sexta-feira, 29 de agosto de 2008

CLUBE DA ESQUINA 2

ÊTA DISCO FODA!!!!! SE PUDEREM, OUÇAM. NADA MAIS TENHO A DIZER.

UM BÊBADO DANÇA NA BEIRA DO ABISMO

A rotina bate forte e não alivia quando já estamos no chão. Eu crio metáforas e invento palavras pra te impressionar, mas me tornei cotidiano e previsível como um matemático. O meu show não impressiona a mais ninguém e a elegância com que você desfila sua dor me deixa perplexo. Não se trata de pedir desculpas, eu tenho todo um porão inundado de desculpas, mas elas não valem de merda nenhuma e o seu desprezo por elas me deixa atônito. Com cara de bobo, como sempre. Dez mil demônios invadem meu corpo cansado. Explodem-se os ponteiros do meu relógio. Saltam-me as lentes da armação dos óculos. Tudo escurece e eu enfrento o pântano, pulando de uma vitória régia à outra, equilibrando-me feito um bêbado que dança na beira do Abismo.

E a Rotina bate forte... mas eu ainda tento.

Se estou acordado, eles me perseguem, causam chagas em minha pele. Se estou dormindo, eles invadem minha cabeça e eu tenho dez mil quinhentos e oitenta e sete pesadelos por minuto. Só queria poder dormir por uns cinco dias sem sonhar. E você segue em frente, adestrando a sua dor como quem domina um tigre, ou um leopardo... Grita-me nos ouvidos que eu não tenho motivos para produzir um espetáculo assim, que a minha vida é tão normal quanto a de qualquer outro, mas os demônios me atormentam e eu encho a cara e perco a chave de casa e caio de cabeça nos bueiros, mas ainda me equilibro como um bêbado que dança na beira do abismo.

Tenho ainda os lábios sujos de amora e tento driblar os fantasmas que me perseguem pela rua.

O amor dói.

No céu, um avião vermelho fecunda nuvens também vermelhas.

É sempre segunda-feira dentro de mim.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

TEENAGE WASTELAND, OU O ÚLTIMO PRANTO PARA ROGÉRIO CARVALHO DE FREITAS.



CREPÚSCULO

Quando a criança morreu,
Seus assassinos colocaram novos sapatos vermelhos de bico fino
e marcharam rumo às universidades, aos escritórios, aos supermercados, ao saco escrotal da psicologia moderna
Ao cu do Freud com Jung aplaudindo.
Já vinha a noite já, mas ainda havia luz
E os bares vendiam cerveja
E nossas mães estavam longe
E eu estudava ainda...
Ó crepúsculo insano e vermelho
Ó outubro estranho
Ó rio de ratos e baratas deste chão
Ó corda velha de varal que não arrebenta
Um real o metro e teus sonhos todos dependurados
Ó Rogério, gnomo mais triste do mundo.
Vai o Sol quente e indiferente
Já pararam para imaginar a casa vazia e suja?
Fogão velho
Botijão de gás novo
Geladeira alienada e vazia
A cama, nunca arrumada
O som, meu Deus
O som.
E o corpo pendurado no meio, sozinho
Já pararam para imaginar ele enchendo sozinho sua mochila de morte?
E no acadêmico as meninas flertavam com os rapazes, que olhavam as meninas.
Já pararam para imaginar o quão vazio era o silêncio?
E na cantina tagarelavam os professores ao jazz de colheres nas xícaras de café.
Já pararam para imaginar as mãos ficando roxas, as unhas, sem meia-lua, ficando roxas, os olhos fora das órbitas e as órbitas abertas ao nada?
Já pararam para imaginar o cansaço, a tristeza, o ódio, o tédio, a sensação de abandono, as unhas rasgando a carne do pescoço tentando em vão talvez voltar?

Um cachorro entra pela porta
(Vem a morte vestida de mosca e põe larvas no menino)
As creches soltam as crianças nas tardes onde as crianças ainda têm mães
(Vem a morte vestida de mosca e tira a música do menino)
Um semáforo fica vermelho, um pedreiro cai do andaime, um marceneiro perde os dedos, um açougueiro mói as mãos
(Vem a morte vestida de mosca, varejeira, e toca alegre a vinheta do vídeo show)
Uma mulher olha sentada da cama
(Vem a morte vestida de noiva e corta as unhas do menino)

Água estancada
Pedra
A letra U
Um urubu
O silêncio
As notas mais graves
Cruz
A barba que cresce indiferente
A cor preta
Um rato morto na rua Procópio Dias
Um carro quebrado
Uma pedra de gelo
Uma camisa do Náutico, do Corinthians, do Fluminense.
Um bom conselho
Você tentando dar comida na boca da Sílvia doida
Um trem azul
Uma voz de criança ao telefone
Um contra-baixo
Um porco magro
Um palco vazio
Um estádio de futebol
Uma caneta
A pasta na mão e o plano de partida.
Nunca mais seremos os mesmos, Rogério.
Nunca mais sorriremos nos bares tomando cerveja e ouvindo o clube da esquina.
Nunca mais voltaremos à nossa velha casinha velha
“Houvera tantas madrugadas em vão nessa esquina?”
AAAhhh!!! Quebra o gelo, irrompe o escuro, explode o delírio,
Mas volta parceiro, nem que seja em sonho.

NOITE

Já se fecharam os bares
As dentaduras repousam nos copos
Uns casais que se amam e outros que nem se amam tanto assim fazem amor já
A lajota vermelha ainda está fria
Mas teus pés descalços já nem a tocam mais.
Já podes voar, parceiro
Indiferente às aranhas do mal que inundam a casa, aos ratos no chão.
Já podes voar, parceiro
Indiferente à noite densa que escorre pelas vidraças, sobre os bueiros, nas paredes dos prédios de apartamentos.
Teu corpo já não é necessário
Queriam o teu sangue e o teu sangue tiveram
Agora podes te rir desta corda estúpida, deste silêncio.
Da tua mochila de viagem brotam leões selvagens, canários da terra, do reino, uma pantera, um tigre, um cavalo, um punhal, um endereço marcado no papel,
lagartixas que também fazem parte, um natal, um mês de férias, camelos alucinados.
Já podes voar pelo todo
Foda-se o espaço da casa fechada
Fodam-se as reflexões do príncipe de Shakespeare
Teus amigos têm o crânio dormente
Voa que o infinito é irrisório
E o abismo não faz medo algum.
Teu coração brilha feito um Sol estático
Já vêm os anjos do Senhor ao longe e a roupa branca
Desmentindo tudo o que dizem a respeito dos suicidas
Se você fosse japonês seria recebido aí do outro lado com honras,
Samurai do parque Buracão.
Salve Rogério, salve
Segue, segue, segue Rogério, o rio,
Porque as águas dele são tão alvas.
Segue o rio, irmão
Segue o rio
Que os anjos estão chegando,
Com a roupa branca e tudo.

AURORA

Brotam rápido os girassóis do chão
E tuas mãos podem tocar os céus
Te faz sorrir a melodia mais bonita
O rio segue pelo campo de girassóis
Só não deves xingar os anjos
Em breve Van Gogh te fará um retrato com o baixo nas mãos
E as capas daqueles discos bons atrás.
O álcool já não faz diferença
A água já limpou tuas feridas
Deus te quer ao lado
Quer ouvir tuas canções favoritas
Corre o rio como um longo diamante
Já não precisas passar de ano
Já não precisas aprender inglês
Já não precisas perdoar cicrano
Esquecer o amor
O inverno ficou pra trás
Todos os filhos da puta ficaram pra trás
Já te brilha nos olhos uma terra maravilhosa
Segura a mão dos anjos, segue o rio
Olha o campo de girassóis
O Sol já vem
Como nos tempos de Office-boy,
Na estação da Luz.

MANHÃ

E vendo o Senhor Deus
Que ainda lhe faltava luz nos olhos,
Encheu-lhe os olhos de luz,
As mãos de sons,
Contra-baixo de marfim.
O Sol ilumina sem esquentar muito
A voz de Milton Nascimento
Nascente
Caminhando numa terra maravilhosa
Um poema antigo
Uma mulher bonita
Caminhando numa terra maravilhosa
Um carrinho de brinquedo
Uma pomba branca no céu azul
Caminhando numa terra maravilhosa
Longe dos ônibus, caminhões, serras-elétricas, fios de luz que te cortavam os olhos
Caminhando numa terra maravilhosa.

A Sofia está crescendo
Queria que ela sentasse no teu colo e te chamasse de tio.
O Ceará vai ter um filho,
Caminhamos pela Dom Antonio rumo à velhice inevitável
Longe vão os tempos da banda Assis
Longe vão os tempos do Neguinho
Longe vão os tempos do nosso tempo
Agora é só um vazio
E esse Sol que não se põe nunca
Queria fazer um longa-metragem falando da gente.
Queria ter te dado um beijo de adeus
Queria estudar latim.
Queria, queria, queria,
Sempre quis o impossível.

domingo, 24 de agosto de 2008

PIANISTA BOXEADOR




Sempre gostei de rosas vermelhas!
Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.
Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!
***
Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.
Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?
Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.
Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!
Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.
Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.
Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.
Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.
Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A VELHA... A MULHER... A TORRE... O FOGO...


Existe uma torre enorme... velha.. quase que totalmente em ruínas, no meio da floresta. Uma mulher, não muito jovem, mais ou menos cinqüenta anos, olha do alto da torre. Já não é bonita, mas tem traços de quem um dia possuiu beleza invejável. Não a conheço. É preciso aproximar-se...

Há muito não existia mais o circo. Há muito que o circo não era mais que um conjunto de lembranças, de sons, de cheiros. A lona que cobria todo o espetáculo não passava agora de mil retalhos espalhados pelo chão de casinhas de cachorros, coberturas de telhados em barracos distantes, fragmentos enterrados esperando pela devoração da terra. Os leões estavam mortos. Os tigres estavam mortos. O mágico se suicidou. Os palhaços mudaram de profissão. O homem bala desistiu de voltar à Terra. Do circo mesmo só sobravam ela, suas lembranças e a velha, a ordinária da velha, vivendo nesta torre imunda no meio do nada. Longe ficaram as multidões. Longe ficaram os aplausos. Longe ficou a beleza. Agora tudo, até a floresta, cheirava a mofo e derrota. Por que sempre havia tantas nuvens no céu? Por que não estava em outra história, onde um dia, embaixo desta torre, pudesse surgir um príncipe? Não tinha mais esperanças e nem acreditava que um dia o príncipe viria. Nem sequer o fogo a encantava mais. O fogo que sempre a havia fascinado tanto. Não via mais graça em apagar tochas nos lábios, ou fazer o fogo fugir de sua boca como um monstro incontrolável. Agora o fogo estava quase que totalmente apagado dentro dela. Ainda havia chama, mas era pequena, não era mais aquela energia incontrolável que escapava por todas as partes de seu corpo. Passou a mão pelos braços escamosos, verdes, sujos, peludos. Não pôde acreditar que tinha se transformado naquilo, naquela coisa medonha.

- O chá está servido!

Estremeceu ao ouvir a voz sair do orifício da escada em espiral, feito as larvas de um vulcão em erupção. Sempre estremecia ao ouvir a voz da velha. Mas que merda, agora até ela já era uma senhora, quase uma velha! Por que não perdia de vez o medo dessa desgraçada? Foi até a entrada da escada. Tudo estava escuro dentro da torre, e o cheiro que vinha lá de baixo, era ainda mais podre que o cheiro que voava aqui em cima. Sentiu aquele ar quente, denso, invadir seus poros, suas narinas, seu corpo. Quarenta anos suportando essa mulher! Quarenta anos suportando esse cheiro sujo dela, essa presença flácida dela, essa barba dela espalhada por todo o corpo. Quarenta anos suportando aquela língua áspera dela! Já não era mais criança, não precisava mais ficar suportando tudo aquilo, ou precisava? Por que diabos tinha que ficar agüentando aquelas coisas? Ao longe, atrás das árvores, ela sabia, havia outras coisas. Não era o circo, porque o circo havia ficado no passado e ela não sabia de nenhuma estrada que levava até aquele tempo. Mas era alguma coisa boa, porque ela sentia, nas noites em que a lua era cheia, um cheiro bom, um cheiro de rosas vermelhas, que passava por dentro do fedor e chegava até as suas narinas. Devia haver um jardim inteiro de rosas vermelhas depois daquelas árvores escuras.

- O chá está servido!

Definitivamente não suportava mais aquela merda toda. Em algum espaço depois das árvores tinha que existir um lugar onde houvesse rosas vermelhas, vestidos vermelhos e fogo, muito fogo. Ao redor do qual a gente pudesse dançar e bater palmas. Mas a velha continuava soltando seu cheiro pelo orifício da escada. Teria que descer até lá. Olhar pra ela, para aquela barba dela, agora ainda mais branca e nojenta. Teria que se sentar à mesa e provar daquele chá amargo.Teria que olhar pra velha e ver que nos bigodes dela se acumulavam, há anos, imensas gotas de chá. Não agüentava mais aquilo. Tinha vontade de voar.

- Desça logo, senão o chá vai esfriar.

Distanciou-se da escada. Foi novamente até a beira da torre. Não ficaria ali por mais tempo. Aquele tormento tinha que acabar. Por um instante sentiu-se bonita de novo, jovem de novo, forte de novo. Sentiu que de um momento pro outro a chama que ainda existia dentro dela tornou a ganhar força. De algum lugar, alguém tinha colocado lenha naquela chama quase apagada. Seria eu? Percebeu também um ardor frio nas costas, como se uma fina navalha tivesse passado por ali. Em seguida notou que algo crescia no lugar onde antes havia o ardor. Sorriu. A chama continuava a crescer. Era como há trinta anos. Teria que encontrar as rosas. Não podia mais ficar longe delas. O pior que podia acontecer era morrer estatelada lá embaixo, caso não conseguisse. E se estatelar lá embaixo ainda era melhor que continuar na torre, com aquela velha, aquela escada, aquele cheiro.

- Será que eu vou ter que te buscar aí em cima?

Não, com certeza a velha não teria que buscá-la lá em cima. O fogo era grande de novo dentro dela. Subiu na pequena mureta, o ponto mais alto da torre. Estava perto do delírio. Bateu-as de leve e sentiu que as asas nas suas costas já davam a ela condição de voar. Soltou pela boca o excesso de fogo que seu corpo não poderia conter. Era muito fogo e era um fogo intenso que fez arder àquelas árvores. Bateu novamente as asas, agora com um pouco mais de força, mas ainda não o bastante para voar. O fogo voltou a sair de sua boca, de suas narinas e dessa vez saiu ainda com mais força. Havia poder pra ela no fogo. E ela teve certeza de que era capaz.

Saltou do alto da torre na direção de onde, nas noites de lua cheia, vinha aquele cheiro bom de rosas, de rosas vermelhas. A velha lá embaixo intuiu que alguma coisa estranha havia acontecido, mas não teve coragem de subir as escadas pra constatar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

PÓRTICO PARTIDO PARA O INFINITO

“please, please, please, let me get what i want this time”
The Smiths

- Que foi? – Ela perguntou.
- Acho que vou sair pra fumar um cigarro. – Ele respondeu.
- Tudo bem.
Ele foi pisando suavemente o tapete vermelho (não porque pisava suave, mas porque o sapato estava apertado) e olhando a barra da calça social dançando de um lado para o outro. Balançou a cabeça. Quanta artificialidade! Não gostava de tapetes vermelhos e nem de roupas sociais. Não era nenhum brucutu, mas era um homem simples, que gostava de lidar com a terra e cultivar suas flores. Era um homem que gostava de ficar em casa, lendo seus livros, escrevendo, ouvindo os discos, estudando idiomas. Ela não, ela achava que o glamour era parte do jogo. E olha... ela sabia jogar o jogo.
Acendeu o cigarro e tragou fundo. Ficou observando a fumaça leve e azul se dispersar no céu escuro da noite. Em sua cabeça martelavam ininterruptamente uns versos pontuais do Álvaro de Campos, Pórtico partido para o infinito . Que diabo! Como alguém podia ter escrito um poema daqueles? O que é que qualquer um podia fazer depois de um poema como aquele? Ouviu o som das palmas vindo de dentro do teatro e apagou rápido o cigarro com a sola do sapato. Entrou apressado. Todo o público já estava de pé aplaudindo. A esposa percorria o último trecho do corredor lateral antes de chegar ao palco. Sorridente. Deslumbrante em seu vestido vermelho. Subiu os degraus que levavam ao centro do espetáculo. Agradeceu a todos. Acreditava que o prêmio sem dúvida era o resultado, o reconhecimento do seu esforço. Era guerreira, tinha batalhado muito para ter chegado onde estava. Foram noites e mais noites de escrita e reescrita, num esforço interminável, mas agora lá estava o prêmio. Em dinheiro e em reconhecimento. Beijou o jovem cantor, que fazia as vezes de mestre de cerimônia, no rosto, quase na boca pra dizer a verdade. Ele sentiu o canino do ciúme roçar-lhe a pele, e acabou esfregando as mãos e cruzando os braços. Ela pegou o troféu e ergueu-o alto, como se em vez de escritora fosse uma atleta. Então voltou caminhando outra vez pelo corredor, balançando sensual, mas elegantemente, os quadris. Sentou-se ao seu lado.
- Meus parabéns! – Ele disse.
- Obrigado, amor.
Os olhos dela brilhavam cada vez que olhava o troféu em suas mãos. Não havia dúvidas de que dava muito valor àquilo tudo. O terceiro prêmio literário em menos de um ano. Definitivamente, as coisas estavam acontecendo pra ela e ela tinha acabado de completar trinta anos. Ele tinha cinqüenta e dois e mal publicara um livro apagado, com recursos próprios, entretanto ele não se importava com essas coisas, ou se importava? E se não se importava, por que continuava tentando escrever? Ninguém escreve para si mesmo, ou escreve?
Mas dentro do teatro terminou a cerimônia e as pessoas se dirigiram para a sala de Festas, onde agora começava um coquetel. No caminho, ela sorri e cumprimenta muita gente. Uma boa parte dos homens aproveita para beijá-la, é óbvio que querem tirar uma casquinha, mas ela não se importa, talvez até goste. Ele pede um uísque duplo sem gelo e sem água, a moça vai de pró-seco. “Pelo menos a banda toca bem”. Ele pensa enquanto espera a bebida chegar.
- Licença só um instantinho amor, preciso cumprimentar o presidente da Editora que vai publicar meu livro na França. Já volto, tá.
- Tudo bem, vai lá.
Ela vai até o editor, um jovem muito bonito por sinal, de cabelos negros, e o cumprimenta também com um beijo no rosto, pertinho da boca. Ele entorna um bom gole de uísque e olha para os seus próprios pés apertados e doendo dentro dos sapatos. Sente-se deslocado e sozinho no centro do salão, por isto se dirige até um canto, perto das plantas, eternas companheiras, e acende um cigarro. Em cada metro quadrado parece haver um grande escritor, ou escritora. Só gente importante do ramo. O novo Camões, o novo Fernando Pessoa, Pórtico partido para o infinito. O tremendo romancista que escreveu uma história de mais de duas mil páginas e trezentos focos narrativos diferentes. Definitivamente não dava pra ele, com os seus sapatos apertados. Entregou o copo ao garçom, guardou as mãos nos bolsos e atravessou quase correndo o salão para chegar depressa ao banheiro. Fez o que tinha que fazer e lavou as mãos, aproveitou que estava ali e lavou também o rosto, a barba estava feita, o rosto estava limpo, mas por mais que usasse água e sabão as rugas ainda continuariam lá. Tentou ajeitar, na medida do possível, os cabelos ralos e grisalhos. Acabou desistindo, eles não tinham mesmo jeito.
Voltou para a festa, acendeu um cigarro e pediu outro uísque duplo.
- Onde você estava, amor? – Ela perguntou.
- No banheiro.
- Você não sabe quem está aqui.
- Quem?
- O Caetano Veloso, quer conhecê-lo?
- Obrigado, mas eu passo.
- Conversei com ele.
- É? e aí?
- Legal, mas acho que ele estava mal-humorado.
- É?
- Pelo visto você também está mal-humorado, né?
- Não, até que não, é que os meus sapatos estão apertados.
- Suporta só mais um pouquinho! Por mim!
- Eu estou legal.
- Obrigado, amor.
- De nada
- Ai, olha quem está ali, espera só mais um pouquinho, que eu vou lá falar com a Fernanda Montenegro.
- Beleza, vai lá.
- Vê se não exagera na bebida, estou de olho em você.
- Não vou exagerar, de qualquer forma, já tomei dois duplos. Você vai ter que voltar dirigindo.
- Ta.
Ele volta outra vez para o lado das plantas. Pórtico partido para o infinito. Ela continua deslumbrando a todos com seu vestido vermelho, parece uma bailarina, uma modelo uma... Sabia que a estava perdendo. Que mais cedo ou mais tarde ela partiria. Isso doeu. Mas o que poderia fazer? Ela era jovem, era bonita e era talentosa também. Quem não quereria uma mulher assim? Resolveu embriagar-se. Perdido por um, perdido por mil. Chamou outro uísque duplo e bebeu-o rápido, todavia, antes de pedir o segundo, ela voltou.
- Se você quiser a gente já pode ir, amor. – Ela disse.
- Por mim ta tudo bem. Se quiser, podemos ficar mais um pouco.
- Não, acho que já fiz o que tinha de fazer. Além do mais você está com uma cara.
- Acredite, são os meus pés.
- Não faz mal, se você quiser podemos ir.
- Então vamos.
Mal entraram no carro e ele logo tirou os sapatos. Respirou fundo e aliviado.
- Graças a Deus! – Exclamou.
Ela voltou dirigindo. Ele colocou uma música pra tocar e ficou o tempo todo a observando em silêncio. Estava perdendo, com certeza não duraria muito e ela, ela era mesmo linda. Às vezes fechava os olhos e todavia continuava olhando. Em seus ouvidos ela destilava trechos de conversa, acontecimentos da festa, mas ele parecia não ouvir nada. Pórtico partido para o infinito. Seria então ele o pórtico? O último portal antes de ela atingir o infinito?
Entraram em casa. Ela correu para o banheiro. Disse que estava apertada. Ele colocou água no fogo e perguntou alto se ela também queria café. Respondeu que não, que ia tomar banho e dormir. Passou o café e se sentou na sala com uma xícara, esperando ela sair do banheiro.
Surgiu já de banho tomado e camisola, então pegou três ou quatro potes de creme e foi passando pelo corpo, ali mesmo no sofá.
- Por que tantos? Ele perguntou.
- Tantos o que?
- Cremes.
- Ah! Isso. Bem... cada um tem uma função e é específico para uma parte do corpo.
- É?
- É.
Ela terminou de passar os cremes e perguntou se ainda tinha café. Ele respondeu que só um pouquinho, na xícara dele mesmo e que já estava morno. Ela pegou a caneca e tomou, depois devolveu a caneca vazia. Então foi até o banheiro, escovou os dentes e de lá direto para a cama.
- Você não vai vir dormir? – Gritou da cama. Ao que ele respondeu:
- Ainda não. Tenho que escrever, não posso parar com o romance e ainda não escrevi nem uma linha hoje.
- Boa noite, então.
- Boa noite.
Ele guardou a caneca na cozinha. Em seguida pegou o caderno, a lapiseira 0.7, a borracha e foi para a mesa. Não gostava de computadores, como já foi dito era um homem de hábitos simples.
Pegou também o pequeno radinho de pilhas e colocou baixo numa estação que só tocava música clássica. Então abriu o caderno, pegou a lapiseira e escreveu: Pórtico partido para o infinito.

FADO, FADO

domingo, 17 de agosto de 2008

CLUBE DA ESQUINA


Os meninos do clube da esquina compuseram as músicas mais lindas do mundo inteiro. Ou seriam os beatles? Depende do dia.

27


por isto fechou desesperado a porta, não apenas por medo dos urubus que voavam, mas por medo de tudo que havia de estranho e escuro lá fora. Agora precisaria terminar de compor, ou começar a compor ou sei lá o que... e a cabeça girando... e o ouvido doendo... e todo mundo distante... ou traindo, ou traído, ou morto... e agora ele estava só... e agora o pai estava voltando... e agora a cabeça estava doendo... bem do lado do ouvido surdo... surdo por causa da pancada que o pai lhe havia enfiado com o ferro quente de passar roupas duas dezenas de anos atrás... e agora o piano estava lá... e agora os instrumentos estavam todos lá... mas ele não conseguia compor... por isso correu pra vitrola... e John Lennon começou a gritar... mas John Lennon gritando também não ajudava... só que o disco continuava girando e ele ainda tinha um quase nada de pó... e o pó só piorava as coisas... Não tinha mais cerveja... Por que tantos urubus? De onde eles tinham saído? Além dos urubus também tinha os policiais... muitos policiais... do Japão... ou da China... ou de qualquer um desses países onde as pessoas têm os olhos puxados... E tinha um policial que além de ter os olhos puxados também era albino e barbudo... Não, a porta estava mesmo trancada, duas voltas... sim, duas voltas... dor nas costas... na cabeça... John Lennon girando e gritando... e o pó acabando... e o som... onde estava o som... e todo mundo que tinha ido embora, traindo ou sendo traído, tanto faz... e o coração parecendo que iria explodir... e agora o pai estava voltando... e o som não saía... onde estava a beleza... Tinha o revólver, mas o revólver estava sem balas... e agora havia também os guardas e os urubus... e as teclas não soltavam o som que ele queria, escondiam os sons, as teclas... e se de agora em diante nunca mais conseguisse compor uma música? e agora Ilana voltava pra casa com uma irmã que era igualzinha a ela... mas não era Ilana... e Ilana estava longe, porque a casa dela era longe... e Ilana sempre estava longe e ele também estava longe... e o mar não era mais azul, mas ninguém percebia que ele, o mar, agora, era marrom... e o piano escondendo os sons bonitos, ficou com vontade de quebrar o piano... e agora o pó tava acabando... e a cabeça doendo... e ele preso, sem ter pra onde fugir, porque no mundo inteiro ele estaria preso pela coisa ruim por dentro... e ele tinha um revólver, mas o revólver não tinha balas... e Ilana tinha chorado... e ele tinha chorado... e agora ele não tinha mais cerveja... e agora John Lennon ficava mandando ele meter um balaço na cabeça... e o piano ficava mandando ele meter um balaço na cabeça... Mas não havia balas no revólver... e John Lennon girando... girando... girando... e ele sem cerveja, nem uísque, nem vinho, nem nada, amanhã seria outro dia, ele sabia, mas amanhã ainda estava muito longe e ele precisaria de pelo menos uma semana pra se sentir menos culpado... e ele não conseguia se lembrar de quem estava morto... e os mortos não morriam pra ele... e ele precisava tocar o piano... mas o piano não se deixava ser tocado... precisava mudar o piano de lugar, quem sabe assim, no canto... piano pesado do caralho! Perto da janela, mas a janela estava fechada e não deixaria os sons bonitos entrarem... mas se abrisse a janela podia ser que os urubus entrassem... e se os urubus entrassem seria o fim de vez... abriu só uma frestinha da janela e viu que os urubus estavam lá e teve que fechar a janela de novo e...
Aí apareceram uma vaca e um pavão no meio da sala. E o que é que ele poderia fazer com aqueles bichos? E aquela irmã da Ilana que era igualzinha a ela? Como é que podia uma coisa daquelas? E a vaca ruminava... e o pavão abria a calda... e John Lennon gritava, dizia que ele não compunha nada... e ele nem sabia mais quais eram as músicas dele, quais eram as dos outros... E além de tudo ainda tinha Jesus... e o pó tava acabando... só mais uma... e poooooouuu... pra explodir o ouvido surdo ... surdo por causa da pancada que o pai lhe havia enfiado com o ferro quente de passar roupas duas dezenas de anos atrás... e agora o piano estava lá... e agora os instrumentos estavam todos lá... e nem a guitarra tinha mais cordas direito... O jeito era sentar na bateria e TRTRRRRRRRAAAAAAATTTTTAA.....BUBUBBMMDMMDUUMMMPPAPAPAPAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Todo mundo tem um lado selvagem, mas a bateria também não resolvia... e ele queria mesmo era dançar uma valsa bem calma, junto com a mãe dele.... mas a mãe... a mãe tinha deixado ele pra morrer em cima de um formigueiro quando ele era bebê... e os coturnos dos guardas explodiam nas escadas, aproximando, aproximando, aproximando... O jeito era uma valsa, pra Ilana... Mas e Jesus? Estava esquecendo de Jesus... Ajoelhou-se pra rezar, mas não conseguiu rezar, então levantou... e o cachorro dele tinha morrido há um bocado de tempo... tinha vomitado sangue, o cachorro, o Max, enquanto ele tava empinando pipa, ele não devia ter ido empinar pipa com o cachorro doente, não devia mesmo... Mas agora ele precisava fazer a coisa e não havia mais tempo... nem tinha pra onde correr... e o pai estava vindo... e os guardas, os urubus lá fora, e estava tudo lá fora e ele tinha medo do lado de fora... Ainda bem que tinha água bem limpa no filtro... e o jeito era jogar toda aquela água limpinha, na cabeça, no corpo todo, pra ver se melhorava, mas a coisa não melhorava... e no apartamento ao lado alguém sempre cantava, à noite, sozinha, uma mulher, devia ser bem triste... e nos azulejos brancos da cozinha tinha corações vermelhos desenhados e num dos azulejos a mancha de gordura parecia uma máquina de moer carne moendo o coração vermelho... e no meio da pia suja a faca de cabo branco brilhava... Só que na sala o piano se escondia... e na vitrola não era mais John Lennon quem gritava... e o disco continuava girando, com a agulha espetada nele... e lá fora havia uma estrada de barro deserta e nos apartamentos do prédio ninguém morava...e chhhhhhhhhhchcchchchchchcchchhchchchchchhchchchchhchchchhchchchchchhchchchch
pumpum...pumpum...pumpum...pumpum...pumpum...pump...pum......pu...p..........................
PSIU.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

YOU MAKE LOVING FUN

Para a Marcita, quando ela acordar.

Nossos lábios explodem a escuridão
E se derramam numa cortina de estrelas
antes das crianças acordarem.

Te trago
Te sorvo toda com minha boca impura
Te faço do avesso
e
Te machuco
Te desmancho
Te derramo em prantos
No final
Me convulsiono sôfrego
E adormeço como um lagarto cinza
No teu seio
Ou continuo dançando
Como um cisne-menino
Dentro do lago teu.






Não sei colocar vídeo no blogue. cliquem então aqui:

http://br.youtube.com/watch?v=XoMWa3jRtLo

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

DESCOMPOR



Estava velho e de saco cheio. Todo o poder, melhor, todo o planeta, estava nas mãos dos seres mais burros e ignóbeis. De que adiantava ter lutado tanto, ter sangrado sozinho, ter perdido as pontas dos dedos, se a coisa não tinha encontrado ouvidos? Max Brod devia mesmo era ter metido fogo nos papéis como o amigo lhe havia confiado. A humanidade não merece nada além do estrume. Foi até a cozinha. Abriu a geladeira: Vazia, somente duas cenouras murchas e uma beterraba ainda mais murcha. Pegou da garrafa e deu uma golada na água pra ver se enganava a fome. De que adiantava ter feito tudo que fez se agora, na velhice, não tinha direito sequer a um bife suculento e uma lata de cerveja?
Não, ele não deixaria nada de seu neste mundo de merda. Entrou no quarto. Não deixaria nada pra que os outros se enriquecessem as suas custas. Pegou seus óculos sobre a janela, o violão vermelho e velho junto aos papéis sobre o guarda-roupa. Levou tudo de volta pra cozinha. Ainda bem que não tinha conseguido gravar um disco, uma música sequer. Havia aquelas fitas, mas agora o fogo as consumiria rapidamente. Devolveria tudo novamente ao outro lado, todas as músicas voltariam pro silêncio, pra trás do silêncio.
A primeira atitude foi colocar todas as fitas numa bacia de ferro no quintal, juntar alguns jornais velhos e atear fogo. Como ele pensou, a coisa não demorou a queimar, no final toda aquela música se transformou numa gosma verde-escura grudada no ferro.
Voltou pra casa. Procurou nas gavetas do armário uma borracha. Não demorou a encontrá-la. Puxou uma cadeira. Sentou-se. Colocou a borracha e os papéis com as letras e partituras sobre a mesa. Pegou do violão. Calmamente, começou a devolver as notas pra dentro do bojo escuro. As notas resistiam, queriam existir, soltavam ganidos como de gansos, mas ele, com os dedos, as empurrava de volta pro outro lado, pra trás do violão, do silêncio. Ao mesmo tempo, o artista fazia um barulho com a boca, espécie de rugido como se entoasse um mantra do mal, como se tirasse as palavras do ar e as enfiasse de volta pra dentro da boca. À medida que conseguia devolver as notas e as palavras ao outro lado, ele as apagava na partitura. Não era um processo fácil. Pelas expressões de seu rosto podia-se ver que sofria, mas estava decidido a fazer a coisa. Era como um pai que assassina todos os seus filhos antes de se matar.
Na primeira noite conseguiu descompor apenas uma música. Sentiu-se esgotado, deprimido, se houvesse lágrimas teria chorado. Mas era homem, estava velho e seus olhos eram secos.
Passou dias se recuperando sem mexer em suas canções. Quando tentou descompor mais uma, não conseguiu desfazer senão as últimas notas e versos.Teve que ficar todo o resto da semana pra descompô-la inteira.
Com o tempo, entretanto, foi pegando o jeito da coisa. Conseguia devolver as músicas ao outro lado com mais facilidade. Às vezes descompunha até duas músicas por dia. De qualquer modo não foi fácil devolver todas as canções, porque ele, ao longo da vida, havia composto muitas e descompô-las demorou alguns anos.
Dia chegou porém em que ele havia conseguido mandar todas as combinações de notas e palavras, uma por uma, pra trás do silêncio. Foi quando teve certeza de que sua obra estava toda desfeita. Neste dia ele sorriu e, numa espécie de suicídio derradeiro, entregou ao fogo as folhas em branco e o violão vermelho. Sentiu-se renovado, embora estivesse ainda mais velho e deprimido.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A SOLIDÃO COMO UM VAZIO NOS BOLSOS


Não sei bem como começar com isso. Não sei se é uma carta, ou um conto. Não sei se uso o ele, ou o você. Mas isto também não importa, pois o próprio Cortázar já tratou dessas impossibilidades. Vou seguir a vontade então... Bem... Nós devíamos ter uns doze, ou treze anos por essa época. Estávamos descobrindo o Pink Floyd e as mulheres eram um sonho distante. Seres de um outro planeta, quem sabe até de uma outra galáxia. Eu não tinha nada, além de uma BMX pantera branca, com os pneus vermelhos. Mesmo assim, se uma garota me dissesse. “Você me dá a bicicleta, que eu te dou...” Eu teria entregado a minha BMX sem pensar duas vezes. A masturbação era uma realidade triste e o mundo era um inferno desconhecido. A gente ainda não sabia das maldades que as pessoas podiam cometer. Maldade pra gente era não dividir um chocolate, ou um refrigerante.
Ele era meu primo. Ele é meu primo. Você é meu primo. Mas, antes de ser primo, ele era o meu melhor amigo. Andando a pé, eu demorava uns dez minutos pra chegar à casa dele. Mesmo assim, eu passava todas as férias lá. Porque estar perto, era uma maneira de ser confidente e de dividir a mesma dor. Além disso, o pai dele gostava de uma cervejinha, e, quando bebia, trazia um bocado de doces pra gente. Acho que isto herdei dele, do meu padrinho, porque o pai dele era meu padrinho. Hoje, sempre que bebo, levo doces pra casa. Uma malandragem pra evitar brigas, ou um meio de ser amado pelas crianças, não sei ao certo.
Nós dois éramos esta espécie de território abandonado que são os filhos do meio. Nem tão amados, quanto os mais velhos, nem tão mimados, quanto os mais novos. Talvez isto nos desse espaço pra sermos rebeldes, talvez isto nos desse liberdade pra sentir o rock como uma verdade íntima e profunda. Era tanto Iron Maiden, e tanto Metallica que eu tinha certeza que não chegaria com os ouvidos intactos aos trinta anos. Vou fazer trinta e um. Vamos fazer trinta e um. Ainda ouço bem, embora as canções de hoje sejam mais amenas.
Esse era meu primo Eduardo, o cara que viveu coisas ao meu lado, que, por mais que eu tente não consigo esquecer. Agora também não quero mais esquecer. Embora tenhamos mais rugas e sejamos outros, tem coisas que nunca sairão da minha cabeça e nem do meu coração. Uma dessas coisas, é aquela vez em que estávamos limpando o fusca marrom do seu pai e, enquanto eu passava pretinho nos pneus e você colocava um Black Sabbath pra tocar, alguém, você, gritou alto por cima do Paranoid:
- Eu sei dirigir!
- O que? Perguntei, duvidando da história toda.
- Eu sei dirigir.
- Sabe porra nenhuma. Eu vivo aqui na sua casa o tempo todo e nunca vi você nem ligar o carro.
- Duvida que eu sei dirigir?
- Duvido.
- Abre o portão então que você vai ver.
Corri até o portão e o abri excitado. Aventura sempre foi aventura, além do mais, eu era jovem. Lembro do barulho do motor quando você deu a partida e da ré torta que você deu. Toda ré é ruim. É a minha opinião. Contudo você conseguiu sair pelo portão escancarado. E eu fechei o portão, e entrei no carro, e colocamos o som no talo, porque era mesmo muito rock n´roll para cabeças tão jovens. Então você saiu cantando os pneus e eu fiz do painel uma bateria. E tudo o que a gente conseguia sentir era que a gente era mesmo FODA! Só que aí aconteceu uma merda, pra variar, né? Na primeira curva você perdeu o carro e entrou de cara no poste. A farra tinha terminado. Era a hora da ressaca. O carro tinha deixado de funcionar. Você estava desesperado. Nervoso. Não conseguia mais ligar o carro. Tive que correr até a sua casa e chamar seu irmão mais velho. Tudo o que você conseguia dizer era o seguinte:
- Daniel, fodeu Daniel!
E tudo o que eu conseguia dizer era o seguinte:
- Calma, bicho, não vai dar nada.
Se deu alguma coisa, ou não, eu não sei. Não fiquei lá pra saber, tratei de pegar correndo o caminho da minha casa. Podia sobrar pra mim e eu sempre fui covarde.
Agora o tempo passou. Tudo isso ficou longe e não temos mais medo. Nos distanciamos. Fizemos novos amigos e novos falsos amigos. Nos casamos, eu tive filhos e você sossegou. Eu não, às vezes bebo demais. Só de saudades de tudo que fui perdendo pelo caminho. Sei que a vida sorri cheia de sucessos nos bolsos pra você, apesar do desemprego, que é mesmo uma bosta passageira.
Seu pai morreu há dois anos e eu não pude dizer nada, porque nunca fui muito bom pra falar as coisas. Um dia antes de ele morrer, nós dois fomos juntos ao hospital e você estava meio doido, falando um bocado de coisas sem sentido. Lembro que meu padrinho estava lá inconsciente, com todos aqueles aparelhos enfiados na boca e no nariz dele. E nós dois ficamos lá. Um de cada lado da cama. Segurando nas mãos dele e então, no dia seguinte, ele faleceu. Pelo menos eu me despedi, pensei, como se tivesse também me despedido da minha infância e dos meus sonhos.
Espero que seja feliz e eu, do meu lado, me alegro ao ver brotar no meu filho, todas as trapalhadas e a inocência que eu mesmo tive... um dia. Estamos vivos, deveríamos assar uma carne qualquer dia desses.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

FAKE PLASTIC TREES


Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera que é de outrem,
Nem para o estio de quem somos mortos
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

REIS, Ricardo, Odes.

Apenas porque era manhã levantou. “Já não consigo mais tocá-la, porque não existe mais em mim aquela abstração necessária ao amor, ou à poesia”. Pensou, não necessariamente com essas palavras. Pela fresta da janela, a luz dominical entrava muito educada, mas sem pedir licença. O que era verdade no meio daquilo tudo? Existir? Mas o que vem a ser existir e esta vida tão monótona e cotidiana diante do universo?
Ela já estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. “Parece um bebê”. Ele pensou porque ela dormia toda encolhida. Levantou a mão com desejo de tocá-la, nos cabelos principalmente, mas recuou. Era como se um lutador de boxe, Mike Tyson talvez com seus dezenove anos, o segurasse pelo pulso.
Procurou os chinelos sob a cama. Estavam perdidos... lá... no fundo... Teve que entrar embaixo da mobília para pegá-los. O azulejo era frio no seu peito. Mármore. Todo o processo o irritou. Precisava mesmo era de umas férias na Jamaica, isso sim!
No banheiro, puxou, mirou, disparou. Errou outra vez. Ela se irritaria novamente. Fazê o que, né? Como conseguiam encher um dia inteiro de discussões? Escovou os dentes.Eles não eram mais brancos. Nicotina demais. O tempo todo. Voltou para a cozinha. Encheu a chaleira de água e colocou no fogo. Tirou o revolver da capa e pôs no som pra tocar. I´m only sleeping. Abriu a porta e acendeu um cigarro. Da cama ela fingiu uma tosse. Aqui na cozinha ele não se irritou. Continuou apenas sorvendo a fumaça e observando as falsas rosas de plástico que cresciam no canteiro lá fora.
Se não eram vivas, tampouco morreriam.

sábado, 9 de agosto de 2008

THE WHO


DISPENSA COMENTÁRIOS

PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS

“He ain’t heavy, he’s my brother.”
The Hollies.
Para meu irmão Marcos, porque sempre esteve lá.

É estranho vê-Lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. Mas o sorriso é o mesmo, não fossem as rugas e alguns cabelos brancos, eu poderia jurar que Ele ainda é o mesmo menino. Aproxima-se sem jeito, ainda rindo meio de lado e o sorriso dEle me desafina, me faz pensar que, a minha vida inteira, eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Que eu poderia ter demonstrado mais o que sentia pelas pessoas e poderia ter feito mais por elas, entretanto eu não fiz. O caso é que nunca fui mesmo muito bom com esse negócio de sentimentos e emoções. É minha natureza, ou será que esse negócio da natureza é só mais uma das minhas desculpas? Como aquelas que sempre inventei pra não ter assumido o filho que perdi, pra ter abandonado a mulher que amava, ou pra ter comido e descartado tantas outras mulheres pelas madrugadas do mundo? Vai saber.
Ele por seu turno continua sorrindo. Eu tento sorrir de volta, contudo há anos que desaprendi a sorrir e minha boca é como uma pintura colada na cara.
- Paga um doce. – Ele me pede, esfregando as mãos uma na outra, como sempre fez a vida inteira. Eu estou tomando uma cerveja só para me lembrar, porque, afinal de contas, esse bairro pequeno e perdido no subúrbio é a minha memória, o meu lado mais humano, bonito e verdadeiro. Havia cinco anos que eu não vinha aqui. Nesse meu ramo de negócios, não podemos ser muito humanos e nem muito verdadeiros. O fato é que, apesar de tudo, meu trabalho me deu muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. Contudo Ele, meu amigo, não se importa com todo o meu dinheiro e continua esperando apenas o seu doce, ainda esfregando as mãos.
- Ô seu Mariano, o senhor tem caixa de bombom aí? – Pergunto ao dono do bar.
- Tenho.
- Faz um favor então, dá uma aqui pro meu amigo.
O dono do bar continua o mesmo desde que tínhamos oito ou dez anos. Tudo aqui parece continuar o mesmo. As pessoas envelheceram, mas não mudaram o olhar e nem o sorriso. As casas mudaram de cor, contudo conservaram o mesmo cheiro... o mesmo som. As ruas perderam o paralelepípedo e ganharam um asfalto novo e bonito, com duas faixas amarelas pintadas no meio, no entanto ainda são as mesmas ruas onde jogávamos bola, com gols feitos de chinelo ou de pedra.
- Posso me sentar aqui? - Ele pergunta com a caixa de bombom nas mãos, sorrindo ainda mais que antes.
- Claro. – Respondo e então Ele se senta ao meu lado, no chão da porta de entrada do bar.
- Desse jeito, vocês vão me fechar toda a porta e aí como é que os fregueses vão entrar? – Grita o seu Mariano de trás do balcão. Os pêlos do meu braço se arrepiam. Como é que pode? É a mesma frase que ele gritava pra gente trinta anos atrás, quando nos sentávamos ali na porta, toda a molecada, depois do futebol, pra tomar um refrigerante qualquer em copos descartáveis, que ele nos dava pra não ter que lavar tantos copos depois.
- Esquenta não Seu Mariano. Eu dou uma caixinha gorda pro senhor depois. – Falo e ficamos os dois sentados ali, lado a lado, em silêncio, olhando a rua. Até que Ele abre um dos bombons e diz:
- Esse é o que eu mais gosto.
- Do que é?
- De chocolate, ora.
- Eu sei, mas ele não tem outro sabor, banana por exemplo?
- Não sei.
- Deixa eu ver a embalagem. – Ele me entrega o papel que envolvia o bombom. Crocante com recheio de creme de leite.
Eu peço mais uma cerveja e reforço para o seu Mariano a idéia de que ele tem que pegar uma cerveja lá do fundo, porque elas é que são sempre mais geladas.
- Tá tudo igual. –Ele grita de trás do balcão. Sempre teimoso e mal-humorado esse Seu Mariano. Há cinqüenta anos que vende a mesma cerveja morna.
- Esse carro bonito é seu? Ele me pergunta com os dentes ainda cheios de chocolate, enquanto aponta para o meu carro preto, conversível e importado, com rodas de liga-leve, direção hidráulica, trio elétrico e sistema de freios ABS.
- É sim, gostou?
- É bonitão.
Há trinta anos foi também um carro que mudou a nossa história. Tenho que pedir licença agora, pois o que vou contar não é algo de que me orgulho e também não é uma coisa lá muito bonita. Se quiser abandonar a história ainda é tempo. Se não, creio que o que devemos fazer é nos lembrar dos sapatos de plataforma, dos cabelos black power, das calças boca de sino, do senhor Emiliano Garrastazu Médici e de tudo o mais que compunha o cenário dos anos setenta.
Não é necessário repetir que éramos pobres, entretanto eu era o mais pobre de todos. Sempre descalço, sempre poupando o mesmo velho conga rasgado e vermelho pra escola. Filho de mãe solteira, empregada doméstica. Não era fácil suportar a tiração de sarro dos outros moleques. Ao contrário do que pregam, as crianças nem sempre são boas e inocentes, há muita maldade entre meninos. Mas eu não me deixava abater porque era forte e despeitado, quatrocentas lutas e quatrocentas vitórias, de modo que eu era o líder da nossa turma, mas não era um líder bom e nem piedoso. Este mesmo rapaz que está aqui sentado ao meu lado agora, comendo inocentemente seus bombons, foi um dos que mais sofreu nas minhas mãos.Uma das diversões da nossa turma, talvez a maior delas, era persegui-lo pelo bairro jogando pedras, paus, lixo, ratos mortos e tudo o mais que encontrávamos em cima dEle. Eu sempre na frente. Sempre liderando. Sempre tendo que me sobressair e mostrar a minha força, a minha coragem, a minha maldade. Não tinha mesmo piedade, se tivesse um revólver naquela época, talvez tivesse dado um tiro na cabeça dEle sem pensar duas vezes. Só pra mostrar o quanto eu era homem, o quanto eu era forte, o quanto eu era gigantesco, potente, maior, melhor, o quanto eu era inquestionavelmente um líder.
Todavia um dia uma coisa aconteceu. É difícil contar isto com ele aqui ao meu lado, sorrindo e desembrulhando seus bombons, mas vou contar de qualquer forma. Mais um dia, como sempre, nós o estávamos perseguindo. Eu ia adiante dos outros, como de costume, jogando sobre ele tudo o que encontrava pela frente. Ele era tudo o que eu mais odiava em mim mesmo, ele era a representação física da fraqueza, e eu não podia deixar espaço para a fraqueza, nem uma brechinha sequer. Naquele dia, os outros desistiram cedo da perseguição, porque alguém havia acertado uma pedrada, ou uma paulada, ou coisa que o valha, bem na cabeça dele e agora ela, a cabeça, sangrava em abundância e ele chorava, mas tinha que continuar correndo, porque eu estava atrás com toda a minha fúria. Era tarde já e eu era o único a continuar na perseguição, que já devia durar mais de três horas. Lembro que saímos do bairro, atravessamos a linha do trem, a avenida onde os ônibus passavam, entramos no outro bairro, onde moravam outros meninos, nossos maiores inimigos, mas não paramos de correr. Então, de repente, na adrenalina da perseguição, atravessamos uma rua sem olhar pra lado algum. Só ouvi o barulho da buzina, e do carro derrapando, e então senti o baque nas minhas pernas e voei pelos ares. O carro desapareceu na rua escura. Não fez qualquer menção de parar. Minha testa agora também sangrava e minha perna devia estar quebrada, porque eu não conseguia movê-la um centímetro sequer.
Nem nós os havíamos percebido, nem eles nos haviam percebido, entretanto, com o barulho da batida, os meninos do outro bairro, que estavam jogando futebol justo ali, na esquina da próxima rua, pararam com a bola e foram ver o que tinha acontecido. Era muita sorte pra eles. Eu ali, no meio do bairro deles, caído no chão e com a perna quebrada. Nem em seus maiores delírios eles imaginavam um milagre desses. Nem em suas orações mais fervorosas, eles tinham coragem de pedir a Deus que realizasse tamanho milagre, e, no entanto, era eu mesmo lá. Eles foram se aproximando devagar, feito hienas, feito ratos, feito vermes. Eu não sentia medo, há poucos dias tinha assistido ao filme Warriors, Guerreiros da Noite na televisão e estava pronto para morrer representando minha Gang. Não fechei os olhos e nem tremi, contudo num determinado momento eles pararam, ficaram todos quietos no meio da rua. Eu não entendi. Esperava a surra, a depredação, o linchamento, a morte e nada disso vinha. Então olhei pra trás e lá estava ele, com a testa sangrando, mas imenso, com um pedaço de pau enorme na mão.
Depois de alguns minutos um dos meninos gritou:
- Ih! Olha lá! Agora o Doidinho pirou de vez. Vai enfrentar nós todos só com aquele pedaço de pau na mão.
Ele apenas levantou o pedaço de pau acima da cabeça e falou com uma voz grossa e calma, como se tivesse trinta e não dez ou doze anos.
- Vem pra você ver o que te acontece.
O menino fez uma cara de espanto, não, de espanto não, de medo mesmo e se enfiou entre os outros. Aos poucos, como um exército em retirada, eles foram se dispersando. Primeiro as fileiras de trás, depois as do meio e, por último, as da frente. Um dos derradeiros garotos ainda gritou:
- Vocês estão fodidos quando a gente pegar vocês seus filhos da puta.
Ele fez mais uma ameaça com o pedaço de pau e o menino saiu correndo em disparada. Então, Ele se abaixou e me pegou por baixo dos braços, de frente e me sorriu esse mesmo sorriso de agora e... por Deus... eu não pude entender mais nada e chorei... chorei... chorei... como nunca tinha chorado nem na frente do espelho e muito menos na frente de quem quer que fosse.
- Pára com isso Marquinhos, você é o líder! – Ele disse e então me jogou nas costas com uma facilidade e com uma força que eu nunca imaginei que ele tivesse e me carregou de volta para a nossa Vila, caminhando por mais de duas horas e doze quarteirões.
Agora ele sorri de novo, comendo o último bombom e me pergunta, enquanto eu limpo com o dedo a baba que escorre pelo canto da boca.
- Posso pedir um guaraná?
- Claro. – Eu respondo.
Ainda sorrindo, ele bebe todo o guaraná, reclamando que está doendo a testa porque o refrigerante é muito gelado.
- Então bebe devagar. - Eu falo, só que, em vez de beber devagar, o que ele faz é virar todo o refrigerante na boca de uma vez. Depois exclama com a mão na testa.
- Ai!
Vendo que Ele não tem jeito mesmo, eu esboço também um sorriso com minha boca pintada na face e balanço a cabeça para os lados.
- Posso pedir uma última coisa. – Ele me diz.
- Vai lá, o que é?
Ele aponta para o carro meio sem jeito, sempre sorrindo.
- Que foi quer dar uma volta? – Eu pergunto.
Ele balança a cabeça indicando que sim. Então eu pago a conta com uma nota de cinqüenta reais e mando o Seu Mariano ficar com o troco. Ele sorri, o Seu Mariano, como sempre sorri quando vê dinheiro e me diz pra voltar mais vezes, não sumir assim. Eu digo que volto sim e abro a porta do carro e mando Ele, não o seu Mariano mas meu amigo, entrar. Em seguida coloco o cinto de segurança n’Ele, em mim também, ligo o aparelho de som para ouvir o bom e velho Elvis Presley... Like a bridge over troubled water... e dou a partida. Ele ensaia uma pequena batucada sorridente no painel, ao mesmo tempo em que nós saímos pelas ruas do bairro em baixíssima velocidade.
Antes de alcançarmos a primeira esquina ele aponta para o alto.
- Que foi quer que eu abaixe a capota? – Pergunto e ele mais uma vez balança a cabeça indicando que sim. Então aperto um botão e a capota aos poucos vai se guardando feito uma sanfona lá atrás. Ele está em êxtase e faz um dia lindo lá fora, como há muito tempo eu não via. Atrás do céu azul, espelho de tudo, devia estar o universo e, atrás do universo, um sorriso nos lábios de Deus... um sorriso nos lábios de Deus...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

ARTIGO NO AMÁLGAMA

Pessoal, saiu uma resenha minha no coletivo amálgama. Quem quiser conferir é só clicar:
http://www.amalgama.blog.br/

Porque o editor de lá também se chama Daniel Lopes, meu nome saiu como Daniel de Souza.
Abraços,
Daniel.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

JOÃO E JOANA

Todos os dias na hora do almoço Joana ligava para João
Então ele largava a marmita e ia correndo ouvir o amor e sorrir,
Na Simplicidade.
Um dia porém Joana não ligou
Então João esperou
Primeiro foram cinco minutos
Cinco dias
Cinco meses
E hoje são cinqüenta anos.
A firma faliu
O prédio foi derrubado
A rua já nem existe mais,
Mas João até hoje não saiu do lado do velho telefone preto
Onde continua esperando Joana ligar
E Joana não liga, porra!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Poemas do Podrão - 1



A mulher que pilota o trêm

Dedicado a todos os poetas abstratos

Você é tão maniqueísta*,
ainda ontem sonhei
que você tava jogando pedra no meu cachorro
E plantando maconha no meu quintal.


* Ou seria maquinista?

Podrão é vocalista da banda punk Matéria Fecal.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Daniel Lopes entrevista Daniel Lopes

Já está no blogue do meu xará, Daniel Lopes, a entrevista que ele fez comigo, abordando o lançamento do É preciso ter um caos... e vários outros assuntos relacionados à literatura. Quem quiser conferir e só clicar em: http://www.danielslopes.com/. Acessem também http://www.amalgama.blog.br/

sábado, 2 de agosto de 2008

sobre o conto abaixo.


O conto Formigas também foi publicado no site das escritoras suicidas, sob pseudônimo e com título diferente.

FORMIGAS

“ worn like a mask of self-hate,
Confronts and then die”
(Joy Division)

Ela acende aquele que é talvez o último cigarro do maço. Traga devagar. Se ao menos pudesse esquecê-lo agora, nesses poucos minutos do amor sujo e depois do amor sujo... mas ele sempre ficava nos pensamentos dela... quando tomava banho, ele estava lá... quando escovava os dentes, ele estava lá... quando acordava, ele estava lá... quando dormia, quando sorria, quando urinava, quando cozinhava, quando pintava as unhas (sempre de vermelho), ou penteava os cabelos, ele estava lá, ele sempre estava lá, dentro dela, como se fizesse mais parte dela do que ela mesma. Olhou pras paredes verde-escuras do motelzinho. Olhou pras costas do homem que dormia. Sentiu asco. Olhou pras suas mãos brancas, quase invisíveis, atrás da fumaça do cigarro, sentiu nojo também das próprias mãos. Estava velha. Estava suja. E não conseguia esquecê-lo por um segundo sequer. Nem essa sua vingança fazia sentido, ou diminuía sua dor... cabelos longos, loiros, de mulher, de mulher jovem, perdidos no carro dele... estaria num motel também? E o que é pior, gozando. Gozando com aquele sorriso lindo arreganhando-lhe descaradamente a boca? Ao imaginá-lo gozando, sua garganta fechou, não conseguia respirar, a nicotina toda presa, dentro do corpo dela, tentou soltar a fumaça e puxar o ar, mas não conseguiu. O Homem, inútil, continuava imóvel, do lado dela, bateu com todas as forças nas costas paradas... e nada.... nem se mexeu... estaria morto? Morto como seu irmão gêmeo, dele, que do mesmo modo não tinha conseguido fazer com que ela esquecesse o marido... correu pro banheiro... o rosto vermelho, inchado, deformado, no espelho. Tomara que não conseguisse mais respirar mesmo... tomara que morresse logo de uma vez por todas... abriu a torneira... jogou água no rosto... tossiu... a nicotina saiu marrom, molhada, cheia de saliva, parecia uma lesma no fundo da pia branca... lavou melhor o rosto... tocou com a ponta dos dedos a raiz dos cabelos, completamente brancas... por cima havia a tinta negra... mas lá embaixo... no fundo... por dentro... estava tudo branco... quando ela tinha perdido a graça? Em que ano começaram a chamá-la, constante e efetivamente de senhora... 1984? 1985? 86? Estendeu as mãos... baixou os olhos sobre elas... eram mãos de velha... enrugadas... até mesmo o esmalte começava a descascar na maioria das unhas, pra dizer a verdade ele, o esmalte, mal cobria a camada de cutícula... no chão, um pouco abaixo das mãos, uma fileirinha de formigas minúsculas se movimentava como se fosse um risco, um verme fino, uma coisa só... só o que? Só sentiu foi as formigas roçarem-lhe os pés, entrarem por baixo das unhas, subirem pela perna, por baixo da pele, pelo ventre, pelo sexo, pelos seios e braços... milhões... trilhões de formigas pelo corpo todo... e ele longe... tratando de negócios? Bebendo um café olhando os seios da garçonete? Comentando com algum amigo a respeito de uma secretária bunduda qualquer... ela nem tocava mais violão! Quantas vezes ele teria feito amor com ela pensando em outras mulheres? Outras mulheres bem burras e bundudas e com seios rijos e grandes? Diabo, e ela nem tocava mais piano... se tivesse um pincel, teria pintado de vermelho a casa inteira, o mundo inteiro, a manhã inteira... mas não tinha um pincel... e ele, o marido, estava longe... e ela, ela mesma, jovem e encantadora, estava longe... impossível... bateu com a cabeça no espelho... quebrou-o... em muitos pedaços... que caíram no chão. Uma linha fina de sangue cortou-lhe a face, como se a partisse em duas... desiguais... uma lágrima lenta cortou uma dessas partes... era como se seu rosto estivesse partido em três fragmentos... uma máscara desigual de dor... correu outra lágrima distante dali, do outro lado do rosto e partiu-o em quatro... ela tocou a vagina... massageou-a.... pensou no marido... trepando... com alguém invisível... que não era ela... sentiu-se molhada... cheia de água... um lago... abriu com os dedos a parte de cima... ficou massageando aquela coisinha dura... pequena... insignificante... quando sentiu que aquilo estava bem rígido, pegou um dos cacos do espelho. E era bastante pontiagudo, o caco.