terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ao Longo do Caminho


And in the end
The love you take
Is equal to the love you make.

The Beatles

            Desci as escadas do prédio porque precisava respirar. Não suportava mais ouvir os soluços da minha mãe, no quarto dela,  e aquele cheiro de flores e mortos flutuando pela casa, deixando o ar tão denso que, se quiséssemos, poderíamos cortar a atmosfera com um punhal.
            Era mês de janeiro, um calor dos diabos. A rua não tinha aquele cheiro do nosso apartamento, mas, mesmo assim, continuava difícil de respirar lá fora por causa do calor. Havia dias que a moça do tempo anunciava uma chuva forte pro dia seguinte, mas, no dia seguinte, a chuva nunca vinha. Todas as tardes, o céu ficava carregado, com umas nuvens pretas bem feias, mas depois anoitecia e amanhecia de novo e lá estava o Sol, Amarelo e Soberano, como sempre. Eu ficava imaginando que ele, o Sol, tinha uma boca, e que quando todos se deitavam pra dormir, ele abria sua boca enorme e engolia as nuvens.
            Minha garganta estava doendo, ou porque estava ficando inflamada, (ela ficava sempre inflamada, só melhorou uns tempos depois, quando retirei as amídalas numa operação)  ou porque eu estava com aquela tremenda vontade de chorar. Tudo em mim estava pesado... tudo parecia pesar uns quinhentos quilos... os braços... as mãos... as pernas... o coração... a garganta... no entanto, eu não chorava. Só queria chegar até as escadas da igreja. Ela, a igreja, ficava em frente à praça, bem no centro da Cohab. Sabia que os outros moleques estavam todos lá. Eles sempre ficavam na rua até tarde... principalmente... quando eram as férias e fazia calor... E agora era janeiro e não chovia havia dias.
            Estavam todos sentados, mas se levantaram quando viram que era eu quem estava chegando:
            - E aí Dan? Beleza? – Disse o Lindo pegando na minha mão. Chamavam ele de Lindo não porque fosse bonito, muito pelo contrário, é que o nome dele era Lindomar. Dezessete anos, um metro e cinqüenta, o Lindo, magro, feinho, mas não perdia uma briga, era o baixinho mais ligeiro de todas as Cohabs. A fama dele corria longe.
            - Beleza, Lindo.
            - Senta aí, Dan. – Disse o Piolho, irmão mais novo do Lindo.
            Sentei.
            Eu tinha saído de casa porque não suportava mais a pressão, mas os olhos dos caras e o silêncio que aconteceu depois da minha chegada, fizeram com que eu me sentisse ainda mais pressionado.
            - Alguém tem um cigarrinho aí? – Perguntei pra quebrar um pouco o gelo.
            - Eu tenho. Pega aí. – Disse o Boião me jogando o cigarro.
            - Tem fósforos também?
            - Tenho. – E jogou a caixa de fósforos pra mim.
            Acendi o cigarro e fiquei quieto. Eles também continuaram quietos, me olhando. Queriam que eu desse logo alguma notícia. Só que eu não tava a fim de falar. Não mesmo. Acho que o Gordo percebeu.
            - Essa mina aí dá em troca de três geladinho e um sabugo de milho. – Ele falou, apontando com a cabeça uma menina que acabara de passar lá do outro lado, na praça.
            - Três geladinho e um sabugo de milho?
            - Sim senhor, três geladinho e um sabugo de milho. Aquele moleque loiro que mora lá no prédio 8 já comeu ela. Ele que me falou.
            - Ô Gordo, a menina dar por três geladinho até que eu entendo, mas que diabos ela ia fazer com o sabugo de milho? – Isso aí quem falou foi o Boião.
            - E eu é que sei. O moleque que me falou e deve ser verdade mesmo, você não viu a cara dela não? Tem uma carinha de safada não tem não?
            - Lá isso tem, Gordo, mas esse negócio de sabugo só se for pra ela enfiar no teu cu. – Disse o Lindo e nós todos rimos, até eu. Mas aí, foi como se todos se lembrassem no mesmo instante, e caiu sobre nós, ali, na frente da igreja, um silêncio ensurdecedor, como se não fossem dez ou doze meninos que estivessem ali, mas dez ou doze homens tristes e experientes.
            - E aí, como ele tá? – Interrogou por fim, o Lindo.
            - Tá indo né, Lindo, mas acho que não vai muito longe não. Quando o médico deu alta, foi só pra ele morrer em casa. Não sei se passa dessa noite. Minha mãe tá foda, não consegue sair do quarto.
            - Que bosta!
            - É, que bosta!
            Estávamos falando do meu irmão mais velho, Samuel. Uma lenda lá na Cohab até hoje. O cara que nunca tinha perdido uma luta. O líder do nosso bando, Os guerreiros. O cara que era uma referência e um orgulho pra todo mundo. O melhor jogador da zona Leste. O amor da minha mãe. O cara que trabalhara desde os onze anos, quando nosso pai foi embora, para ajudar minha mãe a sustentar a casa e a mim. O meu herói. O capoeirista que uma vez, quando estavam cavando os alicerces para construir novos prédios, e choveu, e os buracos encheram de água, e eu estava nadando pelado e apareceram três moleques que ninguém nunca tinha visto por ali e quiseram comer minha bunda, surgiu do nada e bateu nos três sozinho e salvou meu rabo. O cara que sempre tinha levado as porradas da vida por mim. O cara  que parecia imortal pra mim e que agora estava morrendo aos dezessete anos com uma doença que os médicos dos hospitais públicos não conseguiam e também nem se esforçavam pra identificar. Samuel, puta que pariu, meu irmão.
            - Vamo fumá um baseado aí. Tá calor demais. – Sugeriu o Boião.
            - Aqui não, o Padre pode aparecer. A gente tem que respeitar.
            - Lá na praça então.
            - Espera aí, Dan, que a gente já volta.
            - Espera aí é o caralho eu também vou fumá essa porra.
            - Rapaz, se teu irmão descobre! Ele nunca ia te deixar fumá.
            - Descobrir de que jeito, Lindo?
            - Tu tá certo, vamo com a gente lá na praça então.
            Fumamos. Eu dei só um pega e já fiquei muito louco, dando risada a toa. Foi bom sair um pouco de mim, até porque eu já não tava mais agüentando ser eu mesmo. Até a dor na garganta sarou.
            Voltamos pra frente da igreja e ficamos todos ali. Sentados bem perto uns dos outros, quase abraçados, pra aumentar a energia que corria entre nós, contando mentiras e dando risadas, até que começaram a falar do meu irmão e inventaram façanhas e mais façanhas para ele. Como daquela em que ele fez cinqüenta e cinco gols numa partida de dois tempos de quinze minutos, nenão Piolho? Ou da vez em que beijou dezessete meninas num único baile balck! Ou da vez em que bateu em dezoito caras sozinho, ta lembrado, Chupeta? Ou da vez em que comeu trinta e oito bananas em doze minutos.
A imagem imensa do meu irmão veio vindo na minha direção... entre os prédios... ainda era ele, Samuel, mas estava maior que todos os prédios... eles, os prédios, não batiam nem na cintura dele... veio vindo... um sorriso grande rabiscado nos lábios... cantando three litle birds, do Bob... veio vindo... uma caneta na mão... ficou bem na minha frente... sorriu ainda mais bonito e me entregou a caneta.
- Conte a nossa história. – Disse – não deixe que isso desapareça pra sempre.

***
            Acho que desmaiei. Quando acordei, estavam todos em volta de mim, dentro da igreja e o Padre com um pano encharcado em álcool na mão.
            - Tá melhor, Dan?
            - Tou bem. Que aconteceu?
            - Você passou mal. – O padre falou.
            - Deve ser o calor. – Disse o Lindo e piscou  pra mim com malícia.
            - É, acho que foi o calor. – Repeti e pisquei de volta.
            - Já é tarde. Vão embora meninos. Podem ir todos pra casa.
            - Posso ficar um pouco, Padre? – Perguntei.
            - Claro filho. Quer conversar?
            - Não Padre, eu só queria fazer uma oração, aqui, sozinho.
            - Tudo bem. – e virando-se pros outros – Vamos... vamos... todos pra casa,  já. Chispa, chispa.
            Despediram-se e foram embora contando alto grandes mentiras.
            - Tem certeza que não quer conversar?
            - Tenho Padre. Vou só fazer uma oração rapidinho e vou embora.
            - Está se sentindo bem?
            - Sim Padre, é claro. Pode ficar tranqüilo.
            - Então vou lá pros meus aposentos. Vou deixar aporta só encostada tá bom?
            - Beleza.
            O padre foi pro quarto dele que ficava nos fundos da igreja. Eu me ajoelhei diante do Cristo crucificado. Juntei as mãos e comecei: Senhor das coisas que te pedi até hoje, o Senhor nunca me deu nada. Eu pedi uma bicicleta e nunca ganhei, eu pedi que meu pai voltasse pra casa e ele nunca voltou. Eu pedi que minha mãe arranjasse algum outro emprego que não fosse de empregada doméstica, e ela continua lavando banheiros até hoje. Mas agora, Senhor, é sério. Dizem que não cai uma folha de uma árvore se o Senhor não quiser... então, Pai, eu peço a Ti que tudo pode: Um milagre. É a última coisa que vou pedir, um milagre, depois nunca mais peço nada nessa vida. E aí rezei um Pai Nosso, uma Ave Maria e fui-me embora.
            Quando cruzei a porta da igreja, houve um relâmpago imenso, acompanhado de sonoro trovão. Depois houve outro relâmpago, e mais outro, e mais outro, e ainda outro. Sem dúvida, nessa noite, a chuva ia cair. Atravessei correndo a praça, os primeiros pingos já caiam grossos. Uma mulher, na rua, com um carrinho de bebe, também começou a correr. Eu vi um opala preto virando a esquina e o barulho da sirene da polícia atrás. A cena toda aconteceu diante dos meus olhos, como se fosse em câmera lenta. Tentei gritar, mas a coisa toda aconteceu antes do grito sair da garganta. O opala  pegou o carrinho em cheio e a mulher de raspão. Eu só vi o pacotinho voando pelos ares (a mulher caiu pra trás) e indo parar bem em cima de uma moita. Só aí meu grito saiu. O opala já sumia na outra esquina. A viatura parou em frente à igreja. A mulher gritava desesperada, em choque. O policiais viram o carrinho de bebê caído, a mulher se descabelando. Eu voltei a mim e corri até a moita. Tinha medo. Não queria nem olhar. Ó Deus! Então escutei o choro de bebê bem alto. Peguei o pacotinho nas minhas mãos. Tirei a fralda rosa pra olhar. O rosto negro com olhos verdes olhava assustado pra mim e berrava... berrava... berrava... Levantei a menina, que mexia as perninhas, na altura da minha cabeça...
            - Ela está bem!!! – Gritei.
            Os policiais e a mãe correram pra mim. Entreguei a menina à mulher. O padre abriu a porta da igreja e gritou:
            - Gente, o que está acontecendo aí?
            A tempestade despencou violenta.
            Eu?
            Eu cai de joelhos e chorei, por fim. Ali, embaixo dos pingos grossos que chegavam a doer quando batiam na pele da gente.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011