quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Derrota


"Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração"
(Mateus 6, 21)  

            Eu estava lá com Derrota na noite em que a favela pegou fogo. Sou o irmão mais novo dele, deste que os jornais vêm chamando de Derrota. Posso dizer que ele sempre foi para mim aquilo que um irmão mais velho pode ser para um irmão mais novo. Brincávamos. Brigávamos. Brigávamos entre nós mesmos e com os outros meninos da rua. Quando ficamos maiores, ele montou uma banda e me segurou no contrabaixo, mesmo que eu não tivesse nem doze anos e mal soubesse segurar o instrumento. Toda a vida ele foi um músico melhor que eu. Mas de bola eu era bom e ele nem tanto. Meu irmão, este que os jornais insistem em chamar de Derrota.
            O talento para a música e a tendência ao silêncio, ele herdou da mãe. Ela é uma virtuose do piano, embora tenha largado o instrumento por causa de uma doença dos nervos ligada aos gestos repetitivos. Quando criança, me lembro de uma noite em que a mãe foi aplaudida de pé mais de doze vezes seguidas no palco do teatro municipal. Eu e meu irmão nos olhávamos assustados, admirados, embaixo de nossos cabelos milimetricamente alinhados e dentro de nossos ternos pretos engomados, engomadíssimos. Era o pai que nos vestia e penteava. A mãe não conseguia, ficava doente antes de um concerto. Foi a primeira mulher a reger – e regeu por vinte sete meses e oito dias – a orquestra oficial do estado. O pai também tocava piano. Tocava bem, mas não como a mãe. Dizia sorrindo que no dia em que conheceu mamãe, conheceu a mulher de sua vida e seu maior carrasco. Quando a viu tocar pela primeira vez, ele se apaixonou, mas desistiu de fazer do piano sua profissão. O pai percebeu que nunca chegaria onde ela passeava diariamente, sem fazer esforço. Se quisesse, o pai poderia ganhar muito dinheiro tocando. Boa parte desses pianistas que se apresenta por aí, e faz excursões internacionais, e grava cd´s, e ganha prêmios, não seria capaz de amarrar os cadarços de papai. Eu sei, era eu quem o ouvia tocar em casa todas as noites, depois do trabalho, antes do jantar. Eu sei, era eu quem o via colocar uma dose de uísque e se sentar ao piano e se entregar à música feito um marido que fosse zeloso de sua família durante o dia, mas que durante a noite, às escondidas, se entregasse às putas e às amantes.
            - Eu sou apaixonado por música, Dan, mas dentro de mim tenho um cérebro, e um coração, e um fígado, que já não está lá essas coisas, e um par de rins. Sua mãe é música. Se cortasse um dedo, não sairia sangue, sairia um si, um ré, um sol, um fá sustenido – O pai me disse uma vez e riu e tentou simular uma gargalhada, mas eu sabia que ele não tinha vontade de rir, muito menos de gargalhar.
            Quando estava bem, a mãe levantava cedo, nunca depois das sete e ensaiava até o meio-dia, então parava para o almoço. Comia e voltava ao trabalho. Por volta das quatro horas, ela parava e íamos os três, eu, ela e meu irmão, passear no parque. Ela ficava encantada com os pássaros, os peixes, a água, a grama, ficava encantada com tudo. Em dias assim, mamãe parecia viver no centro de uma epifania. Tudo brilhava, tudo era reluzente. Ela via traços do sagrado num simples galho seco boiando sobre a água do lago. Durante a noite, ouvíamos ela e papai fazendo amor. Neste assunto ela não conhecia o sentido da palavra discrição. Não, nem os gatos faziam tanto estardalhaço. Meu irmão e eu ríamos, farreávamos um com o outro em nosso quarto: sabíamos que tudo estava bem. O sono era uma consequência natural de uma vida sadia, embora, por vezes, eu tivesse pesadelos com um velho albino que me perseguia pelos mais estranhos cenários. E então, sem mais nem menos, começavam os períodos negros. Às vezes eles aconteciam seguidamente, até duas vezes por ano. Às vezes ficavam anos sem aparecer. Ela demorava a sair da cama. Mantinha fechado o piano. Sentava num banco do jardim e fumava. O sol queimava sua pele, a boca rachava, formavam-se feridas, juntava pus e ela fumava, sem parar, debaixo do sol quente. Alguém tinha de arrastá-la para dentro de casa. Bastava, no entanto, a menor distração e lá se ia ela outra vez para o banquinho no jardim. Um dia – tempos depois – meu pai quebrou o banco a marretadas. Do mesmo modo que quebrou seu piano, mas isto foi depois. Bem depois.
            Entre luz e sombra, crescíamos eu e meu irmão, este que os jornais insistem em chamar de Derrota, à margem do piano. Papai contratava mulheres, senhoras, para cuidar da gente, mas nenhuma delas durava mais que uns poucos meses no emprego. Dávamos trabalho demais. Aprontávamos. Pintávamos o sete. Escapulíamos. Fugíamos de casa e íamos jogar bola com os meninos da favela.
            Um dia papai chamou tia Otacília, sua irmã mais velha, para passar uns dias com a gente. Ela veio de Manaus sozinha, dirigindo por mais de vinte horas, dispensou motorista, declinou do avião – tinha pavor de voar, dizia que um voo só compensava se fosse para Paris – e estacionou bem no sofá da nossa sala, com um sermão pronto nos lábios.
            - E então, meninos? Vocês não estão vendo o esforço... A batalha de seu pai e sua mãe? Não querem colaborar? Que diabos vocês tanto procuram naquela favela? O que perderam lá? Não percebem que são de uma classe social superior? Não sei por que motivos nutrem tamanho fascínio por esta gente marrom! Será que não enxergam que vocês estão num outro nível. Não é que eles não sejam gente, são. Jesus ama a todos, mas são um outro tipo de gente, vocês devem se envolver com pessoas como vocês!
            Papai ouviu tudo em silêncio e, no dia seguinte, mandou a tia embora, mais mil e tantos quilômetros para ela se manter sozinha, de boca fechada, atrás do volante. Mamãe sequer saiu do quarto para cumprimentá-la. Mamãe é pura intuição.

***
            Nas últimas reportagens, os jornais afirmaram que meu irmão, este que insistem em chamar de Derrota, era usuário de drogas pesadas, estimulantes como cocaína ou crack. Não era. Conheço o cara. Ele sempre foi para mim aquilo que um irmão mais velho pode ser para um irmão mais novo. É certo que, como todo mundo, na adolescência, nós também tivemos experiências com drogas, mas nunca como os jornais vêm anunciando. Disseram que ele estava na favela procurando cocaína. Bobagem. Nada pode ser mais inexato. Meu irmão nunca foi de cheirar cocaína. Aquilo de que ele gostava e que, de certa maneira, o atrapalhou um bocado, não se encontra nunca na favela. Não se acha LSD na favela. Os traficantes são gringos de olhos azuis que passam aqui por uma temporada e depois seguem para cidades do interior de Minas, ou do Rio de Janeiro, ou para alguma ilha perto da Bahia, no fluxo dos festivais de música eletrônica alternativa. Meu irmão, este que os jornais insistem em chamar de Derrota, engolia dois, três selos de uma vez. Ele sempre gostou das cores berrantes e dos cabelos cacheados. Pouco antes da gravação do nosso primeiro e único cd, ele me confessou que não tocava mais por notas, mas por cores, pintava a canção como se fosse uma tela. Isto, esse papo todo do LSD, não durou muito tempo, nem o uso foi sistemático, mas o efeito para ele, pra dizer a verdade mesmo, foi devastador. Ele era sensível demais para crescer, o LSD o levava para um país chamado infância, acho que era isso. O pai sempre disse que meu irmão tinha saído à mãe, enquanto eu tinha puxado para ele. Isso foi o que sempre ouvi, desde menino. Logo nas primeiras sessões para a gravação do cd, percebi que meu irmão tinha mudado. Sentava no jardim, no mesmo banco que mamãe e ficava horas sem se mexer um milímetro sequer, sem dizer uma única palavra. A mesma coisa que assombrava a mãe, habitava agora dentro dele e nele morava com mais propriedade. Quase todas as noites ele gritava durante o sono. Tinha pesadelos. Na manhã seguinte tinham que trocar a fronha do travesseiro. Invariavelmente ela amanhecia enegrecida, como se tivesse ficado exposta à fumaça por muito, muito tempo. Certa madrugada acordei assustado com os gritos do pai. Corri até o quarto do meu irmão e vi que o lençol de sua cama pegava fogo e ele continuava dormindo ali no meio, tranquilamente. Mamãe estava bem por esta época, correu até a lavanderia e apanhou um balde com água para apagar o fogo, enquanto papai e eu levamos meu irmão, este que os jornais insistem em chamar de Derrota, para o outro quarto.
            Mesmo com todos os problemas, conseguimos gravar o cd e fazer um show na noite de autógrafos, o último show. No camarim, enquanto olhávamos os lances do futebol na televisão – eu sou Santos e ele Palmeiras – eu me aproximei dele para dar um abraço, mas o cara me repeliu. Olhou no fundo dos meus olhos e perguntou sério:
            - Quem é você, porra?
            Nós tínhamos acabado de deixar o mesmo palco.
            - Sou seu irmão, Dan,  qual foi, velho?
            Ele olhou para mim de novo, estava afundando, os olhos secos e tristes,
            - Ah, Dan! Ah, cara! Eu estou esburacado – abriu os braços – sinto pedaços inteiros do meu corpo desaparecendo. Estou esburacado! Como um queijo, como um buraco de queijo só que sem o queijo – disse e permaneceu com os braços abertos e tudo o que eu pude fazer foi abraça-lo, tentar preencher com meu próprio corpo o oco que o devorava.
            Daí para frente a queda foi vertiginosa. Pior que a pior das montanhas russas. Mamãe teve uma crise. Papai que sempre cuidou dela e resistiu a interna-la, colocou-a dessa vez numa clínica de repouso. Meu irmão também acabou numa clínica. Não a mesma onde mamãe estava, mas numa outra, para o lado de Mogi das Cruzes. Não ficou por lá mais que uma semana, fugiu. Encontramos o cara jogando bola com as crianças, nesta favela aqui perto de casa. Estava sujo, magro, barbudo, fedendo, sem camisa. Foi a primeira vez que eu ouvi chamarem-no daquele jeito. Papai e eu estávamos levando ele para casa quando um menino negro, magro, barrigudinho, com cabelos tingidos de loiro, se aproximou, puxou-o pela bermuda e perguntou:
            - Você não vai mais brincar com a gente, DERROTA?      
            Meu irmão não respondeu, sorriu apenas para o menino. Um sorriso bom, sábio; um sorriso puro, ingênuo; um sorriso que eu jamais poderia reproduzir com palavras ou com essa minha boca podre. Anjos e loucos caminham muito próximos, mas os demônios também existem.

***
            As crises de minha mãe diminuíram na mesma proporção que as crises de meu irmão aumentaram. Ela, no entanto, deixou de tocar. Sentia dores terríveis nos antebraços e nas mãos. Dava para ver como elas, as mãos, inchavam, ficavam enormes, após o menor exercício. O ressentimento dela em relação ao meu pai crescia. Depois da internação, ela nunca mais o perdoou.
            - A culpa é dele – dizia apontando o dedo para o pai. – Foi ele que me colocou no arquivo médico, foi ele que me transformou num caso psiquiátrico, foi ele quem me impediu de ser uma pessoa. Invejoso, nunca me perdoou por eu tocar dez mil vezes melhor que ele.
            Papai respirava fundo, descia até a cozinha e bebia um copo de água com açúcar, ou ia até a sala e tomava um copo duplo de uísque, sem gelo nem nada.
            Não demoraram a surgir os problemas financeiros. O pai não tinha cabeça para trabalhar. Ele era um artista, fracassado, mas, ainda assim, um artista. Um burro de carga sempre cumpre as tarefas cotidianas com mais eficácia que um pianista. Sempre foi difícil para o papai manter as contas em dia, mas alguém tinha de fazer este trabalho. Ele, o pai, vivia vinte e três horas do seu dia para os outros, para a família. O único momento que tirava para si, era aquele pequeno espaço de tempo entre seis e sete horas da noite, quando se sentava ao piano e dedilhava alguma coisa. Com as acusações da mãe e as crises do meu irmão, ele, o pai, foi aos poucos perdendo o tesão de tocar. Primeiro passou a se sentar ao piano dia sim, dia não. Depois aumentou os intervalos, tocava um dia e ficava três ou quatro sem tocar. Até que um dia simplesmente parou. Não sei se alguém mais na casa percebeu, eu percebi, mas respeitei. Não disse uma palavra. Há momentos em que, se for para dizer o óbvio, é melhor ficar calado. Foi o que fiz. O piano foi partido a golpes secos.
            Sem as horas revigorantes de música, o pai perdeu de vez o ânimo para o trabalho. No final, teve de se desfazer de seus negócios e dispensar os funcionários da casa. Não saía mais do quarto, onde, além de tossir como um porco, lia todo o tempo o mesmo livro: Fédon, do Platão.
            - Você percebe, Dan, que é neste diálogo que está o coração do filósofo? Onde está seu coração, está o seu tesouro! Bem aqui, filho, justamente quando, no último dia de Sócrates, ele, Platão, o autor do diálogo escreve: “Platão não apareceu, pois estava doente.”  É aqui, filho, percebe? É aqui, nesta frase e não no mundo das ideias ou nas essências que está condensada toda a filosofia do homem das costas largas! Sim, senhor, é bem aqui. O grego tinha coração!
            Enquanto isto, mamãe atravessava os dias fumando, sentada no banco do jardim em ruínas e meu irmão entrava e fugia de hospitais psiquiátricos. Poucos dias atrás eu o vi passar aqui, em frente de casa, com um carrinho de juntar material reciclável, em cuja lateral estava escrito em letras coloridas: DERROTA. Ele sempre gostou de cores berrantes. Fui até lá e o chamei para dentro de casa. A princípio ele não me reconheceu, mas, depois, com muito custo, consegui convencê-lo de que era seu irmão. Ele aceitou entrar para tomar um café comigo, mas deixou o carrinho de juntar papelão na garagem. Passamos a noite aqui, mas, no dia seguinte, ele partiu cedinho, arrastando seu carrinho, no qual estava escrito como se fosse uma profecia DERROTA, em letras coloridas. É, meu irmão sempre gostou de cores berrantes.
***
            Na madrugada da última sexta-feira, eu estava na favela atrás do meu irmão. Pela milésima vez, eu tentava convencê-lo de que nós nos conhecíamos Queria levá-lo para casa, ele estava mal. Eu o arrastava pelo braço e procurava mostrar algumas fotografias em que aprecemos juntos. Foi quando ouvimos o grito:
            - Fogo!
            Em poucos minutos o fogo alcançou quase todos os barracos. As pessoas gritavam, as pessoas corriam, as pessoas carregavam móveis e eletrodomésticos sobre a cabeça, as pessoas soltavam os cães das correntes. Eu e meu irmão ajudávamos como podíamos. Carregamos fogão e geladeira e televisão. Entramos no córrego que, para dizer a verdade era um esgoto, e pegamos água para apagar o que podia ser apagado. Meu irmão conseguiu soltar um casal de canários da gaiola, cujas gradezinhas estavam vermelhas por causa das chamas... Meu irmão tinha tato delicado.
            Os bombeiros já estavam até chegando, ouvíamos as sirenes ao longe, quando aquele menino negro, com os cabelos pintados de loiro, não devia ter mais que sete anos, puxou a bermuda do meu irmão.
            - Derrota... Derrota... Me ajuda... Me ajuda...
            - Que foi, menino? - Perguntei.
            - A Vivi, minha vizinha, seu Derrota conhece, tá trancada na casa dela com as irmãzinhas. Os pais saíram para trabalhar e deixaram elas trancada dentro de casa... Corre, tio, se alguém não for lá, elas vão morrê tudo queimada.
            Saímos correndo pelos becos estreitos. O fogo cobria nossas cabeças. Sentia como os motociclistas devem se sentir nos espetáculos ao atravessar um círculo de fogo.
            Chegamos ao barraco.
            Era de zinco. Talvez o único barraco de zinco na favela inteira. As chapas de metal estavam avermelhadas. Na porta, brilhavam ainda mais vermelhos o cadeado e a corrente grossa. A crianças berravam lá dentro. O Inferno. O Horror. Chutamos a porta. Nos revezamos chutando a porta. Batemos com o ombro na porta. Jogamos o corpo contra a porta. Ela cedeu um pouco, mas não abriu. Eu ouvia os estalos da madeira sendo consumida pelo fogo se tornarem cada vez mais altos e o barulho do zinco que sangrava.
            - Salva a Vivi, Derrota! Salva a Vivi! – O moleque repetia insistentemente ao nosso lado.
            Salvar a Vivi, moleque, todo mundo quer, mas como?
            - Precisamos de alguma coisa para arrombar o cadeado, quebrar a corrente.
            Voltamos correndo pelo mesmo beco. Eu já tinha perdido as esperanças. Na entrada da favela, os bombeiros começavam a jogar água sobre o vermelho. Meu irmão correu até o caminhão e pegou um alicate. Eles, os bombeiros, sequer perceberam.
            - Não tem mais jeito, o fogo já tomou conta de tudo – falei tentando segurá-lo pelo braço, mas ele se desvencilhou e correu para dentro do fogo.
            Minutos depois voltou com duas crianças, uma embaixo de cada braço.
            - Fique aqui, você já fez tudo o que podia – falei, enquanto ele soltava as crianças no chão para receberem os primeiros socorros.
            - Ainda tem duas crianças lá – respondeu e tornou a mergulhar no fogo.
            Pouco tempo depois voltou com mais uma menina, muito machucada, e a colocou delicadamente no chão.
            - Agora chega! Se você entrar, não vai mais conseguir voltar. É suicídio! Você já fez tudo o que podia.
            Ele escapou de mim. Segurou nos meus braços e falou olhando nos meus olhos:
            - O bebê ainda está lá.
            Então entrou pela última vez na favela onde jogávamos bola quando éramos criança. Eu fiz o que todos os sensatos e os covardes do mundo sempre fazem: esperei. Esperei por cinco minutos, por dez minutos, esperei por duas horas. Esperei até o dia amanhecer, mas meu irmão não voltou mais.
            Era por volta de meio-dia quando os bombeiros conseguiram controlar o fogo. Os pais das crianças salvas pelo meu irmão chegaram. Já sabiam da história. Abraçaram-me. Choraram. Choraram pelas filhas que estavam vivas e pelo bebê que não tinha escapado. Não demoraram muito, tiveram de ir para o hospital. O menino que chamou meu irmão contava agora toda a história para os repórteres. Apontou para mim. Os jornalistas correram na minha direção, mas eu não consegui responder uma pergunta sequer.
            Quando voltava para casa, encontrei o carrinho que meu irmão usava para juntar papelão. Trouxe-o comigo e o guardei na garagem. Em casa, minha mãe arranhava o piano enquanto o pai bebia uísque com o Fédon aberto no colo.
***
            Depois do primeiro momento em que criaram o herói chamado Derrota, os jornais vêm escrevendo muita bobagem. Disseram que ele era um drogado, que cheirava cocaína, fumava crack, insinuaram até pedofilia. Meu irmão nunca foi nada disso. Ele tinha seus problemas, era um desajustado, mas, como escreveu Jiddu Krishnamurti: Não é nenhum sinal de saúde ser ajustado a uma sociedade profundamente doente. Sim, estamos profundamente doentes, basta dar uma olhada no modo como os jornais vêm tratando meu irmão. De herói máximo a máximo vilão em menos de uma semana. Necessidade de espetáculo e só, mesmo que seja sobre o horror. Mas eu estava lá, com Derrota, na noite em que a favela pegou fogo. Eu conhecia o cara, sou o irmão mais novo dele, deste que os jornais vêm chamando de Derrota. Posso dizer que ele sempre foi para mim aquilo que um irmão mais velho pode ser para um irmão mais novo: irmão, simplesmente irmão.

2 comentários:

Fernando Rocha disse...

Tensão fudida, me lembrei daquela mãe e daquele menino inglês, uma oração para os desajustados como você mesmo escreveu, esta com um rosário maior, contas miúdas.
Gostaria de dizer que derrota sou eu, mas não tenho toda esta coragem, espero e espero como um cidadão comum.

Gl@uber Soares disse...

É impossível a gente não entrar nessa história!, sentir as dores dos personagens, nos emocionar e no final constatar que a literatura venceu.