terça-feira, 17 de março de 2009

...

Machuca como chuva numa tarde de domingo
O avesso do sim ainda dorme no teu paladar
E nós conversamos:
Dois fantasmas molhados num terreno baldio
Digo adeus aos sonhos de glória
Você se confraterniza com novos falos
Digo adeus aos sonhos de grandeza
Você constrói um mundo de metal
Digo adeus ao que fosse vermelho
Você cose bandeiras da juventude
E eu envelheci cinqüenta anos em cinco
A velhice não é para delicados
É preciso aprender a viver sem sonhos
Os afetos escorrem pelo ralo no final
Aqui onde as histórias terminam
Mora um vazio, um escuro, uma ausência
Um não sei que de triste, de aço, de frio
Construo conchas de estanho e desprezo as pérolas
O tempo cria covas nas minhas mãos e no meu destino
A incompreensão é uma aranha que tece e tece
E nós nunca nos entenderemos
Estamos todos sozinhos
Amor é nada
O egoísmo é a espada que decepa
Estamos todos sozinhos
Chove sempre
E a chuva afoga os anciãos
Estamos todos sozinhos.

13 comentários:

Adriana disse...

Voltou com força total, Daniel. Estava com saudade de seus textos. Esse poema machuca e comove. A gente lê e se surpreende com cada verso, parece que chove sempre e realmente estamos sozinhos e envelhecemos sozinhos. Vou trabalhar, depois leio de novo com mais calma. Um beijo e bom retorno.

JC disse...

Bem vindo. Sempre coma mesma vontade e com o mesmo primor de escrita. Mais um belo poema.
Um abraço

Luciano Fraga disse...

Que retorno triunfante cara, esta poesia tem algo de ânsia e desepero, ofegante, vem junto com cansaço, acho que velhice e solidão, somos uns sós mesmo, belo!Feliz volta, abraço.

Adriana disse...

Oi, só passei pra dizer que ouvi a música "thats entreteinement" e peguei a tradução. Realmente tem a ver com meu poema, só que muito mais complexa. Gostei da música, boa de se escutar.
Às vezes acho que parei no tempo, só ouço bandas das antigas, Led Zeppelin, Stones, Dylan, Hendrix, Joplin, Beatles, etcetc. Tenho que me atualizar nesse quesito.
Obrigada mais uma vez, desculpe ocupar tanto espaço. Beijo.

f@ disse...

Olá Daniel bem vindo...
volto para ler-te com + tempo beijinhos e até amanhã

Braga e Poesia disse...

amor é nada.
e o que será o tudo?
um texto que lança no ar
perguntas, que nos faz perguntas e que nos faz perguntar.

f@ disse...

Olá Daniel,

o Avesso do Sim e a chuva…
O avesso do sol e o céu de chumbo ou prata…
branco e preto...“confund i r” os sentidos e as contradições…
CLARO paira o céu...no ar sempre o perfume da flor que brota…do fundo da raiz- a terra não permite o cheiro da relva seca…
aos domingos nem nos outros dias da semana…

os fantas m a s do sonho somos nós… em gotas escuras como lágrimas de uma pintura de olhos…
maquilhagem manchada pela chuva fora de estação…
o Amor é TUDO DO NADA numa Estação nova mesmo que para a mesma localidade…

imenso beijinho e adorei este poema…

feliz dia da poesia e declama esse bem alto…

Cristiana Fonseca disse...

Olá Daniel,
profundas e sensíveis palavras.
Belíssima poesia
Beijos,
Crisfonseca

jawaa disse...

Estamos todos sozinhos... é para onde caminhamos - e de onde viemos.
Mas sonhar é preciso... até ao fim!

Poema lindíssimo, tocante até mais não.
Abraço

Ruela disse...

Excelente Daniel.


Abraço.

On The Rocks disse...

o futuro é aqui, agora.

abs

Arroba disse...

Mesmo que não queiramos, temos de aprender a viver sem sonhos. Os sonhos escorrem, de facto, pelo ralo. ainda quero acreditar que o amor existe, mesmo não sabendo onde.Mas é realista este seu poema, machuca e deixa-me a pensar para onde se dirige o ser humano?
São estes murros de pianista boxeador que valem a pena, sentir que algures existe alguém com um piano tão afinado.
Obrigada pela sua visita aí, desse lado do oceano (tanto mar...tanto mar que não separa e une).

jawaa disse...

Fabuloso poema pela lucidez que denota.
«A velhice não é para delicados»
Temos de nos esforçar por mudar de sonhos, quando muito; viver sem eles não é viver...
Belo poema!
Um abraço