segunda-feira, 3 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 13

13.

Quando as férias chegaram, eu estava mesmo precisando de umas férias. Tinha completado sete anos. Pedi aos meus pais pra visitar minha avó por parte de mãe, a avó paterna tinha morrido fazia tempo, antes de eu nascer. A princípio ele não concordou, odiava a sogra. A avó tinha uma banca de peixe. Ele gostava do peixe, mas odiava a vó. Trabalhava na feira. Em Marília. Ele a chamava de porca. Achava-me parecida com ela, eu só podia ter puxado aquele lado ruim e sujo da família.
Minha mãe era a favor de eu passar uns dias na casa da avó. Adorava-me a vó. A mãe trabalhou bastante na campanha pró-férias em Marília. Há que se reconhecer que o trabalho dela não foi nada fácil. Ele não queria me ver longe. No final, entretanto, ela acabou conseguindo convencê-lo.
Quando se está predisposto, em tudo quanto é lugar se encontra poesia. Entramos no ônibus e pegamos a estrada. Sempre achei as estradas misteriosas. Há lirismo no asfalto quente. Nos formigueiros no meio do mato. No gado pastando. Nos postos velhos de gasolina abandonados. No canavial. No cafezal. Em todos os cheiros misturados. Estava contente. Estava indo pra longe de casa. Minha mãe, no banco ao lado, dormia com a boca aberta.

2 comentários:

Adriana Godoy disse...

"Há lirismo no asfalto quente." Essa frase resume o capítulo e o deixa mais poético, a ansiedade da menina pra ver a avó e fugir do pai, as possibilidades que vão se delineando...tudo isso!! quero mais, quero mais...Daniel, adoro seu jeito de escrever, você sabe. Beijo.

Luciano Fraga disse...

Daniel, você consegue de forma mágica, criar uma atmosfera, uma sensação estranha, com uma simples passagem, a decisão de passar as férias "na casa da vó", que expectativa maravilhosa para quem está lendo, abraço forte, vamos em frente.