domingo, 16 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 15 E 16

15.

A palavra é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. O bolo é o mais importante, mas tudo o que eu consigo mostrar é a fôrma. Melhor é ser como uma banda punk: Baixo, guitarra, bateria. Simples. A crueza das emoções. A estética do escarro... Neste mundo escroto a única coisa verdadeira é a dor. Levanta as mãos macaco! Pula, cambaleia, prossegue, retorna! Eles pedem bis! Tudo de novo, outra vez. Eles pedem bis! Nunca se cansam do espetáculo! Pula, cambaleia, chora, ri, prossegue, retorna... em volta do pouco que brilha, tudo escurece. A estética do escarro. Quando o ódio se instaura é difícil voltar atrás. Mais uma vez! Pula, agora, cambaleia! E vai tecendo teu longo mosaico de rancores. Pior será se exigirem que se abra a porta do guarda-roupa, onde um búfalo funga do outro lado do espelho, pronto pra bater sua cabeça contra a minha. Os bichos existem apenas, não procuram fazer sentido. No meu sonho, havia baratas sobre o sabonete que deveria ensaboar meu corpo. É a vida, é a vida.

16.

Décimo quinto corte. Será que nunca mais poderei sair? Os versos continuam vindo, as narrativas também. Retoco-os como se fossem unhas. Retoco-os sempre.
Sonho:
Estou tomando banho. Calma. Num lago ainda mais calmo e de águas cristalinas... cristalinas. Não há preocupações e eu estou nua. Há bananeiras em volta do lago. Estou cantando algo. Entre as bananeiras alguma coisa começa a se mover. Apenas olho. Não me preocupo. A água é limpa. Mergulho no lago. Quando volto à superfície, reparo nas manchas pretas e vermelhas perto da beirada do lago, entre as bananeiras. Fico curiosa. Forçando as vistas consigo distinguir os dois enormes jacarés que agora estão entrando no lago. Negros. Vermelhos. Tento fugir. Nado pra outra margem, mas nunca consigo alcançá-la. Estou presa. Os jacarés se aproximam. São enormes.

2 comentários:

Adriana Godoy disse...

Essas percpções da protagonista mexem com os nossos sentidos. Essa compulsão que ela tem por fazer cortes em si mesma e a vontade de se lavar refletem o drama que vive profundamente e os seus delírios completam o drama. Gostei, daniel e espero mais uma vez os próximos capítulos. beijo.

Adriana Godoy disse...

Li de novo agora e gostei mais ainda. Bj