segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

5:45

(Para Márcia e para meus editores Silvana e Albano)

Então a vida segue
Depois da noite grande e da travessia
Segue a vida
Planta morta que renasce de si mesma
Orvalho solto que se junta na folha
Até virar gota e correr deitar na terra
Destino de tudo.
Segue sempre a vida
Ainda que seja grande o número de mortos e destruídos
Ainda que os homens levem gaiolas na luz das cabeças
Ainda que as orquídeas sejam defuntas
E os corvos de parafuso e eletricidade destrocem o trigal
Quando menos esperamos...
Quando tudo é dor e dor e dor...
Quando casa já não há...
Uma criança solta no ar seu pipa* fluorescente
E este pipa grita por outro
Que grita por outro
Que grita por outro
Que espalha o grito
Então é tempo de pipa outra vez
E o céu tem a cor de todo menino.
A vida, segue sempre a vida
Construtora de si mesma
Operária do próprio corpo
Noiva pobre maquiando o rosto sozinha
Diante do espelho e do rosto quebrado.
Ontem ainda éramos zumbis
Ontem ainda éramos alcoólatras
Prostitutas... parasitas... proxenetas... pederastas... presidiários
Agora somos gente
Sempre fomos gente.

A vida se renova
Da mesma forma que o amor
Da mesma forma que a vontade
Ninguém nos disse que seria fácil
E de fato não foi
Mas agora o passado já não dói
É hora de você me dar a sua mão e caminharmos juntos
Como quando éramos criança
Na missa de domingo.
A chuva fez enchente é certo
Agora
Depois do temporal
Crianças brincam com barquinhos de papel
No lago do fundo do quintal.
Nosso corpo tem estrelas
Contudo não quero ser herói
Só quero estar contigo
Sempre

A esta hora todos os asilos tramam a Revolução.

8 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Este poema já foi colocado no blogue anteriormente, mas acho que tem muito a ver com o momento pelo qual estou passando, por isto está aí outra vez.
Espero que gostem.
Abraço,

Daniel

Adriana disse...

É lógico que gostei. Um poema rico de sugestões e ligações entre as coisas e gente do mundo. Você menino com sua pipa tentando cortar alguns laços e reafirmando outros. Me tocaram especialmente esses versos:
"Noiva pobre maquiando o rosto sozinha
Diante do espelho e do rosto quebrado.
Ontem ainda éramos zumbis
Ontem ainda éramos alcoólatras
Prostitutas... parasitas... proxenetas... pederastas... presidiários
Agora somos gente
Sempre fomos gente." Beijo.

Carla disse...

porque o amor, seja de que tipo for, permite a renovação da vida
muito bom este poema
beijos

Luciano Fraga disse...

Entendi o contexto e imaginei problemas."Tudo passa, tudo passará",excelente meu caro."Sempre fomos gente" é humanista demais, bravo!Abraço.

Adriana disse...

Seu comentário sobre "estrelas da noite" me comoveu. Não sei o que dizer, parece que há uma ligação meio esquisita nisso tudo. Obrigada mesmo. Beijo.

PS: Espero seu próximo texto.

Braga e Poesia disse...

fomos,
somos,
seremos,
não seremos:
é a perenidade da vida
marcada nos seus versos,
é a crueldade que
imanente lateja vida
nos amores mais profumdos.
por que?
quem sabe a resposta?
o amor.
Arrisca seu poema.


é isso Daniel.
é indo...
é arriscando.

f@ disse...

Orvalho a es correr na vida e nas folhas que passam em branco com marcas da força na folha anterior...

A vida a dor... o amor ardor nos olhos de tanto se olhar estrelas...
cintilam nas águas do lago....

Beijinhos das nuvens

Bruna Mitrano disse...

Acho que é isso, que é bem assim mesmo.
A Revolução (maiúscula) vinda dos asilos: tudo que é preciso.
Gostei da sua poesia e da sua prosa (post anterior).