domingo, 3 de maio de 2009

RISO APUNHALADO

Para Luís e João Silvério Trevisan

Submarino amarelo. É na profundeza escura das águas que se encontram as paixões mais espanholas... Espanha dos meus desejos tão distantes... Submarino amarelo, e a maioria deles não são mais que canoas flutuando na superfície dos afetos. Eu não... eu não me importo de me perder nas profundezas, não sou mesmo como você, que cria o amor como um bicho entre grades. Eu bem sei que eles te rejeitaram. Eu bem sei que você esconde um crisântemo violentado na lapela. Eu bem sei dos preconceitos injetados no teu falo e no teu ânus. Menino de ferro. Liberdade encarcerada dos teus vinte e poucos anos. De onde você se esconde pode ver as estrelas? Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida inteira sem amor. Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida sem poder dar amor. Escondem-se em escafandros e armaduras, mas no cerne do metal implantaram um coração vermelho que pulsa e pulsa. E o que se faz com isso, hein? Escarros do peito podre de meu pai fabricando a aurora e todos aqueles tios e primos gritando da margem da manhã que se iniciava:
- Joga ele no meio do rio que é pra aprender a ser homem.
Isso enquanto eu tentava, e pra minha sorte conseguia, sair do meio da correnteza. É doloroso recordar o esperma verde do fundo envolvendo feito membrana a pele dos meus pés. Mas sou forte e a superação é o trigo com que fabrico o pão cotidiano.
- Eu vou ser homem, mas jamais vou ser um homem como vocês. Eu disse.
Tudo isso me volta agora. Submarino amarelo dentro de mim. Talvez você não esteja preparado para passar o que as pessoas como nós têm de passar. Talvez você não esteja preparado para o escarro e o estrume. O crime é uma forma de se revoltar contra o que nos oprime por dentro. Se esse mundo não me quer, eu também não o quero. É isso ou estou errado? Sei que é duro ter de ficar o tempo todo provando que também se é humano. Às vezes cansa. Às vezes dá no saco. Sei que é duro, meu pequeno, entretanto, esqueça um pouco o mundo e sua dor, enquanto mergulha todas essas angústias que você leva por dentro no meu corpo gordo. É fato que jamais seremos felizes. É fato que nos tornaremos alcoólatras... Drogados... Criminosos. É fato que o amor não vai nos salvar nesta terra. Deixa, porém, isto tudo de lado nestes poucos minutos em que criamos a nossa fantasia de amor e brindamos o que sentimos sem champagne, mas inebriados de pinga de cadeia. Submarino amarelo. Forever.

12 comentários:

Luciano Fraga disse...

Caro Daniel, uma dose e uma punhalada secreta na emoção, à medida que nos aprofundamos, nos aproximamos do centro de nossa batalha contra uma morte aquática,belo texto meu caro, que final!Abraço.

Adriana Godoy disse...

Um mergulho profundo nas águas de nós mesmos. Essa história de provar que é homem dá sempre coisas mal digeridas. Tomara que não seja o pequeno seu filho, pois há uma deseperança que enebria e choca, o que resta é a fantasia. Bom, Daniel, mergulhar em suas águas. Beijo.

ronaldo braga disse...

caminhar pela borda é uma pretensa proteção, mas pode ser o caminho mais proximo até as profundezas.
certo daniel amar tem que ser com tudo, como um louco no volante que bota 120 por hora no acostamento. amar tem que ser sem vergonha e que as punhaladas novas curem as velhas traições, e assim vivemos nós até onde?
não podemos mesmo e eu concordo com o seu texto viver com uma couraça dentro de uma couraça, amar é viver e viver é tambem amar e viver é correr risco é trair e ser traido.. vamos em frente sempre mesmo que em frente seja atrás.

Cristiana Fonseca disse...

Olá Daniel,
Texto belíssimo, provoca emoções, desabam sentimentos.
Escrita maravilhosa.
Abraços,
Crisfonseca


PS descilpe pela demora em visitar o teu blog.

Fabiana de Brito Gomes disse...

Lindo. Parabéns. Vou enviar a um homem escondido num amigo meu...Humm..três homens.

Adriana Godoy disse...

Daniel, acabei de ler o seu livro, que me ocupou algumas horas. Gostei muito, tem um quê adolescente, um quê de maduro, um quê de procura, um quê de poesia, um quê de gosto pela vida,(ainda que doída e amarga). A gente viaja nas páginas e encontra referências valiosas como o Álbum branco dos Beatles, por exemplo. A gente viaja na trajetória desse jovem que pode ser você, que ainda está em você. Olho para o lado e meu filho mais novo(agrônomo) pega o livro e o lê e me pergunta algumas coisas como por exemplo: o que é soneto? Tento explicar, mas ele segue a leitura. Amanhã vai viajar e leva o livro com ele, com a promessa de que vai me devolver. Daniel, obrigada pelo presente que durante algumas horas me proporcionou horas de deleite e prazer. Vou sempre guardar com muito carinho, como uma pedra rara. Beijo e uma linda noite.

Adriana Godoy disse...

Daniel, acabei de ler o seu livro, que me ocupou algumas horas. Gostei muito, tem um quê adolescente, um quê de maduro, um quê de procura, um quê de poesia, um quê de gosto pela vida,(ainda que doída e amarga). A gente viaja nas páginas e encontra referências valiosas como o Álbum branco dos Beatles, por exemplo. A gente viaja na trajetória desse jovem que pode ser você, que ainda está em você. Olho para o lado e meu filho mais novo(agrônomo) pega o livro e o lê e me pergunta algumas coisas como por exemplo: o que é soneto? Tento explicar, mas ele segue a leitura. Amanhã vai viajar e leva o livro com ele, com a promessa de que vai me devolver. Daniel, obrigada pelo presente que durante algumas horas me proporcionou horas de deleite e prazer. Vou sempre guardar com muito carinho, como uma pedra rara. Beijo e uma linda noite.

jawaa disse...

Mais um belíssimo texto, Daniel.
Não é qualquer um que passa essa emoção toda para o leitor.
Um abraço

f@ disse...

submarino de afectos não tem cor...
afunda nos c o r a i s ...

imenso beijinho

marcio mc disse...

Sem palavras amigo...Muito bom.

JC disse...

Sumarino amarelo dentro de mim. Sinal que podemos navegar, à superfície ou submergidos que nunca nos afogamos.
Um abraço

Anônimo disse...

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