quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 18

18.

Lembro-me dos Céus escuros. E das pancadas que as imensas ondas me davam, contudo eu me sentia tão calma! Era como se enfim eu me encontrasse. Era como se enfim eu fosse uma heroína. Alguém muito especial. E o mar me jogava, pra baixo, e pra cima e pros lados. Pula macaco bonito! A força dos meus cílios criava noites imensas. Sem buracos negros ou estrelas. Eu me afogava calmamente. Podia ouvir vozes e sentir as mãos tentando, de longe, me tocar. Mas eu não queria voltar, nunca mais! Não. Era uma criança solta e feliz. E a força dos meus cílios criava noites onde os morcegos tinham arco-íris explodindo nas asas, e as corujas sorriam estrábicas. Meu chapéu não perdia suas luas, ou se soltava dos meus cabelos. E aquela voz divina sempre e sempre clamando e me acalmando. “Você é mulher-maravilha, menina!. Tão criança! Eu vou pintar um céu extremamente lindo pra você! Não se assuste com toda esta escuridão de agora. Tenho um segredo pra te contar... você é uma santa! Por isto precisa sofrer tanto! NÃO SE PREOCUPE! EU SOU O SENHOR!” E sobe e desce, calmamente, não me afogo porque sou um barco colorido. O mar me mostra seus dedos cheios de afagos. E sobe e desce, a ovelha negra da família não vai mais voltar. Vai sumir! Prum lado e pro outro, como um barco colorido. Vinho em taça de prata. E os gritos vêm da areia.Talvez não esteja contando direito, talvez eu tenha que contar tudo outra vez. Vou tentar assim: Mais alta que as montanhas da Serra. Entre as nuvens escuras. Mulher-maravilha. Uma Santa! Ufa! É tão difícil alcançar! Não existe medo porque Deus é uma presença concreta como uma rocha, ou um feto. Meu útero vibra, explode, ergue bem alto suas trompas, seus ovários, sua vagina salgada. Víveres em liquidação! Posso provocar um maremoto! Mas não é maremoto que quero criar, quero é gritar toda essa bondade que se arrebenta no meu peito. Eu sou um templo! Jesus o que é isto! E sobe e desce! O oceano te abraça, ele quer fazer amor com você, menina. Mais uma vez, pra baixo e pra cima... pra baixo e pra cima... Mas então a voz do Senhor se distancia. Por favor, não vá embora. Sinto medo. Não quero ficar sozinha! Não atire essa pedra tão pesada em mim, não agora! Sobe e desce, sobe e desce. Fale comigo Senhor. Deixe estas águas limpar minhas feridas! Por favor Deus, faça de mim mulher-maravilha de novo! Não se afaste Senhor, leve-me leve com o senhor. Eles vão quebrar tudo dentro de mim de uma vez. Prum lado, pro outro. Não quero separar minhas pálpebras. Ele grita do lado de fora, mas não é mais Deus ou o meu pai, não é mais nada humano ou bom, ele é o mal e arranca demônios das narinas, pequenos demônios, e arranca demônios dos ouvidos, e dos olhos, dos olhos Senhor! Dos olhos! E da boca, e do pênis, e do cu, e de todos os orifícios do seu corpo saem demônios, de todas as cores, uma aquarela inteira de crueldade e ódio. Nunca o mal foi tão claro. Estou nos braços do mal. Desmaiada nos braços do mal. Por que me abandonaste Pai? “Faz respiração boca a boca nela!” “Onde diabos se meteu o salva-vidas?” “Saiam de perto, ela precisa de espaço!” “Não seu idiota, eu não preciso de espaço, eu preciso é continuar sem respirar! Não quero mais voltar”. Na serra, espadas emergem das profundezas do solo. A água escapa do meu corpo. Entra o ar. Que merda!

3 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Então vamos escrever, né? É o que resta.

Adriana Godoy disse...

Li esse primeiro..nossa esse "suicídio" esse delírio tão divinamente escrito, que conduz a gente suavemente e intensamente até o fim e por fim a salvação não desejada. Um êxtase cruel, mas belo. Forte. Bom, Daniel, é o que poso sentir agora. Amei. beijo.

jawaa disse...

Você escreve muito bem e estou curiosa com esta personagem narradora, o que vai fazer com ela.
Tenho passado e lido, só tem faltado o tempo para deixar pegada.