quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A literatura vive no salto, no imprevisível. Quanto mais tentamos fazer literatura, mais nos distanciamos dela. Vizinha do Desespero, de Eros e Tánatos, (que vizinhança hein!) ela irrompe como um desmoronamento, levando do morro a terra, as moradas, os rizomas, o lixo e as fezes. Ao mesmo tempo que passa pelo poeta e é dele, se perde dele, porque vem de um outro lugar, um outro lugar que pertence a todos os homens e mulheres (inconsciente coletivo, arquétipo primevo, mundo dos espíritos, angústia?). O objetivo do poeta, não importa se escreve prosa ou poesia, é transformar-se em palavras, transformar-se tão profundamente que mesmo o que não é só dele, mas de todo homem: o abismo, o enigma, também transborde do texto. O que o autor não sabe em si, é o que o outro ser humano também não sabe. Heidegger diz que os filósofos (e por que não os escritores?) dizem o mesmo, entretanto não dizem o igual. É dizer que desde que se toque o enigma, ou que o enigma toque aquele que escreve, o mais é irrelevante. O toque será diferente, porque os homens são diferentes e vivem em tempos diferentes, mas o Lugar será o mesmo: o espaço literário de que fala Blanchot. Segundo Pedro Nava, nem todo grande escritor é um BOM escritor. Acho que está para além das questões de forma e conteúdo. Dostoievski era acusado de repetir palavras em excesso, em Balzac censuravam o estilo sinuoso e, mesmo no aristocrático Henry James, apontavam o uso desmedido de advérbios. O texto é só a ponta do iceberg, nove terços estão submersos: correntes de desejo, fezes, orgasmos, ódios e amores irrompem na escrita, estão lá, ainda que não estejam no texto. Por isto acredito, com Artaud, que a literatura é uma possibilidade de existência, não uma coisa entre coisas, mas a Coisa, o corpo sem órgãos. Não se trata de pintar o cabelo de roxo para chocar os adultos, às vezes, uma existência terrena simples abriga uma vida interior desmedida, porque o planeta do artista é o planeta da Arte. O mundo historicamente instituído é onde ele está,  ele, contudo, vive num outro tempo, o tempo de Adão. A vida como obra de Arte é isto, é tornar a travessia, entre nonada e ∞, uma travessia espiritual. Poiesis brota de dentro pra fora e não o contrário, como querem os fincados no material. – Veja! Diz o poeta apontando o éden, mas o crítico formalista analisa rigorosamente o dedo e reclama da cutícula no indicador, e Blake, em consonância, diz: Vejam através da janela e não com a janela. O texto é a janela que aponta sempre para o aberto, porque o Todo, Deus se preferirem, é um círculo aberto, a imagem da circunferência, cujo centro está em todos os pontos e em nenhum, de Pascal. A palavra é a casa do Ser, afirma Heidegger, e Lautreámont sussura que o coiote uivando para a Lua é sua ânsia de infinito. É poiesis, sem palavra, só que no homem é a linguagem que o une ao sagrado e restitui-lhe à humanidade. Porque o Fado (Dasein se preferirem) do homem é muito mais próximo dos deuses que dos macacos, mesmo que o corpo, onde o homem mora, seja o de um macaco desenvolvido. Deus é mais Deus quando habita um livro sagrado. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Esta é a dimensão da Literatura, não um apanhado de técnicas, não um conjunto de truques, não é o que se diz, nem o como se diz, mas o mistério do Dizer. A técnica é uma possibilidade do coração, do Dizer, mas a técnica sem o coração é uma velha tagarela: fala demais por não ter nada a dizer, como já sabia Renato Russo.
Escrevo para me tornar invisível, / Para perder a chave do abismo. Os versos de Murilo Mendes descrevem bem a ânsia do inspirado, porque o inspirado funciona como a agulha quando toca uma veia, ou a broca quando encontra o lençol freático. Depois que o líquido jorra, a agulha ou a broca são irrelevantes. Depois que encontra o espaço literário, o escritor se torna invisível, se perde, não é mais o dono de si, o próprio abismo toma forma de homem. O inspirado é aquele por onde o obscuro, ainda que misturado à sua gagueira ou à sua cor, jorra com mais veemência o enigma. O inspirado vomita Arte, é van Gogh possuído pela pintura nos últimos anos, é Cézanne monomaníaco, é Sade escrevendo como podia na cadeia, é Robert Walser martelando os microgramas no hospício. Alguns se assustam quando começam a desaparecer e então tentam manter diários enquanto escrevem livros que passam por eles. É o caso de Kafka quando percebe que vai se desmaterializar, ou de Kerouac quando percorre suas estradas.
Recentemente li no facebook do Ivan Marques uma afirmação de Philip Roth: Amadores procuram por inspiração, a maioria de nós senta e escreve. Seria mais verdadeiro se ele tivesse dito: a maioria de nós senta e trabalha, porque os fincados no material, seja de esquerda ou de direita, querem porque querem transformar a Arte num trabalho. Parece que a Arte, a escrita no nosso caso, para ter alguma dignidade, tem de ser um trabalho. Existe quem vive de Literatura e quem vive para a Literatura. Eu? Fecho com Cioran: Se tivesse de abdicar do meu diletantismo, especializar-me-ia no uivo, ou com Orides Fontela: Se poesia fosse trabalho não escreveria porque não gosto de trabalhar. A imagem do vagabundo é o maior dos estigmas, mas trabalho não garante qualidade, pois a Arte não oferece garantias. São Paulo está cheia de gente que escreve das oito às oito sem direito a férias, horas extras, ou décimo terceiro. Trabalhando em condições assim, é de espantar que o sindicato dos escritores não tenha decretado ainda uma greve geral. E quantos livros verdadeiros foram publicados no último decênio? O trabalho existe porque a escrita é o continente da incerteza. O escritor tem uma visão intuitiva e, no primeiro ímpeto traz o bloco-poema, depois, tendo apenas a si por paradigma, procura deixar o texto mais próximo do próprio texto. Tudo oscila, os móveis da casa tremem, feito um cego num quarto lavado de Sol, o artista vai tateando, e teima, e sofre e sua e depois de dias, meses, anos de luta, desiste. Nunca estará satisfeito, porque a palavra não diz tudo, é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. A ideia do poema que Diga o atormenta e quase que o impele à mudez, mas ele continuará a dizer, a gaguejar, sob pena de explodir se não disser, porque a linguagem vem do ser, passa pelo poeta e quer voltar para o ser. É um círculo. A inspiração, o momento da criação não passa de uma clareira, um instante no qual o ser se deixa vislumbrar em meio aos entes. Um corpo de carne e osso não suporta em si tais forças. É preciso deixá-las voar, é preciso abrir a boca e gaguejar nossa impotência.
Para Blanchot, toda obra é obra do acaso. E o acaso... O acaso é a vida. A obra é produto de uma biografia, ou a obra exige uma biografia? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Acredito que toda obra existe em estado de possibilidade, espera apenas uma biografia que a encontre. O caos contém o que é e o que poderia ser em estado de não-forma, mas exige um homem, ou mulher que o traga ao mundo dos seres humanos. Alguém que transforme o númeno em fenômeno. Por habitar o mundo do númeno, da coisa em si, por viver na dobra do ser, o poeta dificilmente consegue habitar com tranquilidade o mundo historicamente instituído. Ele está sempre ausente, sempre excluído, sempre fora, de um Fora ainda mais distante que o mais distante dos foras. Não se trata de homossexualismo, alcoolismo, cor da pele, ou drogadição. Aqui não existem campanhas de inclusão. O poeta, o inspirado, é aquele que sente em todo o seu ser, desde menino, o peso insuportável de não poder participar, de ser sempre excluído. É o menino do estar não estando, do ser não sendo. É o menino do olhar que suporta o não-pertencimento, do olhar que não pode habitar o mundo, porque ele, o menino-já-poeta, nem sequer chegou a construir uma casa no corpo e é preciso um corpo para pisar o mundo. N’O processo, do Kafka, há uma cena em que um homem pára diante de uma porta, guardada por um polical, e fica ali esperando a vida toda para poder entrar. Quando por fim decide perguntar se pode ou não passar para o outro lado, o policial o olha fixamente e responde:
- Até o momento esta porta esteve sempre aberta, esperando só por você, mas você não se decidiu a entrar. Agora vou fechá-la e ela ficará fechada por todo o sempre.
Quem desejaria um destino destes?