segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Acaso sou eu o demônio de mármore?

Para Camille ClaudelAcaso sou eu o demônio de mármore?
Dividido entre a incompreensão e o medo?
Acaso sou eu quem distribui beijos de sangue?
E faz do amor um acessório vendido em sex shop?
Um par de tumores me faz as vezes de sapato.
Um par de cancros me faz as vezes de luvas.
Um par de pragas faz as vezes de chapéu
da minha cabeça dividida.
Sou um dragão embaixo de chapéus coco.
Caracóis coloridos despencam dos meus bolsos.
(Só quando estou sentado)
Silêncios esvaziam minha boca.
(O tempo todo)
Marcho cabisbaixo por caminhos que se bifurcam
Sem Pátria
(O Norte é bem mais quente)
Sem carinhos
Sem ternura
Sem nada
A taça da delicadeza
Quebrei-a em dez mil vontades
Um blues ainda consola a timidez dos objetos
Um sol negro estático baila no meu peito
Um arco-íris flutua em minhas veias
Toda noite
Mesmo quando conto anedotas estou triste
Meu ventre está cheio de merda, querida.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Ici Repose Daniel Lopes 1977 - 1992

Entre tantos que cultivam girassóis,
Gerânios
Crisântemos
Hortênsias
Orquídeas
Rosas vermelhas,
Eu sou aquele que cultiva flores de ódio
E cuido delas com sangue, álcool e bílis
Pelos meus dedos de jardineiro
Corre uma brisa estranha
Que é mágoa... decepção... rancor... o fim...
Não sei ao certo
A delicadeza dos pregos, talvez,
Ou o som de cupins devorando pacientemente os afetos
Talvez o fim derradeiro.
Mas o fim de todo fim é recomeço.

Beijos de festim habitam ainda os lábios das crianças
E a língua dos cães que nos amam.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A FELICIDADE É UMA ARMA QUENTE

Partidos os relógios
Um vento delicado entre os cabelos
Andorinhas dissonantes apontando a dubiedade
Quero o frescor do início outra vez
E um gosto de pêssego na boca
O mundo é grande demais para se ser só
Vem com os meus erros
Porque o teu perdão reinventa o amor.

Hoje nos meus braços ninguém tinha dentes
e nem sorrisos
Mas eu engoli tua dor e teu sexo
E do líquido da nossa desgraça
Reconstruí diamantes cor de vinho
E espingardas de caçador.

Sou menino
e aceito das águas a revolta.
Quando você me deixou
Eu chorei tanto
Que as lágrimas cavaram feridas
Hoje restam cicatrizes no rosto
E claros traços de alcoolismo
Estou tão cansado de ser eu mesmo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

EXECUÇÃO

“a culpa é indubitável”

FRANZ KAFKA.

Ele ouviu os gritos da multidão e não pôde acreditar que a coisa ia mesmo acontecer. Não podia acontecer, não com ele, isso só acontecia aos outros. Mas ele estava lá e foi arrancado do seu pensamento por imenso tapa na nuca. “Filho da puta!”, pensou, mas nada disse a princípio, talvez ofender pudesse ser pior, entretanto se não havia mesmo mais jeito e o que o separava da morte eram apenas alguns movimentos do ponteiro no relógio da torre, então que esse guarda amarelo fosse mesmo tomar no centro do cu!
- Filho da puta! Gritou com todas as forças.
Recebeu nova pancada, desta vez no estômago. Curvou-se sobre a dor. O guarda de uniforme verde bem passado e quepe preto balbuciou alguma coisa que ele não entendeu e o puxou pelos cabelos. A princípio não se moveu, mas, assim que pôde se reerguer, foi ordenado que ajeitasse a placa pendurada no pescoço onde constava seu crime e sua sentença. Não entendia as palavras do guarda, mas ele, o guarda, apontava na direção da placa. Num país onde os ratos eram sagrados, era proibido que se fabricasse ratoeiras. Sim, era culpado pela morte de milhares de ratos, ou não era culpado pela morte dos ratos, mas tinha confessado, ainda que sob as mais cruéis torturas. E eles ainda chamavam a isso de justiça. Pior, chamavam de a melhor justiça do mundo, onde 100% dos crimes eram punidos com a morte, onde os advogados de defesa recebiam mais pela condenação que pela absorção dos réus.
Viu um par de botas, um sobretudo e um quepe se aproximarem. Desviou o olhar pra multidão. Estavam eufóricos, monstruosos. Um estádio inteiro de filhos da puta! Ainda não acreditava que seria realmente morto, como num filme, num conto do Sartre, ele acreditava que seria salvo no último momento. Ao mesmo tempo, sentia um vazio por dentro, como se não tivesse órgãos, nem sangue, nem nada, além do vento, dentro de si. “Agora tanto faz”. Pensou, só não iria mesmo era abaixar a cabeça como eles queriam. Não iria mesmo.
Subiu as escadinhas que o separavam do centro do espetáculo. Sentiu os tomates podres esborracharem-se sob seus pés. Que lindo tapete vermelho! Que espetáculo! Estava no fim e nem sequer tinha realizado algo de grande. Olhou pro céu, num ponto mais além do relógio da torre, e notou que, ao longe, entre as nuvens pesadas de água, os dragões já haviam se libertado e voavam como que em câmera lenta. Recebeu a primeira tomatada no rosto. Em seguida vieram mais dezenas delas. E cada tomate parecia que vinha com mais força. Era o grande momento de sua vida, seu grande espetáculo e toda aquela platéia se rendia, jogava-se a seus pés. As vaias são tão importantes quanto os aplausos e seus aplausos eram as vaias que os cretinos arrancavam do ponto mais profundo de suas gargantas. Podia ver de longe o suor no rosto deles, de cada um deles. E os dragões cada vez estavam mais perto, mas era só ele, que estava no palco, quem os via, os espectadores não ousavam voltar suas cabeças na direção da torre.
Come in from the cold ...
Sorriu ao imaginar que seu sangue se misturaria ao sumo do tomate. Nunca saberiam o que fazia parte dele e o que fazia parte dos tomates.
Ouviu o guarda anunciar, sem entender porra nenhuma daquela língua estranha, sua sentença. Balançou a cabeça com força quando tentaram vendar seus olhos. Queria ver o rosto da morte. Queria encará-la de frente. Sentiu o hálito quente dos dragões empestear todo o estádio. Olhou pros seus pés vermelhos entre os tomates. Ergueu novamente a vista e viu que as mangas do sobretudo verde preparavam a munição pra arma. No céu, os dragões voavam em círculos nervosos. A multidão em êxtase. Lembrou-se pela última vez dos girassóis que ela, às vezes, deixava na janela. Lembrou-se da alegria das crianças quando voltavam da escola, mas agora ele estava só, completamente só. A despesa da bala já tinha endereço certo. Nem sequer na hora do disparo fechou os olhos.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo
Nunca aprendi a nadar
Nunca aprendi a ser forte
Nunca aprendi a enfrentar os outros e os dias
Do teu vestido de baile desmoronam prazeres imensos
E eu me masturbo só com as mãos que tenho em mãos
Feito um menino que não soube crescer
Feito um adulto que não deixou de ser pequeno.

Longe das tuas águas eu morro de sede
Dentro das tuas águas eu me afogo
Enferrujo
Prego no fundo da lagoa
Chave de fenda sem fenda no espaço
Teu corpo pequeno e imenso
Sugando meu corpo rígido e cansado
Enquanto Deus assobiava la vie en rose

Mas isso já não é.
Mas isso já não é.
Mas isso já não é, nunca mais, por toda a eternidade, sempre.

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo
Longe das tuas águas eu morro de sede
Distantes gritam tambores teus
Sons negros entrecortando a noite inda mais negra
A traição faz apodrecer o amor
Como os dentes da boca de um louco
A traição
Faz do teu rio esgoto a céu aberto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Viagem ao Fim

Ele estava perdido. A maioria das pessoas está. Ainda carregava o machado na mão direita, mas não havia mais floresta. Era um lenhador, contudo seu trabalho havia terminado e ele, que jamais respeitara o perfume do sândalo, sentiu saudades do tempo em que havia ainda pela frente um trilhão de árvores a derrubar. Olhou para os dois lados e só havia a areia e o deserto avassalador. Soltou o machado no chão e enxugou com as costas da mão direita uma única lágrima pequena, que escorria pelas rugas da face formando quase que uma correnteza, quase que um rio. O corpo ainda era forte, resultado de sessenta e tantos anos derrubando árvores e mais árvores, contudo agora não havia mais árvores, nem pessoas, nem nada, só a areia e o deserto imenso. O machado era inútil, mas... porra... ele era um lenhador, e lenhador era tudo o que ele sabia ser, ainda que não houvesse árvores, de que maneira poderia abandonar o machado?

Pegou outra vez sua ferramenta de trabalho. Passou de leve a mão pelo fio afiado. Alguma coisa doeu em seu coração, mas o coração não doía nunca. Pelo menos era o que lhe haviam dito a vida inteira... então que diabo era aquele vento ruim soprando tudo que era sensação boa dentro dele? Sentiu as pernas enfraquecerem e sentou. Jamais sentira qualquer tipo de fraqueza, agora sentia, sentia uma fraqueza grande e profunda como o deserto, uma fraqueza de tamanho igual à da floresta, quando a floresta era grande e ele era pequeno. Acendeu um cigarro de filtro amarelo e tragou devagar. Doíam-lhe até as pernas da alma e ainda assim ele começou a se lembrar do tempo da infância, só pra se magoar e sofrer ainda mais. Era velho, mas parecia um desses meninos que cutucam a casca de uma ferida até que ela comece a sangrar outra vez. Examinou as unhas das mãos na esperança de encontrar alguma que pudesse ser roída, contudo todas elas estavam sugadas até o centro da carne.

“Agora é esperar a morte”. Pensou terminando o cigarro e se deitando pra deixar o Sol destruí-lo pra sempre. Era o que queria agora. Era só o que esperava agora.Todavia, mal fechara os olhos, ouviu a voz da menina chamando-o e os dedos dela cutucando-o. De onde ela, a menina, surgira só Deus o sabia.
- O que o senhor está fazendo aí? Ela perguntou.
- Nada, estou só morrendo. Ele respondeu.
- O senhor é muito bonito pra morrer assim... sozinho.
- Eu tenho culpa, acho que é assim mesmo que devo morrer.
- Ninguém merece morrer assim. – Ela disse e começou a mexer numa pequena mochila que carregava nas costas.
- O que é que você está procurando ai?
- É só uma coisa que eu trouxe pro senhor. – ela disse e neste exato instante encontrou o botão de rosa que pretendia dar ao lenhador. Ele ainda tentou argumentar que não merecia, que era culpado, mas ela insistiu e ele apertou o cabo da planta na mão, sem se preocupar com os espinhos. Por alguns momentos as almas de ambos se tocaram e eles souberam que eram iguais, que se pertenciam, ainda que ele tivesse mais de setenta anos e ela tivesse menos de quinze. Depois a menina virou as costas e foi embora sem dizer adeus. Quanto ao lenhador, tudo o que fez foi observar uma gota de sangue, saída da ferida na mão provocada pelos espinhos, escorrer pelo seu braço e cair sobre a areia quente. Poucos minutos depois a gota de sangue estava seca.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

SÓ DESSA VEZ


(para o tio César)

Anjos e meninas despencam da janela do sétimo andar
E um vento audaz corta as asas e os corpos
Estou sentado na calçada
e tento montar o quebra-cabeças da nossa vida que rasguei.
corre comigo que eu corro contigo...
sonhos pingando das torneiras...
colchas remendadas no centro...
E um cheiro amargo de manhã que me estupra as retinas.
Estou só e mal acompanhado
Com o gosto do teu gozo escorrendo dos lábios
E o cheiro dos teus dedos me afagando os cabelos...

Teu sorriso constrói manhãs...
Teu sorriso cura os doentes...
Teu sorriso canoniza meninos de rua,
E me cura do espólio ardente do pó.

Anjos e meninas despencam
E um vaga-lume acaricia o piano
Enquanto os bem-te-vis, imitando o som de um corvo,
Repetem “never more”.

Manhã de morte em mim
Ao mesmo tempo em que uma menina compra pão
Manhã de morte em mim
Enquanto o investigador pede um pingado
Manhã de morte em mim
Enquanto o mendigo revive na primeira pinga do dia
As amarguras dos cinqüenta e dois anos anteriores.

Flor de ir embora
Teu reflexo partido no espelho em doze mil ilusões
E eu desencantado sem saber bem o que fazer com as mãos
(Eu tenho doze mãos)
Então a porta se fecha e o espelho reflete a porta,
E a porta está sempre fechada.
O mundo é teu, menina
Tudo o que posso fazer é estender teu vestido vazio e vermelho na parede da sala.
Na imagem da memória,
Você tem dez anos e se balança em frente a um campo de rosas,
BRANCAS, dessa vez.
Só dessa vez..