quinta-feira, 30 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 11

11.

Hoje fiz o décimo quarto corte. Tiraram o aparelho de som aqui do quarto. Primeiro foi computador depois a televisão e por último o som. Agora também não posso ouvir música. As coisas ficaram mais difíceis. Era bom de noite. Quando todos estavam dormindo. Eu colocava alguma coisa da Rita, dos Beatles, ou do Floyd, acendia um cigarro e ficava olhando as luzes dos caminhões subindo bem devagar a Raposo Tavares rumo a Paraguaçu Paulista, Presidente Prudente, Presidente Venceslau, cada caminhão uma cabine, cada cabine um caminhoneiro, cada caminhoneiro um mistério... atrás havia a sombra escura do canavial. Era bom ficar pensando. Escrevendo. Pintando. Agora levaram o som. Todavia ainda restam a rodovia, o canavial, os meus próprios pensamentos.
Sou um macaco olhando as estrelas. Só isto: um macaco olhando as estrelas.
Eu queria poder dizer algo sobre estas estrelas, escrever cru como a dor, mas a coisa toda fica presa um pouco antes de se transformar em palavras, em cores, em sons. É triste constatar, mas não há arte em mim. Estou a um passo da arte, mas não consigo alcançá-la. Sinto-me como um cego num quarto lavado de sol. É um milagre. Um macaco olhando as estrelas, tentando em vão tocá-las. De que adianta tanta juventude? Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Mas, enquanto não vem a coragem para o fogo, usar apenas a gillete: pra cortar os braços, as sobrancelhas, os cabelos rente à cabeça, deixar à mostra todo o couro cabeludo. Que confusão! A gente na vida só tem uma vida e olha só aonde a minha vida veio parar... Só rindo! Que confusão! Sofrimento puro. Sem arte, sem nada. Sofrer até pelo silêncio. Eu não sou Elis Regina!
A roupa dos forçados tem listras rosas e brancas. Uma frase comum. Construída com palavras comuns. Juntando-se mais algumas tem-se um romance. Entretanto um romance já não é uma coisa comum. Qual será a magia?
Olho novamente pros lados do canavial e imagino que lá há montanhas e que em cima das montanhas mora um gigante, e que o gigante gosta de fumar cachimbo, e que o cachimbo dele, do gigante, é enorme e faz esta fumaça que invade todas as noites à cidade inteira e aquele vermelho no horizonte que parece o fogo no canavial é, na verdade, o fumo queimando dentro do seu cachimbo, e no meio da fumaça do cachimbo do gigante, bailam uns casais de gambás, cantam umas cigarras e guitarras, abraçam-se e perpetuam suas histórias os fantasmas, no meio da fumaça sangram motocicletas e chicletes, e os elefantes dançam ao som de Verdi, no meio da fumaça minha avó sorri entre escamas de peixe, no meio da fumaça a dor está morta. Conta comigo.

sábado, 25 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 7 AO 10

7.

Estava pintando quando meu pai chegou. Gostava de inventar rostos de pessoas, pintá-los, dar um nome, um drama, uma história pra eles. Não o vi, ele estava às minhas costas, mas senti a música do seu cinto cortando o ar... vrrrrrrrrruuuuuuummmmm. Pá. AAAAAAIIIIIIIIIIIIIII. Com ele era assim. Primeiro a surra depois as perguntas e as explicações.... vrrrrrrrruuuuuuuuuuuummmmmmmmmmm. Pá. De novo eram as notas, eu sabia. Tinha dado fim às provas, mas não sei de que jeito ele acabou encontrando. Eu ia acabar matando-o, ele dizia, eu só dava mesmo era desgosto. Só rindo. A culpa é sua Ana, gritava. Nós merecemos isto, foi você Ana, foi você sua vaca, que deixou essa menina desse jeito, sempre protegendo, protegendo, protegendo. Suava, gritava, passava a mão com força pela cabeça, arrancava os cabelos. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmmm. Pá. Eu não agüento mais, dou duro o dia inteiro, atendo aquele bando de morféticos: tuberculose, gripe, gonorréia, pinga daqui pinga de lá, sífilis, chato, aids, sarampo, o diabo! E o que é que eu ganho? Pra que tudo isto? Não há quem agüente. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmm. Pá. E essa menina? Você pensa que ela está arrependida, Ana? Pensa que ela está? Olha a cara dela, não derrama uma lágrima sequer, é ruim como o diabo, puxou aquela sua família, sua mãe, aquela velha suja. Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço! Vrrrrruuuuuuummmmmmmm. Pá. Será que você não entende menina, será que não percebe que desse jeito você não vai a lugar algum? Pra que tanta teimosia?” “Não, ela não vai tomar jeito nunca.” Diz minha mãe e virando-se pra mim: fala menina o que é que você quer? Você quer mesmo é matar a gente de desgosto? É isto que você quer? Mas o que é isto? Está toda mijada esta porca! Ele grita voltando da cozinha com o copo cheio de café. Fico com vontade de pedir um pouquinho de café, mas ele, num acesso de raiva, espatifa o copo contra a parede.
- Calma Antonio! Ela grita.
- Calma porra nenhuma, eu não agüento mais vocês. Tenha santa paciência. Eu não mereço isto. Eu devo ter jogado pedra na cruz.
Ela começa a chorar. Bem feito mesmo!
Ele pega o cinto e começa a colocá-lo na calça. Irrita-se de novo. Tira o cinto e me dá mais umas três cintadas nas costas que é pra eu aprender a lição. Aí põe de vez o cinto na calça e sai pra rua. Antes de sair ainda me manda ir logo pro banheiro e lavar bem as orelhas, os pés, o pescoço.
No banheiro é que eu consigo chorar um pouco, baixo, sozinha, em frente ao espelho.
Quando saio, a outra está com o terço na mão, ajoelhada, rezando por seu Antonio querido.Tão esforçado! Tão sofredor! Eu também rezo pelo meu pai, todas as noites, faço pactos e mais pactos com Deus pra que ele não consiga acordar nunca mais. Mas ele sempre acorda.
Na cama. Dentro da minha cabeça a música começa linda, um piano calmo que sobe e desce precipícios. Antes de adormecer totalmente vejo se aproximar um tigre e se sentar perto da minha cama. Em seguida, ao longe, já não mais no meu quarto, mas numa imensa savana, vêm correndo um bando de leões. Eu sorrio, estou em cima do maior e mais veloz deles. Boa noite mamãe. Boa noite papai. Boa noite. Sonhem com os anjos!

8.

Depois das pancadas era a hora dos carinhos. Eu não sabia o que era pior. Sempre a mesma história. Inventava um jeito de fazer a mulher sair, comprar alguma coisa diferente pro jantar. Começava com os exercícios e aí me chamava. Pra buscar um suco. É que ele estava muito quente, dos exercícios, sabe. Eu pegava o suco e levava pra ele. Aí ele queria conversar. Crescia o cheiro de mofo entre os azulejos da casa. Você sabe que o papai te ama, não sabe, que só quer o seu bem... Sempre a mesma cantilena. Com o tempo, esse blá, blá, blá acabava me fazendo mais mal que a coisa em si. Papai te ama! Papai te ama! Papai te ama uma ova! Eu preferia que ele tirasse a coisa logo de uma vez, sem falar demais. Mas aquilo devia ser uma briga dele lá com a consciência dele. Aquele era o seu jeito de me dar amor. Pra cima e pra baixo. UHUHU....UHUHUHU....UHUHUHU... com as duas mãos... UHUHUHU...UHUHUHU.... pra cima e pra baixo... UUHUHUH...HUHUHUUHUH... pra cima e pra baixo ... mais rápido. Aaiii... Aiiii... Aaiiii... Slopfit... Aí soltava aquilo em cima de mim e me mandava tomar banho. Direito!
Quando minha mãe chegava, toda contente porque tinha encontrado os filés de frango mais perfeitos, ou o peixe mais fresco, ia direto pra cozinha preparar o jantar do seu marido. Não havia como conversar com ela. O jeito era suportar tudo sozinha e calada.
Uma coisa é preciso dizer: eu também não era boba, mas de que adiantava? O que é que eu podia fazer? Nada, ou quase nada. Só que um dia resolvi não descer. Ele ficou lá embaixo me chamando. Bufava. Desça aqui agora! Não e não e não. Desça! Eu não iria descer mesmo. Ele podia espancar, esfolar, matar, vomitar que eu não iria descer. Fiquei só esperando o momento em que ele iria aparecer na porta, não sentia medo, eu esperava apenas. Mas ele não apareceu. Nem sinal. Continuei ouvindo a música que vinha da sala de musculação até a hora em que minha mãe chegou. Contudo ainda não me sentia segura. Sabia que na primeira oportunidade ele se vingaria. Certeza.

9.

Este é o décimo terceiro dia que estou trancada no quarto. Sei disso por causa dos pequenos cortes que faço com a gilete no braço. Faço um corte por dia. Hoje fiz o décimo terceiro. A única pessoa que eu vejo é a Francisca, a empregada. Ela também não conversa comigo, mas pelo menos traz a comida e uns dois ou três cigarros. É boa gente. Arrisca-se. Por minha causa. É uma pena que um dia ela também desaparecerá. Tudo desaparece.Tenho saudades dos meninos e meninas que brincavam comigo na pré-escola. Permaneceram apenas nas fotos, com seus conguinhas vermelhos e as camisetas brancas. Foram todos embora e eu fiquei sozinha neste quarto. Ground control to major Tom… Sobreviver não é fácil! Queria segurar pelo menos a Francisca pelo braço e prendê-la, pra que ela nunca pudesse fugir, sumir, desaparecer. Mas ela também vai desaparecer, vai se esquecer de tudo, pra sempre, é pra sofrer menos, cada um se defende como pode. Ground control to major Tom. Eu escrevo. Foi o que sobrou, já que até hoje ainda não consegui aprender a tocar um instrumento sequer. Mal sei assobiar. Então escrevo. Não me dá prazer, mas eu escrevo, feito uma escrava. É uma obrigação. Agora por exemplo estou lutando com um conto sobre uma mulher velha, viciada, que vive numa casa também velha e destruída com um monte de ratos. Gosto da mulher. Ela gosta dos ratos.
Nunca acho bom o que escrevo. Às vezes tenho esperança, enquanto estou escrevendo, mas, quando termino, tudo desmorona. Tudo que eu queria era ser uma pessoa diferente pra poder dizer coisas belas. Uma pessoa com menos coisas estranhas na cabeça, com menos coisas quebradas por dentro, com um pouco mais de fé e de esperança, mas não há mais em mim fé ou esperança. Tudo o que existe é uma conformação, uma conformação triste e a possibilidade de, de vez em quando, escapar da carne, de ficar longe da minha boca, dos meus olhos, das tripas. Há momentos em que me transformo em rosa vermelha, em outros sou serpente. And the papers want to know whose shirts you wear. Um sonho, aprender tocar bateria, foi.......

10.

A oportunidade dele surgiu numa sexta-feira. Foi no dia em que eu tinha dito as coisas à professora. Minha mãe não perdeu tempo. Só esperou ele tomar seu primeiro banho de duas horas e depois foi bater com a língua nos dentes. Era o que ele esperava. Sim. Eu já estava toda dolorida da surra que ela havia me dado, mas o que viria a seguir eu não podia sequer imaginar. Naquele dia ele não usou a sala de ginástica, sua sala de ginástica foi minhas costas. Aquela surra poderia ter entrado pro guinness como A maior surra de todos os tempos. Uma surra memorável. Tentei segurar o choro, mas não consegui. No começo até que não chorei, mas depois, à medida que ele batia e eu não chorava, as pancadas vinham com mais e mais força, era uma violência sem limites, até minha mãe ficou assustada, só que não disse nada, não era boba, podia sobrar pra ela também. Ele suava, urrava, parecia um bicho. Eu achei que iria morrer. Mas não morri. Fiquei vinte dias sem aparecer na escola. Estávamos esperando as marcas desaparecerem.
- E bico fechado! Ou está achando que essa surra foi pouco? Se este assunto sair aqui de casa, a senhorita vai achar que esta surra foi pequena se comparada com a próxima que eu vou te dar.
Eu podia até ser um bocado rebelde, mas não era doida. Fiquei em silêncio.Tanta pancada até que teve um lado que não foi de todo ruim: fiquei resistente à dor, não me assusto mais com ela. Não mesmo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CASA DOS AFETOS EM RUÍNAS

Escurece
Pelas paredes os fantasmas se dissipam feito fumaça de cigarro
Sinto que por trás das coisas existe algo
Como o sonho de um sonho inalcançável
E eu me perco de você!
Cortam os anos o coração de um cavalo
Dor dor dor dor dor dor dor dor
Gritam seus cascos ao cortar o chão
A morte estende o pijama no coradouro
E você nem me vê
As crianças cantam e atestam que nada vai mudar
O amor é lepra e faz feridas
Pra que tudo isto?
Na noite de outro século
Meus antepassados construíram essa casa
Restam agora as ruínas
E os demônios nos rejuntes dos azulejos
Onde ainda há azulejos
Que cantam canções deste outro lado que existe e eu não entendo.

Pessoas como você encaram os dias e os fatos
É preciso fabricar um novo vinho
E suportar a mudança das modas
A mudança das ruas
A mudança da casa destruída
Um câncer sobe as escadas até o cérebro
O que foi feito de todos os mortos?
O que foi feito de todos aqueles chapéus que adornavam as cabeças e os pensamentos nos anos vinte?
Lisboa no meu som
Sempre a mesma ladainha na guitarra de DEUS.
E eu tenho pena de DEUS e de sua solidão
Por isso entendo seu rancor e sua crueldade
DEUS nunca dormiu no seio de uma mulher
No lugar de flores macias recebemos plantas carnívoras
A casa será demolida
Grãos de areia refletem a luz da lua
DEUS é a aventura
Tudo é o mesmo sempre
Viver é arrancar sangue-sugas do pau.
O mar é tão profundo!
E eu me perco de você.
Eu me perco sempre.

terça-feira, 21 de julho de 2009

GO

(ALGUÉM AÍ SE SENTE COMO EU?)

Você é livre pra viajar
Você é livre pra curtir a noite e os bares
Você é livre pra beijar e pra foder
Afinal de contas a boceta é mesmo sua
Você é livre pra aprender inglês ou esperanto
Você é livre pra escrever talvez com s
E esquecer os pequenos detalhes e ritos que constroem um amor e uma história
Você só não é livre pra levar na carteira todo amor que havia nos meus olhos
Não é livre pra fazer (como já fez) piada do meu desespero
Não é livre pra sonhar sozinha ou acompanhada os sonhos que sonhamos juntos:
O filho de pé no quintal
Os quadros na parede da sala
O padre e suas bençãos feito o cobertor de um amor normal
Assim como o amor dos teus pais
Assim como o amor dos meus pais

Fica de tudo a enchente desse teu vestido vermelho

Enquanto eu,
do meu lado,
recolho a matéria clara que restou do teu gozo
E fabrico lãminas que decapitam
E as cordas negras que engravatam os suicidas

Entre nosso futuro ergue-se um muro maravilhoso...

A ALQUIMIA E O BOI

AINDA ME TRANSFORMO EM BOI
E AÍ ENFRENTAREI A BREVIDADE DA VIDA
E A FALTA DE SENTIDO DE TUDO MASCANDO CAPIM
E BABANDO PELOS CANTOS DA BOCA
ALÉM DISSO, OS CHIFRES SERÃO MEROS ADEREÇOS
E NÃO PROVOCARÃO MAIS TANTA DOR
NEM ESTE ÍMPETO DE SUICIDAR-ME

sexta-feira, 17 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 6

6.

A única coisa boa de estar trancada aqui é ter tempo e concentração pra escrever. Tenho escrito muito. Contos. Poemas. Piadas. Também posso desenhar e a empregada não deixa faltar cigarros. Ordem e progresso. Se meu pai descobre... coitada dela. Não é de todo mal ficar. Não implorarei pra poder sair. Não. Posso suportar. Metal pesado. Chove e eu gosto da chuva.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 5

5.

AÍ... CAÍ.

A criança se foi
Com ela foram os sonhos
Hoje tudo dói.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 4

4.

E difícil entender. Quando chegava em casa, a primeira coisa que ele fazia era passar o dedo sobre a madeira que unia as pernas de uma das cadeiras da sala de jantar, a cadeira na qual ele gostava de se sentar pra jantar. Se o dedo voltasse sujo, a expressão de seu rosto já mudava. Nasciam umas rugas entre as sobrancelhas, no canto dos olhos e havia algumas que cresciam do nariz até a boca. Olhava pra minha mãe. Não dizia nada. Minha mãe tentava se esconder, mas não havia pra onde ela fugir. Tinha que ficar lá esperando, se roendo, aguardando. Bem feito pra ela também, pra ela deixar de ser besta! Gostava que tudo na casa fosse branquinho... branquinho... Os móveis, os lençóis, as toalhas de banho, as toalhas de mesa, tudo, tudo, branco, branco. Primeiro tomava um banho... de duas horas... usava um sabonete por banho e ainda usa um sabonete por banho. Aí, quando saía do banho, ia fazer alongamento. Minha mãe continuava se escondendo dele. Coitada, ela tentava fugir, mas estava presa, feito um ramster. Só depois do alongamento é que ele voltava. Ia pra cozinha onde ela preparava o jantar. “Tem alguma coisa errada, Ana?” Perguntava. “Não, por que?” ela respondia. “Querida, você vê, você sabe o quanto eu trabalho. Dou um duro danado naquele consultório, naquele hospital. Suporto todos aqueles clientes. Faço de tudo, me viro e me reviro pra dar do bom e do melhor pra vocês. E o que é que eu ganho em troca? Desprezo! Relaxo! Sujeira! Assim eu não agüento, não é esta a família que eu sonhei pra mim. Não mesmo! O que é que você faz o dia inteiro? Por que é que não fiscaliza essa porra dessa empregada pra que ela limpe a casa direito, ou não limpa você mesma? Será que amanhã eu vou ter que ir pro consultório mais tarde pra falar eu mesmo com a empregada? Hein Ana? Será que vou ter que me atrasar com as consultas? Responde, porra!” “Não querido, pode deixar que amanhã eu falo com ela, desculpe.”
Depois dessa bronca, ele ia pra sala de musculação. Gostava de exercícios físicos. Chegava a fazer o tal do supino com cinqüenta quilos de cada lado. Depois dos exercícios, tomava outro banho de duas horas. Só depois do banho é que a minha mãe podia servir o jantar. Não comíamos muita carne vermelha. Comíamos sim peixe, ou frango, quase todos os dias. Grelhado. Eu gostava de carne vermelha, mas não podia comer, andava muito gorda, minha mãe também, não sei como conseguíamos engordar comendo aquelas coisas. Ele desmanchava todo o peixe, se encontrasse um espinho! Coitada da minha mãe! Era ela quem pagava o pato.
Um dia ele chegou mais cedo, era difícil mudar qualquer coisa em sua rotina, mas naquele dia mudou. Queria comer picanha. Grelhada. Mandou que minha mãe fosse comprar. Queria bifes com um centímetro de gordura. Nem mais, nem menos. Senti uma coisa ruim por dentro, não sei bem explicar, mas era como se eu pressentisse que algo terrível estivesse pra acontecer. Garoava. O tempo tinha um cheiro estranho, de mofo. A empregada já tinha ido embora. Estávamos só nós dois na casa. O mofo aumentava, crescia entre os azulejos. Quando os espíritos ruins vêm, sempre trazem esse cheiro. Fui pro meu quarto. Estava tentando me esconder. Eu vivia e vivo tentando me esconder nesta casa. Ouvia o barulho que vinha da sala de musculação. Barulho de ferros batendo, uma música estranha se misturando ao som da respiração forte, como que de animal. De repente a música parou. Ouvi chamarem meu nome. Coloquei o travesseiro sobre a cabeça, queria me esconder embaixo dele, do travesseiro. Chamaram novamente meu nome. Havia mais energia na voz. Não, não e não. Eu não queria sair dali. “ L. desce já aqui, agora, vamos!”. Gritou. Desci devagar as escadas. Parecia haver menos degraus nela, na escada. Cheguei à porta da sala de ginástica... ele fazia um exercício... as veias do seu rosto, dos seus músculos, estavam enormes, parecia que iam explodir, as veias... o suor encharcava tudo... ele fungava... como um porco... terminou o exercício. “Pega um pouco de suco na geladeira pra mim, estou muito quente”. Disse. Fui até a geladeira... não sabia bem porque, mas sentia vontade de chorar... apanhei o suco... era de morango... ele esperava sentado na mesa de supino. Entreguei o copo a ele. “Vem aqui, senta um pouquinho aqui perto do pai, vamos conversar”. Fui. Sentei ao lado dele. Abriu a boca: “Por que é que você tem medo do pai, filha? O pai só quer seu bem e se às vezes ele ralha com você é pro seu próprio bem, você sabe, não sabe?” Eu não sabia, mas respondi que sabia. Ele me abraçou. Estava sem jeito. Eu sentia nojo da respiração, dele, do suor. Fedia. “Você sabe que papai te ama filha, não sabe?”. Colocou-me no colo. Beijou meu rosto. Senti seu bafo quente. Sua saliva. Meu estômago começou a doer. Ele pôs a mão na minha cintura. Apertou minhas dobras. Disse que ia me mostrar uma coisa, que já estava na hora de eu saber, mas que não devia fazer com mais ninguém e nem devia contar pra ninguém, seria nosso segredo, disse e sorriu. Aí abaixou o short e me mostrou aquela coisa enorme. Mandou que eu pegasse. Meu estômago doía. O suor escorria pelo rosto dele. Minha mão não conseguiu fechar. Mandou que eu segurasse com as duas mãos e chacoalhasse. É fácil, dizia, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo. Gemia, suava, como um porco. Pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, mais rápido, mais rápido, pra cima e pra baixo. As veias explodindo no rosto, nos músculos, entre minhas mãos. Não demorou muito, soltou aquela coisa gosmenta, quente, na minha mão, nos braços, no pescoço. Assim que terminou, fechou a cara na hora, que mudança! Mandou-me tomar banho. Direito. Rápido. Não sentia mais vontade de chorar, apenas me doía o estômago. Uma sensação estranha, como se tivesse sido roubada. Naquela época, quando alguém me perguntava a idade, eu gostava de mostrar com as mãos, os cinco dedos de uma e mais um dedo da outra... Ralhavam comigo... Eu não era mais uma criancinha... Os anos contavam seis de mim... Este será nosso segredo. Sim. Gastei um sabonete inteiro no banho. Nem assim me sentia limpa, mas a sujeira não estava nos pés, ou no pescoço, ou atrás das orelhas. Não.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 3

2.

A menina entrou no bosque escuro e...

... nunca mais saiu.

3.


De repente a gente abre os olhos, as narinas, os ouvidos, os sentidos, enfim, e está no meio da merda, no cerne dela, da merda, como aliás sempre esteve. Eu poderia ficar aqui agora tentando enxergar o lado bom das coisas, como sempre fazem os mais otimistas. Mas estou cheia. Não quero mais brincar. Não tenho mais paciência pra ficar vendo flores no meio desta porcaria toda.
Às vezes sinto como se estes braços, estas pernas, estes olhos não fizessem parte de mim. Vou ao espelho e presto bem atenção em mim e me toco pra ter certeza de que me sou. Mas nem assim consigo ter certeza de que estou dentro dessa carne toda. É como se uma parte, pequena, de mim estivesse dentro do meu corpo e a outra parte, a grande, estivesse distante, longe, olhando essa parte que se observa em frente ao espelho. Levanto os braços, fecho as pálpebras, dou pequenos saltos, danço e nem assim chego a ter certeza de que me sou inteira. Sou quase uma desconhecida de mim mesma. Puxa vida! Pelo menos posso abrir a torneira a qualquer momento e pôr os braços, a cabeça embaixo da água corrente. Não resolve, mas alivia um pouco. Meu espírito esperneia, se é que o espírito tem pernas, por só poder ser através dessa carne suja, imunda.
No começo havia o som de piano e aquela voz grave que me dizia coisas e eu era criança. 2002? 2001? 2000? Não antes, muito antes disso. 1999? 1998? 1997? Ainda não, caranguejos marcham pra trás na areia da praia: um exército. 1996? 1995? 1994? Sim, agora, sim, acho que a primeira vez que a voz veio acompanhar o piano foi em 1994. Foi impossível ficar calada. Sim. Estou sentada num banco de concreto no meio do pátio da escola. É um dia frio, cinza. Sinto medo. Estou sozinha, todas as outras crianças já foram embora, estão em suas casas brincando de boneca, de casinha, nunca gostei de brincar de casinha, estão jogando bola, bolinha de gude, soltando pipa. Será que é tempo de pipa? E eu ainda estou aqui. É por causa da música na minha cabeça. Sim. Disse coisas horríveis à professora. Mas foi a voz, a música que me fez gritar as coisas. Sim. Além do mais eu a vi, de noite, dentro do meu sonho, a professora, ela mesma, num carro vermelho, fazendo coisas com um cara de bigodes pretos. Mas não foi de noite que a música veio e insistiu pra que eu dissesse as coisas que tinha visto. Foi agora, há pouco, que ela, a música, veio. E ela, a professora não a música, nunca gostou de mim. Tem nojo de mim, me acha parecida com uma lesma, quando a gente joga sal em cima. É por causa dessa minha pele amarela, branca, transparente: transparente, mas suja. É por causa dessa gordura gosmenta que se junta embaixo da minha pele amarela. Suja. A professora é tão bonita!Tão mulher! Posso vê-la agora, enquanto escrevo. É tão bonita! Mas em 1994, durante a aula, os sons na minha orelha, dentro da minha cabeça, me azucrinam. Música imperativa. Gritei no meio da sala de aula as coisas que a professora andava fazendo, no meu sonho, com o cara de bigodes, dentro do carro vermelho. Agora estou esperando minha mãe sair. Ela está lá dentro. Sim. Na sala da diretora, junto com a professora. Estão me fritando. Minha mãe é brava e branca. Ela também parece uma lesma. E no queixo dela tem uns fiapos grossos de barba que ela vive arrancando com a pinça de noite, mas que sempre voltam. Acho que vou apanhar. Sim. Uma bela surra. Quando ela sair lá de dentro vai me dar logo um baita de um beliscão no braço e dizer: “quando a gente chegar lá em casa você vai ver”. E aí, quando a gente chegar em casa, ela irá até o pé de manga que nunca deu uma manga sequer, só serve mesmo é pra fornecer os cipós com os quais ela me bate. Quando eu crescer vou arranjar um machado e arrancar esse pé de manga, bem perto da raiz e no toco que sobrar ainda vou colocar fogo. Sim. Mas por enquanto o pé de manga vai estar lá. Ela vai arrancar o cipó e me mandar ir tomar banho. Depois, quando eu estiver pelada no banheiro, ela vai bater na porta, mandando que eu a abra. “Espera um pouco mãe que eu tou pelada”. “Abre já está porta”. “Mas mãe é só um minuto”. “ AGORA!” Então eu abro a porta. Mal tenho tempo de destravar o trinco. Ela mete o pé com tudo na porta. Levanta o cipó e... vrrrrrrrruuuuuummm... Eu vou acabar deixando-a doente de tanto desgosto... Eu não valho mesmo nada... O que é que ela fez pra eu magoá-la tanto... vrrrrrrrrrruuuuuuummmmm... ela não sabe! Vvvvvvvvvrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuummmmm... onde o cipó bate, logo cresce um vergão negro, feito uma lagarta... Ninguém merece uma filha assim... A filha de fulana é tão boa! A de cicrana então é ainda melhor! Só eu é que não presto. Eu, essa massa de carne flácida e branca. Pareço uma porca. Só sei fungar. Comer de boca aberta. Sim. Minha carne é flácida. Sou uma porca. Uma porca imensa. Sim. Pareço um verme gigante. Uma lesma. Uma coisa medonha! O que ela fez pra ter uma filha que nem eu, Jesus!?! Logo ela, uma serva tão fiel! No final, quando o couro tiver acabado, ela vai me mandar tomar um banho e ver se lavo bem os pés e as orelhas, eu, a porca. Sim. Vai acender um cigarro. Deve ter gozado a filha da puta. Está esgotada, cansada, fuma devagar, sorvendo bem a fumaça. As estátuas dos santos pela casa estão cobertas com panos roxos. Abro o chuveiro. “Isto é só o começo, quando o seu pai chegar é que você vai ver o que é bom”. Diz. Aí eu passo o resto do dia pensando na outra surra. O bom é que nessas horas a música na minha cabeça é bem calma. Ajuda a suportar um pouco. A tardinha chega o outro. O que o deixa passado é o meu silêncio. Quer que eu chore, que peça perdão, clemência, que me arrependa, que peide, sei lá. São iguais, os dois. A única diferença é que uma gosta da natureza, prefere os cipós, se não fosse tão burra acho até que faria parte do greenpeace. O outro gosta mais do cinto de couro, não está nem aí pra natureza.
Continuo sentada. Enfim ela sai da sala da diretora. Lá vem. Sim. Bufando com a carona vermelha. Fungando. A professora e a diretora vêm junto. Sinto vontade de correr. Entrar de vez pra dentro da minha cabeça grande e ficar lá, quieta... ouvindo a música.
Pararam na porta. Estão me olhando. Conversam e me olham. Sinto meu estômago virar, doer, embrulhar. Não agüento mais. Vou acabar vomitando em cima delas. Se pelo menos eu fosse invisível! O banco continua frio, mas eu suo muito. Despedem-se. A diretora sente pena de minha mãe. Ninguém merece uma filha como eu. Todos os alunos já sabiam escrever e eu mal copiava o meu próprio nome. Ficava o tempo todo contando aquelas histórias idiotas. Eu não valia mesmo a pena... às vezes queria morrer.
Lá vem. Primeiro o beliscão... A boca se abre no meio da cara branca e gorda... Os fiapos de barba sob o queixo... “Quando a gente chegar em casa você vai ver!” Quase vomito, mas prendo a respiração. Sim.