sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sr. PÉSSIMO

Para o Isaac, que ainda sofre por amor.

"A vida é a Arte do encontro,
Embora haja tanto desencontro pela vida"
Vinicius de Moraes

Depois de novo tombo,
Ele chegou à seguinte conclusão:
É o nosso olhar que faz alguém especial
Porque metade das pessoas é estúpida
E a outra metade...
Mal-intencionada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 19 E 20

19.

Abro os olhos. Estamos atravessando uma imensa ponte. Embaixo há só o fundo, não posso vê-lo. Sei que ele existe, mas não posso vê-lo. Está tudo tão escuro! Sinto náuseas. Não há salvação. Continuamos subindo. Acho que nunca mais sairemos da ponte. Estou tão cansada!

20.

Quem poderia cantar uma canção pra mim, a menina que um dia foi barco?
No quarto onde eu estava escorria sangue pelas paredes. Por que tantas pessoas esfaceladas pelo mundo? Eu me perguntava sem saber bem o porquê. Por que pessoas sem pernas, sem braços, sem mãos, sem os dedos, sem uma das orelhas? Por que outras pessoas que têm tudo isto por fora, mas só de dar uma olhada pra cara delas a gente percebe que por dentro foi tudo amputado? Só de dar uma olhada, a gente percebe que não deixaram uma rosa qualquer ou um colibri pra contar a história? Foi tudo amputado. O massacre da serra elétrica.
Toquem mais alto esta gaita! Soprem ainda mais forte a flauta! Talvez sejamos todos fortes! Mas no quarto o sangue continuava escorrendo. Sempre. Sem parar. Pelas paredes. Tantas baratas e escorpiões, e moscas, varejeiras, e vermes e mais baratas e escorpiões e vermes. Sempre o mesmo mantra maligno. Sempre a mesma ladainha peçonhenta. E lá no alto, no teto, desenhado, a figura meio touro, meio homem. Tenho medo do mal. Esse cheiro de sangue me desanima. Melhor dormir. Tomara que eu não tenha sonhos. Tomara!

sábado, 22 de agosto de 2009

Há dias em que os pássaros não cantam

Há dias em que os pássaros não cantam
E a casa reflete o monstro que somos
Não é o amor é a morte que grita o tempo inteiro
No meio da sala, ficaste sozinho
Os dias transcorrem sem maiores alegrias
A alegria não existe
Existe o Som
O gozo
A procura.

As crianças chupam picolé e não pensam no infinito
Saio
O mar molha meus pés
E a distância tricota outros destinos
Quem afinal nos aguarda no instante seguinte?
Um menino de vinte anos que toca violão?
Uma bailarina de pedra?

Um navio se aproxima.
Será que guarda histórias de amor e aquelas paixões que enfrentam o mundo?
Não tomaremos cianureto de mãos dadas
O amor nesses tempos cínicos guarda os olhos para outro amor na esquina.
Vou tentar novos museus
Vou tentar um cinema ameno
Embora saiba que a mocinha vai ter sempre seu olhar
Pequenos peixes bailam entre meus pés
E eu penso que devo esquecer teu sorriso
Cavalos marinhos procriam
E eu penso que devo esquecer teu gosto
É difícil levar a paixão adiante sendo um eunuco
Vamos cuidar das mães
Elas estarão conosco até o final
A bebida me faz cada vez mais cruel... e triste
Com o tempo
Não seremos mais que uma fotografia meio amarelada pela areia da praia
No fim é tudo a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

YOU MAKE LOVING FUN

Para a Marcita, quando ela acordar.

Nossos lábios explodem a escuridão
E se derramam numa cortina de estrelas
antes das crianças acordarem.

Te trago
Te sorvo toda com minha boca impura
Te faço do avesso
e
Te machuco
Te desmancho
Te derramo em prantos
No final
Me convulsiono sôfrego
E adormeço como um lagarto cinza
No teu seio
Ou continuo dançando
Como um cisne-menino
Dentro do lago teu.

Não sei colocar vídeo no blogue. cliquem então aqui: http://br.youtube.com/watch?v=XoMWa3jRtLo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 18

18.

Lembro-me dos Céus escuros. E das pancadas que as imensas ondas me davam, contudo eu me sentia tão calma! Era como se enfim eu me encontrasse. Era como se enfim eu fosse uma heroína. Alguém muito especial. E o mar me jogava, pra baixo, e pra cima e pros lados. Pula macaco bonito! A força dos meus cílios criava noites imensas. Sem buracos negros ou estrelas. Eu me afogava calmamente. Podia ouvir vozes e sentir as mãos tentando, de longe, me tocar. Mas eu não queria voltar, nunca mais! Não. Era uma criança solta e feliz. E a força dos meus cílios criava noites onde os morcegos tinham arco-íris explodindo nas asas, e as corujas sorriam estrábicas. Meu chapéu não perdia suas luas, ou se soltava dos meus cabelos. E aquela voz divina sempre e sempre clamando e me acalmando. “Você é mulher-maravilha, menina!. Tão criança! Eu vou pintar um céu extremamente lindo pra você! Não se assuste com toda esta escuridão de agora. Tenho um segredo pra te contar... você é uma santa! Por isto precisa sofrer tanto! NÃO SE PREOCUPE! EU SOU O SENHOR!” E sobe e desce, calmamente, não me afogo porque sou um barco colorido. O mar me mostra seus dedos cheios de afagos. E sobe e desce, a ovelha negra da família não vai mais voltar. Vai sumir! Prum lado e pro outro, como um barco colorido. Vinho em taça de prata. E os gritos vêm da areia.Talvez não esteja contando direito, talvez eu tenha que contar tudo outra vez. Vou tentar assim: Mais alta que as montanhas da Serra. Entre as nuvens escuras. Mulher-maravilha. Uma Santa! Ufa! É tão difícil alcançar! Não existe medo porque Deus é uma presença concreta como uma rocha, ou um feto. Meu útero vibra, explode, ergue bem alto suas trompas, seus ovários, sua vagina salgada. Víveres em liquidação! Posso provocar um maremoto! Mas não é maremoto que quero criar, quero é gritar toda essa bondade que se arrebenta no meu peito. Eu sou um templo! Jesus o que é isto! E sobe e desce! O oceano te abraça, ele quer fazer amor com você, menina. Mais uma vez, pra baixo e pra cima... pra baixo e pra cima... Mas então a voz do Senhor se distancia. Por favor, não vá embora. Sinto medo. Não quero ficar sozinha! Não atire essa pedra tão pesada em mim, não agora! Sobe e desce, sobe e desce. Fale comigo Senhor. Deixe estas águas limpar minhas feridas! Por favor Deus, faça de mim mulher-maravilha de novo! Não se afaste Senhor, leve-me leve com o senhor. Eles vão quebrar tudo dentro de mim de uma vez. Prum lado, pro outro. Não quero separar minhas pálpebras. Ele grita do lado de fora, mas não é mais Deus ou o meu pai, não é mais nada humano ou bom, ele é o mal e arranca demônios das narinas, pequenos demônios, e arranca demônios dos ouvidos, e dos olhos, dos olhos Senhor! Dos olhos! E da boca, e do pênis, e do cu, e de todos os orifícios do seu corpo saem demônios, de todas as cores, uma aquarela inteira de crueldade e ódio. Nunca o mal foi tão claro. Estou nos braços do mal. Desmaiada nos braços do mal. Por que me abandonaste Pai? “Faz respiração boca a boca nela!” “Onde diabos se meteu o salva-vidas?” “Saiam de perto, ela precisa de espaço!” “Não seu idiota, eu não preciso de espaço, eu preciso é continuar sem respirar! Não quero mais voltar”. Na serra, espadas emergem das profundezas do solo. A água escapa do meu corpo. Entra o ar. Que merda!

domingo, 16 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 15 E 16

15.

A palavra é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. O bolo é o mais importante, mas tudo o que eu consigo mostrar é a fôrma. Melhor é ser como uma banda punk: Baixo, guitarra, bateria. Simples. A crueza das emoções. A estética do escarro... Neste mundo escroto a única coisa verdadeira é a dor. Levanta as mãos macaco! Pula, cambaleia, prossegue, retorna! Eles pedem bis! Tudo de novo, outra vez. Eles pedem bis! Nunca se cansam do espetáculo! Pula, cambaleia, chora, ri, prossegue, retorna... em volta do pouco que brilha, tudo escurece. A estética do escarro. Quando o ódio se instaura é difícil voltar atrás. Mais uma vez! Pula, agora, cambaleia! E vai tecendo teu longo mosaico de rancores. Pior será se exigirem que se abra a porta do guarda-roupa, onde um búfalo funga do outro lado do espelho, pronto pra bater sua cabeça contra a minha. Os bichos existem apenas, não procuram fazer sentido. No meu sonho, havia baratas sobre o sabonete que deveria ensaboar meu corpo. É a vida, é a vida.

16.

Décimo quinto corte. Será que nunca mais poderei sair? Os versos continuam vindo, as narrativas também. Retoco-os como se fossem unhas. Retoco-os sempre.
Sonho:
Estou tomando banho. Calma. Num lago ainda mais calmo e de águas cristalinas... cristalinas. Não há preocupações e eu estou nua. Há bananeiras em volta do lago. Estou cantando algo. Entre as bananeiras alguma coisa começa a se mover. Apenas olho. Não me preocupo. A água é limpa. Mergulho no lago. Quando volto à superfície, reparo nas manchas pretas e vermelhas perto da beirada do lago, entre as bananeiras. Fico curiosa. Forçando as vistas consigo distinguir os dois enormes jacarés que agora estão entrando no lago. Negros. Vermelhos. Tento fugir. Nado pra outra margem, mas nunca consigo alcançá-la. Estou presa. Os jacarés se aproximam. São enormes.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 14

14.

Sinto quando a poesia está vindo. São dias em que fico mais sensível. Tudo me toca e eu sinto que minha alma compreende o mundo inteiro. Com a prosa é diferente, é um trabalho mais braçal.
Tenho pensado na minha avó. Em todos aqueles dias que nós passamos juntas, apenas ela e eu. Agora tudo aquilo ficou num lugar tão estranho, tão longe, parece que nem existe mais. Havia flores nas janelas. Ainda posso vê-la, a avó, aqui na minha frente. Ainda posso ver cada ruga do seu rosto, e a sujeira acumulando-se aos poucos sob as unhas, e o cheiro forte e bom de peixe. “Mas por que será que essa neném não sorri, gente!” - Ela dizia – “será que esse mundo nunca foi bonito pra você?” e passava as mãozinhas sujas de peixe na minha cabeça. A cada instante parece que fica mais difícil continuar por aqui. Tudo que parecia valer a pena dissolveu-se, derreteu, desapareceu, pra sempre. Nesta estrada de agora, parece não haver um poste de luz sequer.
Meu pai cultivava poderes estranhos. Tem, ainda hoje, uma força que não vem apenas do seu corpo musculoso, vem de dentro da sua alma sem escrúpulos. Não tenho provas concretas para acusá-lo, mas sei que, de algum jeito, ele está envolvido na morte da minha vó. Sei que de alguma forma foi ele quem roubou sua sanidade. Sei disso desde o dia em que fui até àquele quarto, distante da casa, que ficava trancado e ao qual apenas ele tinha acesso. Sei disso desde o dia em que fui até lá, e o quarto era pintado todo de vermelho, e no teto havia o desenho de um animal estranho, meio homem, meio touro, e ele, meu pai, recitava uma prece estranha, numa língua diferente. Desde aquele dia sei que ele está no centro de tudo o que aconteceu depois. Até porque minha avó sabia de tudo, eu mesma havia contado, e ela, a vó, havia dito que iria denunciá-lo. Ele é vingativo. Daí em diante tudo começou a desmoronar.
Minha avó era uma mulher muito ativa antes da coisa toda acontecer. Como já foi dito antes, trabalhava na feira. Levantava-se as três e meia da madrugada todos os dias. De terça a domingo. Às vezes, quando eu passava uma das minhas férias escolares em sua casa, ela me levava pro trabalho. Passávamos juntas os dias inteiros. Eu gostava da gritaria da feira. Gostava dos peixes e de suas escamas. A única coisa que se podia chamar assim de... chata... era o cheiro, mas até com isto a gente pode se acostumar. Ela comprava pastel e caldo de cana. Era bom. Eu enchia meu pastel de catchup e mostarda. Fazia uma sujeira danada. Ela não brigava. Em casa, se eu mastigasse fazendo barulho tomava logo um safanão na orelha pra ficar esperta. Vó Lílian era um anjo e se é pra falar bem de alguém que seja dessa velhinha, coitada, que me fazia cafuné com as mãozinhas pequenas sujas de peixe. Eu nem ligava que minha cabeça ficasse fedendo. À tarde, quando as barracas eram desmontadas, juntavam-se uma dúzia de meninos, pegavam tudo que era resto de frutas, legumes, verduras e começavam sua guerrinha. Eu não brincava, mas gostava de ficar olhando. Era engraçado. Quando a gente chegava em casa, quase de noite, ela pedia logo uma pizza pra gente comer. Eu comia bastante. Enchia a pança e depois dormia sem tomar banho, nem escovar os dentes, nem nada. Era uma maravilha. Esse defeito é preciso mesmo reconhecer que ela tinha: não se importava muito com a higiene. Eu gostava.
Um dia, logo depois das férias que eu tinha passado lá e depois de eu ter falado a respeito das coisas que aconteciam lá em casa pra ela, uma coisa ruim aconteceu. Ela, que já não era muito limpa, deixou de tomar banho de vez. O cheiro foi ficando insuportável. Os espíritos fizeram sua parte. Ela acordava à noite gritando. Atordoada. Quase não dormia mais. Mostrava a vagina. Colocava o dedo dentro na frente de todo mundo. Um dia enfiou um peixe inteiro ali dentro. Meu avô que estava morto havia mais de dez anos voltou para aterrorizá-la o tempo inteiro. Então um dia eles a levaram de vez. Prenderam-na. Um bocado de tempo depois eu fui visitá-la. Ela estava limpa coitada! Metida numa roupa branquinha, branquinha. Falava mole. Mal me reconheceu...
Morreu um tempo depois. No funeral meu pai quase sorria. Minha mãe não chorava, Nunca vi mulher mais sem graça que aquela. Uns feirantes que eram amigos dela, da vó, sim, choravam. Fizeram questão de segurar as alças do caixão. Estavam bêbados. Na briga pra ver quem é que iria carregar a coisa, o caixão acabou caindo. A tampa abriu. Jogaram o corpo pra dentro de novo, às pressas. Começou a chover forte. O padre mal teve tempo de fazer as orações. Jogaram o caixão logo dentro da cova e saíram todos correndo pra se abrigar da chuva. Ela ficou sozinha lá no meio da tempestade... sem ter pra onde correr... a cova aberta... depois voltaram todos... jogaram aquele barro cremoso, estranho, sobre ela... pra sempre...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 13

13.

Quando as férias chegaram, eu estava mesmo precisando de umas férias. Tinha completado sete anos. Pedi aos meus pais pra visitar minha avó por parte de mãe, a avó paterna tinha morrido fazia tempo, antes de eu nascer. A princípio ele não concordou, odiava a sogra. A avó tinha uma banca de peixe. Ele gostava do peixe, mas odiava a vó. Trabalhava na feira. Em Marília. Ele a chamava de porca. Achava-me parecida com ela, eu só podia ter puxado aquele lado ruim e sujo da família.
Minha mãe era a favor de eu passar uns dias na casa da avó. Adorava-me a vó. A mãe trabalhou bastante na campanha pró-férias em Marília. Há que se reconhecer que o trabalho dela não foi nada fácil. Ele não queria me ver longe. No final, entretanto, ela acabou conseguindo convencê-lo.
Quando se está predisposto, em tudo quanto é lugar se encontra poesia. Entramos no ônibus e pegamos a estrada. Sempre achei as estradas misteriosas. Há lirismo no asfalto quente. Nos formigueiros no meio do mato. No gado pastando. Nos postos velhos de gasolina abandonados. No canavial. No cafezal. Em todos os cheiros misturados. Estava contente. Estava indo pra longe de casa. Minha mãe, no banco ao lado, dormia com a boca aberta.

MEU MARFIM QUE SANGRA - 12

12.

Jesus em Getsêmani: Minha alma está profundamente triste até a morte.