quarta-feira, 13 de março de 2013

Ventríloquo sem Deus

"A esperança é um urubu pintado de verde"
Mário Quintana
É a mentira que nos mantém em pé e funcionais. No mesmo instante em que provaram do fruto da árvore do conhecimento, Adão e Eva provaram também do fruto do delírio. Ao abrir-se no primeiro macaco para se tornar espelho, a natureza também impregnou tal macaco de sonho para que ele pudesse suportar. Sem o delírio entrelaçado à razão, o ser humano não resistiria, não seria possível. A mentira é necessária tanto no pensamento metafísico: Deus, quanto no pensamento cotidiano: cortesia.
Por outro lado, o humano é sempre insolúvel, está o tempo todo nas antípodas de si mesmo. Ainda que se mantenha de pé sustentado pela mentira, busca, feito um onanista obcecado, a verdade. Na ânsia da verdade, os homens, aqueles que se julgam os melhores da espécie, assassinam as divindades e colocam a si mesmos no lugar. É trocar um cadáver por outro, como disse Cioran. Se Deus é um delírio, delira ainda mais quem sonha tomar seu lugar na eternidade, ter o nome escrito sobre o nome de todos os outros homens, alcançar a imortalidade sem precisar de um céu, ou de um além. Toda empreitada humana é fruto deste delírio... Esquecemos um único detalhe, o planeta-palco onde a comédia é encenada é menor que um grão de areia. Nenhuma criação humana, nem mesmo a pintura de van Gogh, nem mesmo a música de Beethoven, é destinada a durar. A essência de tudo é a transitoriedade, mas o homem não aceita, quer cravar uma estaca no peito do tempo e travá-lo, matá-lo, diluí-lo, rir na cara da morte acorrentada.
Impossível. Menos no mito, no símbolo, nas asas do macaco, mas tomamos o caminho contrário, cortamos nossas próprias asas, quebramos a natureza como se quebra um ovo e a gema é oca, o centro é vazio. O processo de mapeamento do mundo está avançado. Agora falta pouco para descobrirmos o que o budismo e o taoísmo sempre souberam: o vazio é a forma e a forma é o vazio.
Não somos feitos só de átomos, somos feitos sobretudo de histórias. O mito de Édipo não é encenação de um papai-mamãe, pornografia que não excita mais nem a pré-adolescentes. Freud delirou e impôs seu delírio ao mundo, não há definição melhor para gênio. Édipo Rei é a mais perfeita alegoria da condição humana, mas por outros motivos. Somos sagazes, astutos, espertos, desvendamos todos os mistérios. A esfinge desmorona diante da nossa inteligência. Seguimos sempre adiante, ainda que pressintamos a noite e o gelo. Nosso projeto é desvendar o Ser, dissecá-lo, destituí-lo de símbolos, de mistérios, ainda que a verdade nos destrua. O homem de depois de amanhã é ao mesmo tempo Deus e Espectro e vaga oco sobre um planeta destruído.
A única solução é dormir e a insônia não deixa.

3 comentários:

Fernando Rocha disse...

Como fazer a autopsia se somos nós os cadáveres?
Freud quase cristalizou o mito, você conseguiu derreter o gelo, para inserir neste, um novo ar.
Ciência= vaidade. O resultado da equação é o nada e o vazio, mas o desespero nos impede de enxergar o que os olhos veem.

meuguilhos disse...

Parabéns pelo texto.
Sobre o cotejo da psicanálise ratifico o desacerto da imposição do necessário Édipo. Tal construção é apenas um esqueleto estrutural que define dois objetos um de desejo e outro de destruição, sendo tais objetos reverberações do vazio de que falas, do insondável.
A moderna psicanálise, ou análise se quisermos fugir ao reducionismo do rótulo, preconiza uma expansão de modelos e refuta os "shrinkers" (encolhedores) apartando deles a definição de psicanalistas. Ficando estes profissionais com a missão de gerenciar o insondável por meio da expansão do palco onde os personagens dos desejos, medos, anseios e outros sentires podem livremente caminhar no vazio de sentido ou meramente insondável, de quântica lógica. A moderna psicanálise pretende construir um palco para a encenação de várias peças aleatórias, ao vezo ou à vesânia do a(u)tor. Um palco aos ditames epicuristas.
Na esteira do que fez o personagem de Marlon Brando no filme "Dom Juan de Marco".
(...)
O medo da morte é o medo desse vazio de sentido. Ser ou não ser, tem na possibilidade negativa o medo do não ser na plenitude das possibilidades. E um demiurgo é a última fronteira a espraiar justiça, lógica e razão, bem como a ocultar medos e vazios. A ideia de um Deus é um eufemismo genérico que abranda todos os males qual panaceia ilusória que o adicto por inverdades procura por falta de força de sondar o vazio.
São tanta regras, tantos arquétipos, que tudo é estranho, tudo é recriminável, logo é melhor reprimir os modelos que ululam do vazio com medo que reverberando nos vazios de gente mais forte e sejamos julgados e apenados por nossa humanidade.
Ah! Quão certo estava Terêncio: "Nada do que é humano me é estranho."
E por ai vai. Sinalizo o caráter quase onírico de minhas colocações, mas fui digredindo no vazio sem me ater muito às regras.
Abraço!
Manuel






meuguilhos disse...

Parabéns pelo texto.
Sobre o cotejo da psicanálise ratifico o desacerto da imposição do necessário Édipo. Tal construção é apenas um esqueleto estrutural que define dois objetos um de desejo e outro de destruição, sendo tais objetos reverberações do vazio de que falas, do insondável.
A moderna psicanálise, ou análise se quisermos fugir ao reducionismo do rótulo, preconiza uma expansão de modelos e refuta os "shrinkers" (encolhedores) apartando deles a definição de psicanalistas. Ficando estes profissionais com a missão de gerenciar o insondável por meio da expansão do palco onde os personagens dos desejos, medos, anseios e outros sentires podem livremente caminhar no vazio de sentido ou meramente insondável, de quântica lógica. A moderna psicanálise pretende construir um palco para a encenação de várias peças aleatórias, ao vezo ou à vesânia do a(u)tor. Um palco aos ditames epicuristas.
Na esteira do que fez o personagem de Marlon Brando no filme "Dom Juan de Marco".
(...)
O medo da morte é o medo desse vazio de sentido. Ser ou não ser, tem na possibilidade negativa o medo do não ser na plenitude das possibilidades. E um demiurgo é a última fronteira a espraiar justiça, lógica e razão, bem como a ocultar medos e vazios. A ideia de um Deus é um eufemismo genérico que abranda todos os males qual panaceia ilusória que o adicto por inverdades procura por falta de força de sondar o vazio.
São tanta regras, tantos arquétipos, que tudo é estranho, tudo é recriminável, logo é melhor reprimir os modelos que ululam do vazio com medo que reverberando nos vazios de gente mais forte e sejamos julgados e apenados por nossa humanidade.
Ah! Quão certo estava Terêncio: "Nada do que é humano me é estranho."
E por ai vai. Sinalizo o caráter quase onírico de minhas colocações, mas fui digredindo no vazio sem me ater muito às regras.
Abraço!
Manuel