quarta-feira, 10 de abril de 2013

Talvez, matéria e memória

(Claudio Brites, Terracota 2013)
 
O que é a memória? Seria uma função fisiológica como outra qualquer? Se pudéssemos abrir um cérebro em plena atividade e observar como funciona, saberíamos exatamente o que o indivíduo está pensando? Que lembranças evoca? Que imagens as sinapses cerebrais produziriam? É certo que as funções mentais e psíquicas estão relacionadas, mas seriam exatamente a mesma coisa? Um vestido pendurado num prego estão relacionados; se tiramos o prego, o vestido cai; se mudamos o prego de lugar, o vestido vai junto, mas o vestido não é o prego, ou é? Para o filósofo francês Henri Bergson a memória é o elo entre a matéria e o espírito, o corpo e a alma. No livro Matéria e Memória, Bergson escreve: "Ora, desde que pedimos aos fatos indicações precisas para resolver o problema, é para o terreno da memória que nos vemos transportados. Isso era de esperar, pois a lembrança – conforme procuraremos mostrar na presente obra – representa precisamente o ponto de intersecção entre o espírito e a matéria”.

            É este continente impreciso, a lembrança, a memória, que Claudio Brites investiga em seu primeiro romance, Talvez (Terracota, 2013). O autor não constrói, como era de se esperar em se tratando de matéria tão evanescente, um romance linear, pelo contrário; assim como a própria memória é feita de recortes, o romance é composto por fragmentos. Em vez da palavra definitiva, que rotula sem deixar margens para o virtual, tão em voga na literatura contemporânea, Claudio adere à palavra sugestiva, como se o narrador também encontrasse a história na medida em que escreve.

            O enredo nos conta a história de Pedro, um homem que tenta reconstruir/recuperar seu passado antes que ele se perca de vez. O narrador–protagonista, entre outras coisas, rememora seu pai, o tempo do serviço militar, uma mulher possivelmente assassinada na Avenida Paulista, centro financeiro do país... Estes acontecimentos resumiriam sua existência? Seriam o mais importante em sua vida? Talvez, talvez.

            A investigação da memória não é um tema literário novo, pelo contrário, autores poderosos, de Borges a Proust, modelaram sua obra em cima desta mesma matéria. O diferencial do livro de Brites é a linguagem enxuta, incisiva, popular, que chega mesmo a flertar com o brega.

            Livro para lá de interessante, que li numa sentada só.

            Recomendo.

            Abaixo, o parágrafo que abre a narrativa como degustação:

            “A memória é uma caixa de sapatos cheia de recortes. A minha está à deriva em uma enchente. Fico pensando até quando o papelão irá aguentar e então se desfazer e o papéis afundarão, as cores, as letras, tudo borrado ao ponto de virar a resma de um celulose primeira.”

            Não se esqueça de sobrepor áudios ao ler.
 
À venda aqui

4 comentários:

Claudio Brites disse...

Grato, Daniel, pela atenção aos novatos! Abraços!

Claudio Brites disse...

Grato Daniel, pela atenção aos novatos!

Adriana Godoy disse...

Beleza! Estou com tanto livro pra ler...depois procuro esse! Bj

Fernando Rocha disse...

Por meio do texto, presumi que este livro dialoga com "Previsões de um cego", do Pedro Maciel. Em relação ao tema e à estrutura.