domingo, 11 de agosto de 2013

Fissura


Goethe dizia, antes vender a alma para a corte de opereta de Weimar: Para mim não há jeito de acabar bem! (A força separada do que pode, divide-se em duas, desagrega-se, volta-se contra si mesma) Depois do pacto com o diabo, chegou aos oitenta e tantos anos e escreveu o Fausto. Haveria o Fausto sem o pacto do próprio Goethe com o poder? A obra guia o autor através daquilo que ele julga ser biografia, como o pica-pau naquele desenho que é sugado pelo cheiro cheio de dedos da comida.
            Goethe se vendeu, mas neste comércio com a representação, salvou-se. Há um quê de cinismo em todos os que se salvam. O que será que o ancião diria ao jovem escritor de Werther? Talvez, se o jovem Goethe pudesse prever o futuro, teria cometido suicídio sem pensar duas vezes. Talvez não. O artista é um bicho estranho, sacrifica qualquer coisa pela sua obra. Quem escreveu o Fausto merece nosso perdão. Quem escreveu Viagem ao Fim da Noite também. Seria preciso outro tipo de balança para gente assim. Todo gênio é um filho da puta, mas também tem um bocado filho da puta estúpido. Os primeiros não escapam do sofrimento, estão morrendo o tempo todo; os segundos morrem uma única vez.
            O que Goethe aprendeu, e por isto acabou escapando do trágico, foi a conviver com a rachadura. Fixá-la com a cola adequada. Ele nunca foi inteiro. Indivíduos? Só os estúpidos e os insensíveis. Os homens sensíveis-do-pensamento, mais cedo ou mais tarde, são divididos ao meio, rachados a golpes de navalha ou de machado.
            Eu tenho uma tendência natural ao negativo, mas não me entrego a ele numa orgia de depressão e The Cure. Não dou mole para a minha pereba. Esforço-me pelo SIM, ainda que viva com o horror nos calcanhares. Ele, o horror, não dá trégua. Mesmo nos momentos felizes, uma imagem sinistra me acompanha. Eu não posso vê-la, é uma sensação, como num sonho ruim. Ela, a imagem terrível, não está nos meus olhos ou fora de mim, não está nos meus pesadelos, ou nas montanhas do Afeganistão. Está por todo lado, como o ar. Vivo com a impressão de que, se tivesse olhos de ver, eu veria, e ela me destruiria imediatamente. Se conhecêssemos a verdade, a verdade nos destruiria. Algo espera do outro lado da ponte. Mesmo quando mexo nos cabelos do meu filho adormecido, sinto que a felicidade é pequena e que o terror não demora.
             Hemingway escreveu em Adeus às armas: “Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – Indiferentemente”. Indiferentemente, todos aquele que esforçaram-se pelo sim, tiveram um final terrível, como se o corvo nunca deixasse de amaldiçoar: Never more!. A sífilis espiritual de Nietzsche... O colapso de Fitzgerald... O gatilho de Hemingway... O salto de Deleuze... Os óculos de Lennon na calçada em frente ao edifício Dakota. Quem sonhou, só vale se já sonhou demais. A rachadura não perdoa, amigos, por mais que fechemos os olhos e tratemos de ter bons sonhos, a rachadura cobra a conta com juros e correção.
            Os que me conhecem sabem que não sou de ficar choramingando, lambendo minha própria ferida, mas, mesmo nos momentos em que sinto minha energia vital pulsar com maior vigor... Mesmo quando a vontade de potência provoca uma ereção... Mesmo quando me sinto capaz de suportar o mundo, um corvo canta rasgado:
            Never more!
            E as palavras de Goethe ecoam em meu ouvido.
            - Para mim não há jeito de acabar bem.
            O cinismo é a cola que remenda a fissura, mas meu pote está vazio.

            Só por hoje.

3 comentários:

Fernando Rocha disse...

Hum... Talvez ninguém consiga acabar bem, há diferentes tipos de maquiagens e somas.
Não acredito que alguém tenha o poder de salvar a si mesmo. Ser inteiro, quem o é dentro da nossa amada pós-modernidade, do estúpido ao gênio, estamos na mesma marcha, como naquela bela imagem do "Sétimo selo".
Talvez a cola da ternura seja mais eficaz! Embora rara.

Danilo Dias disse...

Ótimo texto! É daqueles de tirar o fôlego, dada a sinceridade, provocando angústia e, ao mesmo tempo, uma vontade irresistível de chegar ao último ponto para ver até onde meus sentimentos podem ser provocados.

Danilo Dias disse...

Ótimo texto! É daqueles de tirar o fôlego, dada a sinceridade, provocando angústia e, ao mesmo tempo, uma vontade irresistível de chegar ao último ponto para ver até onde meus sentimentos podem ser provocados.