sábado, 23 de fevereiro de 2013

Nietzsche: um cristão autêntico

 O Jovem Friedrich
 
Há algo que sempre me intrigou quando se trata da vida e obra de Nietzsche, esse filósofo que usou a vida como experiência do pensar: o abismo que há entre o Nietzsche empírico, andarilho, filho, enfermo, irmão e o Nietzsche pensador que emerge principalmente em sua autobiografia, Ecce Homo. Por vezes, tenho a impressão de que Nietzsche (que, segundo Rüdiger Safranski, seu biógrafo, era chamado pelos colegas na escola de o pastorzinho) construiu toda sua filosofia,  principalmente nos últimos anos, ao contrário do que realmente era, negando suas taras. É preciso farejar o que está além das aparências, como o próprio filósofo fez com os ideais ascéticos em Genealogia da Moral. Fazer com o filósofo-dinamite o que, segundo Deleuze, ele mesmo era mestre em fazer: um filho pelas costas. Olhá-lo com olhos de psicólogo.
 
Seguindo a teoria das forças, Nietzsche é dois e é dez,  palco onde inúmeras feras encenam uma comédia trágica, “prefiro ser um sátiro antes que um santo”.  A pergunta que gostaria de fazer é: qual dentre os diversos Nietzsche que disputam a soberania no si-mesmo de Friedrich se sobressairia? Qual seria o vencedor? O déspota? Nietzsche era mestre em disfarçar o que julgava serem fraquezas. Em, Ecce Homo, deixa a seguinte pista falsa: “se combati o cristianismo, foi porque dessa parte não vivenciei fatalidades nem inibições.” Mentira. Poucas páginas adiante ele mesmo aponta seu ataque à moral cristã como sendo necessário para superar uma fraqueza: a tendência à compaixão, essa força dos fracos. Será que superou? E o incidente com o cavalo pouco antes do surto final?
Em um de seus aforismos, Cioran escreve: “Só os indivíduos rachados possuem aberturas para o além”.  Creio que Nietzsche vivia, como um pêndulo, entre forças opostas: Nobreza e Ressentimento, Atenas e Jerusalém, Cristo e Dioniso, Vida e Morte, nunca houve uma superação de fato das dicotomias. Ele mesmo escreve:  “A felicidade de minha existência, sua singularidade, talvez, está em sua fatalidade: para exprimi-lo em forma de enigma, eu, como meu pai, já estou morto, como minha mãe, vivo ainda e envelheço.”  Se houve, por fim, um instinto dominante, acredito que foi o do ressentido. É simples, admiramos e almejamos aquilo que não temos. Nietzsche escreveu nas antípodas do que de fato era. Quis pensar, morar no corpo: “É melhor que ouçais, meus irmãos, a voz do corpo são: é esta uma voz mais honesta e mais pura. Com mais honestidade e mais pureza fala o corpo são, o corpo perfeito e retangular: e fala o sentido da Terra”. Quem lesse este fragmento sem saber que caos o deu a luz, imaginaria se tratar do texto de um grego da época de Homero, mas o autor, em verdade, era um doente. O próprio Nietzsche inventaria um conceito que serviria de ponte sobre sua cisão, o conceito de “grande saúde”, mas o que explicaria o colapso final? Não há nada que o autor de Zarathustra critique mais que aquilo que ele julga serem características do cristão, do último homem:  a vingança, a astúcia, o feminino, a inveja, o ressentimento. No entanto, consta que, quando leu Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, (o livro cujo narrador mais se nos assemelha a uma barata que a um ser humano) anunciou empolgado: “Ouço aqui a voz do sangue!” Seria o filósofo alemão um cristão autêntico?
Para responder à pergunta, voltemos à infância, esse país de onde tudo brota: 1856, 1855, 1854? Não. 1853, 1852? Ainda não.  1851? 1850? 1849? Sim, 1849? Quem reparou nos olhos do menino de cinco anos vidrados no pai que realiza com verdade e pureza uma de sua últimas pregações sobre o púlpito? De onde vem a idolatria de Nietzsche pelo pai? Quando se trata de Karl Ludwig, Friedrich Nietzsche parece estar falando de um anjo, de um ser etéreo, todo espírito. Será que não nasce a partir da morte do pai seu rompimento com Deus e com o cristianismo, porque ambos permitiram que seu velho passasse desta para melhor? Será que o pequeno Friedrich, sobretudo Friedrich, não rezou com toda sua fé e vontade, sozinho à noite, pela cura ou volta de seu pai e, no entanto, tudo se mostrou em vão? Deus é sempre mudo, não há, nunca houve. Ainda assim, por mais que intentasse, anos mais tarde escrever um Anticristo, escreveu muito mais um Antipaulo.
Um dionisíaco brasileiro, Glauber Rocha, disse certa vez: “Não me exijam coerência, sou um artista”. Cabe muito bem aqui. Uma das características fundamentais de Nietzsche era homenagear com o martelo, destruindo, não seria a implosão do cristianismo seu grande monumento ao mesmo?
O cristão autêntico é um ser cindido (raskólnikov em russo) corpo e espírito inconciliáveis. Nietzsche construiu toda uma filosofia ao contrário do que era, baseada no seu eu, ou vasto, ou si-mesmo, ideal.  Seu espírito era Schopenhauer, mas seu canto dissimulava ser Emerson. Nunca perdoou a razão por ter destruído sua fé. Vingou-se. Quis morar no corpo, mas o corpo era o contrário da sua filosofia. Segundo sua própria fisiologia, quando o espírito está fraco, o corpo adoece. Em verdade, em verdade vos digo: um santo Agostinho sem conversão. Tivesse gritado adoração ao Cristo crucificado, seria um santo da igreja católica apostólica romana. Ou não?

4 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Estive pensando um pouco e cheguei à conclusão de que há na literatura ficcional dois grandes momentos em que se retrata a grande saúde. Um deles é no conto Amor, talvez em toda obra, de Clarice Lispector, o outro é no Bliss, de Katherine Mansfield. Em tais textos o inaudito, o impalpável ganha forma; é a própria sagração da vida tornada palavra, tudo o que os religiosos chamam de êxtase e os críticos literários de epifania jorram em tais narrativas: o momento em que a vida rasga o cotidiano, o concreto, o tédio e jorra com toda sua potência.

Andei pensando um pouco mais também sobre o colapso final de Nietzsche, acho que aconteceu com Nietzsche o mesmo que ocorria com Dioniso nas festas e banquetes dedicados a ele, quando o deus era desmembrado para tornar a renascer. Nas cartas finais, Nietzsche, um corpo sem órgãos, mas habitado pelas mais diversas forças antagônicas, assina cada missiva com uma rubrica diferente, o Crucificado, Dioniso, César... É como se se esvaziasse de vez e então, não mais habitante do corpo, mas disperso pelo mundo, deixasse a carne entregue à catalepsia. Pronto para voltar quando a mesma receita, a mesma justa medida de forças se configurasse outra vez num corpo humano.

Adriana Godoy disse...

Daniel, um texto esclarecedor, que põe a cabeça pra funcionar. Entendo pouco desses filósofos e tudo que possa vir a contribuir para meu parco conhecimento é bem-vindo! Ainda mais de um cara como você. Acho mesmo que talvez a "Santa Igreja Católica" o colocaria como um santo em conflito. Vá saber.

Beijo

Fernando Rocha disse...

Acredito que embora o texto trate da obra do filósofo, podemos utilizá-lo para pensar sobre a literatura que você pratica, personagens com este conflito: Corpo/Alma estão sempre lá. Eterno drama Barroco, a coisa mais moderna e honesta da pós-modernidade.

carlos alberto Beto disse...

Grande analise ou deveria dizer, dissecação, usando o bisturi da inteligência, considerando cada órgão, cada veia, cada tecido, do que foi esse grande pensador. Gostei particularmente do seu domínio da informação e como o faz superlativo com sua mais que correta linha de raciocínio. Tem conhecimento de poucos e coragem de pensamento. Como disse naquele comentário, a poucos minutos no Facebook, seria um prazer ler o seu ensaio. E de fato o foi. Parabéns amigo escritor. Paz e luz!