quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ela me faz tão bem


Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e sempre é cedo demais para quem fica, porque nunca dissemos tudo o que deveríamos ter dito. Não ouvimos o suficiente. Parece que o essencial se perdeu, nós não demonstramos. Tinha sempre uma ponta de orgulho lá, cobrindo a nossa face verdadeira, feito a máscara de monstro com a qual brincávamos na infância.  Quem disse o quanto foi importante ter saído do trabalho e encontrar o outro para comer umas esfihas com tubaína, hein? Isto salva uma vida. O mundo é grande e cheio de gente. Encontro é uma palavra poderosa, estala na língua. Dividir sonhos e angústias, encanações sexuais e tudo o mais. Precisamos ser pacientes um com o outro como duas crianças perdidas numa floresta em noite de tempestade: viver é mais imprevisível ainda. Escolhemos um caminho, nos programamos, imaginamos um final, mas, no meio, somos arrastados por forças poderosas. Todo dia é um tsunami, todo dia um Katrina. Tão imenso universo, dói a cabeça de pensar, infinito é mais longe ainda. Que Deus poderia imaginar que este planeta minúsculo, esta bolinha de gude que esfriou um pouco mais e criou algum musgo por cima, poderia abrigar tantas histórias extraordinárias? Não no corpo que habitamos, mas na história de nossas vidas somos maiores que os deuses, maiores que o universo imenso e o sem-fim. De que vale o big ben, um buraco negro, o infinito, diante do choro de uma criança? De um cachorro atropelado? De um rostinho sujo que espera o pai, e o pai não vem, o pai nunca vem, não há pai, nem paz, somos todos filhos do acaso como qualquer menino de rua. Sim, meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e é sempre cedo demais, porque mesmo a velhinha ainda leva no corpo a menina que foi, a menina que é, aquela que anseia sempre por aprovação e importância. Dia desses fui ver a Lygia Fagundes Telles falar e ela falava como uma menina, faceira e terna feito uma adolescente. Sou um homem simples que não espera mais que um café quente e um sorriso, mas não aceito injustiça, nenhum tipo de injustiça e, para mim, não há injustiça maior que a Morte e é por isto que escrevo. Para onde vão as histórias das pessoas quando o corpo que as abrigava não está mais aqui? Será que nossa vida é mesmo sempre bela, breve e inútil, como as luzes que piscam nas árvores de natal, em casas do subúrbio, a cada final de ano? Cada piscar um emaranhado de sonhos de grandeza,  de mesquinharia e desejo que se acende e se apaga. Plin! E lá se foi uma vida em meio ao rio que nunca nasce e que não encontra mar. Plin! E lá se foi a menina que um dia sonhou ser poeta e foi fotografada tranquila e ingênua no capô de um fiat 147. Plin! E lá se foi Rogério, gnomo mais triste do mundo, com seus acordes certeiros no baixo e o índio de cartola tatuado no braço! Plin! E lá se foi Daniel, a ferida que sonhava sempre a cicatriz. Bom dia. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Hoje faz sol depois de uma semana de chuva, mas Scarlet Moon morreu. Eu não a conhecia, mas conheço sua história de amor com Lulu Santos, parceiro com o qual  ela foi casada por 28 anos. Uma única história de amor é a finalidade e, ao mesmo tempo vale mais, que todo o universo. O homem, meus amigos, não é o Senhor do ente, Poder é ilusão, o homem é o pastor do Ser. Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão, mas não em vão. A terra se torna sempre um pouco mais fria e misteriosa quando cada um de nós parte, mas reaquece no instante seguinte, no choro que estreia o pulmão do amanhã.

3 comentários:

Adriana Godoy disse...

Nossa, bonito isso aí. Tem pessoas que quando morrem deixam um calor no coração e suas histórias são passadas e depois esquecidas, ficam no ar ou em alguma foto esquecida. Esse negócio de morte é alguma coisa de boa, de ruim, de certeza e dúvida. E a gente fica aqui pensando, de vez em quando, quando será a nossa hora. Ainda bem que só de vez em quando.
Lindo texto, Daniel.
Beijo

Roseli Pedroso disse...

Daniel enquanto escrevo esse comentário, meus olhos estão embaçados de emoção pelo que li aqui. Ando sensível, ando boba, ando humana ultimamente! Acho que é isso! Obrigada por suas belas e comoventes palavras.
Bjs

Fernando Rocha disse...

"Ubi sunt", o seu texto entra nesta tradição, lá estão "Aniversário" e "Profundamente" e o comovente diálogo entre Emília e o Visconde.
lembrei da canção brega "If tomorrow never comes".
"O mundo é pequeno sem ter com quem dividir as coisas banais".
Tocante, isso é tudo que posso dizer sobre o texto.