com o sol da tarde ardendo sobre minha cabeça, cantarolo baixinho, acompanhando o som que sai da janela do meu amigo: “Meu vizinho jogou uma semente nos eu quintal/de repente brotou um tremendo matagal...”

            Só mais um homem caminhando com seu enigma.

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