sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Costureira de Malditos


Mancha de batom no colarinho dos executivos
Cafetina de Avenidas tão prostituídas
Augustas e Paulistas em tumbas tão angelicais
Que esconde negros transparentes no fundo do quintal
São Paulo, colo caloroso de bichas ricas
Carrasco cruel de bichas pobres
São Paulo,
Megalópole provinciana
teu concreto te fez menos Brasil
Aqui as crianças não são felizes
com teus meninos de rua
teus cachorros de rua
tuas mulheres de rua
teus homens de rua
Existe luz pra fora dos teus túneis?
És generosa, mas só para aqueles que aceitam tuas mentiras
Os que não se vendem, nem podem nascer
Pelas rugas da tua face correm lágrimas dos teus rios de esgoto
São Paulo da arte-politiqueira
Da vida-politiqueira
Da imprensa-politiqueira
Nova Iorque periférica
Será que não percebes quanto é ridícula tua diversidade comprada em lojas de butique?
Certa vez, o menino de tênis bamba foi visitar o museu numa excursão da escola e escreveu na última página do caderno:
- Um dia ainda te conquisto!
O que você fez do menino, São Paulo?
Lá vai São Paulo com seus bancos, bancários e banqueiros,
Suas luzes e seus carros
Descendo a ladeira
Movimento que não é mudança
Herança que não muda de mãos
Queria tanto teu colo
Mas teu verde é muito longe de casa
São Paulo e teus poetas de plástico?
São Paulo e teus rappers de plástico? Teus rockers de plástico?
Teu samba pra inglês ver?
Enfia esse teu papo progressista no rabo
Aqui tudo é público e obscuro
Conheço teus comentários sinistros na calada da noite
Teus filhos crescem, casam e morrem sem nascer
Não existe vida, só trabalho
Moloch dos trópicos
Auschwitz tupiniquim
Seio de silicone
Xuxa xorando na tv
Futebol sem fim
Black label e bagaceira
(Pinga com cobra)
Dentes brancos e boca banguela
Folha e facebook
Estocolmo e Luanda no mesmo país
"Nada me dais
nada me tirais
nada me sois que eu me sinta"
Ainda assim,
O meu dono é a solidão.

* Clique sobre o nome da cidade (São Paulo) e  um link se abrirá que dialoga com os versos.

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