quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 14

14.

Sinto quando a poesia está vindo. São dias em que fico mais sensível. Tudo me toca e eu sinto que minha alma compreende o mundo inteiro. Com a prosa é diferente, é um trabalho mais braçal.
Tenho pensado na minha avó. Em todos aqueles dias que nós passamos juntas, apenas ela e eu. Agora tudo aquilo ficou num lugar tão estranho, tão longe, parece que nem existe mais. Havia flores nas janelas. Ainda posso vê-la, a avó, aqui na minha frente. Ainda posso ver cada ruga do seu rosto, e a sujeira acumulando-se aos poucos sob as unhas, e o cheiro forte e bom de peixe. “Mas por que será que essa neném não sorri, gente!” - Ela dizia – “será que esse mundo nunca foi bonito pra você?” e passava as mãozinhas sujas de peixe na minha cabeça. A cada instante parece que fica mais difícil continuar por aqui. Tudo que parecia valer a pena dissolveu-se, derreteu, desapareceu, pra sempre. Nesta estrada de agora, parece não haver um poste de luz sequer.
Meu pai cultivava poderes estranhos. Tem, ainda hoje, uma força que não vem apenas do seu corpo musculoso, vem de dentro da sua alma sem escrúpulos. Não tenho provas concretas para acusá-lo, mas sei que, de algum jeito, ele está envolvido na morte da minha vó. Sei que de alguma forma foi ele quem roubou sua sanidade. Sei disso desde o dia em que fui até àquele quarto, distante da casa, que ficava trancado e ao qual apenas ele tinha acesso. Sei disso desde o dia em que fui até lá, e o quarto era pintado todo de vermelho, e no teto havia o desenho de um animal estranho, meio homem, meio touro, e ele, meu pai, recitava uma prece estranha, numa língua diferente. Desde aquele dia sei que ele está no centro de tudo o que aconteceu depois. Até porque minha avó sabia de tudo, eu mesma havia contado, e ela, a vó, havia dito que iria denunciá-lo. Ele é vingativo. Daí em diante tudo começou a desmoronar.
Minha avó era uma mulher muito ativa antes da coisa toda acontecer. Como já foi dito antes, trabalhava na feira. Levantava-se as três e meia da madrugada todos os dias. De terça a domingo. Às vezes, quando eu passava uma das minhas férias escolares em sua casa, ela me levava pro trabalho. Passávamos juntas os dias inteiros. Eu gostava da gritaria da feira. Gostava dos peixes e de suas escamas. A única coisa que se podia chamar assim de... chata... era o cheiro, mas até com isto a gente pode se acostumar. Ela comprava pastel e caldo de cana. Era bom. Eu enchia meu pastel de catchup e mostarda. Fazia uma sujeira danada. Ela não brigava. Em casa, se eu mastigasse fazendo barulho tomava logo um safanão na orelha pra ficar esperta. Vó Lílian era um anjo e se é pra falar bem de alguém que seja dessa velhinha, coitada, que me fazia cafuné com as mãozinhas pequenas sujas de peixe. Eu nem ligava que minha cabeça ficasse fedendo. À tarde, quando as barracas eram desmontadas, juntavam-se uma dúzia de meninos, pegavam tudo que era resto de frutas, legumes, verduras e começavam sua guerrinha. Eu não brincava, mas gostava de ficar olhando. Era engraçado. Quando a gente chegava em casa, quase de noite, ela pedia logo uma pizza pra gente comer. Eu comia bastante. Enchia a pança e depois dormia sem tomar banho, nem escovar os dentes, nem nada. Era uma maravilha. Esse defeito é preciso mesmo reconhecer que ela tinha: não se importava muito com a higiene. Eu gostava.
Um dia, logo depois das férias que eu tinha passado lá e depois de eu ter falado a respeito das coisas que aconteciam lá em casa pra ela, uma coisa ruim aconteceu. Ela, que já não era muito limpa, deixou de tomar banho de vez. O cheiro foi ficando insuportável. Os espíritos fizeram sua parte. Ela acordava à noite gritando. Atordoada. Quase não dormia mais. Mostrava a vagina. Colocava o dedo dentro na frente de todo mundo. Um dia enfiou um peixe inteiro ali dentro. Meu avô que estava morto havia mais de dez anos voltou para aterrorizá-la o tempo inteiro. Então um dia eles a levaram de vez. Prenderam-na. Um bocado de tempo depois eu fui visitá-la. Ela estava limpa coitada! Metida numa roupa branquinha, branquinha. Falava mole. Mal me reconheceu...
Morreu um tempo depois. No funeral meu pai quase sorria. Minha mãe não chorava, Nunca vi mulher mais sem graça que aquela. Uns feirantes que eram amigos dela, da vó, sim, choravam. Fizeram questão de segurar as alças do caixão. Estavam bêbados. Na briga pra ver quem é que iria carregar a coisa, o caixão acabou caindo. A tampa abriu. Jogaram o corpo pra dentro de novo, às pressas. Começou a chover forte. O padre mal teve tempo de fazer as orações. Jogaram o caixão logo dentro da cova e saíram todos correndo pra se abrigar da chuva. Ela ficou sozinha lá no meio da tempestade... sem ter pra onde correr... a cova aberta... depois voltaram todos... jogaram aquele barro cremoso, estranho, sobre ela... pra sempre...

4 comentários:

Adriana Godoy disse...

Daniel, esse lance tá ficando denso e tenso demais. Tudo isso aí, essa história toda faz tanto sentido e ao mesmo tempoo provoca tanta imaginação, que fico no limbo. É tão poético e tão cruel tão doce tão amargo que todas as cenas descritas ficam na garganta e deixam um gosto de peixe como o da vó. Está tudo muito bem engendrado, bem alinhavado e a gente vai da infãncia à loucura num segundo. Não sei se isso vc viveu de alguma forma, se são lembranças ou histórias que alguém contou, mas o negócio tá bom demais. Tô apaixonada. Não demore com o próximo capítulo, viu? Beijão.

pianistaboxeador21 disse...

Obrigado Adrina.
fico lisonjeado.
Beijo

Assis de Mello disse...

A Adriana disse tudo, Daniel. Maravilha seus textos. Vc é fera. Um abraço e cuida bem da outra fera.
Chico

Luciano Fraga disse...

Amigo Daniel, são as marcas impregnadas com cheiro e gosto de peixe asfixiado, relações conflituosas e perversas,inquietante e sensível a forma como você consegue narrar situações tão duras e crueis, parabéns amigo, estou acompanhando e esperando mais, forte abraço.