quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fruta - 1º capítulo



Matheus

   Então ela não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
   - E aí?
   - E aí o quê?
   - O que você vai querer, ué?
   - Tire a roupa.
   O vestido vermelho escorregou fácil e se deitou preguiçoso no chão, feito um prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais que a ausência de cor.
   Deitaram-se nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados momentos, chegava a perder o fôlego.
   - Chiiiu – Ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida, a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, mas o coração continua.
   - Não é verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
   - Ainda assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
   - Você se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
   - E por que é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
   - O espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo, está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras, explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
   - É um espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
   - Sim triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar qual era a fala. O bebê não se envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre, como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos, na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida. Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se pelo Sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria transformar a própria forma em bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
            - Puxa como você fala... Sem chance, cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a mínima.
   - É, eu sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais, viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios. Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas, no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de água, voltava e jogava a água do baldinho amarelo, dentro de outro balde um pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um lamaçal danado em volta. O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as ondas vinham quebrar.
   - E os seus pais?         
   - Como disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos. Hoje moram em Ourinhos.
   - Ourinhos?
   - É.     
   - Já passei por Ourinhos.
   - Faz tempo que eu não os visito.
   Pause
   - Posso te pedir uma coisa?
   - Falaí?
   - Me fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
   Ele, porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto, as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
   - Fodeu, acho que vou ficar louca por você. Ela pensou baixinho pra ele não ouvir, enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
   Do outro lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom. Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions League, um golaço de bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Costureira de Malditos


Mancha de batom no colarinho dos executivos
Cafetina de Avenidas tão prostituídas
Augustas e Paulistas em tumbas tão angelicais
Que esconde negros transparentes no fundo do quintal
São Paulo, colo caloroso de bichas ricas
Carrasco cruel de bichas pobres
São Paulo,
Megalópole provinciana
teu concreto te fez menos Brasil
Aqui as crianças não são felizes
com teus meninos de rua
teus cachorros de rua
tuas mulheres de rua
teus homens de rua
Existe luz pra fora dos teus túneis?
És generosa, mas só para aqueles que aceitam tuas mentiras
Os que não se vendem, nem podem nascer
Pelas rugas da tua face correm lágrimas dos teus rios de esgoto
São Paulo da arte-politiqueira
Da vida-politiqueira
Da imprensa-politiqueira
Nova Iorque periférica
Será que não percebes quanto é ridícula tua diversidade comprada em lojas de butique?
Certa vez, o menino de tênis bamba foi visitar o museu numa excursão da escola e escreveu na última página do caderno:
- Um dia ainda te conquisto!
O que você fez do menino, São Paulo?
Lá vai São Paulo com seus bancos, bancários e banqueiros,
Suas luzes e seus carros
Descendo a ladeira
Movimento que não é mudança
Herança que não muda de mãos
Queria tanto teu colo
Mas teu verde é muito longe de casa
São Paulo e teus poetas de plástico?
São Paulo e teus rappers de plástico? Teus rockers de plástico?
Teu samba pra inglês ver?
Enfia esse teu papo progressista no rabo
Aqui tudo é público e obscuro
Conheço teus comentários sinistros na calada da noite
Teus filhos crescem, casam e morrem sem nascer
Não existe vida, só trabalho
Moloch dos trópicos
Auschwitz tupiniquim
Seio de silicone
Xuxa xorando na tv
Futebol sem fim
Black label e bagaceira
(Pinga com cobra)
Dentes brancos e boca banguela
Folha e facebook
Estocolmo e Luanda no mesmo país
"Nada me dais
nada me tirais
nada me sois que eu me sinta"
Ainda assim,
O meu dono é a solidão.

* Clique sobre o nome da cidade (São Paulo) e  um link se abrirá que dialoga com os versos.