quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CASA DOS AFETOS EM RUÍNAS

Escurece
Pelas paredes os fantasmas se dissipam feito fumaça de cigarro
Sinto que por trás das coisas existe algo
Como o sonho de um sonho inalcançável
E eu me perco de você!
Cortam os anos o coração de um cavalo
Dor dor dor dor dor dor dor dor
Gritam seus cascos ao cortar o chão
A morte estende o pijama no coradouro
E você nem me vê
As crianças cantam e atestam que nada vai mudar
O amor é lepra e faz feridas
Pra que tudo isto?
Na noite de outro século
Meus antepassados construíram essa casa
Restam agora as ruínas
E os demônios nos rejuntes dos azulejos
Onde ainda há azulejos
Que cantam canções deste outro lado que existe e eu não entendo.

Pessoas como você encaram os dias e os fatos
É preciso fabricar um novo vinho
E suportar a mudança das modas
A mudança das ruas
A mudança da casa destruída
Um câncer sobe as escadas até o cérebro
O que foi feito de todos os mortos?
O que foi feito de todos aqueles chapéus que adornavam as cabeças e os pensamentos nos anos vinte?
Lisboa no meu som
Sempre a mesma ladainha na guitarra de DEUS.
E eu tenho pena de DEUS e de sua solidão
Por isso entendo seu rancor e sua crueldade
DEUS nunca dormiu no seio de uma mulher
No lugar de flores macias recebemos plantas carnívoras
A casa será demolida
Grãos de areia refletem a luz da lua
DEUS é a aventura
Tudo é o mesmo sempre
Viver é arrancar sangue-sugas do pau.
O mar é tão profundo!
E eu me perco de você.
Eu me perco sempre.

5 comentários:

Luciano Fraga disse...

Daniel, "puta que pariu", uma casa adornada de imagens e passados e versos e reversos e fantasmas incansáveis,estrepitosa e portentosa poesia para ser tomada de uma só golada, máximo velho, abraço.

Adriana Godoy disse...

"É preciso fabricar um novo vinho
E suportar a mudança das modas
A mudança das ruas
A mudança da casa destruída" esses versos me emocionaram especialmente. Um puta poema, Daniel, que faz viajar nas ruínas de uma casa cheia de fantasmas, mas que ainda respira vida. Achei demais,muito intensos os versos. Estava de fato com saudade de suas produções, mas ainda cobro a outra história. Acabou? bem, o que quero dizer é que continuo como sua leitora e muito fã. Beijo.

JC disse...

Daniel,
Poema profundo, como sempre toda a tua poesia nos transporta para um mundo real. Um mundo por vezes cruel, mas que temos que enfrentar, po muito que por vezes nos doa.
Achei arrepiante a expressão"o cancer sobe as escadas..., mas é rel. É umasituyação com a qual todos lidamos, mais dia menos dia.
Um abraço

f@ disse...

Olá Daniel,
Genial esse poema...
dito assim como um grito que faz eco dentro de nós...
infinito...

"...Grãos de areia refletem a luz da lua
DEUS é a aventura"...

adorei

imenso beijinho

Anônimo disse...

La ringrazio per Blog intiresny