quarta-feira, 18 de maio de 2011

O ENORME PESO DO NADA

O objetivo do presente texto... Não, assim, não. Formal demais. Não é minha cara... “A verdade, meu amor, mora num poço, é Pilatos lá na Bíblia quem...” Também não. Ainda não é o que eu queria. Todo texto é uma escavação... Uma busca... Um parto... Há escritores que acreditam que o leitor não deve ter contato com esse processo. Ao leitor, segundo tais autores, deve ser ofertado o magma e só. Acho válido, mas não consigo trabalhar assim. Quero tirar o leitor pra dançar e dizer sinceramente ao pé do ouvido que estou tão perdido quanto ele... Daí meu gosto por reticências. Estou escavando também, não tenho certeza do que quer que seja. Incomoda-me muito o fato de meio mundo hoje escrever como se conhecesse cada detalhe do cosmos a que deseja dar a luz. Eu sou míope, enxergo muito pouco do outro lado. Há uma neblina densa que envolve o ambiente. O que vejo pode ser e pode não ser. Daí, como já disse, meu gosto por reticências... Nunca sei se estou acertando.
            Mas não é sobre as reticências que quero tratar. Não aqui. O objetivo do presente texto, como diz o excerto do Noel Rosa aí em cima, é a verdade. Somente a verdade, nada além da verdade.
            Comprei, ainda ontem, um livro sobre tarô surrealista. Sou ligado ao ocultismo, mesmo que me considere um cético. Na verdade, (que verdade?) nunca conheci cético que não fosse crente. Crente na ciência... Na Arte... Num destino grandioso para a humanidade... Numa ética laica. Ninguém consegue suportar sem subterfúgios “o enorme peso do nada”, como diria Joseph de Maistre.
            Esqueçam Berkeley, se levarmos em consideração as melhores ferramentas que temos, a razão e os sentidos, todas as evidências, desde o nosso lugar no Universo, até tudo o que tocamos, vemos e ouvimos, nos levam a crer que nossa existência aqui na Terra é fruto de uma miríade de acasos e coincidências e que a vida não tem fim Sublime algum. No final, nossas cinzas estarão espalhadas pelo chão de qualquer boteco, feito as cinzas de Murphy no final cômico e triste do livro de Samuel Beckett. Sem fantasias, o nada é a verdade. E agora? Como lidar com isso?E agora que tanto faz escrever como não escrever diante da noite imensa do tempo? Mesmo os vencedores perderam. Um dia a língua em que escrevemos não existirá. Um dia o planeta no qual nos preocupamos com as contas a pagar e com amor vai se dissolver no espaço, ainda menor que o grão de areia que respiramos sem perceber e que nos faz espirrar e praguejar logo em seguida. “A vida está cheia de som de fúria rumo ao nada”. Diz Macbeth, num momento de rara clarividência, logo depois da morte de Lady Macbeth. O nome de Deus não é Javé ou Alá, o nome de Deus é Tanto Faz.
            Sinto cheiro de carniça. A verdade, meu amigo, é uma carranca malcheirosa. De certa maneira, todos somos o boi esfolado de Chaïm Soutine. Você consegue sentir o cheiro podre das cores e o zumbizar das moscas?
            É por essas e outras que eu quero que a verdade se foda. A escrita é a coisa mais importante pra mim. Então, que mintam pra mim e me digam que eu escrevo como um Deus. Mintam-se todos uns aos outros. A crítica, como tudo o mais, é um lance de dados, não tem nada a ver com mentira ou verdade. Se a moça é estrábica, de canelas finas e barriguda, mintam pra ela e digam que ela é a cara da Audrey Hepburn em Tiffany´s Breakfast. Se tiverem estômago, dêem-lhe também um beijo na boca, não precisa pôr a língua nem nada, só um selinho que é pra ela acreditar de fato. Todo ser humano merece um selinho de vez em quando.
            Nietzsche, que acertou em tudo, disse que “temos a Arte para não perecermos em consequência da verdade.” Eu diria que não só a Arte, mas a ciência, a religião, o amor, a amizade, tudo isto existe para não perecermos em consequência da verdade. Os homens construíram a humanidade e o progresso para fugir da verdade. O Vácuo uiva no fundo da Caverna. Acho que foi Nietzsche também, sempre ele, quem cravou: “Se conhecêssemos a Verdade, ela nos aniquilaria”. Ou é isso, ou é qualquer coisa assim.
            Não fui dotado dos genes da Felicidade. Desde menino, a sombra negra sempre me acompanhou, silenciosa e sorrateira, junto à respiração, como o olhar de um urubu. Eu podia estar jogando bola, eu podia estar jogando bem. De repente, sem mais nem menos, vinha o vazio e a certeza de que alguma coisa terrível aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Deus era um alívio nessa hora. Nietzsche nunca perdoou a razão por ter destruído sua fé. Eu também não. Ainda rezo às vezes, mas não é mais a mesma coisa, não existe conforto. Tomo um comprimido. Bebo um copo com água. Peço à minha mulher pra repetir que tudo vai ficar bem. Nada alivia. É preciso aprender a conviver com a verdade e suportar sua visão desoladora e seu cheiro de ruína.
            Em verdade, em verdade vos digo que estamos mesmo é num mato sem cachorro e que chove “uma triste chuva de resignação”. Do outro lado da estrada, a morte vem a galope como uma puta com as tetas de fora.

Imagem: Beef carcass paintings, de Chaïm Soutine