terça-feira, 30 de novembro de 2010

NOVO LIVRO DE MÁRCIO ALMEIDA



Márcio Almeida lança
A minificção do Brasil:
 em defesa dos frascos & dos comprimidos
livro raro na crítica do país sobre o gênero do futuro

            Com uma variedade de nomes – miniconto, conto breve, microrrelato, minitexto, relato microscópico, mininarrativa, ficção minimalista, nanonarrativa, escritura fragmentária, conto fractal, entre muitos outros, a minificção é, hoje, segundo Lauro Zavala, um de seus mais importantes especialistas, “o gênero mais didático, lúdico, irônico e fronteiriço da literatura”, porque “incita os leitores  a tornarem-se viciados em literatura.” Criado pelo mineiro Elias José, no início da década de 1960, o miniconto é hoje objeto de pós-graduação em universidade como a de Austin, Texas; sucesso absoluto através da Coleção O Bairro, de Gonçalo Tavares, na Europa; motivou o Prêmio Jabuti ao minicontista Leonardo Brasiliense, em 2006; best-seller através do livro Os cem menores contos brasileiros, organizado por Marcelino Freire; tema de dissertações e teses acadêmicas, como a de Marcelo Spalding e Pedro Gonzaga; pauta de matérias especiais da Folha de São Paulo; gênero de gênios como Dalton Trevisan e Adrino Aragão; mantenedor de publicações especializadas no mundo como a cult El Cuento, El cuento en red, Ekuóreo, The rose metal press field guide to flash fiction, Fictícia, Bestiário, Veredas, Página do livro, A casa das mil portas, Minimínimos, Twitteratura, entre tantas outras, além de ser responsável por um novo boom de leitura nos Estados Unidos e de consolidar-se com significativa importância no mercado editorial brasileiro e latino-americano.
            Minificção do Brasil – em defesa dos frascos & comprimidos, de Márcio Almeida, tem 313 páginas e foi lançado no final de novembro pela Editora Clube de Autores, de São Paulo. É uma das raríssimas publicações no país exclusivamente dedicada à análise do gênero através da obra de mais de 30 autores, com o objetivo de reconhecer e dar visibilidade à inventiva, ao talento e ao prazer de uma leitura rápida, mas vertical, contribuindo com seriedade e competência para a constituição de uma referência que envolve 45 anos de produção de mininarrativa, com metodologia baseada nos melhores autores sobre o gênero do mundo.
            Entre os autores analisados estão Elias José e os escritores pioneiros dos “Cadernos 20”, de Guaxupé – Francisca Vilas Boas, Marco Antonio S. de Oliveira e Sebastião Resende; Adrino Aragão, Uilcon Pereira, Pedro Maciel, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Carlos Herculano Lopes, Adriana Versiani, Adalgisa Botelho de Mendonça, Marcelo Spalding, Marcelino Freire, PJ Ribeiro, Marcelo Freitas, Oskar Kellner Neto, Fernando Bonassi, Silvana  Guimarães, Lia Beltrão, Nina Rizzi, Romina Conti, Tatiana Alves, Valéria Tarelho, Márcia Maia, Mariza Lourenço, Cida Pedrosa, Virna Teixeira, Gertrude Patrícia Fahne. O livro inclui o ensaio lítero-fotográfico intitulado “Gregorovius & Lucana”, de Adriana Versiani e Dioli, capa e diagramação de Oskar Kellner Neto.     
            Márcio Almeida, Oliveira, MG, 1947, é professor universitário, mestre em Literatura, jornalista, autor de 41 publicações, inclusive o livro de minicontos Estranhos muito íntimos, bilíngüe, (Editora Multifoco, RJ, 2010) e várias no exterior; detentor de dezenas de prêmios literários em nível nacional, crítico de raridades há décadas, com efetiva produção em revistas eletrônicas como Cronópios, Germina, Caos e Letras, Tanto, Iniciação Científica, além do Suplemento Literário do Minas Gerais, Dezfaces, Pensar, Gazeta de Minas, Agora (Divinópolis) e outros. Dedica-se há dois anos à produção do livro “História Contemporânea de Oliveira”, com apoio da Eletrobrás e uma equipe de 10 profissionais da área, com lançamento previsto para o dia 19 de setembro de 2011.
Como ter o livro
O livro não será vendido em livrarias ou bancas, e os interessados deverão fazer pedido pelo endereço virtual http://www.clubedeautores.com.br/book/34366 - a_minificcao_do_brasil_em_defesa_dos_frascos_dos_comprimidos.   
Contato com o autor: marcioalmeidas@hotmail.com

domingo, 28 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ROLETA

...a  matéria estava toda condensada e então houve o Big Bang.
Gozei forte, de olhos fechados no rabo dela.
Ela me falava da pequenez das nossas vidas. Da pequenez dos astros e do nosso amor de ontem.
Criou-se o universo, embora imensurável, o universo é composto de um número limitado de matéria. Não é infinito, o Universo. Já o tempo...
- Eu não consigo abrir as mãos. - ela disse e nosso amor estava todo condensado como um amendoim na palma da mão dela.
A matéria se combina das mais variadas formas. Imaginem que a combinação perfeita de átomos, de moléculas, de letras, números e partículas tivesse nos levado, ela e eu,  àquele momento. Todas as coincidências, todos os acasos tinham me levado até ali, até aquele quarto, àquele final, àquele rabo maravilhoso que agora eu perdia. Perdia? Difícil. Eu sou o Deus deste mundo.
- Eu ainda te amo, mas não quero mais te ver... nunca mais...
O casal de gatos dela brincava no tapete. Não são inocentes (os gatos nunca foram inocentes) carregam no olhar o brilho de quem conhece todo o mistério. A crueldade faz parte do amor dos gatos. Já meu cão, meu cão tinha o coração puro, era todo ternura, mas não sabia. Ele, meu cão. Os gatos sim sabem de tudo aquilo que é pra sempre no tempo. O princípio e o fim de um rio ainda é o mesmo rio, eles diziam pelo olhar, os gatos. Filhos da puta.
Haverá trilhões e trilhões e trilhões de combinações, eu sei. Mesmo essa combinação de palavras já existe e tornará a existir depois que se for. Os átomos dançarão sozinhos, farão surubas imensas, os átomos. Juntar-se-ão... Perder-se-ão. Durante o inimaginável do tempo, eles vão se unir e se separar. A matéria vai continuar a se expandir e expandir, mas depois vai voltar a condensar e condensar de novo até o mesmo grão de antes do Big Bang. Nada de novo sob o Sol, como disse Salomão. E então o mesmo casal de átomos vai se encontrar novamente e dizer sim e todas as combinações tornarão a se repetir na noite imensa do Tempo que não é um rio, mas uma rocha, uma serpente devorando o próprio rabo. Dejà vu. Um carrossel incessante que gira e gira para delírio de Deus.
- Vai embora agora... Ela diz, puxando o lençol... por favor saía de vez da minha vida...
Eu limpo, na ponta do lençol branco, o pau sujo de merda e porra. Um cu contem o mistério do mundo. O buraco negro, como o próprio nome diz, é o cu do Universo. É lá que está a resposta, se é que há alguma resposta.
Eu me levanto. Sou o demônio. Um demônio de mármore. Toda maldade me é sensual. É no sexo mais depravado que eu, o Demônio de mármore, vivo. Por isso Buda, Cristo e todo o resto tentaram ficar longe da carne, porque a carne é o sexo e o sexo é o mal,  quanto mais sujo melhor.
Agora ela chora. Os gatos continuam brincando no tapete do quarto. Tudo isso se repetirá infinitamente. Embora grande, continua a ser uma gaiola, essa na qual nos debatemos. Estamos presos, como o corvo no laboratório de Paracelso. Meu pau ainda fede. Não me importo. Cheiro de merda me excita. Eu abandonaria a crueldade por ela, mas ela não acredita mais. Gaviões, tigres, leões e lobos me esperam lá fora. Eles sabem que sou um deles. Eu posso me transformar em tudo o que quiser, basta imaginar. Os gatos se arrepiam quando me aproximo deles. Acaricio a vagina da gatinha e o pênis do gato. Toda perversão me agrada, mas ela não para de chorar.
- Vou embora hoje. – Digo para consola-la – Mas amanhã voltarei da mesma forma que ontem. Divirta-se um pouco enquanto me espera. - Ela não levanta a cabeça do travesseiro.
Caminho até a janela... abro minhas asas... entoo um ditirambo... os bichos peçonhentos me esperam no leito da floresta. As plantas murcham quando passo. Meu lar é a ruína. Se fosse eunuco, seria um anjo de luz. Toda maldade é sensual.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MALÍCIA FEMININA


HOJE


Minha menina dormiu a tarde toda comigo


E eu fiquei sem saber


se ela gostava de mim,


ou de dormir.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FRIDA KAHLO: MARAVILHOSA E VISCERAL

Que maravilha!

Consta nos diários  de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus,  consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma divisão. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente, basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o  Titicaca,  lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.

A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Basta ver a nossa religiosidade, misto de religiões africanas, européias e indígenas. O vodu haitiano, ou o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, ilógico aqui quer dizer aquilo que não obedece a uma lógica cartesiana, e o onírico, o imaginado.

É neste sentido que o “Maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda  assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar. Em Frida o ilógico é a única lógica. Suas metáforas parecem brotar tanto do centro de sua Terra, (observar os quadros O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947)) quanto de dentro dela mesma (observar as telas O veado ferido(1946) , Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos na minha opinião).
O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949)
                                                              Flor da vida (1943)
O Sol e a vida (1947)
O veado ferido(1946)
Árvore da esperança (1946)
                                                              A coluna partida (1944)
Se prestaram atenção, no título deste artigo tem dois adjetivos, um deles, maravilhosa,  já foi explicado nos parágrafos anteriores. Para explicar o outro adjetivo, visceral, que vem de vísceras e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? Vamos ter de dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista. Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor (É possível criar sem sofrer?). Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa, a pintora, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola.  Aos dezoito anos, ela sofreu um acidente de automóvel, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais as dúvidas quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes na obra da artista. Para mim, que sou um romântico declarado, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e... Frida faz isso. Sua Arte é tão, íntima, tão pessoal, tão “ego”, que se torna universal, humana, “self”. Toca o inconsciente coletivo. Suas telas são todas metáforas de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.
          
Outro aspecto importante que não poderia ser deixado à margem é a questão da Arte feminina. A artista mexicana é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo feminino, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo, (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932)) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935).
                                                             Nascimento (1932)
                                                          A cama voadora (1932)
                                                       Uns quantos golpes (1935)
Toda a obra de Frida Kahlo é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da pintora mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, a tela As duas Fridas é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. Neste trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim,  leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia  corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.
                                                                   As duas Fridas
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando...  E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte quatro anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu /  e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e  palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.  
                                                                     A Máscara (1945)