quinta-feira, 30 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 11

11.

Hoje fiz o décimo quarto corte. Tiraram o aparelho de som aqui do quarto. Primeiro foi computador depois a televisão e por último o som. Agora também não posso ouvir música. As coisas ficaram mais difíceis. Era bom de noite. Quando todos estavam dormindo. Eu colocava alguma coisa da Rita, dos Beatles, ou do Floyd, acendia um cigarro e ficava olhando as luzes dos caminhões subindo bem devagar a Raposo Tavares rumo a Paraguaçu Paulista, Presidente Prudente, Presidente Venceslau, cada caminhão uma cabine, cada cabine um caminhoneiro, cada caminhoneiro um mistério... atrás havia a sombra escura do canavial. Era bom ficar pensando. Escrevendo. Pintando. Agora levaram o som. Todavia ainda restam a rodovia, o canavial, os meus próprios pensamentos.
Sou um macaco olhando as estrelas. Só isto: um macaco olhando as estrelas.
Eu queria poder dizer algo sobre estas estrelas, escrever cru como a dor, mas a coisa toda fica presa um pouco antes de se transformar em palavras, em cores, em sons. É triste constatar, mas não há arte em mim. Estou a um passo da arte, mas não consigo alcançá-la. Sinto-me como um cego num quarto lavado de sol. É um milagre. Um macaco olhando as estrelas, tentando em vão tocá-las. De que adianta tanta juventude? Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Mas, enquanto não vem a coragem para o fogo, usar apenas a gillete: pra cortar os braços, as sobrancelhas, os cabelos rente à cabeça, deixar à mostra todo o couro cabeludo. Que confusão! A gente na vida só tem uma vida e olha só aonde a minha vida veio parar... Só rindo! Que confusão! Sofrimento puro. Sem arte, sem nada. Sofrer até pelo silêncio. Eu não sou Elis Regina!
A roupa dos forçados tem listras rosas e brancas. Uma frase comum. Construída com palavras comuns. Juntando-se mais algumas tem-se um romance. Entretanto um romance já não é uma coisa comum. Qual será a magia?
Olho novamente pros lados do canavial e imagino que lá há montanhas e que em cima das montanhas mora um gigante, e que o gigante gosta de fumar cachimbo, e que o cachimbo dele, do gigante, é enorme e faz esta fumaça que invade todas as noites à cidade inteira e aquele vermelho no horizonte que parece o fogo no canavial é, na verdade, o fumo queimando dentro do seu cachimbo, e no meio da fumaça do cachimbo do gigante, bailam uns casais de gambás, cantam umas cigarras e guitarras, abraçam-se e perpetuam suas histórias os fantasmas, no meio da fumaça sangram motocicletas e chicletes, e os elefantes dançam ao som de Verdi, no meio da fumaça minha avó sorri entre escamas de peixe, no meio da fumaça a dor está morta. Conta comigo.

2 comentários:

Adriana Godoy disse...

Delicioso e cruelmente poético esse capítulo. "Sou um macaco olhando as estrelas. Só isto: um macaco olhando as estrelas." Imagens fantásticas que vão ficando na cabeça. Daniel, vê se não demora para escrever o próximo. Cada vez melhor. A arte se faz a cada linha. Beijo.

Luciano Fraga disse...

Daniel, fiquei pensando e imaginando o que seria de mim e da minha vida sem som(meu vício maior).No mais o fogo , a fumaça, a vida lá fora em cabines de caminhões, grande viagem amigo, vamos em frente que estou esperando mais, forte abraço.