sábado, 11 de dezembro de 2010

BENEDITA

Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.
Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.
O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente...

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

NOVO LIVRO DE MÁRCIO ALMEIDA



Márcio Almeida lança
A minificção do Brasil:
 em defesa dos frascos & dos comprimidos
livro raro na crítica do país sobre o gênero do futuro

            Com uma variedade de nomes – miniconto, conto breve, microrrelato, minitexto, relato microscópico, mininarrativa, ficção minimalista, nanonarrativa, escritura fragmentária, conto fractal, entre muitos outros, a minificção é, hoje, segundo Lauro Zavala, um de seus mais importantes especialistas, “o gênero mais didático, lúdico, irônico e fronteiriço da literatura”, porque “incita os leitores  a tornarem-se viciados em literatura.” Criado pelo mineiro Elias José, no início da década de 1960, o miniconto é hoje objeto de pós-graduação em universidade como a de Austin, Texas; sucesso absoluto através da Coleção O Bairro, de Gonçalo Tavares, na Europa; motivou o Prêmio Jabuti ao minicontista Leonardo Brasiliense, em 2006; best-seller através do livro Os cem menores contos brasileiros, organizado por Marcelino Freire; tema de dissertações e teses acadêmicas, como a de Marcelo Spalding e Pedro Gonzaga; pauta de matérias especiais da Folha de São Paulo; gênero de gênios como Dalton Trevisan e Adrino Aragão; mantenedor de publicações especializadas no mundo como a cult El Cuento, El cuento en red, Ekuóreo, The rose metal press field guide to flash fiction, Fictícia, Bestiário, Veredas, Página do livro, A casa das mil portas, Minimínimos, Twitteratura, entre tantas outras, além de ser responsável por um novo boom de leitura nos Estados Unidos e de consolidar-se com significativa importância no mercado editorial brasileiro e latino-americano.
            Minificção do Brasil – em defesa dos frascos & comprimidos, de Márcio Almeida, tem 313 páginas e foi lançado no final de novembro pela Editora Clube de Autores, de São Paulo. É uma das raríssimas publicações no país exclusivamente dedicada à análise do gênero através da obra de mais de 30 autores, com o objetivo de reconhecer e dar visibilidade à inventiva, ao talento e ao prazer de uma leitura rápida, mas vertical, contribuindo com seriedade e competência para a constituição de uma referência que envolve 45 anos de produção de mininarrativa, com metodologia baseada nos melhores autores sobre o gênero do mundo.
            Entre os autores analisados estão Elias José e os escritores pioneiros dos “Cadernos 20”, de Guaxupé – Francisca Vilas Boas, Marco Antonio S. de Oliveira e Sebastião Resende; Adrino Aragão, Uilcon Pereira, Pedro Maciel, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Carlos Herculano Lopes, Adriana Versiani, Adalgisa Botelho de Mendonça, Marcelo Spalding, Marcelino Freire, PJ Ribeiro, Marcelo Freitas, Oskar Kellner Neto, Fernando Bonassi, Silvana  Guimarães, Lia Beltrão, Nina Rizzi, Romina Conti, Tatiana Alves, Valéria Tarelho, Márcia Maia, Mariza Lourenço, Cida Pedrosa, Virna Teixeira, Gertrude Patrícia Fahne. O livro inclui o ensaio lítero-fotográfico intitulado “Gregorovius & Lucana”, de Adriana Versiani e Dioli, capa e diagramação de Oskar Kellner Neto.     
            Márcio Almeida, Oliveira, MG, 1947, é professor universitário, mestre em Literatura, jornalista, autor de 41 publicações, inclusive o livro de minicontos Estranhos muito íntimos, bilíngüe, (Editora Multifoco, RJ, 2010) e várias no exterior; detentor de dezenas de prêmios literários em nível nacional, crítico de raridades há décadas, com efetiva produção em revistas eletrônicas como Cronópios, Germina, Caos e Letras, Tanto, Iniciação Científica, além do Suplemento Literário do Minas Gerais, Dezfaces, Pensar, Gazeta de Minas, Agora (Divinópolis) e outros. Dedica-se há dois anos à produção do livro “História Contemporânea de Oliveira”, com apoio da Eletrobrás e uma equipe de 10 profissionais da área, com lançamento previsto para o dia 19 de setembro de 2011.
Como ter o livro
O livro não será vendido em livrarias ou bancas, e os interessados deverão fazer pedido pelo endereço virtual http://www.clubedeautores.com.br/book/34366 - a_minificcao_do_brasil_em_defesa_dos_frascos_dos_comprimidos.   
Contato com o autor: marcioalmeidas@hotmail.com

domingo, 28 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ROLETA

...a  matéria estava toda condensada e então houve o Big Bang.
Gozei forte, de olhos fechados no rabo dela.
Ela me falava da pequenez das nossas vidas. Da pequenez dos astros e do nosso amor de ontem.
Criou-se o universo, embora imensurável, o universo é composto de um número limitado de matéria. Não é infinito, o Universo. Já o tempo...
- Eu não consigo abrir as mãos. - ela disse e nosso amor estava todo condensado como um amendoim na palma da mão dela.
A matéria se combina das mais variadas formas. Imaginem que a combinação perfeita de átomos, de moléculas, de letras, números e partículas tivesse nos levado, ela e eu,  àquele momento. Todas as coincidências, todos os acasos tinham me levado até ali, até aquele quarto, àquele final, àquele rabo maravilhoso que agora eu perdia. Perdia? Difícil. Eu sou o Deus deste mundo.
- Eu ainda te amo, mas não quero mais te ver... nunca mais...
O casal de gatos dela brincava no tapete. Não são inocentes (os gatos nunca foram inocentes) carregam no olhar o brilho de quem conhece todo o mistério. A crueldade faz parte do amor dos gatos. Já meu cão, meu cão tinha o coração puro, era todo ternura, mas não sabia. Ele, meu cão. Os gatos sim sabem de tudo aquilo que é pra sempre no tempo. O princípio e o fim de um rio ainda é o mesmo rio, eles diziam pelo olhar, os gatos. Filhos da puta.
Haverá trilhões e trilhões e trilhões de combinações, eu sei. Mesmo essa combinação de palavras já existe e tornará a existir depois que se for. Os átomos dançarão sozinhos, farão surubas imensas, os átomos. Juntar-se-ão... Perder-se-ão. Durante o inimaginável do tempo, eles vão se unir e se separar. A matéria vai continuar a se expandir e expandir, mas depois vai voltar a condensar e condensar de novo até o mesmo grão de antes do Big Bang. Nada de novo sob o Sol, como disse Salomão. E então o mesmo casal de átomos vai se encontrar novamente e dizer sim e todas as combinações tornarão a se repetir na noite imensa do Tempo que não é um rio, mas uma rocha, uma serpente devorando o próprio rabo. Dejà vu. Um carrossel incessante que gira e gira para delírio de Deus.
- Vai embora agora... Ela diz, puxando o lençol... por favor saía de vez da minha vida...
Eu limpo, na ponta do lençol branco, o pau sujo de merda e porra. Um cu contem o mistério do mundo. O buraco negro, como o próprio nome diz, é o cu do Universo. É lá que está a resposta, se é que há alguma resposta.
Eu me levanto. Sou o demônio. Um demônio de mármore. Toda maldade me é sensual. É no sexo mais depravado que eu, o Demônio de mármore, vivo. Por isso Buda, Cristo e todo o resto tentaram ficar longe da carne, porque a carne é o sexo e o sexo é o mal,  quanto mais sujo melhor.
Agora ela chora. Os gatos continuam brincando no tapete do quarto. Tudo isso se repetirá infinitamente. Embora grande, continua a ser uma gaiola, essa na qual nos debatemos. Estamos presos, como o corvo no laboratório de Paracelso. Meu pau ainda fede. Não me importo. Cheiro de merda me excita. Eu abandonaria a crueldade por ela, mas ela não acredita mais. Gaviões, tigres, leões e lobos me esperam lá fora. Eles sabem que sou um deles. Eu posso me transformar em tudo o que quiser, basta imaginar. Os gatos se arrepiam quando me aproximo deles. Acaricio a vagina da gatinha e o pênis do gato. Toda perversão me agrada, mas ela não para de chorar.
- Vou embora hoje. – Digo para consola-la – Mas amanhã voltarei da mesma forma que ontem. Divirta-se um pouco enquanto me espera. - Ela não levanta a cabeça do travesseiro.
Caminho até a janela... abro minhas asas... entoo um ditirambo... os bichos peçonhentos me esperam no leito da floresta. As plantas murcham quando passo. Meu lar é a ruína. Se fosse eunuco, seria um anjo de luz. Toda maldade é sensual.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MALÍCIA FEMININA


HOJE


Minha menina dormiu a tarde toda comigo


E eu fiquei sem saber


se ela gostava de mim,


ou de dormir.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FRIDA KAHLO: MARAVILHOSA E VISCERAL

Que maravilha!

Consta nos diários  de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus,  consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma divisão. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente, basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o  Titicaca,  lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.

A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Basta ver a nossa religiosidade, misto de religiões africanas, européias e indígenas. O vodu haitiano, ou o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, ilógico aqui quer dizer aquilo que não obedece a uma lógica cartesiana, e o onírico, o imaginado.

É neste sentido que o “Maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda  assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar. Em Frida o ilógico é a única lógica. Suas metáforas parecem brotar tanto do centro de sua Terra, (observar os quadros O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947)) quanto de dentro dela mesma (observar as telas O veado ferido(1946) , Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos na minha opinião).
O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949)
                                                              Flor da vida (1943)
O Sol e a vida (1947)
O veado ferido(1946)
Árvore da esperança (1946)
                                                              A coluna partida (1944)
Se prestaram atenção, no título deste artigo tem dois adjetivos, um deles, maravilhosa,  já foi explicado nos parágrafos anteriores. Para explicar o outro adjetivo, visceral, que vem de vísceras e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? Vamos ter de dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista. Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor (É possível criar sem sofrer?). Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa, a pintora, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola.  Aos dezoito anos, ela sofreu um acidente de automóvel, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais as dúvidas quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes na obra da artista. Para mim, que sou um romântico declarado, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e... Frida faz isso. Sua Arte é tão, íntima, tão pessoal, tão “ego”, que se torna universal, humana, “self”. Toca o inconsciente coletivo. Suas telas são todas metáforas de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.
          
Outro aspecto importante que não poderia ser deixado à margem é a questão da Arte feminina. A artista mexicana é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo feminino, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo, (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932)) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935).
                                                             Nascimento (1932)
                                                          A cama voadora (1932)
                                                       Uns quantos golpes (1935)
Toda a obra de Frida Kahlo é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da pintora mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, a tela As duas Fridas é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. Neste trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim,  leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia  corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.
                                                                   As duas Fridas
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando...  E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte quatro anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu /  e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e  palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.  
                                                                     A Máscara (1945)


sábado, 23 de outubro de 2010

Para Pensar

"Em 1837 Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de abraços calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem."

O trecho acima está no livro Literatura e Sociedade, de Antonio Candido, página 32 e serve para ilustrar o tamanho da importância do reconhecedor de talentos, do cara que se destaca do grande público e da massa e tem a capacidade e a sensibilidade de sentir e perceber o diferente. Talvez a figura que falte no cenário cultural brasileiro não seja a do escritor de talento, do músico de talento ou do pintor de talento. Talvez o que falte seja o cara que tenha tempo, paciência, boa vontade e generosidade para trazer à tona o trabalho de artistas ainda obscuros. Quando falta esse cara, honesto, bem intencionado e imparcial, as panelas e os conchavos tomam conta e muita gente boa acaba ficando de fora, enquanto outros, cujas obras têm qualidade questionável acabam  em evidência, mais por questões políticas que artísticas.

O que seria de Manoel de Barros sem a resenha de Millor Fernandes no Pasquim? O que seria de Jean Michel Basquiat, sem o artigo de René Ricard? Não estou dizendo que Manoel de Barros e Basquiat não teriam alcançado o sucesso sem as críticas de René e Millor, mas que as coisas teriam sido muito mais dificeis, lá isso teriam. Sem dúvida.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SITE CRONÓPIOS

TEM TEXTO MEU NO CRONÓPIOS. OS QUE QUISEREM CONFERIR É SÓ ACESSAR:
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GRATO

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CAVALOS

É no mínimo estranho encontrar agora, pouco antes do casamento do meu único filho, esse cachimbo que foi de meu avô. O sangue da vida se comunica com a gente das maneiras mais inimagináveis. Chega a ser mórbido o modo como a experiência se repete e a pessoa para quem gostaríamos de dizer: “Você tinha razão o tempo todo”, já não está mais aqui para ouvir que enfim aprendemos.
Ele costumava fumar esse cachimbo enquanto me ensinava a jogar xadrez. Parecia fazer também parte de seu corpo, o cachimbo, um prolongamento de suas idéias e de sua boca enérgica. Era quando a mãe não estava em casa que ele ia me visitar, ou então ele me pegava na saída da escola e passávamos a tarde junto. Meu pai, seu genro, parecia gostar muito mais dele do que a própria filha. Era condescendente, o pai. Ela, a mãe, não conseguia perdoá-lo. Ela nunca conseguiria dizer pra ele: - Eu te perdoo.
- Você precisa aprender a dominar os cavalos. Eles são imprevisíveis. Andam em L. Você pode surpreender o adversário ou ser surpreendido por ele de um instante para o outro. É preciso dominar os cavalos. – Costumava dizer meu avô.
Gostava de jogar com as peças pretas. Nesta altura da vida tinha aprendido a dominar seus cavalos negros, mas nem sempre fora assim. Meu avô foi um daqueles caras que errou feio e errou bastante. Por muito tempo quis sugar o magma da vida, não se conformava em acompanhar apenas o balanço da maré. Ele quis construir novos oceanos, navegar lugares desconhecidos, arrancar com os dentes pedaços da carne cinza das horas. Isto tem um preço, às vezes alto demais. Leu filosofia, escreveu tratados. Estudou artes, pintou quadros. Participou de revoluções, houvesse um lugar onde a tirania e a barbárie ameaçassem o espírito e a liberdade dos homens e lá se ia meu avô. Arma em punho idéias na cabeça, defender o que acreditava. Viajou o mundo. Amou mulheres. Meu pai também gostava de ouvir suas histórias, mas sabia o quanto era difícil e perigoso ter um coração assim... em fogo ardente o tempo inteiro. É preciso aprender a dominar os cavalos.
***
- Ariel – Grita a esposa de dentro da casa – você não é o pai da noiva, nem ela pode se atrasar Deus que nos livre, mas se continuar demorando assim vai atrasar o casamento do nosso filho e o padre avisou que tem dez casamentos para fazer hoje. Casal que atrasar mais de quinze minutos não casa mais.
- Já vou, mulher. – Ele grita de volta da garagem. O cachimbo nas mãos. É um dia frio e lá fora começa a garoar. – É preciso aprender a dominar os cavalos! - repete baixinho olhando o céu de chumbo lá fora, como se alguém por trás das nuvens pudesse ouvi-lo.
***
- Vovô, por que a mãe não conversa com o senhor?
- É uma longa história, filho. Concentre-se no jogo.
- Por que vô? Ela não é sua filha? Por que ela não te pede nem a benção? O senhor é um homem tão bom, todo mundo adora o senhor. Só ela é que não quer nem te ver. Isso não tá certo, vou falar com a mãe. Vou dar uma dura nela. Ela precisa mudar isso.
- Você é só um menino, não se meta em assunto de adulto.
- Mas vô!
- Ponha-se no seu lugar, você é só um menino. Além disso, ela tem os motivos dela. Quem sabe um dia isso tudo passa. Quando estiver maiorzinho você vai compreender.
Eu devia ter uns doze anos nessa época. Ofendia-me quando alguém dizia que eu era só um menino. Eu já fumava e queria agir como um homem, queria também ser respeitado como um homem.
- Por que, afinal de contas, a mãe não conversa com o vô, pai? – Perguntei nessa mesma noite, enquanto tomávamos um leite na cozinha, meu pai e eu. A mãe estava na faculdade de Filosofia. Era a terceira faculdade que ela terminava... E lia, o tempo inteiro, embora nunca conversassem, os mesmos livros sobre os quais meu avô me falava.
- Isso não é da sua conta. Você ainda é muito jovem pra se meter nesses assuntos de adulto.
- Todo mundo diz isso que eu sou jovem... sou jovem... mas eu já sou um homem, sei muito bem compreender as coisas. Vocês deviam me respeitar um pouco mais.
- Você é que devia me respeitar, afinal de contas eu sou seu pai.
- Eu não estou te desrespeitando pai, só queria saber da verdade.
- Tudo bem, já que você quer tanto saber, lá vai... Não é nada de outro mundo. Quando sua mãe tinha uns dez anos, seu avô pegou as coisas dele, montou no cavalo e foi embora de casa com um rabo de saia. Deixou sua vó, sua mãe e seus tios, sem eira nem beira. Sua mãe, que era a mais velha, teve de largar os estudos e trabalhar como faxineira na casa da tia Alice para ajudar no sustento da casa. Cinco anos depois, ele voltou com o rabo entre as pernas, arrependido, sua avó o aceitou de volta e o perdoou, seus tios e tias também. Sua mãe, não. Desde o dia em que ele partiu até hoje, nunca mais trocou uma palavra com ele.
- E isso já tem mais de trinta anos, né?
- Pois é, mas você conhece a sua mãe. É a melhor pessoa do mundo, desde que você não pise na bola com ela.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem. Vem logo se arrumar. A gente vai perder o casamento do João!!!
- Já vou... já vou...
- Agora!
- Estou indo.
***

Era mil novecentos e oitenta e eu tocava numa banda punk quando fui visitá-lo no hospital. Estava morrendo, meu avô. Efisema pulmonar. Ele fumara demais por tempo demais. Já estava bem velhinho, encarquilhado, acho que nos últimos anos, ele tinha encolhido uns dez centímetros, era o contrário de mim que crescia como um uma girafa acasalando. Um adolescente ao contrário, meu avô. Estava dormindo quando eu cheguei, tinha um cano de plástico em forma de anzol espetado na boca e sondas nos braços. Deus o tinha fisgado. Não era um anzol muito especial aquele em sua boca, não para um peixe tão importante.
Eu me encostei do lado da cama e segurei a mão dele. Acariciava com meu dedão as costas de sua mão. Até os pêlos dos dedos estavam totalmente brancos.
Ele abriu os olhos, devagar. Parecia que as pálpebras pesavam uma tonelada. Queriam se fechar pra sempre, mas ele era um cara duro... cada ruga de seu rosto desvendava um rosário de erros e acertos. Era só um homem, mas qualquer mulher que tivesse um pouquinho de alma gostaria de beijá-lo na boca naquele momento. Não era um velho ali, diante de mim, era o mistério da vida com tudo o que ela tem de tristeza e de alegria.
- Que bom que você veio, filho – Disse – mas que cabelo ridículo é este? - Eu fui um daqueles caras que teve uma adolescência rebelde e prolongada, talvez herança do meu avô. Nos últimos tempos, tinha me afastado de toda família, até do meu avô. A gente faz cada bobagem nessa vida.
Passei a mão nos poucos cabelos que ele tinha na cabeça.
- Não fala nada vô, descansa. Eu só quero ficar aqui com o senhor.

- Eu só gostaria de ter o meu cachimbo aqui. – Sorriu. Respirou outra vez com dificuldades – Você guarda alguma mágoa minha, filho? Eu fiz muitas coisas erradas... muitas vezes...
- O rock n´ roll não julga ninguém vô.
- Que mané rock n´ roll... eu estou falando é da vida.
- Eu sei porque a mãe não fala com o senhor.
- Eu sei que você sabe. Está magoado com tudo o que aconteceu?
- Não vô, todo mundo faz cagada.
- Você acha que algum dia ela vai me perdoar?
- Já perdoou vô, mas é orgulhosa demais pra admitir isso. Acho que ela queria que o senhor fosse até ela, talvez de joelhos, pra pedir perdão. Nesse assunto de vocês ela ainda não cresceu. Continua estudando como uma doida só pra te provar alguma coisa. Talvez ache que você não a ame, que o senhor nunca a amou de verdade. Ela é exigente no amor. Acho que só estuda tanto porque acha que assim um dia o senhor vai admirá-la e amá-la de fato.
- Eu a amo mais que tudo. – Disse e pareceu se engasgar com a própria saliva. Soluçou. - Vocês também estão brigados, não é? Seu pai me disse.
- É que ela é muito mandona... exige demais dos outros.
- Todos nós dessa família, e isto inclui você, tem esse coração impulsivo e em brasas. Mas você se lembra o que eu te dizia quando jogávamos xadrez? É preciso aprender a dominar os cavalos, caso contrário, seremos derrotados... fracassaremos... seja no jogo... seja na vida.
Quando saí do hospital naquele dia, os olhos dele me acompanhavam. Acho que olhei umas quatro ou cinco vezes pra trás e ele continuava olhando para a porta de vidro, além de observar a minha partida, esperava, muito mais, que alguém chegasse. Mas esse alguém que ele esperava não foi vê-lo e então, antes de outro dia amanhecer, ele morreu. Existem homens que se tornam imensos quando estão morrendo. É necessário, mais que viver, ser homem o bastante para morrer sem espernear.
No funeral havia muita gente. Contavam histórias e mais histórias sobre meu avô. Ele tinha de fato muitas histórias. Minha mãe estava lá. Não quis nem que meu pai permanecesse por perto. Ficou agachada num canto. As lágrimas grossas escorrendo em silêncio pelo rosto. Ela não deu um pio. Quando desceram o caixão, aproximou-se da cova e jogou um punhado de terra. Acho que, só neste dia, ela envelheceu uns quinze anos, talvez mais. O cabelo, no decorrer do enterro, de negro ficou totalmente branco. As rugas despencaram de uma vez sobre os lábios. Era triste ver o quanto ela sofria. Tentei abraçá-la, mas ela me repeliu. Queria ficar só com sua dor como um canceroso que se agarra a seu tumor enquanto ele o mata.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem.
O homem acaricia o cachimbo em suas mãos como um menino acaricia seu cachorro companheiro. Guarda o objeto no bolso da blusa e pensa que na volta da festa vai ter de passar em alguma tabacaria e comprar fumo. Pretende também comprar um tabuleiro de xadrez, uma vez que hoje é o casamento do filho e os netos não devem tardar. Nada de novo sob o sol. Experiência que se repete. É preciso domar os... mas longe dali nos estábulos das fazendas que circundam a cidade os cavalos se revoltam... há cavalos baios... negros.. brancos... malhados... eles correm sob as chuva fina em direção ao poente. Aqui na cidade, enquanto caminha para o banheiro, Ariel não sabe nada disso, mas alguma coisa se agita em seu peito.
- Você tinha razão o tempo todo. – Repete baixinho e passa a mão nos cabelos umedecidos pela chuva. Vida que segue.

domingo, 18 de abril de 2010

livro


procurem em clube de autores:

sexta-feira, 2 de abril de 2010

na germina

TEM TRES CONTOS QUE VCS JÁ CONHECEM NA GERMINA. DE QUALQUER FORMA, SE QUISEREM CONFERIR O ENDEREÇO É:

http://www.germinaliteratura.com.br/2010/naberlinda_daniellopes_mar10.htm

ABRAÇO

quinta-feira, 18 de março de 2010

AINDA O AMOR

TE VER
E NÃO MERGULHAR DE CABEÇA DURA NO TEU CORPO
É COMO RETRATAR UM PAVÃO EM PRETO E BRANCO

sábado, 13 de março de 2010

AMOR

Ele deu um beijo nela, abriu a porta do carro e disse:
- Te amo.
- É a primeira vez que você diz.
- Pois é.
Então desceu do carro. Ela ficou lá dentro sorrindo e ele foi caminhando feliz, querendo que aquele momento durasse para sempre. Ao mesmo tempo se sentia fragilizado, um idiota. Era só o início.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O MUNDO É UM MOINHO



O Mundo é um Moinho
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
O Mundo é um Moinho é uma canção composta pelo cantor e compositor de samba Cartola e gravada por ele em 1976, tendo sido gravada anos depois por Cazuza. Reza a lenda que Cartola escreveu a música para sua filha, numa das noites em que passou em claro após descobrir que a mesma estava se prostituindo.

No vídeo aparecem Cartola e o pai.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

BOA SORTE, MACIEL

Às vezes a gente se apega, mesmo sem querer, e acaba gostando de alguém. Que pelo menos seja de uma criança então. Eu estava de saco cheio daquela história de dar aulinhas. Fora de brincadeira, os alunos eram uns capetas e os pais eram piores ainda, ganhava-se mal e, além disso, naquele ano, eu tinha ido parar numa escola do outro lado da cidade, tive até de comprar uma lambreta pra chegar a tempo de uma escola à outra. Sem contar que a toda hora aparecia algum jornalistinha, médico, padre, pedreiro, doutor, encanador e o escambal dando pitacos e oferecendo soluções sensacionais para o problema da educação. Falar é fácil, sempre foi. E a gente é que tinha de trabalhar em três escolas, correr de uma pra outra, fazer dezesseis horas por dia pra pagar as contas, vai vendo. E tinha aqueles coitados que não aprendiam nem se a gente desse cambalhota, ou fizesse malabarismo no meio da sala de aula. E tinha aqueles coitados que chegavam fedendo, doidos pra comer a merenda e esperar o lanche. Como é que alguém pode se interessar por Emílias e Narizinhos quando se chegava com o estômago pregado às costas e as orelhas cheias de bolachas familiares advindas da pinga paterna da noite anterior? E pro meu lado ainda tinha aquela diretora que parecia uma coruja de tanta plástica e de tanta chatice. É preciso dar nome aos bois, digo, à vaca: chamava-se Sandra Siqueira Nunes, ainda deve estar por aí, fodendo a vida dos outros. Não era mesmo fácil, mas eu tinha uma família pra sustentar e não podia entregar a rapadura. “Você reclama de barriga cheia” me diziam. Falar é fácil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Como diria o Machado, suporta-se com paciência a cólica alheia. Isto mesmo. Mas eu tinha de agüentar até o fim do ano. Isto mesmo, só até o fim do ano... e arrastava outra vez minha carcaça cansada pro outro lado da cidade, onde quarenta e cinco alunos de onze anos, mais ou menos, me esperavam em cada sala de aula.
Foi numa tarde em que o calor estava torrando nossos miolos que ele chegou até minha mesa. Todo malandro, negro, cheio de desenhos no corte de cabelo, franzino, com um par de tênis que devia caber uns dois pés dele dentro, querendo puxar assunto pra não fazer a lição, eu andava bem ligeiro com todas essas malandragens:
- O senhor tem uma moto, né professor?
- Uma lambreta.
- É meio feia a moto do senhor, mas dá pro gasto. Sou doido por moto. Meu tio tem uma Hornet, por que o senhor não compra uma Hornet?
- Não tenho dinheiro. O que é que seu tio faz.
- Meu tio é ladrão. Meus tio é tudo ladrão. Tem dois que tá preso e um que morreu. Os outros dois só rouba. Teve um tio meu que deu um tiro na boca de um cara e os dentes saíram pela nuca. Meus tio é tudo doido. O outro só rouba caminhão e faz seqüestro relâmpago. O senhor é casado?
- Sou, por quê?
- Se não fosse, eu ia dar o telefone da minha tia pro senhor. Ela é a maior gostosa, queria que o senhor visse. Mas ela namora com um velho que deve ter mais de cem anos. Ela tem uma filha de dois anos também. A menininha é o maior barato, sabia que a primeira coisa que ela falou foi o meu nome? Vive atrás de mim, ela é o maior barato, professor, é esperta demais. Agora ela já fala tudo. Já sabe até contar. Quer dizer, sabe mais ou menos. Ela conta assim: um, dois, três, cinco, oito, dez, dezoito. Minha tia é meio chata. Às vezes ela me bate, mas quando ela tá legal também ela compra um monte de filme de terror e a gente passa a noite toda assistindo. O Senhor já assistiu O exorcista?
- Já.
- É muito louco, né. Esse é o melhor professor. E diz que morreu todo mundo que fez o filme. Sinistro, né?
- Pois é. Mas e seu pai, Maciel? Sua mãe?
- Meu pai morreu no ano passado, professor. Ele trabalhava pra prefeitura. Cortando as árvore. Aí uns dois anos atrás uma árvore caiu em cima dele. Ele ficou ruim um bocado de tempo. Ai melhorou um pouco e aí no ano passado ele morreu. Minha vó recebe a pensão dele, mas não me dá nada. Quer dizer, ela me dá roupa e comida, né professor e cuida de mim.
- E sua mãe, Maciel?
- Minha mãe bebe. – Ele falou e pela primeira vez pareceu se entristecer. Minha mãe bebe. Não precisava me dizer mais nada, eu podia deduzir o resto. Bateu o sinal.
- E a lição, Maciel?
- Foi mal professor, não fiz não, mas é que essa lição é muito chata. - Eu sabia que a lição era chata mesmo. A escola era um pé no saco pra todo mundo.

***
Durante o intervalo, na sala dos professores, perguntei aos outros sobre o Maciel.
- É um vagabundo. – Disse um.
- Não faz nada. – Disse outra.
- Parece que a família é toda desestruturada. – Disse outra e continuou. – Deu um trabalho danado no ano passado, quando o pai morreu. Arrumava briga todo dia. Arranjava confusão até com os meninos da oitava série. E pior que muitas vezes ele, daquele tamanho, conseguia bater nos meninos grandes.
- Vem alguém na reunião de pais?
- Nunca veio ninguém. – Disse o professor que chamara o Maciel de vagabundo.

***
Quando voltei de novo na sala do Maciel, ele mal esperou que eu terminasse de fazer a chamada. Pegou suas coisas, sua cadeira e foi se sentar junto de mim, na minha mesa.
- Ei professor, hoje eu vou fazer toda a lição. – Disse – Pode encher a lousa que eu vou fazer tudo.
Só que era aula de leitura. Estávamos lendo O pequeno príncipe, quero dizer, estávamos tentando ler O pequeno príncipe. A maioria só abria o livro e começava a conversar, obrigando-me a aumentar o tom de voz, que é um jeito de gritar elegantemente. Mas o Maciel quis ler neste dia e quis ler em voz alta. E leu... e bem. Daí em diante o moleque mudou na minha aula. Não que ficasse quieto, porque isso ele não conseguia mesmo. Mas fazia todas as atividades e terminava primeiro que todo mundo. Só depois é que começava a bagunçar.
- O Maciel só faz a lição do senhor, professor. – Diziam os outros alunos. E ele fazia mesmo. Rápido e bem feito... a letra não era das melhores, mas dava pra perceber que ele se esforçava. Às vezes eu ficava até envergonhado, não imaginava porque todo aquele apego a mim. Eu, que andava sempre tão estressado. Eu, que tinha tão pouco tempo e pouca paciência sempre. Mas a verdade é que eu também me apegava ao menino... e conversava com ele... e gostava de conversar... só precisava dar um freio quando ele começava a querer falar de sexo. Já sabia um bocado de coisas, o danado, e queria me mostrar que sabia, mas eu precisava cortar, afinal de contas aquilo era uma quinta série.
Dois meses antes de seu aniversário, ele já estava me perguntando, o que eu daria de presente a ele. Perguntei o que ele queria ganhar.
- Pode me dar uma moto professor. – Disse e sorriu. – brincadeira, professor, dá o que o senhor quiser. – Emendou e sorriu de novo.
- Beleza.
- Dá um dinheirinho mesmo, professor.
- Ta, quando chegar seu aniversário eu te dou um dinheirinho.
- Aê. – Ele disse e ficou em silêncio uns instantes, pensando, antes de perguntar: - Professor, como é que faz dinheiro?
- Como assim?
- É, como é que faz dinheiro?
- É na casa da moeda. Existem umas máquinas.
- Meus tio são meio burro né professor. Era só roubar uma máquina dessas e aí ficava fazendo dinheiro em casa, não precisava roubar mais nada.
- Maciel!
- Mas não é professor! Bastava uma máquina, de fazer logo nota de cinqüenta. Uma vez meu pai me deu uma nota de cinqüenta.
- Deixa de bobagem, Maciel.
Dei-lhe algum dinheiro, quando chegou seu aniversário. Adverti que não dissesse a ninguém, pois poderia me complicar.
- Ta achando que eu sou alcagüete, professor?
- Não Maciel, não.

***

O tempo, sempre senhor de tudo, transcorreu. O fim do ano se aproximava e numa tarde de novembro o menino chegou com ar preocupado na minha mesa.
- Que foi Maciel?
- Nada não professor.
- Como nada, e por que é que você tá todo jururu?
Silêncio.
- Fala Maciel.
- Sabe o que é professor. O ano ta acabando , né? E o senhor mora longe, né? Queria saber se no ano que vem o senhor vai dar aula aqui?
Respirei fundo. Êta pergunta danada de difícil de responder. Ainda bem que não caiam perguntas desse tipo nos concursos. Tinha de dizer a verdade.
- Já pedi a remoção, Maciel, ano que vem vou trabalhar noutra escola mais perto da minha casa.
- Hã... tá bom. – Ele disse e eu pude ver o brilho das lágrimas umedecendo seus olhos, contudo não chorou. Estava calejado, o Maciel. Era só um menino, mas já tinha aprendido a agir como o mais duro dos homens. Eu, por meu lado, me sentia um traidor, um tremendo mau caráter. “É a vida”. Eu dizia de mim para comigo em cima da minha lambreta enquanto pilotava até a outra escola. Como se pudesse me enganar... Como se pudesse disfarçar aquela coisa ruim que me oprimia o peito.

***

- Depois de amanhã é o penúltimo dia de aula, professor. A gente vai fazer uma apresentação lá no CEU. Eu vou ser o Michel Jackson, professor. – Ele diz e aí começa a imitar os passos do artista recém-falecido, talvez até melhor que o próprio Michel. – O senhor vai lá ver, né, professor?
- Que hora vai ser a apresentação?
- Uma hora da tarde.
- Puxa vida, Maciel. Eu saio da outra escola, lá do outro lado da cidade, meio dia e meia.
- Tudo bem professor. – Ele diz baixando o olhar como se tivesse levado um tapa na cara.
- Vou ver se consigo sair mais cedo, Maciel, não prometo nada. Mas vou ver se dou um jeito de chegar a tempo.
- Faz um esforço, professor. Queria que o senhor me visse lá amanhã.
- Vou ver. – Eu digo e dentro de mim mesmo me prometo que vou fazer o que for preciso pra ver o menino dançar.

***

Não consegui chegar no início da apresentação, mas o Maciel percebeu quando cheguei e sorriu. Embora ele sorrisse o tempo inteiro, achei que sorrisse por causa da minha chegada.
Ao final, ele e as outras crianças agradeceram à platéia se curvando como se fossem artistas famosos. O público, formado principalmente por alunos da escola onde eu trabalhava e do CEU, estava delirando com a apresentação. Batiam palmas, assobiavam, gritavam.
Voltamos a pé pra escola. Era perto. No caminho o Maciel estava empolgado. Era o centro das atenções. Tinha arrebentado. As meninas do CEU ficaram babando. E quando ele tinha feito o Moon Walker, então? Moon o que, professor? Aquele passo que você desliza pra traz. Aquele passo é o maior boi professor, difícil foram os outros que eu mesmo fui inventando na hora. Deu tudo certo, né professor?
- É Maciel, deu tudo certo.
No final da aula, era praticamente a última, ele me pediu que o levasse para casa de moto. Seria da hora. Disse que não podia. Não tinha um capacete pra ele e seria perigoso. Entristeceu de novo. Dei um abraço nele e uns tapas no ombro. Eu estava sem jeito.
- Então tchau, professor.
Abracei de novo. Os outros alunos tiraram sarro. Briguei com eles.
- Se cuida, carinha. Você é gente boa demais. É o moleque mais firmeza do Parque Bristol, Clímax, da zona Sul – Falei
- Beleza, professor. – Disse e foi deslizando pra trás, fazendo o Moon Walker do Michel Jackson.
Na hora de vir embora chovia. No caminho, acabei caindo da moto. Eu tinha escolhido ser professor, porque já tinha sido menino. Diabo, eu não era bom com o tal do Adeus. Era um péssimo professor. E eu sentia uma coisa ruim por dentro. E pensava nos meus filhos. E tinha vontade de chorar. E me preocupava com o que o futuro e o mundo guardavam pro Maciel. Mas tinha de terminar de fechar as médias da outra escola. Que merda de mundo burocrático.

***

Não sei porque hoje eu estava triste. A velha depressão contra a qual eu tenho lutado desde menino. Coloquei umas músicas... e... me lembrei do Maciel. O que ele estaria fazendo neste feriado de carnaval? Seria que tinha caído já no crime? Pensei em orar pra Deus por ele. Brigo muito com Deus, sou meio mal humorado às vezes, mas, sempre que me vejo em enrascadas, apelo pra ele. Desisti de orar. Sempre quis ser artista, então, em vez de orar, escrevi esta história. A arte é a oração do artista. Boa sorte, Maciel.