sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Fruta - 3º capítulo


Jude

   Dois meninos. Dez, no máximo doze anos. O moreno claro, de cabelo liso, é Jude. Tem esse nome por causa da música dos Beatles mesmo. Não gosta muito do nome. Na escola, nos primeiros dias de aula, alguém sempre diz: A Jude está? E isso aí é motivo de piada. De cara, ninguém acha que Jude é um menino. Natural. O outro é Evilásio Santos Neto, mas toda a molecada o chama de Caroço. Só quem é da sala dele na escola sabe que o nome é Evilásio. Estavam, ainda há pouco, jogando bola nos campinhos do cemitério. Quem é que, nessa idade, na periferia, não sonha ser jogador hein? É a única maneira de ser herói. E quem é que nesse mundo não sonha em ser herói, hein? A gente ganha, do nada, um nome, um par de pernas e um rosto que ninguém mais tem. É preciso defender isso de algum jeito. Quem joga, tem de ter gana. Não aceitar ser só mais um.
   - Aí Caroço... Se ligou no rolinho que eu dei no Pelé? Vup. Foi só um, ligeiro até umas hora, veio que nem uma vaca louca, vap, só encostei, passou.
   - E aquele golaço que eu fiz hein? Pou... Uma bomba, no ângulo, ainda triscou na trave.
   - Golaço mesmo.
   - Aí, vamos dar a volta lá pelo riozinho?
   - Que nada, mó rolê, tio. Bora cortá por dentro do cemitério mesmo.
   - Firmeza então.
   Atravessaram o portão principal do cemitério. Quarta-feira. Poucos enterros.
   - Compra uma pipoca aí, Jude?
   Há um velho com uma carroça de doces ao lado do portão principal.
   - Duas pipocas aí, tio, e o troco de bala.
   Cada um pega um saquinho de pipoca. Enchem os bolsos de bala. Jude passa a mão na bunda do outro.
   - Ô veado, deixa de putaria.
   - Só queria ver como é que tá o meu gadinho.
    - Por que não pega aqui? – diz o Caroço apalpando a parte da frente.
   Sentam-se sobre um dos túmulos para chupar umas balas.
   - Bala da hora, essa de leite, nénão?
   - Que nada, essa de coco aqui é a melhor.
   E descasca mais uma balinha. E outra de coco e leite, mistura com a de hortelã, um pouco de pipoca por cima de tudo. Mistura que mistura e nhac... nhac...
   - Ei, Caroço.
   - Falaí.
   - Alguma vez você já parou pra pensar que um dia a gente vai trocar de lado?
   - Como assim?
   - Um dia a gente vai tá do lado de baixo, truta, tudo escuro e silêncio. Olha esse maluquinho aqui. – Aponta para a foto preta e branca de um garoto em uma das lápides. – Um dia ele foi que nem a gente. Comeu, bebeu, jogou bola... Agora não deve ter mais nem o osso.
   - Que conversa mais besta, Jude. Eu é que não penso essas bobage. Se a gente morrê, ainda vai demora pra caramba.
   - Vou te falar um barato, Caroço, sabe que tu é meu camarada. Tem noite que eu nem durmo pensando nessas coisa, perco o sono. Soco uma, soco duas e nada de sono. Aí fico me sentindo mal porque, afinal de contas, Deus pode tá lá no alto vendo minhas sacanage, será que existe mesmo Deus? E se não tivé Deus nenhum?
   - Tu só pensa bobage hein truta. Claro que Deus existe, se não o que é tudo as coisa que tem no Mundo? De onde é que vem as árvore? A terra? Os rio? Nóis respira só porque Deus deixa.
   - Sei não. Sei não mesmo. Tu não entende.
    - Ainda tem bala de chocolate com leite?
   - Deixa eu vê – revira o saco de papel com as balas – tem sim, segura aí.
   Joga a bala para o outro.
  – Será que um dia a gente vai consegui? - pergunta.
   - Consegui o quê, Jude?
   - Jogá bola de verdade. Num time grande e tudo.
   - Claro que vai. Não conheço ninguém que joga bola melhor que tu e eu.
   - É, mas não sei não.
   - Tu só sabe pensá que vai dar tudo errado. Pensa que vai dá certo de vez em quando.
   - Verdade, vai dar tudo certo sim. - responde Jude, como se pudesse se enganar e continua: - Vamboraí. As bala já era.
   - Vamo aí.
   Saem caminhando em direção ao portão dos fundos do cemitério.
   - Ei Jude, quando é que tua mãe vem te ver?
   - Só na outra segunda.
   - E aquele negócio lá de te mudá de escola, ela desistiu?
   - Bati o pé, falei que não ia praquela escola de veado não. Só tem emo e colorido lá. Tô fora.
   Na rua, encontram uma garrafa pet de refrigerante vazia. Um chuta pro outro que devolve pro um.
   - Ei, Jude, sua tia pediu pra você levar uma couve-flor. Já separei aqui. - diz o dono da quitanda enquanto coloca uma couve-flor na sacola.
   - Só isso mesmo que é pra levar, seu Manuel?
   - Quando ligou, ela só pediu isso.
   O menino apanha a sacola e chuta mais uma vez a garrafa para o outro.
   - Vai jogá bola mais tarde?
   - Sei não, cola aí depois, ou liga.
   - Beleza, falou.
   - Falou.
   Jude entra em casa. Mora com a tia-avó. Só os dois. A mãe aparece uma ou duas vezes por mês. Sabe que ela, a mãe, gosta dele, mas esperava mais. Ele cuida da tia e a tia cuida dele. Ah!, se um dia conseguisse jogar num time grande...
   - Bença, tia Fátima. - diz ao mesmo tempo em que coloca a couve-flor sobre a mesa e oferece a mão à tia, que vira, calculando, centímetro por centímetro o perímetro de sua cozinha, dá alguns passos à frente, apalpando com a mão esquerda a borda da mesa, enquanto com a mão direita segura a mão do menino e responde:
   - Deus te abençoe.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fruta - 2º capítulo



Clara

   O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo? Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos, todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam, havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito. E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina? Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para um baile ao lado das esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas, vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar. Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom, sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
   Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela, em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida? Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando interruptamente lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
   - Vamos pro quarto?
   - Você pode me adiantar o dinheiro?
   - Quanto é?
   - Duzentos reais.
   - Tá aqui.
   Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco. Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz, provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido. Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.