quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 19 E 20

19.

Abro os olhos. Estamos atravessando uma imensa ponte. Embaixo há só o fundo, não posso vê-lo. Sei que ele existe, mas não posso vê-lo. Está tudo tão escuro! Sinto náuseas. Não há salvação. Continuamos subindo. Acho que nunca mais sairemos da ponte. Estou tão cansada!

20.

Quem poderia cantar uma canção pra mim, a menina que um dia foi barco?
No quarto onde eu estava escorria sangue pelas paredes. Por que tantas pessoas esfaceladas pelo mundo? Eu me perguntava sem saber bem o porquê. Por que pessoas sem pernas, sem braços, sem mãos, sem os dedos, sem uma das orelhas? Por que outras pessoas que têm tudo isto por fora, mas só de dar uma olhada pra cara delas a gente percebe que por dentro foi tudo amputado? Só de dar uma olhada, a gente percebe que não deixaram uma rosa qualquer ou um colibri pra contar a história? Foi tudo amputado. O massacre da serra elétrica.
Toquem mais alto esta gaita! Soprem ainda mais forte a flauta! Talvez sejamos todos fortes! Mas no quarto o sangue continuava escorrendo. Sempre. Sem parar. Pelas paredes. Tantas baratas e escorpiões, e moscas, varejeiras, e vermes e mais baratas e escorpiões e vermes. Sempre o mesmo mantra maligno. Sempre a mesma ladainha peçonhenta. E lá no alto, no teto, desenhado, a figura meio touro, meio homem. Tenho medo do mal. Esse cheiro de sangue me desanima. Melhor dormir. Tomara que eu não tenha sonhos. Tomara!

4 comentários:

Adriana Godoy disse...

Uma sequência estonteante para o dilema dela, da prquena garota que sonha acordada. Envolvente, Daniel e gosto desse jeito com que vc escreve essas coisas tão pesadas e que, de repente, se tornam leves e mágicas. E depois voltam a pesar. Ótimo texto e pra ser chata de novo e exigente: aguardo o próximo. Beijão.

emy disse...

passei para deixar um oi
e dizer que agora eu eu tenho um blog tambem quero dizer estou tentando criar uma página legal não escrevo tão bem quanto voce
mais um dia eu chego la ok abraço ate

obss mencionei sobre o seu livro la mais depois vou postar um artigo com a minha opniao ok ate

emy disse...

oie,
pode deixar que eu vou sim Daniel,não prometo que vou ainda hoje pois tenho compromisso mais com certeza eu vou ok obrigado mesmo

Luciano Fraga disse...

Daniel amigo,essa passagem é de uma extrema sensibilidade, a abertura da consciência para a existência do outro e através da visão dos membros e até do interior amputado, o encontro da ponte, da passagem,que pode ser a travessia para o outro lado de um rio, simbolizando o encontro com o novo, ou o distanciamento e morte de tudo que passou, uma escrita que é um sonho fabuloso, vamos em frente, espero mais, forte abraço.