segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Teu zói é a flor da paisagem/Sereno fim da viagem



Flor da Paisagem

Composição: Robertinho de Recife & Fausto Nilo
Intérprete: Raimundo Fagner
Arranjos: Hermeto Paschoal

Teu zói é a flor da paisagem
Sereno fim da viagem
Teu zói é a cor da beleza
Sorriso da natureza
Azul de prata, meu litoral
Dois brincos de pedra rara
Riacho de água clara
Roupa com cheiro de mala
Zoim assim sãomais belos
Que renda branca, que renda branca, que renda branca na sala
Quem vê nêo enxerga a praia
Nois no lenços, nois no lençol , nois no lençol de cambraia
Teus zoi no fim da vereda
Amor de papel de seda
Teus zoi que clareia o roçado
Reluz teu cordão colado
que renda branca na sala ...
nois no lenços, nois no lençol ...

sábado, 5 de dezembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

TIM E BEN - LORRAINE



E DÁ-LHE SONZEIRA. CHEGA DE FIRULAS, SEMANA ROCK N´ROLL E SOUL TB.

THE OUTSIDERS - MISFIT



CHEGA DE FIRULAS, SEMANA ROCK N´ROLL.

HAVE LOVE, WILL TRAVEL - THE SONICS



DUCA!!!

CHEGA DE FIRULAS, SEMANA ROCK N´ROLL.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

AS MANGAS AINDA ESTÃO DE VEZ

JÁ NÃO PENSO TANTO NELA.
GRAÇAS A DEUS!
JÁ NÃO ME LEMBRO BEM DO SOM DO SEU SORRISO,
NEM DA COR DA SUA VOZ.
GRAÇAS A DEUS!
ONTEM FUI À FEIRA,
COMO JUNTOS COSTUMÁVAMOS FAZER.
ACARICIEI OS OLHOS COM TANTAS CORES,
O OLFATO COM TANTOS ODORES,
E OS BOLSOS, POIS NADA COMPREI.
PENSEI EM LEVAR MANGAS,
PORQUE ACREDITO QUE É TEMPO DE MANGA DE NOVO,
MAS AS MANGAS,
MISTERIOSAMENTE,
AINDA ESTÃO DE VEZ.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PEQUENO PRÍNCIPE - CAP. XXI


(O MAIS BELO DIÁLOGO JÁ ESCRITO)

E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

OS ABISMOS SÃO PARA OS PROFUNDOS

May you always do for others
And let others do for you…
...May you stay forever young

Bob Dylan

Eu era o cara velho em roupas novas que observava tudo no canto da sala. O quadro, O escolar de Van Gogh, emitia sua energia louca, parecia haver um campo magnético ou qualquer coisa assim em volta dele. Havia Modiglianis muito bons, havia Gauguin e havia Delacroix, mas Van Gogh é outro papo. Todo o museu, melhor, todo o mundo, parecia girar em torno daquele quadro. Seria o Aleph? O princípio e o fim? E a tristeza nos olhos e no olhar vazio do menino? Eu podia ver a dor do artista desesperado naqueles traços. Eu podia ver o seu amor e seu carinho pela humanidade. Eu podia ver a ternura e a tormenta em cada canto vermelho ou alaranjado. Eu tinha impressão de que, se tocasse aquele quadro, abriria uma porta pra outro mundo, pra outra dimensão, onde eu poderia abraçar Vincent e conversar sobre as coisas da vida. Eu também tinha sofrido demais. Eu também tinha perdido tudo e fracassado. Muitos amigos meus haviam desaparecido. Muitas mulheres tinham encontrado homens mais interessantes e meus filhos agora estavam longe. Há muito tempo, eu chegara a acreditar que poderia realizar algo de bonito e grandioso, agora eu era só o cara velho em roupas novas e a menina que observava o quadro era tão jovem e tão bonita. O museu estava praticamente vazio neste dia por causa da chuva. Havia cinco dias que não parava de chover na cidade e o feriado prolongado tinha feito muita gente fugir pro interior ou pro litoral. Eu gostava de dias assim. Eu gostava de passear pela cidade vazia olhando as coisas. Quando estava vazia, a cidade era meu espelho. Quando havia pessoas nela, a cidade me lembrava cocaína e eu tinha vontade de fugir e de morrer. A simples idéia do suicídio havia me ajudado a passar muitas noites difíceis, pois eu sabia que um dia me mataria mesmo e então não haveria mais nada, além da brancura de uma folha vazia.

A menina se distanciou um pouco mais do quadro, como para senti-lo de outra forma. Ainda não havia me notado no canto da sala. Na verdade, ela se parecia um pouco com a minha segunda esposa, aquela que... melhor nem falar dela. Na arte de odiar as mulheres são inigualáveis, além disso, eu... então o elevador parou e dele desceu um rapaz magro, despenteado e barbudo. Parecia muito doido. Atravessou as outras salas da exposição quase que correndo e se ajoelhou ao lado da moça, olhando pro quadro. Ela riu um pouco e então olhou pra trás e me viu no canto da sala. Acho que o rapaz também havia se dado conta da magia e da força. Não acredito em santos e nem em messias, mas acredito em Van Gogh. Acho que o garoto pensava como eu. Ele ficou lá ajoelhado por uns cinco minutos, enquanto a moça me olhava e fazia gestos indicando que o rapaz devia estar maluco.

- Eu preciso me salvar! – ele disse ao se levantar, abraçando a moça. Tem cada malandro nesse mundo.
- Não existe salvação. – Eu falei.
- Velho você não entende, você já fez o que tinha de fazer e eu não, eu preciso conseguir.
- Essas coisas só pioram com o tempo. Porque você sente que a morte está chegando e nada muda. Então você renova as esperanças e tenta outra vez e nada muda novamente. Quando você se dá conta, as rugas já tomaram conta do seu rosto e você continua agindo feito um menino. É ridículo. Uma piada das mais sem graça.
Então a menina abriu a boca:
- É tudo tão triste. – Disse.
Droga eu também era um menino, mas o meu corpo era velho. Isto é mesmo ridículo. Em algum lugar dentro de mim morava um homem que queria amar, mas o corpo, o corpo estava fechado para o amor. Os lábios dela eram bailarinas e o meu espírito tinha de agir como velho porque meu corpo era velho e a gente só pode ser por meio do corpo. Além do corpo ninguém sabe o que será.
- Não, não tem nada de triste. Nós ainda podemos conseguir. – Disse o menino e abraçou a moça ainda mais forte.

Ela olhou pra mim outra vez meio encabulada e eu me lembrei que também já tinha sentido as coisas daquele jeito e me lembrei dos meus amigos artistas que agora estavam mortos e eu me lembrei das minhas mulheres artistas que agora estavam mortas. Todas as pessoas pra quem eu esculpi, todas as pessoas pra quem eu pintei, estavam mortas agora. O monstro cria gerações e mais gerações pra se alimentar delas. Moloch! E toda geração acha que vai ser diferente, mas no fim fica tudo igual. Somos todos crianças sempre. Alguém aí se lembra de Judy Garland? Alguém aí se lembra de Etta James? Eu chorei ouvindo Etta James. Mantenha suas mãos ocupadas, velho! Mantenha ágeis os seus pés!
- Eu preciso beber alguma coisa. Não quero ficar com essa coisa ruim por dentro. Não para de chover e essa dor está me matando. A moça falou ajeitando os cabelos atrás da orelha.
- Eu bem que gostaria de te pagar alguma coisa, mas não tenho dinheiro. Nunca tenho dinheiro. – Disse o moleque.
- E o senhor? – Ela perguntou olhando na minha direção.
- Vamos.
Atravessamos outra vez à sala. Eu disse adeus ao Escolar e a moça apertou o botão pra chamar o elevador. Tinha um arco-íris pintado em cada unha.

***

Entramos no primeiro bar aberto. A menina pediu um copo cheio de vodka. Tinha uma sede daquelas. O rapaz pediu uma cerveja e três copos. Eu emborquei meu copo e pedi um refrigerante. Não bebia mais, havia sofrido por mais de trinta anos nas garras do mais cruel dos alcoolismos. Eles começaram a conversar. Jovens e velhos desesperançados na mesma mesa imunda. Eu fiquei quieto ouvindo. A sobriedade, como tudo o mais, tem suas vantagens e suas desvantagens. Era mesmo linda a menina. E parecia tão triste quando sorria! A tristeza deixa as pessoas magnéticas. Mesmo o humor, o melhor dos humores, esconde uma grande dose de dor e de insatisfação.

Eles beberam mais. Continuei firme no meu refrigerante. Lá fora o céu desabava. Imensas gotas azul-claras escorriam pelos vidros e pela lataria dos automóveis.

- Um dia ainda escrevo um grande livro! Posso senti-lo germinando na minha cabeça. Quando ele sair vai ser como o Werther. - Disse o menino.
- Torço por você garoto.
- Não agüento mais beber... não tenho mais casa... não quero ir pra casa! – Disse a menina.
- Também não posso te levar pra minha casa. Moro de favor na república de uns amigos. - Emendou o rapaz enquanto pegava um dos meus cigarros sobre a mesa.

Então a menina fez uma coisa. Levantou-se. Cambaleou até mim e escorregou a ponta dos dedos pelo meu rosto.

- Você é um velho tão feio. Tem rugas tão profundas. - Disse e aí me beijou na testa, como se fosse ela a minha mãe e passou os dedos entre meus cabelos ralos.
- Se quiserem podemos ir pra minha casa. Falei.
- Eu adoraria.

Chamamos um táxi e nos escondemos ali dentro prontos pra atravessar a cidade. Não demoramos a chegar. Era mesmo bom ter vazia a cidade. Paguei a corrida e subi na frente pra cobrir os meus trabalhos. Eu não precisava mais que os outros os elogiassem. Eu era um velho. Voltei ao portão e os coloquei pra dentro. Eles beberam algumas cervejas que havíamos trazido e eu bolei um bom baseado como nos velhos tempos. E foi bem nessa hora que ficamos felizes e somamos nossas idades e dividimos por três para sermos iguais, mas, porra, eles eram mais jovens que meu filho mais novo. Sei que cai no chuveiro pra um bom banho e, quando voltei, eles estavam dormindo abraçados no meio da minha sala. Descolei uma coberta e joguei por cima. E aí peguei um lápis, uma folha de papel e os desenhei. Eram lindos. Quando terminei o desenho, peguei a câmera que eu levava sempre à mão e tirei uma fotografia. A menina abriu lentamente os olhos e, no meio de um bocejo, disse:

- Deita aqui com a gente.

Devo confessar que fiquei indeciso por alguns segundos, mas ao final, também entrei embaixo das cobertas. Ela me abraçou e beijou meu rosto. Na televisão passava um velho vídeo dos Stones que minha quarta mulher havia deixado quando partiu. Um novo tipo de afeto crescia dentro de mim. Uma coisa misturada, não definida, uma coisa que eu sabia que ninguém mais havia sentido no mundo, algo feito o surgimento do amor romântico nos tempos mais cruéis do cristianismo, quando as chamas eram bem mais que uma metáfora. O que era aquilo eu não sabia, mas como todas as outras coisas intensas da vida, também me levaria para o abismo. Pouco me importava, pouco me importa. Os abismos são para os profundos. Lá fora continuava a chover.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

4 DE OUTUBRO

POR UMA DESSAS COINCIDÊNCIAS INEXPLICÁVEIS, ACABO DE CONSTATAR QUE JANIS JOPLIN E MERCEDES SOSA MORRERAM NO MESMO DIA: 4 DE OUTUBRO.



SE NÃO ME FALHA A MEMÓRIA.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

VINTE QUATRO HORAS DE SERENA SOBRIEDADE

Acaricio o rosto desses dias plásticos
As horas escorrem vermelhas e digitais
Só por hoje será o fim
Só por hoje devo manter-me em pé e encarar o fracasso de frente
Faz frio em São Paulo e eu flutuo sem cachecol em meio a tantas faces
Eles disseram que crescer era saber enfrentar as derrotas
Mas não é fácil manter-se motivado
Quando o espetáculo ocorre na última das divisões
Este meu jeito de representar não engana mais ao público
Realmente não há mais nada que eu possa fazer.

Com papoulas nos olhos
Do fundo do meu poço sem fundo
Aplaudo desde já os gênios mais jovens da minha geração
A vida é labirinto e eu não consigo achar saída.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

À CHAMA

Não importa se estamos sozinhos ou acompanhados
Não importa se estamos nos conhecendo ou nos despedindo
Não faz diferença se estamos cantando ou em silêncio
A máquina do mundo não desacelera suas engrenagens
A máquina da vida não se importa com a artrose de suas partes
A eternidade é agora
E agora a eternidade já é outra
O problema da solidão não é o vazio
É a ausência onde antes havia algo
Talvez quente... talvez bom... talvez... talvez...
Um campo de girassóis depois da colheita
Dias e noites se revezam nos nossos gritos
Enquanto na areia da praia os meninos constroem palácios e mais palácios
Para as marés que se agigantam indiferentes
A beleza está nas mãos pequenas que meticulosamente tecem formas
Ainda que seja tudo em vão.
Em vão?
Eu amo como Lúcifer ama ao Deus que o condena ao Inferno.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

POR UM CORAÇÃO DE OURO

Somente a consciência da dúvida é que me faz inteiro
Procuro-me no pântano dentro de mim
Como procuro o olho de Deus num canto qualquer do universo
A fé está onde eu não alcanço
E a poesia está para além das palavras
Assim como o amor de Van Gogh está para além das tintas e das telas.
A música suaviza o caos
E as rosas escalam a tarde feito os vagabundos do Dharma
Eu acredito no Deus dentro do meu inimigo
Eu acredito no Deus dentro do meu corpo sensual
Eu acredito no Deus dentro dos desajustados e dentro dos que não entendem.
Qual é o sentido do magma, senão fugir de dentro de um vulcão ereto?
Qual é o sentido da chuva, senão que ela molha dentro de mim?
Qual é o sentido das flores?
A beleza não faz sentido e ainda assim emociona.
Lá fora os homens constroem templos
E acariciam os cabelos brancos do mistério.
Aqui,
Na memória dos meus órgãos,
Eu carrego as cicatrizes dos meus ancestrais
Aqui,
Na memória dos meus órgãos,
Eu arranco a coroa de Cristo e a planto na minha cabeça grande
Assim como arranco os pregos da cruz e os cravo em minhas mãos espalmadas
Eu levo em mim
Nos recônditos mais soturnos
O sangue das vaginas de dez milhões de virgens enganadas
O sangue de dez milhões de amigos traídos
O sangue de dez milhões de amores assassinados
Ninguém é inocente
Ninguém é culpado
O fim pode estar na próxima esquina
Por isso eu amo como quem morre
Os anjos tocam jazz com suas trombetas no fundo das minhas retinas.
A natureza esculpe crisântemos nos meus tímpanos.
Todos os meus sentidos são UM.
Cristos e Judas se perdoam no meu coração,
Enquanto a velhice vem a galope feito uma puta com as tetas de fora.
Vou deixar de lado as coisas de menino
E agir como Homem.
Meus filhos esperam que eu seja grande.
Eu também continuo cavando por um coração de ouro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

I´D RATHER GO BLIND



A MÚSICA MAIS TRISTE DO MUNDO!

domingo, 13 de setembro de 2009

LIMÃO

para todos aqueles amigos que não vejo há tanto tempo.

PORQUE o homem está sentado no meio da ponte em silêncio
De mãos dadas com o velho
De mãos dadas com o menino
PORQUE um novo dia virá de leste a oeste
Tenhamos ou não esperanças
PORQUE todo homem sabe tanto quanto todo menino
PORQUE todo homem precisa de proteção e de um Deus amoroso
PORQUE muitos amigos vão caindo pela estrada
PORQUE muitos amores vão correndo pra outras camas
PORQUE os cães da infância estão mortos
PORQUE só nos resta acreditar...

Eu vou fazer um som com meus amigos

PORQUE meu sangue gela nas veias
PORQUE os canalhas vencem sempre
E porque a única coisa que um homem de bem pode fazer nestes tempos escrotos é fracassar
PORQUE as portas estão sempre fechadas
E meus sonhos estão caindo em espiral feito pássaros feridos
PORQUE eu quero cobrir de flores tua alma quebrada
PORQUE a verdade realiza prodígios
PORQUE eu sou só um homem tentando ser o meu melhor...

Eu vou fazer um som com meus amigos

PORQUE o sol me dói no corpo
PORQUE a chuva me deixa triste como um bicho morto no acostamento da estrada
PORQUE eu já machuquei muita gente
PORQUE eu já fui ferido profundamente
PORQUE não sabemos
PORQUE morremos...

Eu vou fazer um som com meus amigos.

Vão cruzar muitas fronteiras
Os acordes da canção
Vão fazer a moça triste sorrir e os velhos cantarem de braços dados
como se fossem meninos na formatura de uma pré-escola
Os acordes da canção
Vão fazer os amigos lembrarem de amigos há muito esquecidos
Os acordes da canção
E os pássaros dirão estarrecidos:
- Podemos cantar juntos o refrão?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

OS DIAS MAIS FELIZES DE UM CORAÇÃO SOLITÁRIO

Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu?

Marcelo Jeneci


Acorrentado. Amar sem ser amado. Ou será que eu era? Já faz tempo. Hoje achei uma fotografia dela sorrindo. Já faz tempo. Vinte anos hoje. Eu sei porque é a data do meu aniversário. Eu faço trinta e sete. Fazia dezessete. Detesto os nostálgicos, ainda que seja um deles. Se pudesse construiria uma casa no passado e ficaria morando por lá, junto à piranha que amei. Não que o passado tenha sido bom, não era, já disse que odeio os nostálgicos. Em verdade, em verdade vos digo que o passado era uma merda, mas o problema é que o presente é vazio. E, entre a merda e o vazio, fico com a merda. Paixão é sofrer junto, mas eu sofria sozinho, eu sofro sozinho, com tudo o que tinha de ruim, aqueles foram os melhores dias do meu coração solitário. Pra dizer a verdade, eu tenho é inveja desses filhos da puta que arrumam uma dúzia de piranhas pela vida a fora e não se envolvem com nenhuma. Analisam friamente custo e benefício e, como o custo quase nunca compensa o benefício, caem fora e não sofrem. Eu só gostei de uma mulher. E como sou mesmo um filho da puta muito azarado, foi logo de uma puta. Essa não é uma história romântica. E a minha puta não é dessas que choram e têm histórias tristes pra contar, não. A minha puta gostava mesmo era de dinheiro e só de dinheiro. Bem que eu queria que ela gostasse de qualquer outra coisa, mas ela gostava mesmo era de dinheiro.

Estávamos comemorando meu aniversário. Eu e mais dois parceiros. Fomos ao puteiro e ela estava lá.Vocês acreditam em amor à primeira vista? Eu sei, acontece o tempo todo. Eu só preciso de uma ajudinha dos meus amigos. Não vou dizer que tenha sido amor à primeira vista. Antes foi amor à primeira foda. Como tínhamos dinheiro, ela deu logo conta dos três. Tinha uma boceta de fogo. Era impressionante, como conseguia ficar excitada o tempo todo, se visse dinheiro aí então é que transformava mesmo a xota num rio. Eu não posso explicar porque foi que me apaixonei, porque foi que fiquei tão louco. Eu mesmo não sei dizer. Aliás, só escrevo pra tentar desvendar. Ela não era a mulher mais linda do mundo. Não era a mulher mais inteligente do mundo. Não era sequer a mais gente fina do mundo, era uma filha da puta egoísta e insensível, não insensível não, porque ela pintava uns quadros. Não sei como eles eram, os quadros, ela nunca me mostrou um deles sequer. De qualquer forma pintava e isso já é alguma coisa, nénão?

Sei que, depois do primeiro dia, eu não conseguia mais parar de ir lá. Ela não falava muito, só fodia. Diabos, havia um mistério e eu precisava decifrar. Acho que eu tinha lido contos de fadas demais e ficava o tempo todo fantasiando. Ficção e realidade me eram iguais. Eu achava que tinha que me foder um pouco, porque queria ser escritor e todos os escritores se fodiam. É a vida. Mas aí, não devemos brincar com essas coisas. É como brincar de fazer pacto com o diabo, no fim você pode se dar muito mal. Ela não fazia questão de esconder que só queria meu dinheiro e se divertir um pouco. O problema foi que eu fiquei obcecado. Perdi todo o meu dinheiro e meu orgulho. Perdi o amor e o respeito de todos que gostavam de mim. Já fumei crack e já cheirei heroína, não posso dizer que apliquei porque sempre tive medo de agulhas. De qualquer forma, já usei drogas bem pesadas e posso dizer que nada me destruiu mais do que aquela mulher. Eu tinha de decifrar o mistério, mas talvez nem sequer houvesse mistério algum, talvez ela fosse uma filha da puta egoísta mesmo. Mas eu cismei que existia um mistério e dentro dele qualquer coisa de ternura. Ternura? Ternura é passar pomada no cu arrebentado da piranha amada depois de uma noite de trabalho. Há que ser delicado e cuidar das pregas como se fossem pétalas de rosas, como dói. É dor que nenhuma substância química, nenhuma religião, nenhum amigo pode apagar. No fim de tudo ela ria alto e perguntava quanto eu ainda tinha nos bolsos. “Só isso? com esse dinheiro eu só posso te bater uma punhetinha, estou exausta.” E aí ria de novo e pegava meu pau com a mão e só o jeito dela pegar no meu pau, me olhando nos olhos, eu não resistia e gozava rápido. Conversa de apóstolo, aquela idéia de que o amor é bom e não quer o mal. Tem amor de tudo quanto é jeito. Se ele quiser o bem, o amor, sorte do indivíduo. Se quiser o mal, azar do sujeito. Um peixe bem fisgado não escapa do anzol.

Um amigo me disse que eu só perdi o controle assim porque eu sou adotado e meu pai era um bêbado que ficava jogando isso na minha cara o tempo inteiro:
- Eu devia ter deixado esse traste pra morrer em cima do formigueiro. Não sei porque fui tirar esse filho da puta de cima daquele formigueiro. Devia ter deixado as formigas acabarem com ele. – Ele ficava gritando sempre que enchia a cara.
Minha mãe era boa, mas entrava na porrada também, quando o velho chegava muito doido. Um dia eu cresci e meti a foice na cabeça dele. Ele ficou mais de um mês internado. Foi bom pra ele aprender uma coisa. Hoje ele está lá, todo fodido em cima da cama. Precisa de alguém que lhe limpe o cu. E eu estou aqui, também não posso dizer que esteja melhor que ele, aqui nessa clínica, com medo de sair na rua e de pegar em dinheiro... Mas também não quero falar disso. Eu preciso é desvendar a puta. Até hoje aquilo tudo me atormenta
- Isso é espírito de pomba gira. – Minha mãe sentenciou logo da primeira vez que a viu. Era uma mulher muito ligada às coisas espirituais, minha mãe. Jamais entenderia uma mulher como aquela que eu amava. Tentei várias vezes, mas não consegui me desvencilhar dela... até que ela morreu. Graças a Deus! Morreu de aids, não faz tanto tempo, e ainda riu na minha cara porque a gente tinha feito amor uma porrada de vezes sem camisinha. Queria mesmo me destruir eu sei lá o motivo, Karma vai ver, mas não conseguiu, porque isso já faz uns dois anos e eu fiz vários exames de lá pra cá. Todos deram negativos. Pior pra ela. E agora sinto até vontade de rir um pouco.

Depois que ela morreu, eu ainda levei flores ao túmulo dela por um bom tempo. Não havia nada que me convencesse de que não havia ternura lá. Pra mim, era eu quem tinha falhado, eu é que não tinha conseguido encontrar o tesouro que existia dentro dela. Daria qualquer coisa pra ver um daqueles quadros, talvez a chave esteja neles, vai saber. Contudo eu nunca vi quadro algum e nem sequer sei se eles existem, ou existiram efetivamente.

Foi há vinte anos hoje. A vida não vale mesmo a pena para algumas pessoas. Não penso em suicídio, mas pra mim chega. Esse bando de depravados não valem a poeira de que são feitos. Os motéis cospem porra e carros o dia inteiro. Pra mim chega. Faz vinte anos hoje. Que confusão. Os ovos não devem bailar junto às pedras. Nunca.

sábado, 5 de setembro de 2009

CREEP



GOSTO COM O RADIOHEAD, MAS TB É LINDA ASSIM.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sr. PÉSSIMO

Para o Isaac, que ainda sofre por amor.

"A vida é a Arte do encontro,
Embora haja tanto desencontro pela vida"
Vinicius de Moraes

Depois de novo tombo,
Ele chegou à seguinte conclusão:
É o nosso olhar que faz alguém especial
Porque metade das pessoas é estúpida
E a outra metade...
Mal-intencionada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 19 E 20

19.

Abro os olhos. Estamos atravessando uma imensa ponte. Embaixo há só o fundo, não posso vê-lo. Sei que ele existe, mas não posso vê-lo. Está tudo tão escuro! Sinto náuseas. Não há salvação. Continuamos subindo. Acho que nunca mais sairemos da ponte. Estou tão cansada!

20.

Quem poderia cantar uma canção pra mim, a menina que um dia foi barco?
No quarto onde eu estava escorria sangue pelas paredes. Por que tantas pessoas esfaceladas pelo mundo? Eu me perguntava sem saber bem o porquê. Por que pessoas sem pernas, sem braços, sem mãos, sem os dedos, sem uma das orelhas? Por que outras pessoas que têm tudo isto por fora, mas só de dar uma olhada pra cara delas a gente percebe que por dentro foi tudo amputado? Só de dar uma olhada, a gente percebe que não deixaram uma rosa qualquer ou um colibri pra contar a história? Foi tudo amputado. O massacre da serra elétrica.
Toquem mais alto esta gaita! Soprem ainda mais forte a flauta! Talvez sejamos todos fortes! Mas no quarto o sangue continuava escorrendo. Sempre. Sem parar. Pelas paredes. Tantas baratas e escorpiões, e moscas, varejeiras, e vermes e mais baratas e escorpiões e vermes. Sempre o mesmo mantra maligno. Sempre a mesma ladainha peçonhenta. E lá no alto, no teto, desenhado, a figura meio touro, meio homem. Tenho medo do mal. Esse cheiro de sangue me desanima. Melhor dormir. Tomara que eu não tenha sonhos. Tomara!

sábado, 22 de agosto de 2009

Há dias em que os pássaros não cantam

Há dias em que os pássaros não cantam
E a casa reflete o monstro que somos
Não é o amor é a morte que grita o tempo inteiro
No meio da sala, ficaste sozinho
Os dias transcorrem sem maiores alegrias
A alegria não existe
Existe o Som
O gozo
A procura.

As crianças chupam picolé e não pensam no infinito
Saio
O mar molha meus pés
E a distância tricota outros destinos
Quem afinal nos aguarda no instante seguinte?
Um menino de vinte anos que toca violão?
Uma bailarina de pedra?

Um navio se aproxima.
Será que guarda histórias de amor e aquelas paixões que enfrentam o mundo?
Não tomaremos cianureto de mãos dadas
O amor nesses tempos cínicos guarda os olhos para outro amor na esquina.
Vou tentar novos museus
Vou tentar um cinema ameno
Embora saiba que a mocinha vai ter sempre seu olhar
Pequenos peixes bailam entre meus pés
E eu penso que devo esquecer teu sorriso
Cavalos marinhos procriam
E eu penso que devo esquecer teu gosto
É difícil levar a paixão adiante sendo um eunuco
Vamos cuidar das mães
Elas estarão conosco até o final
A bebida me faz cada vez mais cruel... e triste
Com o tempo
Não seremos mais que uma fotografia meio amarelada pela areia da praia
No fim é tudo a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

YOU MAKE LOVING FUN

Para a Marcita, quando ela acordar.

Nossos lábios explodem a escuridão
E se derramam numa cortina de estrelas
antes das crianças acordarem.

Te trago
Te sorvo toda com minha boca impura
Te faço do avesso
e
Te machuco
Te desmancho
Te derramo em prantos
No final
Me convulsiono sôfrego
E adormeço como um lagarto cinza
No teu seio
Ou continuo dançando
Como um cisne-menino
Dentro do lago teu.

Não sei colocar vídeo no blogue. cliquem então aqui: http://br.youtube.com/watch?v=XoMWa3jRtLo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 18

18.

Lembro-me dos Céus escuros. E das pancadas que as imensas ondas me davam, contudo eu me sentia tão calma! Era como se enfim eu me encontrasse. Era como se enfim eu fosse uma heroína. Alguém muito especial. E o mar me jogava, pra baixo, e pra cima e pros lados. Pula macaco bonito! A força dos meus cílios criava noites imensas. Sem buracos negros ou estrelas. Eu me afogava calmamente. Podia ouvir vozes e sentir as mãos tentando, de longe, me tocar. Mas eu não queria voltar, nunca mais! Não. Era uma criança solta e feliz. E a força dos meus cílios criava noites onde os morcegos tinham arco-íris explodindo nas asas, e as corujas sorriam estrábicas. Meu chapéu não perdia suas luas, ou se soltava dos meus cabelos. E aquela voz divina sempre e sempre clamando e me acalmando. “Você é mulher-maravilha, menina!. Tão criança! Eu vou pintar um céu extremamente lindo pra você! Não se assuste com toda esta escuridão de agora. Tenho um segredo pra te contar... você é uma santa! Por isto precisa sofrer tanto! NÃO SE PREOCUPE! EU SOU O SENHOR!” E sobe e desce, calmamente, não me afogo porque sou um barco colorido. O mar me mostra seus dedos cheios de afagos. E sobe e desce, a ovelha negra da família não vai mais voltar. Vai sumir! Prum lado e pro outro, como um barco colorido. Vinho em taça de prata. E os gritos vêm da areia.Talvez não esteja contando direito, talvez eu tenha que contar tudo outra vez. Vou tentar assim: Mais alta que as montanhas da Serra. Entre as nuvens escuras. Mulher-maravilha. Uma Santa! Ufa! É tão difícil alcançar! Não existe medo porque Deus é uma presença concreta como uma rocha, ou um feto. Meu útero vibra, explode, ergue bem alto suas trompas, seus ovários, sua vagina salgada. Víveres em liquidação! Posso provocar um maremoto! Mas não é maremoto que quero criar, quero é gritar toda essa bondade que se arrebenta no meu peito. Eu sou um templo! Jesus o que é isto! E sobe e desce! O oceano te abraça, ele quer fazer amor com você, menina. Mais uma vez, pra baixo e pra cima... pra baixo e pra cima... Mas então a voz do Senhor se distancia. Por favor, não vá embora. Sinto medo. Não quero ficar sozinha! Não atire essa pedra tão pesada em mim, não agora! Sobe e desce, sobe e desce. Fale comigo Senhor. Deixe estas águas limpar minhas feridas! Por favor Deus, faça de mim mulher-maravilha de novo! Não se afaste Senhor, leve-me leve com o senhor. Eles vão quebrar tudo dentro de mim de uma vez. Prum lado, pro outro. Não quero separar minhas pálpebras. Ele grita do lado de fora, mas não é mais Deus ou o meu pai, não é mais nada humano ou bom, ele é o mal e arranca demônios das narinas, pequenos demônios, e arranca demônios dos ouvidos, e dos olhos, dos olhos Senhor! Dos olhos! E da boca, e do pênis, e do cu, e de todos os orifícios do seu corpo saem demônios, de todas as cores, uma aquarela inteira de crueldade e ódio. Nunca o mal foi tão claro. Estou nos braços do mal. Desmaiada nos braços do mal. Por que me abandonaste Pai? “Faz respiração boca a boca nela!” “Onde diabos se meteu o salva-vidas?” “Saiam de perto, ela precisa de espaço!” “Não seu idiota, eu não preciso de espaço, eu preciso é continuar sem respirar! Não quero mais voltar”. Na serra, espadas emergem das profundezas do solo. A água escapa do meu corpo. Entra o ar. Que merda!

domingo, 16 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 15 E 16

15.

A palavra é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. O bolo é o mais importante, mas tudo o que eu consigo mostrar é a fôrma. Melhor é ser como uma banda punk: Baixo, guitarra, bateria. Simples. A crueza das emoções. A estética do escarro... Neste mundo escroto a única coisa verdadeira é a dor. Levanta as mãos macaco! Pula, cambaleia, prossegue, retorna! Eles pedem bis! Tudo de novo, outra vez. Eles pedem bis! Nunca se cansam do espetáculo! Pula, cambaleia, chora, ri, prossegue, retorna... em volta do pouco que brilha, tudo escurece. A estética do escarro. Quando o ódio se instaura é difícil voltar atrás. Mais uma vez! Pula, agora, cambaleia! E vai tecendo teu longo mosaico de rancores. Pior será se exigirem que se abra a porta do guarda-roupa, onde um búfalo funga do outro lado do espelho, pronto pra bater sua cabeça contra a minha. Os bichos existem apenas, não procuram fazer sentido. No meu sonho, havia baratas sobre o sabonete que deveria ensaboar meu corpo. É a vida, é a vida.

16.

Décimo quinto corte. Será que nunca mais poderei sair? Os versos continuam vindo, as narrativas também. Retoco-os como se fossem unhas. Retoco-os sempre.
Sonho:
Estou tomando banho. Calma. Num lago ainda mais calmo e de águas cristalinas... cristalinas. Não há preocupações e eu estou nua. Há bananeiras em volta do lago. Estou cantando algo. Entre as bananeiras alguma coisa começa a se mover. Apenas olho. Não me preocupo. A água é limpa. Mergulho no lago. Quando volto à superfície, reparo nas manchas pretas e vermelhas perto da beirada do lago, entre as bananeiras. Fico curiosa. Forçando as vistas consigo distinguir os dois enormes jacarés que agora estão entrando no lago. Negros. Vermelhos. Tento fugir. Nado pra outra margem, mas nunca consigo alcançá-la. Estou presa. Os jacarés se aproximam. São enormes.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 14

14.

Sinto quando a poesia está vindo. São dias em que fico mais sensível. Tudo me toca e eu sinto que minha alma compreende o mundo inteiro. Com a prosa é diferente, é um trabalho mais braçal.
Tenho pensado na minha avó. Em todos aqueles dias que nós passamos juntas, apenas ela e eu. Agora tudo aquilo ficou num lugar tão estranho, tão longe, parece que nem existe mais. Havia flores nas janelas. Ainda posso vê-la, a avó, aqui na minha frente. Ainda posso ver cada ruga do seu rosto, e a sujeira acumulando-se aos poucos sob as unhas, e o cheiro forte e bom de peixe. “Mas por que será que essa neném não sorri, gente!” - Ela dizia – “será que esse mundo nunca foi bonito pra você?” e passava as mãozinhas sujas de peixe na minha cabeça. A cada instante parece que fica mais difícil continuar por aqui. Tudo que parecia valer a pena dissolveu-se, derreteu, desapareceu, pra sempre. Nesta estrada de agora, parece não haver um poste de luz sequer.
Meu pai cultivava poderes estranhos. Tem, ainda hoje, uma força que não vem apenas do seu corpo musculoso, vem de dentro da sua alma sem escrúpulos. Não tenho provas concretas para acusá-lo, mas sei que, de algum jeito, ele está envolvido na morte da minha vó. Sei que de alguma forma foi ele quem roubou sua sanidade. Sei disso desde o dia em que fui até àquele quarto, distante da casa, que ficava trancado e ao qual apenas ele tinha acesso. Sei disso desde o dia em que fui até lá, e o quarto era pintado todo de vermelho, e no teto havia o desenho de um animal estranho, meio homem, meio touro, e ele, meu pai, recitava uma prece estranha, numa língua diferente. Desde aquele dia sei que ele está no centro de tudo o que aconteceu depois. Até porque minha avó sabia de tudo, eu mesma havia contado, e ela, a vó, havia dito que iria denunciá-lo. Ele é vingativo. Daí em diante tudo começou a desmoronar.
Minha avó era uma mulher muito ativa antes da coisa toda acontecer. Como já foi dito antes, trabalhava na feira. Levantava-se as três e meia da madrugada todos os dias. De terça a domingo. Às vezes, quando eu passava uma das minhas férias escolares em sua casa, ela me levava pro trabalho. Passávamos juntas os dias inteiros. Eu gostava da gritaria da feira. Gostava dos peixes e de suas escamas. A única coisa que se podia chamar assim de... chata... era o cheiro, mas até com isto a gente pode se acostumar. Ela comprava pastel e caldo de cana. Era bom. Eu enchia meu pastel de catchup e mostarda. Fazia uma sujeira danada. Ela não brigava. Em casa, se eu mastigasse fazendo barulho tomava logo um safanão na orelha pra ficar esperta. Vó Lílian era um anjo e se é pra falar bem de alguém que seja dessa velhinha, coitada, que me fazia cafuné com as mãozinhas pequenas sujas de peixe. Eu nem ligava que minha cabeça ficasse fedendo. À tarde, quando as barracas eram desmontadas, juntavam-se uma dúzia de meninos, pegavam tudo que era resto de frutas, legumes, verduras e começavam sua guerrinha. Eu não brincava, mas gostava de ficar olhando. Era engraçado. Quando a gente chegava em casa, quase de noite, ela pedia logo uma pizza pra gente comer. Eu comia bastante. Enchia a pança e depois dormia sem tomar banho, nem escovar os dentes, nem nada. Era uma maravilha. Esse defeito é preciso mesmo reconhecer que ela tinha: não se importava muito com a higiene. Eu gostava.
Um dia, logo depois das férias que eu tinha passado lá e depois de eu ter falado a respeito das coisas que aconteciam lá em casa pra ela, uma coisa ruim aconteceu. Ela, que já não era muito limpa, deixou de tomar banho de vez. O cheiro foi ficando insuportável. Os espíritos fizeram sua parte. Ela acordava à noite gritando. Atordoada. Quase não dormia mais. Mostrava a vagina. Colocava o dedo dentro na frente de todo mundo. Um dia enfiou um peixe inteiro ali dentro. Meu avô que estava morto havia mais de dez anos voltou para aterrorizá-la o tempo inteiro. Então um dia eles a levaram de vez. Prenderam-na. Um bocado de tempo depois eu fui visitá-la. Ela estava limpa coitada! Metida numa roupa branquinha, branquinha. Falava mole. Mal me reconheceu...
Morreu um tempo depois. No funeral meu pai quase sorria. Minha mãe não chorava, Nunca vi mulher mais sem graça que aquela. Uns feirantes que eram amigos dela, da vó, sim, choravam. Fizeram questão de segurar as alças do caixão. Estavam bêbados. Na briga pra ver quem é que iria carregar a coisa, o caixão acabou caindo. A tampa abriu. Jogaram o corpo pra dentro de novo, às pressas. Começou a chover forte. O padre mal teve tempo de fazer as orações. Jogaram o caixão logo dentro da cova e saíram todos correndo pra se abrigar da chuva. Ela ficou sozinha lá no meio da tempestade... sem ter pra onde correr... a cova aberta... depois voltaram todos... jogaram aquele barro cremoso, estranho, sobre ela... pra sempre...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 13

13.

Quando as férias chegaram, eu estava mesmo precisando de umas férias. Tinha completado sete anos. Pedi aos meus pais pra visitar minha avó por parte de mãe, a avó paterna tinha morrido fazia tempo, antes de eu nascer. A princípio ele não concordou, odiava a sogra. A avó tinha uma banca de peixe. Ele gostava do peixe, mas odiava a vó. Trabalhava na feira. Em Marília. Ele a chamava de porca. Achava-me parecida com ela, eu só podia ter puxado aquele lado ruim e sujo da família.
Minha mãe era a favor de eu passar uns dias na casa da avó. Adorava-me a vó. A mãe trabalhou bastante na campanha pró-férias em Marília. Há que se reconhecer que o trabalho dela não foi nada fácil. Ele não queria me ver longe. No final, entretanto, ela acabou conseguindo convencê-lo.
Quando se está predisposto, em tudo quanto é lugar se encontra poesia. Entramos no ônibus e pegamos a estrada. Sempre achei as estradas misteriosas. Há lirismo no asfalto quente. Nos formigueiros no meio do mato. No gado pastando. Nos postos velhos de gasolina abandonados. No canavial. No cafezal. Em todos os cheiros misturados. Estava contente. Estava indo pra longe de casa. Minha mãe, no banco ao lado, dormia com a boca aberta.

MEU MARFIM QUE SANGRA - 12

12.

Jesus em Getsêmani: Minha alma está profundamente triste até a morte.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 11

11.

Hoje fiz o décimo quarto corte. Tiraram o aparelho de som aqui do quarto. Primeiro foi computador depois a televisão e por último o som. Agora também não posso ouvir música. As coisas ficaram mais difíceis. Era bom de noite. Quando todos estavam dormindo. Eu colocava alguma coisa da Rita, dos Beatles, ou do Floyd, acendia um cigarro e ficava olhando as luzes dos caminhões subindo bem devagar a Raposo Tavares rumo a Paraguaçu Paulista, Presidente Prudente, Presidente Venceslau, cada caminhão uma cabine, cada cabine um caminhoneiro, cada caminhoneiro um mistério... atrás havia a sombra escura do canavial. Era bom ficar pensando. Escrevendo. Pintando. Agora levaram o som. Todavia ainda restam a rodovia, o canavial, os meus próprios pensamentos.
Sou um macaco olhando as estrelas. Só isto: um macaco olhando as estrelas.
Eu queria poder dizer algo sobre estas estrelas, escrever cru como a dor, mas a coisa toda fica presa um pouco antes de se transformar em palavras, em cores, em sons. É triste constatar, mas não há arte em mim. Estou a um passo da arte, mas não consigo alcançá-la. Sinto-me como um cego num quarto lavado de sol. É um milagre. Um macaco olhando as estrelas, tentando em vão tocá-las. De que adianta tanta juventude? Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Mas, enquanto não vem a coragem para o fogo, usar apenas a gillete: pra cortar os braços, as sobrancelhas, os cabelos rente à cabeça, deixar à mostra todo o couro cabeludo. Que confusão! A gente na vida só tem uma vida e olha só aonde a minha vida veio parar... Só rindo! Que confusão! Sofrimento puro. Sem arte, sem nada. Sofrer até pelo silêncio. Eu não sou Elis Regina!
A roupa dos forçados tem listras rosas e brancas. Uma frase comum. Construída com palavras comuns. Juntando-se mais algumas tem-se um romance. Entretanto um romance já não é uma coisa comum. Qual será a magia?
Olho novamente pros lados do canavial e imagino que lá há montanhas e que em cima das montanhas mora um gigante, e que o gigante gosta de fumar cachimbo, e que o cachimbo dele, do gigante, é enorme e faz esta fumaça que invade todas as noites à cidade inteira e aquele vermelho no horizonte que parece o fogo no canavial é, na verdade, o fumo queimando dentro do seu cachimbo, e no meio da fumaça do cachimbo do gigante, bailam uns casais de gambás, cantam umas cigarras e guitarras, abraçam-se e perpetuam suas histórias os fantasmas, no meio da fumaça sangram motocicletas e chicletes, e os elefantes dançam ao som de Verdi, no meio da fumaça minha avó sorri entre escamas de peixe, no meio da fumaça a dor está morta. Conta comigo.

sábado, 25 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 7 AO 10

7.

Estava pintando quando meu pai chegou. Gostava de inventar rostos de pessoas, pintá-los, dar um nome, um drama, uma história pra eles. Não o vi, ele estava às minhas costas, mas senti a música do seu cinto cortando o ar... vrrrrrrrrruuuuuuummmmm. Pá. AAAAAAIIIIIIIIIIIIIII. Com ele era assim. Primeiro a surra depois as perguntas e as explicações.... vrrrrrrrruuuuuuuuuuuummmmmmmmmmm. Pá. De novo eram as notas, eu sabia. Tinha dado fim às provas, mas não sei de que jeito ele acabou encontrando. Eu ia acabar matando-o, ele dizia, eu só dava mesmo era desgosto. Só rindo. A culpa é sua Ana, gritava. Nós merecemos isto, foi você Ana, foi você sua vaca, que deixou essa menina desse jeito, sempre protegendo, protegendo, protegendo. Suava, gritava, passava a mão com força pela cabeça, arrancava os cabelos. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmmm. Pá. Eu não agüento mais, dou duro o dia inteiro, atendo aquele bando de morféticos: tuberculose, gripe, gonorréia, pinga daqui pinga de lá, sífilis, chato, aids, sarampo, o diabo! E o que é que eu ganho? Pra que tudo isto? Não há quem agüente. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmm. Pá. E essa menina? Você pensa que ela está arrependida, Ana? Pensa que ela está? Olha a cara dela, não derrama uma lágrima sequer, é ruim como o diabo, puxou aquela sua família, sua mãe, aquela velha suja. Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço! Vrrrrruuuuuuummmmmmmm. Pá. Será que você não entende menina, será que não percebe que desse jeito você não vai a lugar algum? Pra que tanta teimosia?” “Não, ela não vai tomar jeito nunca.” Diz minha mãe e virando-se pra mim: fala menina o que é que você quer? Você quer mesmo é matar a gente de desgosto? É isto que você quer? Mas o que é isto? Está toda mijada esta porca! Ele grita voltando da cozinha com o copo cheio de café. Fico com vontade de pedir um pouquinho de café, mas ele, num acesso de raiva, espatifa o copo contra a parede.
- Calma Antonio! Ela grita.
- Calma porra nenhuma, eu não agüento mais vocês. Tenha santa paciência. Eu não mereço isto. Eu devo ter jogado pedra na cruz.
Ela começa a chorar. Bem feito mesmo!
Ele pega o cinto e começa a colocá-lo na calça. Irrita-se de novo. Tira o cinto e me dá mais umas três cintadas nas costas que é pra eu aprender a lição. Aí põe de vez o cinto na calça e sai pra rua. Antes de sair ainda me manda ir logo pro banheiro e lavar bem as orelhas, os pés, o pescoço.
No banheiro é que eu consigo chorar um pouco, baixo, sozinha, em frente ao espelho.
Quando saio, a outra está com o terço na mão, ajoelhada, rezando por seu Antonio querido.Tão esforçado! Tão sofredor! Eu também rezo pelo meu pai, todas as noites, faço pactos e mais pactos com Deus pra que ele não consiga acordar nunca mais. Mas ele sempre acorda.
Na cama. Dentro da minha cabeça a música começa linda, um piano calmo que sobe e desce precipícios. Antes de adormecer totalmente vejo se aproximar um tigre e se sentar perto da minha cama. Em seguida, ao longe, já não mais no meu quarto, mas numa imensa savana, vêm correndo um bando de leões. Eu sorrio, estou em cima do maior e mais veloz deles. Boa noite mamãe. Boa noite papai. Boa noite. Sonhem com os anjos!

8.

Depois das pancadas era a hora dos carinhos. Eu não sabia o que era pior. Sempre a mesma história. Inventava um jeito de fazer a mulher sair, comprar alguma coisa diferente pro jantar. Começava com os exercícios e aí me chamava. Pra buscar um suco. É que ele estava muito quente, dos exercícios, sabe. Eu pegava o suco e levava pra ele. Aí ele queria conversar. Crescia o cheiro de mofo entre os azulejos da casa. Você sabe que o papai te ama, não sabe, que só quer o seu bem... Sempre a mesma cantilena. Com o tempo, esse blá, blá, blá acabava me fazendo mais mal que a coisa em si. Papai te ama! Papai te ama! Papai te ama uma ova! Eu preferia que ele tirasse a coisa logo de uma vez, sem falar demais. Mas aquilo devia ser uma briga dele lá com a consciência dele. Aquele era o seu jeito de me dar amor. Pra cima e pra baixo. UHUHU....UHUHUHU....UHUHUHU... com as duas mãos... UHUHUHU...UHUHUHU.... pra cima e pra baixo... UUHUHUH...HUHUHUUHUH... pra cima e pra baixo ... mais rápido. Aaiii... Aiiii... Aaiiii... Slopfit... Aí soltava aquilo em cima de mim e me mandava tomar banho. Direito!
Quando minha mãe chegava, toda contente porque tinha encontrado os filés de frango mais perfeitos, ou o peixe mais fresco, ia direto pra cozinha preparar o jantar do seu marido. Não havia como conversar com ela. O jeito era suportar tudo sozinha e calada.
Uma coisa é preciso dizer: eu também não era boba, mas de que adiantava? O que é que eu podia fazer? Nada, ou quase nada. Só que um dia resolvi não descer. Ele ficou lá embaixo me chamando. Bufava. Desça aqui agora! Não e não e não. Desça! Eu não iria descer mesmo. Ele podia espancar, esfolar, matar, vomitar que eu não iria descer. Fiquei só esperando o momento em que ele iria aparecer na porta, não sentia medo, eu esperava apenas. Mas ele não apareceu. Nem sinal. Continuei ouvindo a música que vinha da sala de musculação até a hora em que minha mãe chegou. Contudo ainda não me sentia segura. Sabia que na primeira oportunidade ele se vingaria. Certeza.

9.

Este é o décimo terceiro dia que estou trancada no quarto. Sei disso por causa dos pequenos cortes que faço com a gilete no braço. Faço um corte por dia. Hoje fiz o décimo terceiro. A única pessoa que eu vejo é a Francisca, a empregada. Ela também não conversa comigo, mas pelo menos traz a comida e uns dois ou três cigarros. É boa gente. Arrisca-se. Por minha causa. É uma pena que um dia ela também desaparecerá. Tudo desaparece.Tenho saudades dos meninos e meninas que brincavam comigo na pré-escola. Permaneceram apenas nas fotos, com seus conguinhas vermelhos e as camisetas brancas. Foram todos embora e eu fiquei sozinha neste quarto. Ground control to major Tom… Sobreviver não é fácil! Queria segurar pelo menos a Francisca pelo braço e prendê-la, pra que ela nunca pudesse fugir, sumir, desaparecer. Mas ela também vai desaparecer, vai se esquecer de tudo, pra sempre, é pra sofrer menos, cada um se defende como pode. Ground control to major Tom. Eu escrevo. Foi o que sobrou, já que até hoje ainda não consegui aprender a tocar um instrumento sequer. Mal sei assobiar. Então escrevo. Não me dá prazer, mas eu escrevo, feito uma escrava. É uma obrigação. Agora por exemplo estou lutando com um conto sobre uma mulher velha, viciada, que vive numa casa também velha e destruída com um monte de ratos. Gosto da mulher. Ela gosta dos ratos.
Nunca acho bom o que escrevo. Às vezes tenho esperança, enquanto estou escrevendo, mas, quando termino, tudo desmorona. Tudo que eu queria era ser uma pessoa diferente pra poder dizer coisas belas. Uma pessoa com menos coisas estranhas na cabeça, com menos coisas quebradas por dentro, com um pouco mais de fé e de esperança, mas não há mais em mim fé ou esperança. Tudo o que existe é uma conformação, uma conformação triste e a possibilidade de, de vez em quando, escapar da carne, de ficar longe da minha boca, dos meus olhos, das tripas. Há momentos em que me transformo em rosa vermelha, em outros sou serpente. And the papers want to know whose shirts you wear. Um sonho, aprender tocar bateria, foi.......

10.

A oportunidade dele surgiu numa sexta-feira. Foi no dia em que eu tinha dito as coisas à professora. Minha mãe não perdeu tempo. Só esperou ele tomar seu primeiro banho de duas horas e depois foi bater com a língua nos dentes. Era o que ele esperava. Sim. Eu já estava toda dolorida da surra que ela havia me dado, mas o que viria a seguir eu não podia sequer imaginar. Naquele dia ele não usou a sala de ginástica, sua sala de ginástica foi minhas costas. Aquela surra poderia ter entrado pro guinness como A maior surra de todos os tempos. Uma surra memorável. Tentei segurar o choro, mas não consegui. No começo até que não chorei, mas depois, à medida que ele batia e eu não chorava, as pancadas vinham com mais e mais força, era uma violência sem limites, até minha mãe ficou assustada, só que não disse nada, não era boba, podia sobrar pra ela também. Ele suava, urrava, parecia um bicho. Eu achei que iria morrer. Mas não morri. Fiquei vinte dias sem aparecer na escola. Estávamos esperando as marcas desaparecerem.
- E bico fechado! Ou está achando que essa surra foi pouco? Se este assunto sair aqui de casa, a senhorita vai achar que esta surra foi pequena se comparada com a próxima que eu vou te dar.
Eu podia até ser um bocado rebelde, mas não era doida. Fiquei em silêncio.Tanta pancada até que teve um lado que não foi de todo ruim: fiquei resistente à dor, não me assusto mais com ela. Não mesmo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CASA DOS AFETOS EM RUÍNAS

Escurece
Pelas paredes os fantasmas se dissipam feito fumaça de cigarro
Sinto que por trás das coisas existe algo
Como o sonho de um sonho inalcançável
E eu me perco de você!
Cortam os anos o coração de um cavalo
Dor dor dor dor dor dor dor dor
Gritam seus cascos ao cortar o chão
A morte estende o pijama no coradouro
E você nem me vê
As crianças cantam e atestam que nada vai mudar
O amor é lepra e faz feridas
Pra que tudo isto?
Na noite de outro século
Meus antepassados construíram essa casa
Restam agora as ruínas
E os demônios nos rejuntes dos azulejos
Onde ainda há azulejos
Que cantam canções deste outro lado que existe e eu não entendo.

Pessoas como você encaram os dias e os fatos
É preciso fabricar um novo vinho
E suportar a mudança das modas
A mudança das ruas
A mudança da casa destruída
Um câncer sobe as escadas até o cérebro
O que foi feito de todos os mortos?
O que foi feito de todos aqueles chapéus que adornavam as cabeças e os pensamentos nos anos vinte?
Lisboa no meu som
Sempre a mesma ladainha na guitarra de DEUS.
E eu tenho pena de DEUS e de sua solidão
Por isso entendo seu rancor e sua crueldade
DEUS nunca dormiu no seio de uma mulher
No lugar de flores macias recebemos plantas carnívoras
A casa será demolida
Grãos de areia refletem a luz da lua
DEUS é a aventura
Tudo é o mesmo sempre
Viver é arrancar sangue-sugas do pau.
O mar é tão profundo!
E eu me perco de você.
Eu me perco sempre.

terça-feira, 21 de julho de 2009

GO

(ALGUÉM AÍ SE SENTE COMO EU?)

Você é livre pra viajar
Você é livre pra curtir a noite e os bares
Você é livre pra beijar e pra foder
Afinal de contas a boceta é mesmo sua
Você é livre pra aprender inglês ou esperanto
Você é livre pra escrever talvez com s
E esquecer os pequenos detalhes e ritos que constroem um amor e uma história
Você só não é livre pra levar na carteira todo amor que havia nos meus olhos
Não é livre pra fazer (como já fez) piada do meu desespero
Não é livre pra sonhar sozinha ou acompanhada os sonhos que sonhamos juntos:
O filho de pé no quintal
Os quadros na parede da sala
O padre e suas bençãos feito o cobertor de um amor normal
Assim como o amor dos teus pais
Assim como o amor dos meus pais

Fica de tudo a enchente desse teu vestido vermelho

Enquanto eu,
do meu lado,
recolho a matéria clara que restou do teu gozo
E fabrico lãminas que decapitam
E as cordas negras que engravatam os suicidas

Entre nosso futuro ergue-se um muro maravilhoso...

A ALQUIMIA E O BOI

AINDA ME TRANSFORMO EM BOI
E AÍ ENFRENTAREI A BREVIDADE DA VIDA
E A FALTA DE SENTIDO DE TUDO MASCANDO CAPIM
E BABANDO PELOS CANTOS DA BOCA
ALÉM DISSO, OS CHIFRES SERÃO MEROS ADEREÇOS
E NÃO PROVOCARÃO MAIS TANTA DOR
NEM ESTE ÍMPETO DE SUICIDAR-ME

sexta-feira, 17 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 6

6.

A única coisa boa de estar trancada aqui é ter tempo e concentração pra escrever. Tenho escrito muito. Contos. Poemas. Piadas. Também posso desenhar e a empregada não deixa faltar cigarros. Ordem e progresso. Se meu pai descobre... coitada dela. Não é de todo mal ficar. Não implorarei pra poder sair. Não. Posso suportar. Metal pesado. Chove e eu gosto da chuva.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 5

5.

AÍ... CAÍ.

A criança se foi
Com ela foram os sonhos
Hoje tudo dói.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 4

4.

E difícil entender. Quando chegava em casa, a primeira coisa que ele fazia era passar o dedo sobre a madeira que unia as pernas de uma das cadeiras da sala de jantar, a cadeira na qual ele gostava de se sentar pra jantar. Se o dedo voltasse sujo, a expressão de seu rosto já mudava. Nasciam umas rugas entre as sobrancelhas, no canto dos olhos e havia algumas que cresciam do nariz até a boca. Olhava pra minha mãe. Não dizia nada. Minha mãe tentava se esconder, mas não havia pra onde ela fugir. Tinha que ficar lá esperando, se roendo, aguardando. Bem feito pra ela também, pra ela deixar de ser besta! Gostava que tudo na casa fosse branquinho... branquinho... Os móveis, os lençóis, as toalhas de banho, as toalhas de mesa, tudo, tudo, branco, branco. Primeiro tomava um banho... de duas horas... usava um sabonete por banho e ainda usa um sabonete por banho. Aí, quando saía do banho, ia fazer alongamento. Minha mãe continuava se escondendo dele. Coitada, ela tentava fugir, mas estava presa, feito um ramster. Só depois do alongamento é que ele voltava. Ia pra cozinha onde ela preparava o jantar. “Tem alguma coisa errada, Ana?” Perguntava. “Não, por que?” ela respondia. “Querida, você vê, você sabe o quanto eu trabalho. Dou um duro danado naquele consultório, naquele hospital. Suporto todos aqueles clientes. Faço de tudo, me viro e me reviro pra dar do bom e do melhor pra vocês. E o que é que eu ganho em troca? Desprezo! Relaxo! Sujeira! Assim eu não agüento, não é esta a família que eu sonhei pra mim. Não mesmo! O que é que você faz o dia inteiro? Por que é que não fiscaliza essa porra dessa empregada pra que ela limpe a casa direito, ou não limpa você mesma? Será que amanhã eu vou ter que ir pro consultório mais tarde pra falar eu mesmo com a empregada? Hein Ana? Será que vou ter que me atrasar com as consultas? Responde, porra!” “Não querido, pode deixar que amanhã eu falo com ela, desculpe.”
Depois dessa bronca, ele ia pra sala de musculação. Gostava de exercícios físicos. Chegava a fazer o tal do supino com cinqüenta quilos de cada lado. Depois dos exercícios, tomava outro banho de duas horas. Só depois do banho é que a minha mãe podia servir o jantar. Não comíamos muita carne vermelha. Comíamos sim peixe, ou frango, quase todos os dias. Grelhado. Eu gostava de carne vermelha, mas não podia comer, andava muito gorda, minha mãe também, não sei como conseguíamos engordar comendo aquelas coisas. Ele desmanchava todo o peixe, se encontrasse um espinho! Coitada da minha mãe! Era ela quem pagava o pato.
Um dia ele chegou mais cedo, era difícil mudar qualquer coisa em sua rotina, mas naquele dia mudou. Queria comer picanha. Grelhada. Mandou que minha mãe fosse comprar. Queria bifes com um centímetro de gordura. Nem mais, nem menos. Senti uma coisa ruim por dentro, não sei bem explicar, mas era como se eu pressentisse que algo terrível estivesse pra acontecer. Garoava. O tempo tinha um cheiro estranho, de mofo. A empregada já tinha ido embora. Estávamos só nós dois na casa. O mofo aumentava, crescia entre os azulejos. Quando os espíritos ruins vêm, sempre trazem esse cheiro. Fui pro meu quarto. Estava tentando me esconder. Eu vivia e vivo tentando me esconder nesta casa. Ouvia o barulho que vinha da sala de musculação. Barulho de ferros batendo, uma música estranha se misturando ao som da respiração forte, como que de animal. De repente a música parou. Ouvi chamarem meu nome. Coloquei o travesseiro sobre a cabeça, queria me esconder embaixo dele, do travesseiro. Chamaram novamente meu nome. Havia mais energia na voz. Não, não e não. Eu não queria sair dali. “ L. desce já aqui, agora, vamos!”. Gritou. Desci devagar as escadas. Parecia haver menos degraus nela, na escada. Cheguei à porta da sala de ginástica... ele fazia um exercício... as veias do seu rosto, dos seus músculos, estavam enormes, parecia que iam explodir, as veias... o suor encharcava tudo... ele fungava... como um porco... terminou o exercício. “Pega um pouco de suco na geladeira pra mim, estou muito quente”. Disse. Fui até a geladeira... não sabia bem porque, mas sentia vontade de chorar... apanhei o suco... era de morango... ele esperava sentado na mesa de supino. Entreguei o copo a ele. “Vem aqui, senta um pouquinho aqui perto do pai, vamos conversar”. Fui. Sentei ao lado dele. Abriu a boca: “Por que é que você tem medo do pai, filha? O pai só quer seu bem e se às vezes ele ralha com você é pro seu próprio bem, você sabe, não sabe?” Eu não sabia, mas respondi que sabia. Ele me abraçou. Estava sem jeito. Eu sentia nojo da respiração, dele, do suor. Fedia. “Você sabe que papai te ama filha, não sabe?”. Colocou-me no colo. Beijou meu rosto. Senti seu bafo quente. Sua saliva. Meu estômago começou a doer. Ele pôs a mão na minha cintura. Apertou minhas dobras. Disse que ia me mostrar uma coisa, que já estava na hora de eu saber, mas que não devia fazer com mais ninguém e nem devia contar pra ninguém, seria nosso segredo, disse e sorriu. Aí abaixou o short e me mostrou aquela coisa enorme. Mandou que eu pegasse. Meu estômago doía. O suor escorria pelo rosto dele. Minha mão não conseguiu fechar. Mandou que eu segurasse com as duas mãos e chacoalhasse. É fácil, dizia, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo. Gemia, suava, como um porco. Pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, mais rápido, mais rápido, pra cima e pra baixo. As veias explodindo no rosto, nos músculos, entre minhas mãos. Não demorou muito, soltou aquela coisa gosmenta, quente, na minha mão, nos braços, no pescoço. Assim que terminou, fechou a cara na hora, que mudança! Mandou-me tomar banho. Direito. Rápido. Não sentia mais vontade de chorar, apenas me doía o estômago. Uma sensação estranha, como se tivesse sido roubada. Naquela época, quando alguém me perguntava a idade, eu gostava de mostrar com as mãos, os cinco dedos de uma e mais um dedo da outra... Ralhavam comigo... Eu não era mais uma criancinha... Os anos contavam seis de mim... Este será nosso segredo. Sim. Gastei um sabonete inteiro no banho. Nem assim me sentia limpa, mas a sujeira não estava nos pés, ou no pescoço, ou atrás das orelhas. Não.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 3

2.

A menina entrou no bosque escuro e...

... nunca mais saiu.

3.


De repente a gente abre os olhos, as narinas, os ouvidos, os sentidos, enfim, e está no meio da merda, no cerne dela, da merda, como aliás sempre esteve. Eu poderia ficar aqui agora tentando enxergar o lado bom das coisas, como sempre fazem os mais otimistas. Mas estou cheia. Não quero mais brincar. Não tenho mais paciência pra ficar vendo flores no meio desta porcaria toda.
Às vezes sinto como se estes braços, estas pernas, estes olhos não fizessem parte de mim. Vou ao espelho e presto bem atenção em mim e me toco pra ter certeza de que me sou. Mas nem assim consigo ter certeza de que estou dentro dessa carne toda. É como se uma parte, pequena, de mim estivesse dentro do meu corpo e a outra parte, a grande, estivesse distante, longe, olhando essa parte que se observa em frente ao espelho. Levanto os braços, fecho as pálpebras, dou pequenos saltos, danço e nem assim chego a ter certeza de que me sou inteira. Sou quase uma desconhecida de mim mesma. Puxa vida! Pelo menos posso abrir a torneira a qualquer momento e pôr os braços, a cabeça embaixo da água corrente. Não resolve, mas alivia um pouco. Meu espírito esperneia, se é que o espírito tem pernas, por só poder ser através dessa carne suja, imunda.
No começo havia o som de piano e aquela voz grave que me dizia coisas e eu era criança. 2002? 2001? 2000? Não antes, muito antes disso. 1999? 1998? 1997? Ainda não, caranguejos marcham pra trás na areia da praia: um exército. 1996? 1995? 1994? Sim, agora, sim, acho que a primeira vez que a voz veio acompanhar o piano foi em 1994. Foi impossível ficar calada. Sim. Estou sentada num banco de concreto no meio do pátio da escola. É um dia frio, cinza. Sinto medo. Estou sozinha, todas as outras crianças já foram embora, estão em suas casas brincando de boneca, de casinha, nunca gostei de brincar de casinha, estão jogando bola, bolinha de gude, soltando pipa. Será que é tempo de pipa? E eu ainda estou aqui. É por causa da música na minha cabeça. Sim. Disse coisas horríveis à professora. Mas foi a voz, a música que me fez gritar as coisas. Sim. Além do mais eu a vi, de noite, dentro do meu sonho, a professora, ela mesma, num carro vermelho, fazendo coisas com um cara de bigodes pretos. Mas não foi de noite que a música veio e insistiu pra que eu dissesse as coisas que tinha visto. Foi agora, há pouco, que ela, a música, veio. E ela, a professora não a música, nunca gostou de mim. Tem nojo de mim, me acha parecida com uma lesma, quando a gente joga sal em cima. É por causa dessa minha pele amarela, branca, transparente: transparente, mas suja. É por causa dessa gordura gosmenta que se junta embaixo da minha pele amarela. Suja. A professora é tão bonita!Tão mulher! Posso vê-la agora, enquanto escrevo. É tão bonita! Mas em 1994, durante a aula, os sons na minha orelha, dentro da minha cabeça, me azucrinam. Música imperativa. Gritei no meio da sala de aula as coisas que a professora andava fazendo, no meu sonho, com o cara de bigodes, dentro do carro vermelho. Agora estou esperando minha mãe sair. Ela está lá dentro. Sim. Na sala da diretora, junto com a professora. Estão me fritando. Minha mãe é brava e branca. Ela também parece uma lesma. E no queixo dela tem uns fiapos grossos de barba que ela vive arrancando com a pinça de noite, mas que sempre voltam. Acho que vou apanhar. Sim. Uma bela surra. Quando ela sair lá de dentro vai me dar logo um baita de um beliscão no braço e dizer: “quando a gente chegar lá em casa você vai ver”. E aí, quando a gente chegar em casa, ela irá até o pé de manga que nunca deu uma manga sequer, só serve mesmo é pra fornecer os cipós com os quais ela me bate. Quando eu crescer vou arranjar um machado e arrancar esse pé de manga, bem perto da raiz e no toco que sobrar ainda vou colocar fogo. Sim. Mas por enquanto o pé de manga vai estar lá. Ela vai arrancar o cipó e me mandar ir tomar banho. Depois, quando eu estiver pelada no banheiro, ela vai bater na porta, mandando que eu a abra. “Espera um pouco mãe que eu tou pelada”. “Abre já está porta”. “Mas mãe é só um minuto”. “ AGORA!” Então eu abro a porta. Mal tenho tempo de destravar o trinco. Ela mete o pé com tudo na porta. Levanta o cipó e... vrrrrrrrruuuuuummm... Eu vou acabar deixando-a doente de tanto desgosto... Eu não valho mesmo nada... O que é que ela fez pra eu magoá-la tanto... vrrrrrrrrrruuuuuuummmmm... ela não sabe! Vvvvvvvvvrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuummmmm... onde o cipó bate, logo cresce um vergão negro, feito uma lagarta... Ninguém merece uma filha assim... A filha de fulana é tão boa! A de cicrana então é ainda melhor! Só eu é que não presto. Eu, essa massa de carne flácida e branca. Pareço uma porca. Só sei fungar. Comer de boca aberta. Sim. Minha carne é flácida. Sou uma porca. Uma porca imensa. Sim. Pareço um verme gigante. Uma lesma. Uma coisa medonha! O que ela fez pra ter uma filha que nem eu, Jesus!?! Logo ela, uma serva tão fiel! No final, quando o couro tiver acabado, ela vai me mandar tomar um banho e ver se lavo bem os pés e as orelhas, eu, a porca. Sim. Vai acender um cigarro. Deve ter gozado a filha da puta. Está esgotada, cansada, fuma devagar, sorvendo bem a fumaça. As estátuas dos santos pela casa estão cobertas com panos roxos. Abro o chuveiro. “Isto é só o começo, quando o seu pai chegar é que você vai ver o que é bom”. Diz. Aí eu passo o resto do dia pensando na outra surra. O bom é que nessas horas a música na minha cabeça é bem calma. Ajuda a suportar um pouco. A tardinha chega o outro. O que o deixa passado é o meu silêncio. Quer que eu chore, que peça perdão, clemência, que me arrependa, que peide, sei lá. São iguais, os dois. A única diferença é que uma gosta da natureza, prefere os cipós, se não fosse tão burra acho até que faria parte do greenpeace. O outro gosta mais do cinto de couro, não está nem aí pra natureza.
Continuo sentada. Enfim ela sai da sala da diretora. Lá vem. Sim. Bufando com a carona vermelha. Fungando. A professora e a diretora vêm junto. Sinto vontade de correr. Entrar de vez pra dentro da minha cabeça grande e ficar lá, quieta... ouvindo a música.
Pararam na porta. Estão me olhando. Conversam e me olham. Sinto meu estômago virar, doer, embrulhar. Não agüento mais. Vou acabar vomitando em cima delas. Se pelo menos eu fosse invisível! O banco continua frio, mas eu suo muito. Despedem-se. A diretora sente pena de minha mãe. Ninguém merece uma filha como eu. Todos os alunos já sabiam escrever e eu mal copiava o meu próprio nome. Ficava o tempo todo contando aquelas histórias idiotas. Eu não valia mesmo a pena... às vezes queria morrer.
Lá vem. Primeiro o beliscão... A boca se abre no meio da cara branca e gorda... Os fiapos de barba sob o queixo... “Quando a gente chegar em casa você vai ver!” Quase vomito, mas prendo a respiração. Sim.

terça-feira, 30 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 2

O essencial do diário não é ser secreto. O essencial do diário é que se escreva nele todos os dias. Não sei se isto é ou será um diário e muito menos se será secreto. Memória? Também não. É que não gosto de datas e nem me importo com a ordem das coisas, não me preocupo mais. A única coisa importante é continuar lembrando, escrevendo. Sempre e sempre. Porque escrever é um jeito de estar só e, ao mesmo tempo, acompanhada. Porque escrever é vingança e perdão, é esvaziamento e mudança, é sangue e inutilidade, é um meio de ouvir Nirvana e Beethoven, mesmo sem estar ouvindo Beethoven e Nirvana. É um jeito de dançar. Agora não escrevo, DANÇO. Entre as linhas. Entre as letras. Quer dançar comigo? Não venha tão desarmado, não sou mais tão criança. Os relâmpagos em vez de me amedrontarem deixam-me arrepiada. Sinto-os dentro de mim. Dentro do couro. Atrás da pele. Como se eu os tivesse engolido e eles ficassem brincando dentro de mim. Não sou mais tão criança... mas, às vezes, me sinto tão triste e há noites em que o vento sopra tão forte e faz tanto barulho lá fora. (P A I) perdoa-me porque pequei. Estou com o braço marcado escondido pela blusa e a porta do quarto está trancada há dias (P A I) entretanto ainda não me sinto segura. (P A I) perdoa-os, eles também não sabem o que fazem. Acendo um cigarro e fico observando como a fumaça vai embora fácil pela janela, fico observando como ela, a fumaça, brinca entre meus dedos, feito os dias, feito os anos, feito as luzes dos carros lá fora, subindo pela rodovia. Tudo parece tão claro agora! (P A I). Evito olhar pra parede onde teu retrato atlético (P A I) me recrimina e me tortura, talvez por causa do cigarro, talvez por causa de tudo. Sigo o fumo e escrevo. Esta evanescença é o único caminho. Peço perdão sim, mas estou pronta para morrer a qualquer momento (P A I) eu queria amor assim... porque este tipo de amor que o senhor me tem não dá certo... Fica então como ontem eu escrevi...
FADO, FADO.

A dor é necessária.

Estou morta e dôo,
Mas caminho entre as flores
E colho as crianças que brotam nos cantos do caminho.
Com minhas mãos translúcidas.
Já é algo.
Fuga entre jazigos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 1

NOTA DO EDITOR.

O presente relato nos caiu em mãos em meados do ano de 2003. Logo que o encontramos, encaminhamos cópia à polícia civil do Estado de São Paulo que tratava do caso naquele momento. Hoje, muito tempo após o crime, e até porque o mesmo continua sem solução, resolvemos publicar este obscuro texto, que acreditamos valer não só pela contundência de seu conteúdo, como também por sua farta riqueza simbólica e por lançar, quem sabe, luz sobre aspectos psicológicos desta estranha família brasileira. O texto que se segue é publicado na integra, do mesmo modo como nos chegou em mãos, não há nele qualquer corte ou acréscimo, exceto os nomes que foram omitidos ou modificados para preservar a identidade dos envolvidos. A separação em capítulos corresponde a um esquema de separação que havia no próprio manuscrito, alguns trechos estavam digitados em folhas à parte, mas dobrados e colocados em diversas partes do diário, procuramos inseri-los no corpo do texto da melhor maneira possível.

sábado, 27 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA

MANCHETES RETIRADAS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DE SÃO PAULO NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2003.


“FAMÍLIA MORRE ENVENENADA APÓS COMER MOUSSE DE MORANGO, APENAS FILHA ESCAPA.”

“PARA POLÍCIA, ASSASSINO QUERIA MATAR TODA A FAMILIA E SUICIDAR-SE.”

“MÉDICO ENVENENADO ESTAVA ENVOLVIDO COM SEITA SATANICA.”

“POLICIA INVESTIGA E-MAILS DA FAMÍLIA ENVENENADA.”

“EXAME APONTA METAL PESADO NO CORPO DA JOVEM .”

“POLÍCIA QUER LAUDOS NO CASO DE FAMÍLIA ENVENENADA.”

“ HAVIA ARSÊNICO NO MOUSSE, AFIRMA O INVESTIGADOR.”

“FAMÍLIA ENVENENADA: SUSPEITA DE ABUSO SEXUAL.”

“MÉDICOS AFIRMAM QUE A ADOLESCENTE ESTAVA GRÁVIDA.”

terça-feira, 12 de maio de 2009

BILHAR

Cerveja pela metade.
Última tacada.
Bola quinze na caçapa do canto direito.
E o coração pergunta:
- Como pode o verde da mesa ter entrado nos teus olhos, menina?

(texto mais antigo)

domingo, 3 de maio de 2009

RISO APUNHALADO

Para Luís e João Silvério Trevisan

Submarino amarelo. É na profundeza escura das águas que se encontram as paixões mais espanholas... Espanha dos meus desejos tão distantes... Submarino amarelo, e a maioria deles não são mais que canoas flutuando na superfície dos afetos. Eu não... eu não me importo de me perder nas profundezas, não sou mesmo como você, que cria o amor como um bicho entre grades. Eu bem sei que eles te rejeitaram. Eu bem sei que você esconde um crisântemo violentado na lapela. Eu bem sei dos preconceitos injetados no teu falo e no teu ânus. Menino de ferro. Liberdade encarcerada dos teus vinte e poucos anos. De onde você se esconde pode ver as estrelas? Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida inteira sem amor. Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida sem poder dar amor. Escondem-se em escafandros e armaduras, mas no cerne do metal implantaram um coração vermelho que pulsa e pulsa. E o que se faz com isso, hein? Escarros do peito podre de meu pai fabricando a aurora e todos aqueles tios e primos gritando da margem da manhã que se iniciava:
- Joga ele no meio do rio que é pra aprender a ser homem.
Isso enquanto eu tentava, e pra minha sorte conseguia, sair do meio da correnteza. É doloroso recordar o esperma verde do fundo envolvendo feito membrana a pele dos meus pés. Mas sou forte e a superação é o trigo com que fabrico o pão cotidiano.
- Eu vou ser homem, mas jamais vou ser um homem como vocês. Eu disse.
Tudo isso me volta agora. Submarino amarelo dentro de mim. Talvez você não esteja preparado para passar o que as pessoas como nós têm de passar. Talvez você não esteja preparado para o escarro e o estrume. O crime é uma forma de se revoltar contra o que nos oprime por dentro. Se esse mundo não me quer, eu também não o quero. É isso ou estou errado? Sei que é duro ter de ficar o tempo todo provando que também se é humano. Às vezes cansa. Às vezes dá no saco. Sei que é duro, meu pequeno, entretanto, esqueça um pouco o mundo e sua dor, enquanto mergulha todas essas angústias que você leva por dentro no meu corpo gordo. É fato que jamais seremos felizes. É fato que nos tornaremos alcoólatras... Drogados... Criminosos. É fato que o amor não vai nos salvar nesta terra. Deixa, porém, isto tudo de lado nestes poucos minutos em que criamos a nossa fantasia de amor e brindamos o que sentimos sem champagne, mas inebriados de pinga de cadeia. Submarino amarelo. Forever.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O SAL DAS LÁGRIMAS

Para o meu amigo Serginho,
porque nunca me esqueci de todos aqueles dias.
" Na praça vazia um grito, um aí."
Milton Nascimento e Fernando Brant
O Astrólogo gostava de beber. O Astrólogo gostava muito de beber. Eu também gostava, mas o Astrólogo gostava muito mais que eu. Eu andava triste e passava a maior parte do tempo no meu canto, observando tudo. Desde pequeno que eu gostava de ficar no meu canto. Desde pequeno que as pessoas diziam que eu era um esquisito. O astrólogo também ficava no canto dele, atrás da banca de jornal da praça. Tinha um amor mal-sucedido, o Astrólogo, no entanto esse amor tinha dado errado havia mais de trinta anos, mesmo assim ele continuava cultivando a tristeza como quem cultivas flores num jardim. Quando estava bêbado, o Astrólogo gostava de jogar o seu tarô sobre um pano muito branco que ele guardava não sei bem onde. Quando estava muito bêbado, ele cantava canções do Roberto Carlos e ficava com os olhos brilhantes e até as rugas da face dele desapareciam. Era um negócio meio mágico. Acho que só tinha uma coisa que o Astrólogo gostava mais do que da bebida, do ocultismo e do Roberto Carlos. Não... não era do seu amor fracassado, era de um cachorro Vira-Latas, marrom e branco, branco não, amarelo, porque a sujeira era muita, que ele trazia sempre ao pé de si. Agora não consigo me lembrar do nome do Vira-Latas. Sei que quando conseguia um torresmo, um salgado, ou um churrasquinho, o Astrólogo sempre dividia com o seu cão, contudo a divisão nunca era feita em duas partes iguais. Uma parte sempre ficava maior que a outra. A parte grande era do cachorrinho, a menor era do Astrólogo, que demorava mais de meia-hora pra comer até migalha de pão. Dizia que não precisava de alimento, vivia por meio da natureza e da força dos astros.

Quem não gostava muito do cachorro do Astrólogo era o Chinês, dono da lanchonete onde costumávamos beber. Era o bicho pôr as patas no boteco que logo vinha o Chinês praguejando em sua língua, ou na nossa, com uma caneca, dessas de fazer café, cheia de água pra jogar no bicho e no dono também, se qualquer dos dois bobeasse.

Vivíamos assim.

Até que um dia, o Astrólogo, milagrosamente, me pagou uma cerveja. Estava com dinheiro. Fiquei imaginando onde ele tinha arranjado a grana, porque ele me mostrou o maço de notas e era muita grana. As pessoas da lanchonete disseram que um artista muito famoso (eu também era artista, mas estava escrito nas cartas que eu nunca seria famoso) tinha vindo de muito longe pra fazer um mapa com ele e o tal artista tinha dado toda aquela pacoteira pra ele, pois as previsões eram positivas, mas não eram inventadas. Havia muita verdade em tudo o que ele, o Astrólogo, fazia em relação ao seu trabalho. Como diz o ditado, ele não brincava em serviço. Trabalhando, até sua fisionomia se tornava mais austera.

Voltando à lanchonete... o que sei é que bebi naquela noite até o apagamento. O Astrólogo continuou bebendo até o apagamento por mais três dias e três noites. Já disse que ele gostava de beber. Quando pude me curar da ressaca e retornar ao meu banco na lanchonete, me disseram que o Astrólogo estava internado no Hospital Municipal. A força dos astros não tinha sido o suficiente dessa vez e os médicos tiveram que fazer seu trabalho com a glicose e o soro habitual. Fiquei por ali com uma cerveja aberta, sem fazer nada, olhando as coisas e as pessoas como sempre fazia, até que reparei no Vira-Latas do Astrólogo atravessando a rua. Senti pena do cão. Como seria que ele estava se virando sem seu dono e o alimento que dele provinha? Chamei o bicho estalando os dedos e joguei o resto de um bolinho de ovo que tinha nas mãos para o animal. Nesse dia era a Chinesa e não o Chinês quem atendia no balcão. O Chinês estava fazendo os salgados lá pra dentro e, quando vinha trazendo uma bandeja recheada de quibes, e viu o cão dentro de seu estabelecimento, o homem ficou doido. Largou os salgados sobre o balcão e, sempre resmungando em seu idioma indecifrável, correu outra vez pra dentro da cozinha. Eu ainda estava rindo, como todo mundo dentro da lanchonete, quando o Chinês veio correndo com um tacho cheio de óleo quente e jogou inteiro no rosto do Vira-Latas do Astrólogo.

O animal atravessou a rua correndo e foi se esconder nos trapos do seu dono, atrás da banca de jornal, chorando de um jeito que eu nunca tinha visto nenhum ser vivo chorar até então. As pessoas dentro do bar ameaçaram espancar o Chinês. Confesso que até eu mesmo senti vontade de arrebentar com a cara do filho da puta, mas me lembrei dos Beatles e de John Lennon, vai saber porque, e resolvi dar uma chance à paz. O fato é que acabei salvando a pele do China. Porque não era bobo nem nada, assim que pôde o oriental baixou as portas e desapareceu com sua esposa. Não sei se chegou a perceber o tamanho da merda que tinha feito.

***

Eu estava comprando cigarros, uns dois dias depois do incidente do óleo, na banca de jornal, porque agora eu não entrava mais na lanchonete do Chinês, quando avistei o Astrólogo atravessando a praça. Senti um aperto no coração. Ele tinha acabado de sair do hospital. Estava até mais corado, só que, quando viu seu cachorro, esse homem desmoronou. Caiu no chão e chorou ainda mais dolorido que seu animal. Os pêlos da minha barba e do meu corpo inteiro se arrepiaram. Eu estava diante do supra-sumo, do caldo da dor. O homem não gritava, não falava, não reclamava, mas perdia o ar como um menino de dois anos quando chora demais. Era um sofrimento de trincar os ossos e quebrar os dentes. Ali, agarrados, os dois choravam juntos, mas se consolovam, se entendiam, esfregavam seus corações dilacerados um no outro, porque sabiam que um compreendia o que o outro estava sentindo. E o Vira-Latas dizia ao seu dono:
- Vamos não chore, eu vou ficar bem.
E o Astrólogo dizia ao seu cão:
- Vamos, não chore, eu vou cuidar de você.
Entretanto, ambos continuavam chorando e se abraçando.
Há sal demais nas lágrimas. Até nas minhas. Devo confessar que também chorei. Chorei pelos bichos e pelos homens e pelos filhos dos bichos e pelos filhos dos homens, que se arrebentam mutuamente sobre a crosta dessa ferida aberta em busca de alimento. Chorei por Vincent Van Gogh, sofrendo com uma bala encravada no peito uns duzentos anos atrás. Chorei pelo Théo que morreu sem ver o sucesso do irmão. Chorei pela insanidade de tudo e por mim também que nunca seria uma artista de verdade. Quando começou a juntar gente pra ver e caçoar ou se compadecer, eu fui embora.

Dias depois voltei até à praça onde tudo o que estou contando aconteceu e soube que o cachorro ia sobreviver e que o Astrólogo não bebia havia mais de uma semana. Tinha de se manter sóbrio pra cuidar de seu bicho, era o que ele e as pessoas diziam. Cheguei a ver os dois sentados juntos sob a luz de um Sol matinal e fresco de abril. Pensei em ir até lá e dizer alguma coisa, mas me calei. Era o melhor a fazer. Fiquei ainda mais um tempo observando os dois irmãos, ou o pai e o filho, ou os dois amigos, ou o que vocês preferirem, conversarem, depois dei as costas e fui-me embora. Pra onde? Nem eu sabia. Eu tinha um boné de maquinista na cabeça e uma mochila nas costas. O emprego tinha ido pras cucuias. Tudo o que me restava era a certeza de que não pertencia mais àquele lugar, embora soubesse que aquele lugar moraria dentro de mim pra sempre. Ponta de areia. Ponto final.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SUICÍDIO

Quando acordei, abri as janelas.
A cidade se lavava sim.
A primeira grande chuva depois que você partiu.
Fui até o pé de manga e não havia mais manga,
mas reforcei com o canivete nossos nomes dentro do coração da manhã.
Voltei.
Não tinha café.
Então fiquei olhando aquela sua revista velha,
que tem na capa um enorme cavalo negro.
Toquei sua crina.
Ele não se fez arredio.
Passei de leve a mão no dorso forte.
Ele não demonstrou asco.
Montei-o com a leveza de uma virgem.
Ele aceitou.
E assim,
como quem já sorriu,mas apunhalou o riso,
Partimos pro outro lado do espelho...
E a tua escova ainda na pia do banheiro...

(TEXTO MAIS ANTIGO)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

PIANISTA BOXEADOR

Sempre gostei de rosas vermelhas!

Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.

Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!

***

Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.

Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?

Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.

Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!

Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.

Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.

Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.

Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.

Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.