sexta-feira, 10 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 4

4.

E difícil entender. Quando chegava em casa, a primeira coisa que ele fazia era passar o dedo sobre a madeira que unia as pernas de uma das cadeiras da sala de jantar, a cadeira na qual ele gostava de se sentar pra jantar. Se o dedo voltasse sujo, a expressão de seu rosto já mudava. Nasciam umas rugas entre as sobrancelhas, no canto dos olhos e havia algumas que cresciam do nariz até a boca. Olhava pra minha mãe. Não dizia nada. Minha mãe tentava se esconder, mas não havia pra onde ela fugir. Tinha que ficar lá esperando, se roendo, aguardando. Bem feito pra ela também, pra ela deixar de ser besta! Gostava que tudo na casa fosse branquinho... branquinho... Os móveis, os lençóis, as toalhas de banho, as toalhas de mesa, tudo, tudo, branco, branco. Primeiro tomava um banho... de duas horas... usava um sabonete por banho e ainda usa um sabonete por banho. Aí, quando saía do banho, ia fazer alongamento. Minha mãe continuava se escondendo dele. Coitada, ela tentava fugir, mas estava presa, feito um ramster. Só depois do alongamento é que ele voltava. Ia pra cozinha onde ela preparava o jantar. “Tem alguma coisa errada, Ana?” Perguntava. “Não, por que?” ela respondia. “Querida, você vê, você sabe o quanto eu trabalho. Dou um duro danado naquele consultório, naquele hospital. Suporto todos aqueles clientes. Faço de tudo, me viro e me reviro pra dar do bom e do melhor pra vocês. E o que é que eu ganho em troca? Desprezo! Relaxo! Sujeira! Assim eu não agüento, não é esta a família que eu sonhei pra mim. Não mesmo! O que é que você faz o dia inteiro? Por que é que não fiscaliza essa porra dessa empregada pra que ela limpe a casa direito, ou não limpa você mesma? Será que amanhã eu vou ter que ir pro consultório mais tarde pra falar eu mesmo com a empregada? Hein Ana? Será que vou ter que me atrasar com as consultas? Responde, porra!” “Não querido, pode deixar que amanhã eu falo com ela, desculpe.”
Depois dessa bronca, ele ia pra sala de musculação. Gostava de exercícios físicos. Chegava a fazer o tal do supino com cinqüenta quilos de cada lado. Depois dos exercícios, tomava outro banho de duas horas. Só depois do banho é que a minha mãe podia servir o jantar. Não comíamos muita carne vermelha. Comíamos sim peixe, ou frango, quase todos os dias. Grelhado. Eu gostava de carne vermelha, mas não podia comer, andava muito gorda, minha mãe também, não sei como conseguíamos engordar comendo aquelas coisas. Ele desmanchava todo o peixe, se encontrasse um espinho! Coitada da minha mãe! Era ela quem pagava o pato.
Um dia ele chegou mais cedo, era difícil mudar qualquer coisa em sua rotina, mas naquele dia mudou. Queria comer picanha. Grelhada. Mandou que minha mãe fosse comprar. Queria bifes com um centímetro de gordura. Nem mais, nem menos. Senti uma coisa ruim por dentro, não sei bem explicar, mas era como se eu pressentisse que algo terrível estivesse pra acontecer. Garoava. O tempo tinha um cheiro estranho, de mofo. A empregada já tinha ido embora. Estávamos só nós dois na casa. O mofo aumentava, crescia entre os azulejos. Quando os espíritos ruins vêm, sempre trazem esse cheiro. Fui pro meu quarto. Estava tentando me esconder. Eu vivia e vivo tentando me esconder nesta casa. Ouvia o barulho que vinha da sala de musculação. Barulho de ferros batendo, uma música estranha se misturando ao som da respiração forte, como que de animal. De repente a música parou. Ouvi chamarem meu nome. Coloquei o travesseiro sobre a cabeça, queria me esconder embaixo dele, do travesseiro. Chamaram novamente meu nome. Havia mais energia na voz. Não, não e não. Eu não queria sair dali. “ L. desce já aqui, agora, vamos!”. Gritou. Desci devagar as escadas. Parecia haver menos degraus nela, na escada. Cheguei à porta da sala de ginástica... ele fazia um exercício... as veias do seu rosto, dos seus músculos, estavam enormes, parecia que iam explodir, as veias... o suor encharcava tudo... ele fungava... como um porco... terminou o exercício. “Pega um pouco de suco na geladeira pra mim, estou muito quente”. Disse. Fui até a geladeira... não sabia bem porque, mas sentia vontade de chorar... apanhei o suco... era de morango... ele esperava sentado na mesa de supino. Entreguei o copo a ele. “Vem aqui, senta um pouquinho aqui perto do pai, vamos conversar”. Fui. Sentei ao lado dele. Abriu a boca: “Por que é que você tem medo do pai, filha? O pai só quer seu bem e se às vezes ele ralha com você é pro seu próprio bem, você sabe, não sabe?” Eu não sabia, mas respondi que sabia. Ele me abraçou. Estava sem jeito. Eu sentia nojo da respiração, dele, do suor. Fedia. “Você sabe que papai te ama filha, não sabe?”. Colocou-me no colo. Beijou meu rosto. Senti seu bafo quente. Sua saliva. Meu estômago começou a doer. Ele pôs a mão na minha cintura. Apertou minhas dobras. Disse que ia me mostrar uma coisa, que já estava na hora de eu saber, mas que não devia fazer com mais ninguém e nem devia contar pra ninguém, seria nosso segredo, disse e sorriu. Aí abaixou o short e me mostrou aquela coisa enorme. Mandou que eu pegasse. Meu estômago doía. O suor escorria pelo rosto dele. Minha mão não conseguiu fechar. Mandou que eu segurasse com as duas mãos e chacoalhasse. É fácil, dizia, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo. Gemia, suava, como um porco. Pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, mais rápido, mais rápido, pra cima e pra baixo. As veias explodindo no rosto, nos músculos, entre minhas mãos. Não demorou muito, soltou aquela coisa gosmenta, quente, na minha mão, nos braços, no pescoço. Assim que terminou, fechou a cara na hora, que mudança! Mandou-me tomar banho. Direito. Rápido. Não sentia mais vontade de chorar, apenas me doía o estômago. Uma sensação estranha, como se tivesse sido roubada. Naquela época, quando alguém me perguntava a idade, eu gostava de mostrar com as mãos, os cinco dedos de uma e mais um dedo da outra... Ralhavam comigo... Eu não era mais uma criancinha... Os anos contavam seis de mim... Este será nosso segredo. Sim. Gastei um sabonete inteiro no banho. Nem assim me sentia limpa, mas a sujeira não estava nos pés, ou no pescoço, ou atrás das orelhas. Não.

4 comentários:

Adriana Godoy disse...

Ei, tô sem tempo agora, depois volto pra ler. Aliás, to doidinha pra ler...beijo.

Luciano Fraga disse...

Amigo, passei e volto com calma, estou ligado, abraço.

Adriana Godoy disse...

Daniel, que cena mais trágica, como vc conduziu bem essa narrativa. A obsessão do pai coma limpeza, a mãe que nunca agradava, por mais que fizesse, a repulsa da filha, o pai inescrupuloso, tarado, nojento. o horror da filha.
O envolvimento com a história se dá de um jeito tão fácil que ao final do capítulo vc diz: por que acabou logo agora? Não queria que acabasse...quero continuar. Vê se não demora. Vc soube muito bem descrever as cenas,criar o clima certo, caracterizar as personagens. Parabéns,e não demore mesmo, viu? Estou encantada. Beijo.

Luciano Fraga disse...

Daniel, sensacional, no início estava a imaginar uma Amélia aos avessos, com "tanta exigência", mais eis que a brutalidade salta e desponta um monstro destruidor, vestido de pai, abração amigo.