sábado, 22 de junho de 2013

Poética da Diferença

 
O Amor? Um pássaro que põe ovos de ferro.
Guimarães Rosa
Para o deleuziano Leandro Mendes
 
A palavra, em seu uso cotidiano, é representação. Pagamos caro para nos entendermos, para que peçamos dez pãezinhos na padaria e o balconista nos dê dez pãezinhos quentinhos, recém-saídos do forno. Quando digo: “Isto é uma mesa”, apontando para a mesa, é como se colasse uma etiqueta na coisa. O uso da palavra no poema é diferente, só no poema devolvemos a palavra a si mesma e a libertamos de sua subserviência à coisa. De modo que o poeta chacoalha a palavra, desgruda as etiquetas das coisas, embaralha-as, usa-as como bem entende. Gil acertou, quando o poeta diz lata, pode estar querendo dizer o incontível. O que estou querendo dizer é que a palavra literária é a própria diferença. Já pressinto o tribunal, como assim? O que você está querendo dizer de fato? Explique-se! Calma, vamos por partes, como diria Jack. Um exemplo de um poeta de peso, embora magro. No Poema de sete faces, Drummond escreve: “as casas espiam os homens / Que correm atrás de mulheres”, estes versos abrem um abismo entre a palavra e aquilo que ela nomeia. Forçando uma analogia platônica, a casa de bloco, telha e concreto seria o modelo e a palavra casa, a cópia. Entre ambas há uma diferença. Ninguém pode se abrigar da chuva, do sol, ou dormir sob uma palavra. Quando retiramos da cópia o original, como o poeta faz quando escreve casa, resta a diferença, pois a casa de Drummond, esta que espia, não tem qualquer relação com as casas do mundo real. Pergunta: mas afinal do que esta casa difere, se, no caso, ela não é mais comparada ao original? Resposta: Difere de si mesma. A palavra poética carrega em si a diferença em estado bruto, do mesmo modo que a lembrança. Se uso corda para amarrar um cavalo selvagem ao toco e depois retiro o toco, o cavalo ainda terá a corda em volta do pescoço.  No poema, a palavra só remete a si mesma e de si mesma difere. Aqui perdemos a imagem, a analogia com o mundo real, a casa de Drummond não abriga gente, mas é viva e espia. O poema é a diferença tornada palavra, no entanto, mesmo a palavra poética, sim, até mesmo ela, é uma atualização, Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que não se esmague com palavras as entrelinhas”. Um texto fala muito mais pelo que cala do que pelo que diz. Se a palavra é necessária, o é para apontar o silêncio. É no silêncio do texto que a diferença repousa em sua pureza múltipla, porque aí não há mais o modelo ou a cópia, nem a casa nem a palavra que a rotula, mas permanece a diferença entre uma e outra. Todo poeta sonha ser a flauta deste poema transparente, no qual, pelo branco da ausência de palavra, seria possível partilhar o ser (a diferença é o ser) da mesma maneira que duas crianças famintas partilham uma manga. Para a nossa tristeza, entretanto, tal experiência está reservada aos místicos, exige esforços sobre-humanos e é incomunicável: vai e vem como um oceano, só que sem água.

2 comentários:

Fernando Rocha disse...

Quando penso em linguagem, sempre me vem o velho Saussure, e penso que no jogo literário só há significantes subvertidos, atracados à novos significados.
Mas em um pensamento menos estrutural, pode-se recorrer à semiótica, principalmente aos conceitos de primeiridade e secundidade, os quais combinam com o fechamento do seu texto.

Adriana Godoy disse...

Daniel, aí reside a diferença. A palavra toma outros significados não por si mesma, mas pela alma do poeta que consegue atravessar essa barreira entre o leitor e o texto.

Ah! Esquece. Só quero dizer que, mais uma vez, seu texto se destaca e que gosto muito.

Beijo