sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

SIM, TODO AMOR É SAGRADO

Quando nos encontramos pela primeira vez, eu não estava vivendo bons tempos. Tinha acabado de passar por um processo de separação dos mais difíceis e olha que eu só tinha dezenove anos. Não que eu seja muito mais velho agora, isso faz uns dois anos, mas naquela época eu era muito mais inconseqüente. Foi assim: eu estava embriagado, dor de corno se é que me entendem, dentro de um táxi e ela, num semáforo, sem mais nem menos abriu a porta do carro correndo e entrou. Não que ela fosse linda, não era, mas feia também não era, ela era diferente e tinha uns olhos que mudavam de cor. Dependendo de como a gente olhava pra eles, os olhos ficavam verdes, azuis, castanhos e até pretos. Como seu nariz estivesse sangrando, eu arranquei a camiseta e entreguei pra que ela estancasse o líquido que brotava em jorros.

- Filho da puta. – Era tudo o que ela dizia e redizia.

Do meu lado, foi amor à primeira vista. Sou um cara muito impressionável. Todo mundo diz. Tenho a mania de ver magia nos seres e nas coisas. Tenho a mania de ficar procurando poesia em pessoas que muitas vezes são ocas, ou que, como ela mesma repetia, naquela noite, são umas verdadeiras filhas da puta. Sei lá eu o que é isso. Vício de sofrer, ou parcialidade talvez. Sei que, mesmo amando daquele jeito, fiquei com o pé atrás comigo mesmo. Nunca fui veado nem nada, de qualquer forma, estava mesmo cansado de tomar no cu. Chega uma hora em que a gente tem de pôr os pingos nos is e parar de fantasiar. Mas ela me disse que ele batia nela o tempo todo e que era um cara muito rico e poderoso. Eu nunca quis bater em ninguém e nem nuca fui rico ou poderoso. Também nunca quis nada dessas coisas, o que eu procurava mesmo era a paz. Todo mundo se fode na vida, todo mundo se despedaça de vez em quando, contudo eu me dava mal o tempo todo. Uma vez, eu contei minha história a um carroceiro, desses que pegam lixo reciclável, e até o burro chorou. Sem brincadeira, pra vocês verem como a coisa andava feia pro meu lado. Não cheguei a perguntar por que ela não largava o tal poderoso, tava na cara. O dinheiro impressiona as pessoas e faz dos homens seres confiantes e fortes. A maioria das mulheres gosta disso. Vai entender as mulheres.

No fim, fomos parar no apartamento dela e fizemos amor, mesmo sem sexo ou qualquer coisa assim. Ficamos nus e nos masturbamos mutuamente. De masturbação eu sempre entendi bastante. Acho que ela gostou, porque, daquele dia em diante, passamos a nos ver com alguma freqüência e, depois, essa alguma freqüência tornou-se um sempre.

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- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Ela me diz, enquanto eu acaricio seu rosto inchado. Porra... algumas coisas são intoleráveis. Palavra.
- Por que porra você não manda de uma vez esse cara à merda? Você não precisa dele. A gente pode ter uma vida diferente juntos. Mesmo sem muita grana nem nada. A gente podia visitar uns museus. Assistir uma peça, ou ir ao cinema de vez em quando. Isso não te faria bem? Não te deixaria feliz?
- Talvez fizesse, mas é que eu amo esse cara. Queria sentir por você o que sinto por ele. Caralho... vocês não podem imaginar como dói ouvir uma coisa dessas assim... na lata. É mesmo coisa de fazer o camarada perder de vez as esperanças.
- Você o ama, mas ele te arrebenta as fuças o tempo todo!
- Sei que ele pode ser um pouco bruto, mas é a forma dele me dar amor. Ele teve muitos problemas na infância, é um cara confuso.
- E quem é que não teve problemas na infância. A minha mesmo foi uma merda. Nem por isso fico por aí arrebentando a cara dos outros. Ele é um filho da puta mesmo, isso sim.
- Talvez eu também seja culpada.
- Claro que é. Isso não se discute, mas você sabe que esse tipo de coisa não te faz bem. Que não vai te levar a lugar algum.
- Quando ele me bate, eu me sinto viva. – Ela diz e então acende um cigarro. Com essas últimas palavras, até eu fiquei com vontade de acabar de arrebentar a cara dela, pra ela deixar de ser idiota. Entretanto, tudo o que fiz foi dar um beijo no rosto dela e atravessar a rua sem dizer adeus. Sabia que tudo estava consumado. Meu coração era uma ferida rasgada por trás das costelas. O fim de um amor, quando ainda se ama, dói como uma morte. Não é fácil enterrar um filho, ou uma mãe, ou um parente próximo. Não é fácil enterrar um amor vivo. É como colocar um ente querido no caixão e joga-lo pra dentro da terra enquanto ele ainda respira. Talvez eu tenha olhado uma, ou duas vezes para trás. Ela estava olhando pra mim. Não sei se ela percebeu que eu não voltaria mais. Nunca mais. Ao todo ficamos juntos sete meses. Sei que pode parecer pouco, mas sinto que vou levá-la dentro de mim pra sempre. Caras sonhadores, como eu, apaixonam-se fácil, não há diferença entre nós e um cachorro vira-latas. Basta um elogio, uma carícia e já estamos conquistados pra sempre. É mesmo de dar nojo.

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Agora dirijo meu opala velho, para fugir dela, nessa estrada que leva sempre ao Norte. Não há nada além da poeira e do caminho. É estranho, mas não trafegam outros automóveis. Não existem postos de gasolina. Não há hotéis, ou coisa que o valha. A memória é um pântano e uma desgraça. Não consigo me esquecer dela. Tudo é motivo pra lembranças. Faz calor. O Sol frita meu cérebro, meu carro velho e meu corpo. A gasolina está quase no fim e eu faria qualquer coisa por um banho e uma cerveja bem gelada. E aquele filho da puta continuaria a espancá-la e ela continuaria a amá-lo. Se eu tivesse tendências, depois dessa, teria me tornado um serial killer. É sério. O inferno é que sou mesmo um covarde e que o suor escorre o tempo todo pelo meu rosto. Calor. Calor cremoso e sufocante, daqueles que deixa trêmula a estrada inteira. Até o asfalto parece que vai derreter. Nos filmes americanos chamam isso de deserto. Por aqui o calor tem o nome de Sertão e eu não passo de um cara triste do sul.

- Nem o inferno pode ser tão quente! – Digo e neste exato instante, como se fosse uma resposta divina, avisto a igrejinha velha quase que em ruínas. - Senhor tende piedade dos fracos, dos sensíveis e dos que perderam as esperanças. Obrigado Deus! Eu sou um deles.

Desço do carro, estico os músculos e entro na igreja. Por dentro, a coisa não tem muito que ver com uma igreja. Há luzes vermelhas que piscam anunciando: IRENE´S BOITE, um imenso balcão, bebidas, algumas mesas, moscas e um rádio que toca uma canção brega qualquer. Calipso, talvez, não sei ao certo. Atrás do balcão e ao lado das bebidas, existe uma porta enfeitada com uma cortina de pérolas vermelhas. Como não há ninguém, eu finjo tossir um pouco pra ver se surge alguém que me atenda, todavia não aparece viva alma. É então que eu reparo no pequeno sino, encostado num canto. Pego-o e chacoalho-o. Não demora muito e uma mulher morena, de cabelos lisos, na altura dos ombros, baixa, de nariz grande, lábios salientes e sorriso lindo surge por detrás da cortina.
- Boa tarde, senhor. O que deseja? - Ela me pergunta esticando ainda mais o sorriso.
- Eu gostaria de tomar um bom banho, beber alguma coisa gelada e depois comer algo bem leve.
- Acho que posso ajudá-lo. – Ela diz ainda sorrindo e colocando um cd da Ivete Sangalo pra tocar. – Pode me seguir. - Continua em seguida, enquanto abre uma portinha na lateral do balcão.

Eu a sigo feliz da vida até um banheiro onde há uma imensa banheira branca e antiga. Ela, delicadamente, retira minhas roupas, sem jamais deixar cair seu sorriso baiano do rosto. Passa a mão na minha própria face, enquanto a banheira enche, e fica me olhando como se me conhecesse há muito, quem sabe até desde outras encarnações.

- Eu te esperei tanto tempo! – Diz e em seguida me coloca dentro da banheira e sai pra logo depois voltar com um belo cálice de vinho nas mãos. Entrega-me o vinho. Eu noto que em seu braço moreno existem pequenas cicatrizes brancas.
- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Eu digo.
- Eu sinto a dor o tempo todo. – Ela responde e sai outra vez. Eu, por meu lado, vou bebericando o vinho e curtindo a água quente, sentindo meu corpo, aos poucos, ficar completamente relaxado, como se não me pertencesse mais. Tudo me agrada e eu quase sorrio. O sono vem leve e pesado feito um som do Led Zeppelin. A última coisa que percebo é a luz vermelha piscando no teto e ainda repito por umas três ou quatro vezes a palavra: AMOR. Pelos meus ouvidos ecoa a voz de Luciano Pavaroti. Ela deve ter posto alguma coisa no vinho.

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É com dificuldade que consigo abrir os olhos e ver a luz forte e branca brilhando sobre o meu rosto. Tento me levantar, mas percebo que estou fortemente amarrado sobre a cama que não é uma cama, mas uma mesa de operações. Passeio a vista pelo cômodo branco e percebo nas paredes cabeças de homens empalhadas como se fossem cabeças de alces. Há homens de todas as idades. Diante de meus pés o corpo inteiro de um jovem negro e forte permanece em pose de ataque. Seus olhos são desesperadores. Ao meu lado, é um senhor moreno e barrigudo que está empalhado da cintura pra cima, na base que sustenta esse corpo está escrito em letras douradas: Vincent. Tento outra vez escapar, mas não há maneira. Estou fortemente amarrado.

A mulher volta cantarolando uma antiga canção do grupo só pra contrariar. Mesmo na minha situação consigo distinguir a música. Além de tudo, ela tem um péssimo gosto musical. Traz nas mãos facas, adagas e punhais. “Tomei no cu direitinho dessa vez!”. Eu penso e sorrio, não há mais o que fazer.

- Por que isso, hein? – Eu pergunto.
- É pelo filho que não tivemos e pela vida que não levamos. – Ela responde.
- Mas, você nem me conhece. – Retruco.
- Conheço sim. Você é Daniel, ou não é?

Já não pergunto mais nada. Eu me chamo efetivamente Daniel.

- Não se preocupe. Não vai doer nada. Logo a anestesia fará efeito e você irá dormir profundamente. – Ela diz.

Eu ainda tento balbuciar alguma palavra, mas minha língua não obedece mais ao meu cérebro. Sinto apenas cócegas na barriga, depois a ouço gritar alto.

- Belinha! Belinha!

Surge uma cachorrinha latindo e minhas tripas são jogadas ao chão para servir de alimento. Um belo jantar. Não sinto mais nada direito, mas minha mente continua funcionando. O sono está a caminho, posso sentir, o sono derradeiro. Antes de fechar de vez os olhos, ainda vejo-a se aproximar, beijar minha boca e dizer baixinho, como se fosse uma forma de consolo.

- Eu te amo.
Sei que é verdade, mas também sei que serei só mais uma peça, uma de suas obras de arte entre tantas outras. Por mais estranho que possa parecer, estou feliz em morrer assim e em me tornar isso. Do meu corpo dilacerado vejo decolarem entrelaçados anjos e demônios. Não tenho mais forças, mas mantenho meu sorriso. Ela também mantém o seu.

E eu que pensei que o alcoolismo fosse um problema.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tão longa estrada

Por que você não me deixou de uma vez caído?
Por que você foi tão boa pra mim?
Por que o teu café me faz tão bem?
Tão longa estrada, a nossa...
Tão cheia de obstáculos...
Estrelas famintas se lambuzam no teu brilho
Pena eu não ter sido prudente o suficiente
Espinhos te fodem o útero
Meus mil demônios fanáticos no teu rabo
Fazem do teu grito meu orgasmo
Quero arrancar teus olhos
Beber teu rio
Devorar teus mamilos
Rasgar em dez milhões de pedaços tua alma azul clara
Te fazer chorar de farra
Só pra ser consolo
Afogue-me no teu ódio
Esfole-me o sexo agora
Teu desespero me excita
Faz do meu pau um pau de aço
Obsceno psicopata sem coragem de matar
Eu me escondo em você, porque o mundo não me quer
E por mais que tenha medo
Quero estar de frente
E encarar contigo os pesadelos.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

TÃO PERTO, TÃO LONGE.

Um ao outro era tudo o que tínhamos
Café nas noites frias.
Cerveja nas noites quentes.
Cardumes de sonhos nadando no lago dos teus lábios.
Continuar, depois do fim, é cultivar um fogo-fátuo,
É carregar nos bolsos o cadáver de uma dezena de amores fracassados.

E Deus se diverte!
Ele também só quer ser amado.
Feito um menino mimado qualquer,
Cuja mãe não existe.

E dizem que Ele ama a humanidade, querida.
Seis bilhões de sacos de merda
Atravessando essa ponte sem sentido
Seis bilhões de sacos de merda
Inventando um teatro de amor
Em meio a traições, doenças venéreas fatais,
Cânceres que se formam entre as bolas
Todos aqueles livros que não lemos...
Todos aqueles livros que não escrevemos...
Todas aquelas canções que não ouvimos...
Todo o amor que não fizemos,
Que deixamos para amanhã,
Nunca sequer imaginamos que aquele era o último dia
Que não haveria mais amanhã e que o Sol estava morto.

E todas essas crianças metralhadas...
E essa confusão mental...
E os homens em busca de mais dinheiro e mais dinheiro e ainda mais dinheiro.
- Afinal por que você está surpreso, Daniel?
Acaso esperava um outro final para o espetáculo?
Acaso imaginou que as drogas o salvariam?
Bem... tenho algo a te dizer, meu velho,
Elas enferrujaram todos os teus sonhos
E crucificaram os teus amores.

Cardumes de sonhos nadavam no lago dos teus lábios.
Aos cinco anos quebrei o braço e as esperanças.
Tentei de tudo, mas não criei uma nova estética.
Tentei de tudo e minha poética provou-se rouca.
Pela cidade a boa nova esbarra nos edifícios.
Feito um novo Noé, pelejo com as tábuas do meu barco
E procuro nos céus um sentido e discos voadores.
Lá fora chove
Nos vidros da janela da sala
Uma gota insignificante encontra outra
Que busca uma outra,
Que se junta a uma terceira,
E formam uma correntezinha que desce e desce,
Mas também morre.

É muito frio, o vento que sopra dentro de mim.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

BENEDITA

Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.
Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.
O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente...

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ULTRAVIOLETA

Muros crucificados
Um Cristo dependurado em cada beco
Meu registro de batismo queimado
Flutuando feito uma dezena de urubus
Ó mãe, onde foi que nos separamos?
Onde foi que deixamos de nos entender?
A tempestade fez da tua cama um canto ermo
Todos os amantes que você não teve
Negaram-me a alcunha de pai.
E o que importa?

Ó mãe, por que o nosso amor não foi suficiente?
Por que o medo fez de mim um depravado,
E de você uma lágrima entre rugas?
A morte está na estrada
Você conhece alguém que não está morrendo?
Crepúsculos sufocados nos teus olhos
Luas cheias nos meus dedos
A covardia joga o próximo na fogueira, sabia?
Teus filhos já não são,
Não serão jamais.
Em verdade vos digo que o amor não foi suficiente.

Jesus de tênis faz pose para as fotos no jardim.
Sou minha imaginação.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

vaga lumes

Ontem foi um dia bonito. Acordei cedo. O sol estava quente. Dei uma volta de bicicleta. Voltei pra casa. Lavei o quintal e aí o carteiro chamou. Tinha um sedex pra mim. Assinei um papel que o carteiro me deu. Peguei meu envelope e entrei em casa. Vinha de Cruz das Almas - BA, o envelope, e continha dois exemplares com dedicatória do livro Vaga lumes, do meu amigo Luciano Fraga.
Depois do almoço, deitei-me e comecei a ler. Fiquei encantado já com o prefácio do meu não menos amigo Ronaldo Braga... e então... passei aos poemas. E me deleitei com o já conhecido suíngue verbal do velho Luciano. Alguns poemas eu já conhecia do Versos e Perversos , mas eu os li novamente e foi um novo olhar e as palavras me revelaram coisas outras.
Outra coisa que não pode ficar à margem são as ilustrações magníficas do Ruela e todo o projeto gráfico que está pra lá de bonito.
Muito obrigado Luciano e parabéns a todos envolvidos no projeto.

EU INDICO.