quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Selo gentilmente cedido por Renata Maria Parreira

Selo gentilmente cedido por Jawaa e Blood Tears


Ofereço o selo a todos os membros da minha lista de blogs. Peço que cada homenageado passe o selo para 15 outros blogs.
Abraços a todos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sem lágrimas, ou Para ninguém...


O dia ainda não havia clareado quando ele acordou e ficou olhando pra ela que dormia. Entrava, pela janela da cozinha, uma luz levemente avermelhada. Ele deslizou devagar as mãos pelos cabelos dela e, quando baixou a cabeça com intenção de beijá-la, o relógio despertou. O beijo agora ficaria engasgado dentro dele, como se ele houvesse engolido uma águia, ou um corvo.

- Dá licença que eu preciso trabalhar. – Ela disse com seus olhos muito abertos e profundos. Havia mais de três meses que não se falavam, que não se tocavam, que não se ouviam. Quando alguma palavra escapava da boca dela e entrava pelos ouvidos dele, era, invariavelmente um palavrão, ou alguma frase mais agressiva.

Ele saiu um pouco para o lado. Tinha ficado mudo. Não conseguia mais falar.Era como se já estivesse dentro do túmulo, morto, tentando se comunicar com alguém vivo, desde o fundo da terra. Mas ela não ouviria e o túmulo dentro dele era lacrado com um concreto muito especial, que não deixava o que quer que fosse escapar. Ela caminhou até o banheiro e ele ouviu o barulho da água caindo pelo chuveiro. Enquanto ia pra cozinha, viu meio que de relance, seu próprio reflexo no vidro da janela. Estava barbudo, cabeludo, branco e feio. Os barulhos que vinham da rua o atormentavam e o amedrontavam profundamente. Será que nunca mais conseguiria encarar o mundo? Será que já estava mesmo morto? Estava se esforçando, mas não conseguia sair de dentro do túmulo que ele mesmo construira. Era um túmulo bonito, isso era, com uma estátua do Chaplin por cima, mas, mesmo com o Chaplin, não deixava de ser um túmulo e ele não conseguiria sair. Tudo doía dentro dele, o pássaro que era um beijo dilacerava seus intestinos, seu fígado, os rins, o coração e tudo o que ele poderia fazer era suportar a dor sem espernear. Porque era um homem. Um homem com um pássaro e um túmulo dentro do corpo.

Ela saiu do banheiro e começou a se vestir.Olhou pra ele parado a um canto do quarto e balançou a cabeça negativamente. Ele achou que ela continuava bonita, mas não conseguia fazer nada. Era como se estivesse completamente acorrentado à tormenta. Ela colocou um vestido vermelho e um sapato também vermelho. Havia uma echarpe salmão. Mas ela desistiu de usá-la no último instante. Penteou os cabelos enquanto os secava com um aparelho barulhento que também o incomodava. Por fim, passou um pouco de brilho nos lábios, que batom ela não usava, e foi pra cozinha, onde preparou um copo de chocolate.

O pássaro se debatia dentro dele. Precisava fazer alguma coisa agora. Ela já sairia. Havia muitas contas a pagar e ele não conseguia mais sair de casa. Alguém precisava pagar as contas e esse alguém não era um artista fracassado e morto. Mas ele tinha que fazer alguma coisa já. Sentia que esse era um momento definitivo, embora não soubesse muito bem porque. Correu até a sala. Pegou papel e caneta e escreveu com sua letra trêmula e nervosa

“Ainda temos uma chance?”

Colocou a folha sobre a mesa. Ela girou o copo entre as mãos tentando dissolver um pouco melhor o chocolate dentro do leite. Bebeu. Pegou a folha e levantou na altura dos olhos. Havia algum brilho, havia alguma água, havia alguma ternura em seus olhos, entretanto, em vez de chorar, ela sorriu e depositou outra vez a folha sobre a mesa, chegou a pegar da caneta, mas não escreveu coisa alguma, deixou-a cair novamente. Foi até o quarto apanhar sua bolsa. Beijou-o levemente no rosto sobre a barba e ele sentiu, pela milésima vez, o perfume bom dela. Alguma coisa dentro dele dizia que aquela era a última vez, mas nem assim ele conseguiu sair de dentro do seu túmulo. Em alguma praia do litoral norte um cachorro fazia cocô admirando o oceano.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Não sou eu.

Brilham como se fossem estrelas, as laranjas
Mas da varanda vazia
Ninguém pode vê-las.
Quem as acariciava com os olhos todas as manhãs
Dorme agora na sala entre velas.

Queria pintar o pomar
Queria pintar o sol das laranjas
Mas as sombras invadiram a casa
E as borboletas recolheram suas asas
sem prenúncios ou rodeios.

E eu que não sou mais que um vagabundo
Observo
A chuva que resvala na terra
E forma rios e lagos
Ecoando passos ausentes.

Nas árvores ao longe
Negras andorinhas aguardam o momento de voar
Enquanto a borracha do menino
Apaga da manhã os laranjais.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

VOCÊ NUNCA PODERIA VOLTAR PRA CASA

“Então é assim que tudo termina? Um gosto amargo na boca e a sensação de que toda a aventura poderia nos ter dado mais coisas e coisas melhores?” Não aceitava a conta que lhe era cobrada. Não era justa, a conta. Exigia seu troco. E o único troco digno, era servir-se de mais uísque, sem gelo nem água, e se deitar pra ouvir ainda uma última vez a voz doce de Annie Haslam, aí sim, partir de vez pro outro lado, enquanto o dia começava a surgir e os galos haviam se transformado em pardais que também cantavam.
Olhou mais uma vez o apartamento sujo, cheio de cinzeiros cheios e garrafas espalhadas. Olhou o piano no qual tinha composto quase todas as suas canções. Lembrou das inúmeras vezes em que Virgínia lhe trouxera um café, ali, no piano. E ele sempre tomava o café e fumava um cigarro e depois, renovado e afastado, pelo café de Virgínia, do medo do fracasso, voltava e prosseguia, procurando as canções. Agora o piano estava lá, calado, e lá calado ficaria, não poderia levá-lo pro outro lado. Agora Virgínia estava longe. Quem sabe na Amazônia, percorrendo aqueles rios negros com um garoto qualquer, vinte anos mais novo que ele.
Bebeu todo o uísque de uma vez. Tentou se levantar. Não conseguiu. A dor era muito forte. Colocou a mão nas costas. Onde sentia a camisa empapada. A mão voltou melada de vermelho, de um vermelho escuro, quase negro. “A facada deve ter acertado o fígado”, pensou. Ao pensar no fígado, sorriu. Quanto trabalho tinha dado àquele órgão. Tinha visto drogas entrarem e saírem de moda. Tinha experimentado, usado, abusado de todas elas. E o fígado tinha ficado lá, pronto, determinado a trazê-lo de volta do outro lado. Agora a facada o tinha acertado bem ali. Não poderia mais voltar. Agora teria que ficar do outro lado de vez. Se pelo menos lá, do outro lado, houvesse a certeza dos violinos...
Fez mais força... Escorou-se nos braços do sofá... Arfou... Devagar... Levantou-se... Sentiu vontade de vomitar... As vistas entraram na noite... Não podia ir... Não ainda... Exigia seu troco e seu troco estava logo ali, na cozinha, sobre a pia... Tinha falhado como artista... Tinha perdido o jogo da arte... como um garimpeiro... tinha procurado seu diamante... do outro lado... mas não tinha encontrado a coisa... Tinha falhado como artista, mas não se permitiria falhar como homem. Tirou seus olhos da noite... As baratas já tomavam conta da pia... Mas o uísque ainda estava lá, intacto... Os passos eram lentos... Os quatro discos gravados há muito tempo não poderiam ajudá-lo agora... A guitarra azul não poderia ajudá-lo agora... Nunca mais poderia voltar pra casa... A casa estava demolida... destruída... no chão... tinha esse apartamento, mas não era uma casa... respirou fundo... pé ante pé... como um samurai paranóico... ganhou a cozinha... escorou-se na geladeira... faltava pouco... Droga pianista, eu só quero mais onze passos, mexa-se.

.........................................................................................................

Onze passos que pareciam impossíveis. Todas as mulheres ficaram pra trás. Todas as notas arrancadas com sangue, ficaram pra trás. A casa ficou pra trás. Ninguém pode entrar na morte acompanhado, mas ter de encarar tudo, sem ter sequer alguém que lhe dissesse: “ Você não foi tão ruim assim cara, até que você tinha umas qualidades, vou sentir sua falta” era impossível pra qualquer um. Entretanto as pessoas que poderiam dizer algo estavam no passado. O futuro era a solidão e os três passos que ainda o separavam do uísque.
...........................................................................................................

“Só mais três passos”. Pensou... Mais uma respirada funda... Era uma das últimas... Precisava aproveitar... Ouviu o disco chegar ao fim, ouviu os primeiros acordes do violino... Desde criança, à noite, gostava de ficar acordado sozinho, cutucando as melancolias e ouvindo os sons... Adeus Virgínia... que pelo menos um sorriso bom dele tivesse ficado dentro dela pra sempre... nem tudo era mentira e traição... havia coisas bem sinceras... tantas guitarras azuis! Esforçou-se mais... Esticou a mão esquerda... era canhoto... Alcançou a garrafa... Devagar... Encheu o copo... As costas doeram forte... Adeus Virgínia... O dia lá fora clareava, mas, dentro do apartamento, a noite se tornava cada vez mais profunda e sincera... Bebeu todo o uísque de uma vez, era a dignidade que lhe restava. Cães latindo em meio aos violinos lá fora. Olhou os números vermelhos no relógio digital em cima da geladeira. 4:55.

- Vem meu filho. Disse a noite e o acolheu com carinho. E Virgínia estava longe. E a casa era só uma lembrança de pedra.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

DIAMANTES E FERRUGEM

PARA O MARCOS E PARA JOAN BAEZ

Você arrancou minhas bolas.
Descoseu minhas roupas.
Roubou minhas bombas.
Fez chacota dos meus poemas.
Riu dos meus pesadelos.
Rasgou minhas histórias.
Fez pouco de mim diante dos meus amigos.
Jogou fora meu gim.
Judiou do meu cachorro.
Quebrou meus Dylans.
Saiu com meus primos.
Me fez coadjuvante da minha própria história.
E
Me trocou por um cara quinze anos mais jovem.
E disse que eu usava drogas demais.
E eu escutava visions of johana.
E lia Jack kerouac.
E amava um Elvis gordo.
E tudo ao meu redor era decadência e cobrança.
E eu engoli todos aqueles remédios,
Mas nem a morte me quis.
E eu fiquei envergonhado.
E fui pra igreja
E uma velhinha me disse:

“Oh menino, você é tão bonito, por que fez isso?”

E eu só pude dizer que não sabia.
E fiquei com a minha cabeça abaixada.
E morri mais um pouco e fui ao museu da independência.
Porque eu tinha ido ao museu da independência quando era criança.
E fiquei bêbado no museu da independência.
E fui expulso.
E minha mãe me deu conselhos.
E meu pai me deu conselhos.
E meu irmão me deu conselhos.
E meu patrão me deu conselhos.
E o bêbado Vida Amargurada me deu conselhos.
E eu ouvi os conselhos.
E desaprendi a viver.

Você roubou meu dinheiro e meus filhos e foi viver com outro cara.
E ainda tem a cara de pau de dizer que a culpa é minha?
A sua ironia ainda me deixa de pau duro.
Vá para o inferno sem mim,
Por que havemos de ir juntos para o inferno?