terça-feira, 20 de outubro de 2009

OS ABISMOS SÃO PARA OS PROFUNDOS

May you always do for others
And let others do for you…
...May you stay forever young

Bob Dylan

Eu era o cara velho em roupas novas que observava tudo no canto da sala. O quadro, O escolar de Van Gogh, emitia sua energia louca, parecia haver um campo magnético ou qualquer coisa assim em volta dele. Havia Modiglianis muito bons, havia Gauguin e havia Delacroix, mas Van Gogh é outro papo. Todo o museu, melhor, todo o mundo, parecia girar em torno daquele quadro. Seria o Aleph? O princípio e o fim? E a tristeza nos olhos e no olhar vazio do menino? Eu podia ver a dor do artista desesperado naqueles traços. Eu podia ver o seu amor e seu carinho pela humanidade. Eu podia ver a ternura e a tormenta em cada canto vermelho ou alaranjado. Eu tinha impressão de que, se tocasse aquele quadro, abriria uma porta pra outro mundo, pra outra dimensão, onde eu poderia abraçar Vincent e conversar sobre as coisas da vida. Eu também tinha sofrido demais. Eu também tinha perdido tudo e fracassado. Muitos amigos meus haviam desaparecido. Muitas mulheres tinham encontrado homens mais interessantes e meus filhos agora estavam longe. Há muito tempo, eu chegara a acreditar que poderia realizar algo de bonito e grandioso, agora eu era só o cara velho em roupas novas e a menina que observava o quadro era tão jovem e tão bonita. O museu estava praticamente vazio neste dia por causa da chuva. Havia cinco dias que não parava de chover na cidade e o feriado prolongado tinha feito muita gente fugir pro interior ou pro litoral. Eu gostava de dias assim. Eu gostava de passear pela cidade vazia olhando as coisas. Quando estava vazia, a cidade era meu espelho. Quando havia pessoas nela, a cidade me lembrava cocaína e eu tinha vontade de fugir e de morrer. A simples idéia do suicídio havia me ajudado a passar muitas noites difíceis, pois eu sabia que um dia me mataria mesmo e então não haveria mais nada, além da brancura de uma folha vazia.

A menina se distanciou um pouco mais do quadro, como para senti-lo de outra forma. Ainda não havia me notado no canto da sala. Na verdade, ela se parecia um pouco com a minha segunda esposa, aquela que... melhor nem falar dela. Na arte de odiar as mulheres são inigualáveis, além disso, eu... então o elevador parou e dele desceu um rapaz magro, despenteado e barbudo. Parecia muito doido. Atravessou as outras salas da exposição quase que correndo e se ajoelhou ao lado da moça, olhando pro quadro. Ela riu um pouco e então olhou pra trás e me viu no canto da sala. Acho que o rapaz também havia se dado conta da magia e da força. Não acredito em santos e nem em messias, mas acredito em Van Gogh. Acho que o garoto pensava como eu. Ele ficou lá ajoelhado por uns cinco minutos, enquanto a moça me olhava e fazia gestos indicando que o rapaz devia estar maluco.

- Eu preciso me salvar! – ele disse ao se levantar, abraçando a moça. Tem cada malandro nesse mundo.
- Não existe salvação. – Eu falei.
- Velho você não entende, você já fez o que tinha de fazer e eu não, eu preciso conseguir.
- Essas coisas só pioram com o tempo. Porque você sente que a morte está chegando e nada muda. Então você renova as esperanças e tenta outra vez e nada muda novamente. Quando você se dá conta, as rugas já tomaram conta do seu rosto e você continua agindo feito um menino. É ridículo. Uma piada das mais sem graça.
Então a menina abriu a boca:
- É tudo tão triste. – Disse.
Droga eu também era um menino, mas o meu corpo era velho. Isto é mesmo ridículo. Em algum lugar dentro de mim morava um homem que queria amar, mas o corpo, o corpo estava fechado para o amor. Os lábios dela eram bailarinas e o meu espírito tinha de agir como velho porque meu corpo era velho e a gente só pode ser por meio do corpo. Além do corpo ninguém sabe o que será.
- Não, não tem nada de triste. Nós ainda podemos conseguir. – Disse o menino e abraçou a moça ainda mais forte.

Ela olhou pra mim outra vez meio encabulada e eu me lembrei que também já tinha sentido as coisas daquele jeito e me lembrei dos meus amigos artistas que agora estavam mortos e eu me lembrei das minhas mulheres artistas que agora estavam mortas. Todas as pessoas pra quem eu esculpi, todas as pessoas pra quem eu pintei, estavam mortas agora. O monstro cria gerações e mais gerações pra se alimentar delas. Moloch! E toda geração acha que vai ser diferente, mas no fim fica tudo igual. Somos todos crianças sempre. Alguém aí se lembra de Judy Garland? Alguém aí se lembra de Etta James? Eu chorei ouvindo Etta James. Mantenha suas mãos ocupadas, velho! Mantenha ágeis os seus pés!
- Eu preciso beber alguma coisa. Não quero ficar com essa coisa ruim por dentro. Não para de chover e essa dor está me matando. A moça falou ajeitando os cabelos atrás da orelha.
- Eu bem que gostaria de te pagar alguma coisa, mas não tenho dinheiro. Nunca tenho dinheiro. – Disse o moleque.
- E o senhor? – Ela perguntou olhando na minha direção.
- Vamos.
Atravessamos outra vez à sala. Eu disse adeus ao Escolar e a moça apertou o botão pra chamar o elevador. Tinha um arco-íris pintado em cada unha.

***

Entramos no primeiro bar aberto. A menina pediu um copo cheio de vodka. Tinha uma sede daquelas. O rapaz pediu uma cerveja e três copos. Eu emborquei meu copo e pedi um refrigerante. Não bebia mais, havia sofrido por mais de trinta anos nas garras do mais cruel dos alcoolismos. Eles começaram a conversar. Jovens e velhos desesperançados na mesma mesa imunda. Eu fiquei quieto ouvindo. A sobriedade, como tudo o mais, tem suas vantagens e suas desvantagens. Era mesmo linda a menina. E parecia tão triste quando sorria! A tristeza deixa as pessoas magnéticas. Mesmo o humor, o melhor dos humores, esconde uma grande dose de dor e de insatisfação.

Eles beberam mais. Continuei firme no meu refrigerante. Lá fora o céu desabava. Imensas gotas azul-claras escorriam pelos vidros e pela lataria dos automóveis.

- Um dia ainda escrevo um grande livro! Posso senti-lo germinando na minha cabeça. Quando ele sair vai ser como o Werther. - Disse o menino.
- Torço por você garoto.
- Não agüento mais beber... não tenho mais casa... não quero ir pra casa! – Disse a menina.
- Também não posso te levar pra minha casa. Moro de favor na república de uns amigos. - Emendou o rapaz enquanto pegava um dos meus cigarros sobre a mesa.

Então a menina fez uma coisa. Levantou-se. Cambaleou até mim e escorregou a ponta dos dedos pelo meu rosto.

- Você é um velho tão feio. Tem rugas tão profundas. - Disse e aí me beijou na testa, como se fosse ela a minha mãe e passou os dedos entre meus cabelos ralos.
- Se quiserem podemos ir pra minha casa. Falei.
- Eu adoraria.

Chamamos um táxi e nos escondemos ali dentro prontos pra atravessar a cidade. Não demoramos a chegar. Era mesmo bom ter vazia a cidade. Paguei a corrida e subi na frente pra cobrir os meus trabalhos. Eu não precisava mais que os outros os elogiassem. Eu era um velho. Voltei ao portão e os coloquei pra dentro. Eles beberam algumas cervejas que havíamos trazido e eu bolei um bom baseado como nos velhos tempos. E foi bem nessa hora que ficamos felizes e somamos nossas idades e dividimos por três para sermos iguais, mas, porra, eles eram mais jovens que meu filho mais novo. Sei que cai no chuveiro pra um bom banho e, quando voltei, eles estavam dormindo abraçados no meio da minha sala. Descolei uma coberta e joguei por cima. E aí peguei um lápis, uma folha de papel e os desenhei. Eram lindos. Quando terminei o desenho, peguei a câmera que eu levava sempre à mão e tirei uma fotografia. A menina abriu lentamente os olhos e, no meio de um bocejo, disse:

- Deita aqui com a gente.

Devo confessar que fiquei indeciso por alguns segundos, mas ao final, também entrei embaixo das cobertas. Ela me abraçou e beijou meu rosto. Na televisão passava um velho vídeo dos Stones que minha quarta mulher havia deixado quando partiu. Um novo tipo de afeto crescia dentro de mim. Uma coisa misturada, não definida, uma coisa que eu sabia que ninguém mais havia sentido no mundo, algo feito o surgimento do amor romântico nos tempos mais cruéis do cristianismo, quando as chamas eram bem mais que uma metáfora. O que era aquilo eu não sabia, mas como todas as outras coisas intensas da vida, também me levaria para o abismo. Pouco me importava, pouco me importa. Os abismos são para os profundos. Lá fora continuava a chover.

10 comentários:

Cristiana Fonseca disse...

Belo texto, lindo conto, vc deveria publicar um livro com teus contos , são intensos e muito bem escritos.
Belíssimo conto.
Abraços,
Cris

Luciano Fraga disse...

Amigo Daniel, conforme a Cristina comentou, já passou da hora de nos brindar com um livro de contos, antes que pare de chover.Abração.

Adriana Godoy disse...

Daniel, me surpreendeu tanto esse conto, me deixou assim com o coração diferente. Dá pra visualizar tudo intimamente. Os abismos são para os profundos mesmo e você, o que posso dizer? Quando vi um quadro de Van Gog no Museu D'Orsay quando fui a Paris meus olhos se encheram de água como um rio numa enchente. Cara, nunca vou me esquecer. E esse conto me trouxe tantas emoções de volta e outras tantas novas. O seu livro tem que sair. Beijo.

pianistaboxeador21 disse...

AGRADEÇO A TODOS PELAS PALAVRAS CARINHOSAS.

AMIGOS, AINDA ESTOU TENTANDO ALGUMA EDITORA E ALGUNS CONCURSOS. SE NÃO DER, EU MESMO VOU PUBLICAR UMA COLETÂNEA DE CONTOS NO INÍCIO DO ANO QUE VEM.
ADRIANA VAN GOGH É MESMO DIFERENTE. ESTE QUADRO PERTENCE AO ACERVO DO MASP E ESTÁ NA EXPOSIÇÃO OLHAR E SE VISTO EM CARTAZ NO MUSEU.
ABRAÇOS A TODOS

f@ disse...

Olá Daniel,

Imenso e belo texto para uma Reflexão maior…

Criativo e de uma sensibilidade tocante...
adorei
beijinhos

Devir disse...

Pianista, ler este conto, derruba todos meus catelos e meus paraísos artificiais.
Os duplos que escolhemos precisam ser fieis, quase igual a Deus.
Esta semana tive um insight, daqueles que a tristeza é tão saborosa que jamais poderíamos compor, seja com música ou poesia.
Com a cabeça no colo de uma amiga, perguntei:
Por que sou assim, quando encontro homem, mulher, animais, flores, paisagem, situação, que posso dar razão incondicionalmente, logo os transformo em uma espécie de deus e me faço feliz na eternidade daquele momento?
Seu conto me trouxe a lembrança deste sofrimento tão incomunicável
quanto inapreensível e vivo.

Muito bom.

Devir disse...

Só o fato de alguém se debruçar sobre a janela de um sujeito como Van Gogh, e da visão compor um duplo, seja como for, isto demostra sua aptidão a salvação.
E voce sabe o melhor sentido deste conceito, e para quem não sabe, tente imaginar Jesus Cristo sem a sua história e que fez tudo o que fez; claro, sem efeitos especiais.

"Eu podia ver a dor do artista desesperado naqueles traços. Eu podia ver o seu amor e seu carinho pela humanidade. Eu podia ver a ternura e a tormenta em cada canto vermelho ou alaranjado. Eu tinha impressão de que, se tocasse aquele quadro, abriria uma porta pra outro mundo, pra outra dimensão, onde eu poderia abraçar Vincent e conversar sobre as coisas da vida."

Na história, quase não se permite imaginar, Vincent disfarçando o sofrimento, e tambem o filho do criador, aprendendo a andar, chorando ou sorrindo.
Quase os aceitamos como um eterno estrangeiro da humanidade.

Tenho estes tipos de "passatempo", trabalho, esporte, rss.

Por exemplo, uma única vez na vida sonhei falando para uma multidão, não sei se eu era um ditador, um messias, um superstar, mas lembro que a multidão urrava, e não me importava o sentido daqueles urros, vibrações coletiva sob mim.

Acordei muito zangado, não tomei café da manhã, não me alimentei o dia inteiro, no trabalho não falei com ninguém, voltei para casa e continuei sem comer, nem bebi água, tive insonia, no outro dia não fui trabalhar, permaneci recluso em casa até o terceiro dia, então dormi outros tres dias sem acordar, e na manhã do sétimo dia, retomei tudo que eu fazia, mas tinha certeza que era outro.

Fiz questão de esquecer tal sonho até agora. Ou até o dia que voce, essa semana, apareceu para fazer um comentário, que tinha um estofo de fé religiosa...

Algo neste tempo, quando a imagem é mais um esconderijo do que armadura ou arma mesmo, e muitas vezes se resume ao corpo e vestimenta, algo neste limite enlatado me leva a acreditar, que vai surgir uma nova espécie de fé, e esta se encarnará de fato ao ser de forma prática, ou melhor, não abstrata e muito bem comunicável aos outros.

Claro que, a princípio, tal fé será confundida com qualquer coisa que agrada e desagrada - a volta do Filho, a era dos homens deuses, o céu enfim na Terra, etc. - e cada "infeliz" contagiado com "a boa nova", sofrerá perseguições...

Óbvio, nenhuma novidade.

Então, vamos em frente.

Tenório disse...

Olá colega. Te achei no link da Adriana Godoy...

Que coisa mais fina, que textura esse conto. Me causou um tanto de coisa, uma euforia, uma vontade de escrever, de rever aquele filme Closer, com Clive Owen, Natalie Portaman e Judie Law, sabe? Ou de ouvir 'À flor da pele' do Chico, sabe? Não me pergunte porquê.

Foi tudo na sequência, primeiro li o trecho do Pequeno Príncipe e depois esse seu conto...

Deu até vontade de escrever um romance em cima de conto. talvez escreva e te mostro.

Virei mais vezes aqui, meu caro. Parabéns.

Tenório

Luis Carlos disse...

Lendo este texto tive a certeza de uma coisa. Sem dúvida, foi umas das coisas mais belas que li nos últimos tempos na internet. Senti os mesmos velhos sentimentos quando li Pergunte ao Pó de John Fante. Tem certo dias que você se encontra com vagos sentimentos, indefiníveis, sem forma, e procura desesperadamente dentro de si algo que não sabemos bem o que é,mas que existe, é real, está lá, mas você não encontra. Hoje eu me encontrava assim. E de repente deparo-me com este conto e imediatamente estabelece uma estranha conexão entre este vago sentimento e as palavras ali deixadas. E só a Literatura tem este poder. De fazer com que nos encontramos. Só a boa Literatura tem este poder. E hoje tive certeza de estar diante de um grande conto. E viva a Literatura.

jawaa disse...

Nãso tenho tido grande tempo para vir ler-te.

Já não me surpreendes. És sempre Muito Bom a escrever!

abraço