sexta-feira, 26 de setembro de 2008

JOYCE

Abriu os olhos devagar. As janelas, como sempre, estavam fechadas e as cortinas pesadas e vermelhas cobriam qualquer fresta por onde o sol pudesse entrar. Olhou o despertador: 14:48. Um bom horário pra se levantar. Calçou os chinelos. Teria um bocado de trabalho pra fazer agora pela sua manhã. A idéia do fogo nem sequer passava pela sua cabeça. Por enquanto, ela pensava que precisaria limpar as fezes dos ratos, alimentá-los, acariciar um ou outro que estivesse mais tristonho. Precisaria também alimentar Moema, a macaca. Moema há muito andava triste. Gostava dos sons dos sintetizadores, Moema, mas os sintetizadores haviam virado pedra. A maioria dos móveis havia virado pedra. A casa, agora uma ruína com chão de tábua, havia virado pedra. A carreira musical tinha virado pedra, primeiro pó, depois pedra. A beleza, os cabelos ruivos, a juventude, tudo tinha se perdido entre as pedras. O tempo é impiedoso. As pedras são impiedosas.
Foi até à cozinha. Os ratos rodeavam-lhe os pés. Havia dezenas deles. Estavam agitados. Desviou dos buracos no chão. Pisou metodicamente em alguns lugares onde as tábuas estavam soltas. Chegou à cozinha. Moema veio pulando pelas vigas do teto e ficou fazendo festa em cima da pia. Abriu a geladeira verde de porta grossa e vermelha. Empurrou o marmitex que já havia sido aberto e estava mal fechado para o lado. Pegou a caixa de peixes, estava repleta de peixes, a caixa, mas o aspecto deles, dos peixes, não era nada bom. Por cima dos peixes, estavam amarrados, com uma fita preta, um par de pés de galinha amarelos. Tirou os pés de galinha e colocou-os no congelador, seriam melhor conservados ali. Os ratos no chão davam pequenos pulinhos. Jogou alguns peixes um pouco distante de si. Os ratos correram como loucos pra cima da comida. Sorriu. Entregou a Moema, a comida de Moema. E a macaca ficou feliz. Voltou pra geladeira. Suas mãos enrugadas e cinzentas abriram o marmitex e apanharam uma rodela murcha de tomate, levou o alimento à boca de dentes raros e podres. Sentiu náuseas. Jogou o tomate no chão. Quase nada lhe descia mais.
Chegou perto dos ratos. Comiam rápido. Pegou mais alguns peixes e jogou para os animais que não conseguiam chegar perto da comida. Passou a mão no pêlo de alguns deles. Em algumas unhas ainda havia resquício de esmalte preto. Estava faltando alguém. Conhecia cada um de seus bichinhos. Sentiu um calafrio chacoalhar-lhe todo o corpo. Onde estaria Valkíria? A maior e mais carinhosa de suas ratazanas? Olhou novamente pra ter certeza de que ela não estava entre os outros roedores e teve certeza de que ela, Valkíria, não estava ali. Outro calafrio. Já estava acostumada à febre, mas, às vezes, como agora, os calafrios vinham mais fortes e ela não se sentia nada bem.
Andou até um dos buracos no chão, o maior deles. Abaixou-se. Olhou lá embaixo. A ratazana estava quieta, deitada num canto escuro. Pegou-a. O animal não se mexia. Ainda estava viva, mas a barriga inchada, rachada e o líquido escorrendo pela boca indicavam que o veneno havia sido fatal. Acariciou-a na barriga.O pior é que desconfiava que ela, Valkíria, estava grávida. Continuou acariciando o animal até ter certeza de que a vida tinha saído por inteiro dele. Foi até o banheiro. Abriu o armário. Não admitia mais espelhos pela casa. O reflexo seria insuportável. Pegou um pedaço de jornal. Enrolou a ratazana nele. Depois colocou tudo numa sacolinha de plástico verde escura. Abriu a minúscula janelinha do banheiro de uma maneira que pudesse jogar o embrulho pra fora sem que seus olhos ficassem muito expostos à luz. Todavia pode ver um homem, albino, passar dentro de um carro vermelho lá fora. Ainda abriu mais uma vez o embrulho para ver a ratazana antes de jogá-la pra fora. Depois fechou rapidamente a janela e a cortininha.
Voltou para o quarto. Abriu uma das portas quebradas do guarda-roupa. A porta despencou sobre o pé direito cortando-o. Correu um filete de sangue. Limpou-o com uma saia velha. A ferida rapidamente se cicatrizou. Da casa do vizinho vinha um som baixo de piano. Parecia que tocavam uma música qualquer de natal. Pegou o cachimbo branco, extremamente branco, de marfim talvez, de dentro do guarda-roupa. De um cinzeiro de metal dourado em cima da cama, recolheu as bitucas de cigarro. Retirou deles, dos cigarros, o resto do fumo e das cinzas e colocou tudo no cachimbo. Quebrou a pedrinha branca em pequenos pedaços e colocou-a também no cachimbo. Reacendeu um pedaço de vela vermelha que estava no castiçal dourado perto da janela, sobre uma velha cômoda infestada de cupins. Encostou um palito de madeira, usado talvez para pintar as unhas, na chama. Em seguida acendeu o cachimbo com o palito e fumou-o, mas o cachimbo apagava a todo instante e por isso ela tinha constantemente a necessidade de reacendê-lo. Talvez isto a irritasse.
Moema entrou no quarto brincando com um pedaço do que um dia havia sido uma flauta doce. Joyce sorriu. Acendeu ainda uma outra vela, branca desta vez, e colocou-a perto da cama. Apanhou no guarda-roupa um livro de capa preta. Deitou-se na cama. Abriu o livro e o livro era O morro dos ventos uivantes, e a macaca continuou a brincar com o pedaço de flauta, e os ratos vieram para a cama, para perto de sua dona, e qualquer vento mais forte que entrasse pelas frestas da janela poderia empurrar a cortina vermelha para perto das chamas da vela também vermelha.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SAULO E ANA


ELE

Cheguei em casa e ela estava lá, toda pompuda, escorada em seu diploma e passando aquele esmalte vermelho ridículo nas unhas. “Vaca velha”. Pensei, mas não disse nada, não queria começar outra briga. Estava de saco cheio de brigas. Estava sem paciência pra ser ofendido e pra ofender. Queria mesmo era o meu sossego: entrar no quarto, deixá-la na sala, fechar as janelas e ficar só com a minha poesia. Era a única coisa que andava me salvando, a poesia.
Cruzei a sala. Ela não me cumprimentou, não tirou os olhos das unhas vermelhas dos pés. Estava desfazendo de mim, a vaca. Conhecia ela muito bem. Estava só esperando que eu dissesse alguma coisa, pra começar a falar que eu era imaturo e que não tinha sobriedade pra encarar as coisas de frente. Aí, se eu respondesse, ela começaria a falar de Freud, de Deleuze, Jung, Foucault e essa porra toda. É tudo decorado, eu sei, no fundo ela gostava mesmo era de revistas de fofocas da televisão e das ditas celebridades. Ela deve achar é bonito todos esses nomes de filósofos. Coisa de intelectual. Eu do meu lado prefiro a fábula, a poesia, as plantas, a cerveja ou uma boa luta.
Fui pro quarto. Fechei as janelas. Lá fora havia chuva demais. Abri a gaveta do criado mudo pra buscar a minha poesia, mas tinham tirado ela de lá. Procurei no guarda-roupas e nada. Embaixo da cama, do tapete, do colchão. Nada. Estava começando a ficar irritado de verdade. Que porra! Não basta a gente trabalhar o dia inteiro no meio da sujeira? Tem que chegar em casa e ficar agüentando o mesmo joguinho sujo da rua? Não gosto de queda de braço, muito menos com mulher, prefiro a porrada em estado bruto. Ela tava querendo partir pra porrada, a filha da puta. Devia ter enfiado minha poesia no meio daqueles livros podres dela. Olhei lá também, entre os livros. Nem sinal. Vaca, onde poderia ter enfiado? Não era possível que ela tivesse jogado minha poesia pra se sujar no meio dos objetos íntimos dela: absorventes, batons, camisinhas e todas aquelas coisas imundas. Ou será que era possível? Fucei mais uma vez, agora entre os objetos. Nada de novo. Paciência tem limite. Se o que ela tava querendo era mesmo briga, então ela teria uma briga das boas. Como aquelas de antigamente.
- Onde você enfiou minha poesia? Perguntei de uma vez, logo que entrei na sala.
- Nem mexi, onde é que tava?
- Lá no quarto.
- Não mexi.
- Quem foi que mexeu então? Porque tava lá e agora não tá. Decerto foi o capeta que escondeu na boceta do mundo.
- Calma, por que é que você está tão nervoso? Depois a gente procura com calma e acha.
Tava dando uma de sóbria, a filha da puta. Ela era muito boa nisso, nesse negócio de dar uma de sóbria. É que vocês não sabem o que ela já aprontou comigo. Tem umas histórias que envergonhariam qualquer depravado.
- Depois a gente procura? Porra, eu preciso dela agora, será que você não entende?
- Tem certeza de que você deixou no quarto mesmo?
Ela continuava pintando as unhas, a filha da puta. Fiquei com vontade de meter o pé no esmalte, na caixinha de esmaltes, nas lixas, na acetona, no pé dela, em tudo...
- Dá uma olhada na cozinha. – Ela disse. Só faltava essa agora, ela ter jogado a minha poesia no meio das frituras, do óleo, da carne crua.
Fui até cozinha. Revirei o armário, a pia, o fogão, a geladeira: nada de poesia.
Voltei pra sala.
- Escuta Ana, tem certeza que você não viu mesmo?
- Não amor, eu não vi. – Ela disse fazendo aqueles trejeitos dela com o cabelo, mas sem tirar ainda o pincel com esmalte da unha.
- Será que você não pode pelo menos me ajudar a procurar?
- Ai amor, você não está vendo que eu estou ocupada? Depois a gente procura. - Ela disse e dobrou mais as coxas grossas, deixando à mostra os pelinhos raspados que começavam a nascer próximos da boceta.
De certo queria desviar minha atenção com aquele par de coxas. Mas eu não cederia, não dessa vez. Eu queria minha poesia de volta, mas ela achava suas unhas mais importantes! Não deixaria de fazer as unhas pra me ajudar a procurar a poesia que ela mesma tinha enfiado no cu. Era metida demais, orgulhosa demais, feminista demais, pra deixar de fazer uma coisa feminina: pintar as unhas, e ajudar a mim, um homem, a procurar a poesia.
Se achava muito superior, a vaca, mas entre quatro paredes era eu que fazia ela uivar como uma loba e chorar como uma criança. Se achava muito superior, mas era ela que ficava de quatro como uma cadelinha, esperando que eu fizesse o que bem entendesse. E eu sempre tive uma imaginação fértil e gostei de coisas escuras. O que ela queria mesmo era umas belas pauladas. O que ela precisava, era que eu a revirasse do avesso, que buscasse com o meu verbo... com o meu membro... os ovários... as trompas... o útero dela e deixasse tudo jogado no lençol, como um açougueiro, um psicopata. Bem que era o que ela desejava, mas não era o que eu estava disposto a fazer, não dessa vez.
Voltei pro quarto. No espelho eu parecia um monstro, o rosto inchado, vermelho, as pupilas dilatadas, verdes. Onde porra tinha ido parar a minha poesia? Revirei ainda outra vez todo o quarto... Aqueles livros dela... De que adiantava ter lido aquela porcaria toda, se depois era ela quem ficava de quatro, esperando meu ódio quente e cremoso? Nem todos os Freuds, os Jungs, os Deleuzes do mundo podiam salvá-la na cama. Lá, eu a assassinava. Lá, eu a fazia de escrava. Contudo eu não queria a cama, não agora, a cama era o meu território, mas meu único território era a cama. Todo o resto, o quarto, a casa, o bairro, o mundo, eram território dela. Era ela quem tinha começado a briga, era ela quem tinha tirado minha poesia de lugar, era ela quem tinha que perder.
Joguei as coisas dela pelo quarto. Deve ter feito barulho, porque agora ela veio correndo. Então agora ela tinha pressa? Então agora pintar as unhas não era mais tão importante?
- Que porra você está fazendo, Saulo? – Ela sempre diz está, nunca fala tá como todo mundo.
- Tô procurando a minha poesia.
- E precisa revirar todo o quarto? Bagunçar tudo?
- Precisa.
- Você é mesmo um crianção mimado.
- Sou mesmo. Foda-se. Você sempre soube que eu era assim.
- Mas eu não pensei que fosse ficar assim a vida inteira. Todo mundo cresce um dia.
Essa doeu. Desgraçada.
- Ora, vá se foder.
- Vá você. Tem que ser tudo do jeito que você quer, na hora que você quer. Se não for assim o bebezão quebra as coisas, esperneia, grita.
- É, é assim mesmo.
- Então se vira bebezão. Quebra tudo. Depois você vai ter que se virar para comprar tudo de novo. É assim mesmo que se resolvem as coisas. – Ela disse e voltou pra sala rebolando e encostou a porta devagar. Sempre quer parecer muito controlada, isso é que me deixa louco de raiva.
Continuei procurando minha poesia, estava obcecado por encontrá-la. Não me importava com o que ficava quebrado, com o que ficava bagunçado. Depois eu daria um jeito de arranjar tudo. Senti cheiro de incenso. Ela devia ter acendido um na sala. Sempre fazia isso. Eu odeio essas porras desses incensos, mas ela os acende só pra irritar mesmo. Então escutei ela assobiando uma canção na sala. Justo a canção daquele baiano que eu odiava. Ela sabia que estava me irritando. Era o jogo dela. Estava me chamando pra guerra e, se era guerra o que ela queria, era guerra o que ela ia ter. Seria um ataque fulminante.
Abri a porta do quarto com violência e invadi a sala. Ela estava sentada no sofá e sentada no sofá continuou. Não parou de pintar as unhas, nem sequer levantou a cabeça. Eu sentia o ódio latejar nas minhas veias. Sentia o ódio dilatar todas as partes do meu corpo. Fui pra cima dela. Abri o zíper. Puxei minha espada. E enfiei na cabeça dela pela boca. Enterrei fundo. Com todas as minhas forças. Queria transpassar o cérebro dela. Queria ver a ponta da minha espada sair ensangüentada do outro lado do crânio dela. Ela não reagiu.

ELA

Eu estava pintando as unhas quando ele chegou. Como sempre fazia, bateu a porta. Devia estar nervoso. Gostava dele nervosinho. Foi para a cozinha. Nem sequer me deu um bom dia. Seus passos eram pesados. Voltou para a sala. Ficou olhando pra mim. Fingi que não percebi. Acho que queria dizer alguma coisa. Reclamar, como sempre. Entrou no quarto.Ouvi o barulho da janela fechando. Eu tinha deixado a janela aberta para o Sol entrar um pouquinho, entretanto agora ele a havia fechado com força. Questão de ponto de vista.
Ouvi uns barulhos estranhos dentro do quarto. Devia estar procurando alguma coisa. Como das outras vezes, não encontraria, e então viria até mim, como um cão atrás do dono. Dali a pouco voltou para a sala. Perguntou-me pela poesia. Disse que não sabia, que não tinha visto. Soltou um palavrão. Divertia-me vê-lo tão zangado por um motivo tão bobo. Parecia uma criança da qual tiraram o brinquedo. Ficou ainda um tempo olhando-me e eu continuei pintando as unhas. Ele deve ter ficado lá com as sobrancelhas franzidas, como se todo o seu ódio estivesse entre elas. Era bonito, tanto nervoso, quanto calmo, mas o que me fazia perder a cabeça nele não era a beleza, a beleza também, mas não só ela. O que me fazia ficar louca era aquele jeito impetuoso dele, aquela crueza, aquela quase irracionalidade, como se ele não fosse um menino, mas um outro tipo de força da natureza. Por fim, falei pra ele dar uma olhada na cozinha, quem sabe a poesia não estivesse lá, ou em qualquer outro lugar da casa.
Ele foi pra cozinha. Ouvi o barulho da zona que ele devia estar aprontando. Voltou pra sala. Perguntou outra vez se eu não tinha visto a poesia. Repeti que não. Quis saber se eu não podia ajudá-lo a procurá-la. Respondi que ajudaria, mas depois, naquele momento estava ocupada. Sabia que a raiva dele estava aumentando, mas já disse, gostava dele nervoso. Gostava do jeito como ele me agarrava com força, quase como se fosse me bater, mas não baita. Pelo contrário, usava sua força para me acariciar. Só para provocá-lo, dobrei mais as pernas e as abri um pouco mais, deixando que ele visse alguma coisa, mas não tudo. Começava a sentir por dentro uma vontade louca de ter as mãos dele agarrando forte a minha cintura.
Ele, lá no quarto, começou a quebrar as coisas. Tudo bem, eu até que pagaria pelo estrago. Valia a pena. Era o jeito dele me chamar. Entrei no quarto fingindo raiva, afetação. Chamei-o de criança. Sabia que isso o deixava doido de raiva. E eu queria que ele viesse do fundo do seu ódio pra me derrubar. Deixei-o mais uma vez no quarto e voltei para a sala. Acendi um incenso, tinha certeza de que ele se revoltaria, de que arrancaria os cabelos no quarto por causa do incenso. Assobiei uma canção por cima do ódio dele, como pra zombar dele, do ódio, de tudo. Estava só esperando o momento dele entrar na sala. E ele veio. Fiz como se não soubesse que já estava por ali. Continuei com o esmalte. Ficou lá parado por um tempo, depois avançou para mim com sua tocha de chamas enormes nas mãos. Por puro despeito engoli a tocha... as chamas e as apaguei dentro de mim, com a minha água. A poesia estava em cima da cama, escondida dentro da fronha do travesseiro.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Dylan


TRÊS

Já aprendi a ir embora
O que não quer dizer que não doa
Eu empresto meus pés ao vidro
Eu empresto meus olhos aos punhos
Eu empresto meus dentes ao caos
Eu ofereço dez mil faces novas a dez mil mãos espalmadas
Não é por bondade
Nem é por maldade
É por ser gente

Há muito
Deixei de entoar cantigas de guerra
Mas invento novos impérios vermelhos
E crio línguas outras
E faço as religiões que me convém.

Não sei se é já esta a minha hora
Quem sabe?
Mas enquanto as borboletas,
De asas dadas, vêm trazendo a primavera
Deixo um conselho simples às lebres
- Não se metam com a fúria do Leão.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MEMÓRIA DA ROCHA

René Magritte
para os que ficaram

Naquela época, pela janela do carro, eu via que a chuva caía. Já não havia mais nada pelo meu lado de dentro, mas nem por isso eu me sentia mais seguro, ou menos roubado. Já não havia mais livros a serem escritos e nem músicas a serem feitas, mas havia ainda quase toda uma velhice pela frente. Já era alguma coisa? Eu não sabia, eu não sei, tenho cá minhas dúvidas e todos os desesperos brotam em meio aos ressentimentos, feito essas pequenas plantas que brotam entre os tijolos dos muros. Veja bem, não é conformismo ou desistência é só um meio de me defender, de me proteger, pra sofrer menos. As desculpas jamais serão aceitas mesmo. Não há como escapar. Estamos todos presos. Encaixotados. Mortos, ou semi-mortos e é uma grande besteira achar que o cinema vai resolver, é besteira achar que a literatura vai resolver, que o vinho, a música, as crianças vão resolver, não passam de paliativos. Derivativos. Ainda assim era bom tocar guitarra num dia de chuva, sozinho, trancado, no carro ou no quarto. Ainda assim era bom cair no vinho a qualquer hora. Mas em todos os copos, em todos os corpos, em todos os banheiros, em todos os telhados e puteiros havia olhos. “O que foi feito da casa das nossas infâncias?” Nós nos perguntávamos sem saber que haviam tocado fogo nela, que haviam jogado-a ao chão. Pelo menos nos deram capacetes pra que nós nos protegêssemos dos tijolos que caíam por toda parte. Um capacete não é uma casa, ou é? Mas já servia, aliviava um pouco a potência das pancadas. Entretanto e apesar de tudo, escapávamos, às vezes, à noite e tocávamos teclados e baterias e guitarras. O problema eram as manhãs, sempre tão facistas e reacionárias nos empurrando para um caminho que não era o nosso. Tudo bem, nós nem sabíamos direito qual era o nosso caminho, só sabíamos que não era aquele. Mas aí alguns começaram a desistir, jogaram seus capacetes fora, eram sensíveis demais pra continuar. Não era fácil, cada vez os tijolos eram maiores e, a cada vez, vinham com mais força e a casa... a casa da nossa infância... estava morta, apenas as portas tinham ficado de pé, mas as portas davam para um vazio sem teto, era inútil entrar.
E os mais sensíveis continuaram a desistir. Um cortou os pulsos. O outro bebeu veneno de rato. O mais triste de todos pulou do décimo oitavo andar com uma corda amarrada ao pescoço, pra ter certeza de que não escaparia. Os poucos que ficaram vivos fugiram, ou deram um jeito de enlouquecer tranqüilamente, pra não sentirem saudades ou remorsos. Um foi pra Minas. Outro pra Manaus. Houve quem conseguiu fugir pra Santa Cruz de la Sierra, num trem que partiu a noite em duas e nunca mais voltou. No final, ficamos apenas eu e ela, encalacrados, e eu não era mais eu. Agora... agora eu era uma rocha, mas eu era rocha só por fora, porque o lado de dentro da rocha que eu era, era mole, cremoso, um creme triste de lembrança e saudade. O bom era que à noite ela me acariciava, acariciava essa minha superfície cinzenta e fria e tocava flauta pra mim, só pra mim. Todavia eu nem me movia. Sabia que se me esforçasse conseguiria voar, ou pelo menos rolar. Mas eu não conseguia me esforçar e ficava lá. Parado. Tornando-me poeira, vento, terra, aos poucos, esperando os trilhões de anos que, enfim, me destruiriam. Não me importava. Os tijolos batiam em mim e eram eles que se esborrachavam, havia força na minha imobilidade.
Até que uma noite ela não apareceu. Com uma talhadeira escreveram o nome dela na minha superfície e mais tarde eu soube que ela havia voado para o Canadá. A voar pra lá, preferi ficar. Não suportava mais ficar desesperado.
Ainda hoje, milhares de anos depois, desperto à noite assustado, ouvindo os sons da flauta, mas, após o primeiro instante, percebo que não é ela e permaneço imóvel, quieto. Dentro de mim, aos poucos, tudo se solidifica e se esquece. Resta apenas no meu cerne, no centro de mim, uma pequena porção de pedra gomosa: É a lembrança dos tempos em que pela janela do carro, dela, eu olhava a chuva que caía, enquanto acariciava a carne dos seus seios.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Texto no Amálgama

Quero informar meus parceiros que tem um ensaio meu intitulado "Um timaço argentino", apesar do título trata de literatura, no Amálgama. Acessem: http://www.amalgama.blog.br/?p=76
Amigos, ontem tivemos alguns probleminhas com a página. Peço que tenham paciência e tentem outra vez.
Abraço

domingo, 7 de setembro de 2008

Frankenstein Lírico dos Meus Sonhos de Alcalóide


Acendo um cigarro e ligo o som do carro. FM. “Queria saber voar... para do alto poder ver você”. Bonito. Dengoso demais talvez para o meu gosto. Mudo. “ E de repente vi você sair com a toalha no seu corpo”. Lindo, mas todas as estações de rádio parecem conspirar contra mim nesta tarde azul e amarela. SOU UM CANALHA. É fato, e os canalhas não têm sentimentos. Mas estas músicas cutucam-me. Agulhas invadindo suavemente as pontas dos dedos. Não sangra e nem dói, como ela me disse num tempo mítico, enquanto éramos crianças e inventávamos um ao outro, superando o tempo dos relógios e o espaço de metros, milhas e quilômetros de distância.

- Queria ter um filho teu. – Ela me disse ainda na semana passada. Ela gosta de falar e... juro por Deus que eu nunca tinha ouvido prova maior de amor e admiração. Os homens, não digo a humanidade, digo os homens, são como crianças: só querem ser amados e admirados, contudo, quando conseguem amor e admiração, eles se rebelam e agridem quem os ama e admira. São feito um menino de um ano que esbofeteia a mãe, enquanto ela o amamenta. Há amor íntegro, puro e verdadeiro até nessa bofetada.

Quando terminamos, pelo telefone como qualquer bom canalha faria, ela soltou a seguinte frase nos meus ouvidos:

- Eu componho, você se esqueceu? Engana-se quem pensa que fazendo um artista sofrer, faz mal a ele. A dor é a matéria prima de que me alimento, querido. Você é parte de mim. Mas tenho agora que vomitá-lo, porque você mesmo quer, não se assuste se um dia você se ouvir lambuzado de vômito no banheiro de uma lanchonete qualquer. – E aí ela desligou e eu fiquei com o telefone na mão, imaginando que nunca seria um escritor de verdade, porque eu demorava um texto inteiro para criar uma única metáfora, ao passo que ela as criava numa conversa com um amigo, num passeio pela praça, numa despedida... numa despedida...

Deve estar fazendo uns quarenta graus. Desligo o rádio. Tudo parado. O rio poluído da minha cidade ferventa gomoso ao lado. Abrir a porta e dar um mergulho seria o suficiente. Mas sou um canalha e os canalhas não se matam e ela disse que queria ter um filho meu... um filho... e meu! Vai entender.

Ela tinham (isso não é um erro, porque ela era mesmo mais de uma) uns olhares que me liam e eu me assustei e quis ir embora e ela havia desenhado meu rosto e nenhum espelho antes havia me dito que um canalha podia ter os olhos tão tristes. Então saí correndo com o meu desenho embaixo do braço e escalei uma montanha de cocaína e no outro dia eu não tinha mais nariz, nem olhar, nem nada e o papel que eu carregava nas mãos estava em branco, como se jamais tivesse sido tocado, nem por lápis, nem por caneta e nem por mãos de gente... e ela disse que queria ter um filho meu! Mas eu achei que ela era doida, porque quem poderia ser tão lunática a ponto de querer gerar uma vida a partir de um canalha?

Penso em acender outro cigarro, mas desisto. Viro para o lado e vejo a menina que me observa ao volante de um carro vermelho. Do outro lado, uma outra de olhos verdes me sorri. Mais atrás, essa de cabelos nos ombros buzina pra mim. Só então percebo que todos os carros ao redor são guiados por mulheres. Por dentro da minha cabeça louca, eu arranco os olhos de uma, junto com o sorriso de outra, misturo ao olhar de uma terceira. E te reconstruo toda só pra mim. Frankenstein lírico dos meus sonhos de alcalóide.

Então, enquanto ainda danço em círculos com você dentro da minha cabeça, percebo que uma das moças abriu a porta do carro e vem na minha direção com uma faca nas mãos. Olho então no espelho e a outra se aproxima com uma espada de samurai. A da frente vem com um revólver.

Sem me precipitar, acendo enfim o cigarro. No cerne da fumaça azul, dez mil almas femininas bailam e choram e sorriem e se acumulam no céu, feito imenso telhado, construindo uma noite em plena três horas e vinte sete minutos da tarde.

Estou feliz. Sou um canalha.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ONDE O AMOR NÃO FLORESCE

Baby,
Você saiu pela tangente
Dos meus planos.
Lembra-se daquela viagem?
Admito,
Ainda é uma miragem
E anda roubando meus sonhos
Embora de passagem
Como teus beijos infames...
Baby,
Onde você pisa
O amor não floresce...
Como uma peça sem conserto
Ou emenda com arames
Abrirei minhas comportas
E mandarei com uma descarga
O amargo dos vexames
Que restou de nós
E de um amor
Com aparência de sol...
Baby,
Onde você pisa...

Luciano Fraga

Sentiram o peso? Meio banda Terço, meio banda Peso, meio Casa das Máquinas?... "abra que eu quero ver...?" Meta-se nisso umas guitarras progressivas e um puta baixão. Enfim visitem o blogue:

http://versoseperversos.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

BENEDITA

IMAGEM DO FILME VALE ABRAÃO, GENTILMENTE SURRUPIADA DO BLOGUE DA RENATA CORDEIRO
Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.

Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.

O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente.

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome, calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.