quinta-feira, 31 de julho de 2008

5:45



(Para Márcia e para meus editores Silvana e Albano)

Então a vida segue
Depois da noite grande e da travessia
Segue a vida
Planta morta que renasce de si mesma
Orvalho solto que se junta na folha
Até virar gota e correr deitar na terra
Destino de tudo.
Segue sempre a vida
Ainda que seja grande o número de mortos e destruídos
Ainda que os homens levem gaiolas na luz das cabeças
Ainda que as orquídeas sejam defuntas
E os corvos de parafuso e eletricidade destrocem o trigal
Quando menos esperamos...
Quando tudo é dor e dor e dor...
Quando casa já não há...
Uma criança solta no ar seu pipa fluorescente
E este pipa grita por outro
Que grita por outro
Que grita por outro
Que espalha o grito
Então é tempo de pipa outra vez
E o céu tem a cor de todo menino.
A vida, segue sempre, a vida
Construtora de si mesma
Operária do próprio corpo
Noiva pobre maquiando o rosto sozinha
Diante do espelho e do rosto quebrado.
Ontem ainda éramos zumbis
Ontem ainda éramos alcoólatras
Prostitutas... parasitas... proxenetas... pederastas... presidiários
Agora somos gente
Sempre fomos gente.

A vida se renova
Da mesma forma que o amor
Da mesma forma que a vontade
Ninguém nos disse que seria fácil
E de fato não foi
Mas agora o passado já não dói
É hora de você me dar a sua mão e caminharmos juntos
Como quando éramos criança
Na missa de domingo.
A chuva fez enchente é certo
Agora
Depois do temporal
Crianças brincam com barquinhos de papel
No lago do fundo do quintal.
Nosso corpo tem estrelas
Contudo não quero ser herói
Só quero estar contigo
Sempre

A esta hora todos os asilos tramam a Revolução.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Meu livro...


Taí a capa do meu primeiro livro publicado. Quem quiser é só entrar em contato.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Enfim, a calma




Não há coisa mais bonita e nem melhor do que minha cachorrinha e meus filhos brincando numa manhã de Sol, e eu sem ressaca, de bem com a Márcia. Depois de tanto tombo, entendi tudo. Não preciso ser Escritor, essa ânsia de ser grande, de ser o maior, de mostrar a todos tudo o que faço, o que eu preciso é escrever e isso eu já faço. Se faço bem ou mal, é outra coisa. Mas escrevo sempre.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

+ FLAP

FLAP! 2.0 08Zona Franca - Viva La Conexión!
www.flap2008.worpress.com
De 1º a 8 de agosto São Paulo, gratuito
Zona Franca nos remete à idéia da troca comercial entre nações e delimita um território onde há o estímulo à circulação do capital financeiro. A proposta da FLAP! 2008 é adulterar esse conceito, transplantando-o para contexto cultural. A exemplo do Festival Tordesilhas, que em 2007 propôs um amplo debate de autores ibero-americanos, a FLAP! alarga suas fronteiras, convidando para sua quarta edição mais de 20 escritores latino-americanos.
O programa traz uma semana inteira de eventos, com trocas de experiências entre diferentes gerações, saberes e lugares. Da zona leste a oeste, passando pelo sul e sem abandonar o centro, a FLAP! acontecerá em centros culturais diversos, estimulando o contato entre autores, produtores culturais, acadêmicos, estudantes e interessados em geral. Como essencial ao espírito do evento, permanecem a informalidade, os debates apaixonados e a ampla participação do público.
O portuñol será idioma oficial do evento, que por oito dias agregará uma comunidade cujo principal traço é o interesse pela literatura contemporânea e a sua relação com as outras artes. No melhor espírito 2.0 08 e com tecnologias simples, nada além de um blogue e uma webcam, os organizadores transmitem, ao vivo e com chat, discussões sobre o evento e leitura de poemas (via www.ustream.tv). Outra inovação é evidenciar a rede de blogues amigos, o uso do twitter e contar detalhes de "como se organiza o evento" nas postagens. Os convidados latinos também poderão escrever diretamente no blogue oficial do evento. Y viva la conexión!
Blogue: www.flap2008.wordpress.com
Programa: http://flap2008.wordpress.com/programacao-sp
Contato: contato.vacamarela@gmail.com

Beatles


Não sei se já disse a vocês que sou beatleamíaco. Por mais que passe uns tempos longe dos discos dos fab four, sempre acabo voltando. Hoje, por exemplo, acordei ouvindo I'm only sleeping, do Revólver.

terça-feira, 22 de julho de 2008

ELE TENTOU SORRIR NO ÚLTIMO INSTANTE...

a última história deprê, eu juro.

Ele tentou sorrir no último instante, porque era um menino muito gentil, mas não conseguiu. De seu corpo repleto de chagas purulentas, saltavam dezenas e dezenas de polvos, lulas e outros moluscos menos elegantes.
- Estas são as conseqüências dos pecados. - Disse o pastor protestante que dava a extrema unção, justo no instante em que um polvo negro saiu de uma chaga na barriga do menino e veio cair bem nos pés da mãe. Tinha cheiro de feira, fruta e pastel, o polvo, não tinha cheiro de peixe nem nada.
- Está doendo muito meu filho? - A mãe perguntou, tentando esboçar um sorriso encoberto pelo choro.
- Não mãe, só dói quando eles saem, depois eu não sinto nada.
Era um menino loiro, de olhos azuis e umas sardinhas vermelhas em volta do nariz.
A mãe chamou o médico num canto e perguntou se não havia uma possibilidade, uma chance qualquer.
- Infelizmente não senhora.
- A culpa é do pai, eu sei. – Ela disse, a mãe – Quando ele pegava um bicho desses na rede, judiava até o fim do mundo. Deus vê essas coisas. Agora o menino fica aí sofrendo desse jeito, pagando os pecados do pai.
Outro polvo escapou de uma chaga na perna e veio cair, coberto de pus, em cima da bíblia do pastor, que estava distraído, distraído não, assustado com o último grito do menino.
- Eu não agüento mais, mãe. Queria que acabasse logo. – O menino diz com uma vozinha baixa, procurando os olhos da mãe.
- Já vai passar, filho, já vai passar.
- Não vai mãe, vai começar de novo. Já estou sentindo a coisa vindo. – Neste momento apareceram alguns tentáculos do lado de fora do pequeno pênis vermelho.O menino começou a vomitar de dor. Infelizmente, o último molusco parecia um dos grandes, não queria sair logo do corpo pequeno.
- Quedê o papai, mãe? Eu queria ver ele antes de tudo terminar. – Disse o menino, quando o bicho por fim largou seu corpo, deixando pra trás um pintinho destroçado.
- Ele vai chegar, filho, ele vai chegar.
- Crê no teu Deus, meu filho, acredita que a vitória virá, para a honra e glória de nosso senhor Jesus Cristo. – Gritou o pastor, mais para afastar suas próprias dúvidas, do que para consolar o menino. Nem ele, com toda a sua fé, podia conceber um sofrimento tão grande.
Então a porta da cabana se abriu, e o pai entrou ainda com cheiro de peixe e de mar, e agarrou o filho e o beijou na boca.
- Ô papai – ele disse e tentou sorrir outra vez, só que agora já era tarde demais. Tudo estava consumado. Um cheiro de mar explodiu as portas e as janelas da casa. O pai chorou. A mãe também. O médico também. O pastor não chorou, mas repetiu umas duas ou três vezes a seguinte frase:
- Pecados, quem não os tem? Seja piedoso Pai, somos todos crianças.

Flap... flap

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segunda-feira, 21 de julho de 2008

SUICÍDIO


SUICÍDIO

Quando acordei, abri as janelas.
A cidade se lavava sim.
A primeira grande chuva depois que você partiu.
Fui até o pé de manga
e não havia mais manga,
mas reforcei com o canivete
nossos nomes dentro do coração da manhã.

Voltei.
Não tinha café.
Então fiquei olhando aquela sua revista velha,
que tem na capa um enorme cavalo negro.
Toquei sua crina.
Ele não se fez arredio.
Passei de leve a mão no dorso forte.
Ele não demonstrou asco.
Montei-o com a leveza de uma virgem.
Ele aceitou.
E assim, como quem já sorriu,
mas apunhalou o riso,
Partimos pro outro lado do espelho...
E a tua escova ainda na pia do banheiro...

domingo, 20 de julho de 2008

O POÇO







Enterrou o mastro da bandeira no chão e abriu o poço. Sentiu o cheiro forte, de tudo que não prestava, sair pela tampa aberta. Fez uma careta de nojo, mas mesmo assim teve ímpeto e coragem o bastante pra olhar lá pra baixo. Estava escuro, extremamente escuro. De qualquer forma a pouca luz do Sol que conseguia tocar a água lá embaixo dava a ele condições de ver refletido na água o rosto enérgico, duro, enrugado do pai. Novamente o odor se fez forte como uma golfada de bebê. Sentiu vontade vomitar. Segurou. Só não queria mesmo era ser como o pai. Afastou-se um pouco do poço pra respirar um ar menos sujo. Não adiantou. O vômito voltou com mais força e coragem e o fez envergar-se sobre a barriga antes de sair pela boca.
Por que diabos o rosto do pai continuava a persegui-lo, mesmo agora depois dele ter passado tantos anos fora? Mesmo agora depois do pai morto dentro de um caixão lá na sala? Distanciou-se do poço. Não queria estar perto do poço. Não queria sentir o cheiro dele mesmo dentro do poço, nem o cheiro do poço mesmo dentro dele. Olhou pro lado dos morros e os morros ainda estavam lá e eram bonitos, mas a fazenda, a fazenda aqui embaixo estava falida, não era agora mais nem sombra do que havia sido. Não havia mais nada inteiro. Tudo era madeira podre e coisas partidas. “Lugarzinho feio do caralho”. Pensou e no seu pensamento não havia ódio ou rancor, só havia a constatação. E o pai lá na sala, com o seu bigode grosso dentro do caixão. Dele, do pai, só sobraria mesmo era o bigode. Aquele bigode que não tinha servido para salvar o velho da falência. Aquele bigode que só tinha servido mesmo era para que o pai nunca o compreendesse. Aquele bigode que só tinha servido mesmo era pra ter deixado toda a família infeliz e solitária. Ainda estava lá, o bigode, insistia em existir, mas logo, logo ele iria pra baixo da terra, pra dentro da escuridão, como todas as coisas da Terra vão.
A irmã apareceu na porta da casa e o chamou. Como será que ela tinha conseguido passar tanto tempo ali? Só ela e o velho? Ela não sabia o que era o mundo. Não sabia nada. O mundo pra ela era aquela fazenda vazia. Aquelas galinhas de pescoços pelados, as vacas raquíticas .Agora estava velha. Devia estar beirando aos quarenta. O fogo que havia na pele morena dela tinha desaparecido embaixo das cinzas, a própria pele estava cinza. Agora até o rosto dela era o rosto do velho, com bigode e tudo. A irmã tornou a chamar. Não!!! não queria ficar na sala com todas aquelas pessoas lá. Aquelas pessoas atrasadas e velhas e vestidas de negro, olhando o corpo morto do crápula e culpando, a ele, pela morte do monstro.
Logo viria a noite, escorrendo pelo ar feito tinta negra sobre um espelho. E o céu ficaria cheio de estrelas brancas, tão brancas quanto as mãos dela, da mãe, quando ela, a mãe, ainda era viva. Aquele lugar não merecia o céu que tinha. Aquele lugar não merecia uma mulher como a mãe havia sido. Aquele lugar era a morada do monstro e de suas mãos cheias de maldade e malícia. Sentiu na pele, na carne, no corpo, as pulsações incontroláveis que vinham do poço. E o poço estava tampado, mas ele sabia que lá no fundo a água parada pesava, putrefava, apodrecia. Só que não era culpa dele. A culpa era do velho, rosto duro, olhos negros. A culpa era do velho, mãos firmes, mandíbulas fortes, porque o poço sempre estivera lá, invisível, mas fora o velho com suas mãos más e maliciosas quem abriu a terra e deixou o poço escancarado como uma ferida aberta na carne da terra.
E a noite continuava escorrendo, mas escorria devagar, sem pressa de chegar ao chão.E a irmã voltou a chamá-lo, pela terceira vez. Droga, será que ela não entendia que ele não podia entrar? Não agora. Ficava de pé lá na porta segurando aquelas rosas vermelhas nas mãos como se fosse ela a defunta.
Queria poder ir embora dali agora e encontrar os amigos para uma boa cervejada. Queria poder ir embora dali e se trancar em sua casinha simples e pintar por dias e dias seguidos, sem se preocupar com nada além das cores e das águas que correm. Aquele lugar inteiro estava morto, e ele não, ele estava vivo. Queria arrancar tudo aquilo, a fazenda, os morros, a irmã, o pai, a tarde, e mandar pra fora do tempo, do espaço, do universo. Queria se deitar no colo de Márcia e ficar escutando o coração dela bater dentro da barriga. Mas o velho, ainda que morto, exigia que ele ficasse lá. E ele não sabia o que era, ou porque obedecia.
Afastou-se da casa. Tencionava estar só quando a noite chegasse. Andou sem destino, mas chegou ao lago porque as pernas o levaram. Tirou as roupas. Ficou só de cuecas. Mergulhou. Se ele estivesse por lá, o velho, que viesse buscá-lo. Que viesse logo e o levasse para o outro lado. Ele e o pai eram duas faces da mesma moeda. Estavam condenados a ficar juntos. Mas ou o velho não estava lá, ou não queria buscá-lo. Porque várias vezes ele atravessou o lago sem que nada acontecesse. Saiu da água. Agora a noite quase tocava o chão. Cinco ou seis cavalos quase que selvagens passaram correndo em direção aos morros. Sentiu inveja, mas não podia fazer como eles, os cavalos, e sair correndo pra longe. Precisava voltar pra perto da casa, do pai, do poço.
Ao se aproximar da casa pensou em ir até o poço e destampá-lo pra que todos pudessem sentir o odor insuportável que morava escondido lá embaixo. Entretanto desistiu. Não valia a pena. Naquele lugar nada valia a pena.
Entrou na sala. A irmã chorava e o agarrou. Pensou em afastar as mãos dela e mandar que ela fosse pro banheiro arrancar com a pinça fio por fio daquele bigode ridículo. Novamente desistiu, é que mesmo naquele lugar não queria parecer tão mal.
Delicadamente tirou as mãos da irmã de si e foi pro banheiro onde a navalha afiada do velho ainda permanecia sobre a pia marrom.
Lá fora os cavalos continuaram a correr. Em direção aos morros.






sábado, 19 de julho de 2008

Ian Curtis


OSSOS

Há um cemitério e as cruzes são de todas as cores e estão molhadas.
Parece que vão derreter,as cruzes.
E ali debaixo há alguém que se matou.
Alguém que tentou escrever um livro e não conseguiu.
Alguém que tentou tocar violão e não aprendeu.
Alguém que matou a esposa,
Passou a vida inteira preso e um dia,
Sem mais nem menos,
Morreu.
De todas as idéias geniais: OSSOS.
De todos os grandes amores: OSSOS.
De todas as pessoas boas, de todas as pessoas más: OSSOS.
Ossos fortes e duros
Cheios de cálcio e escuridão.
Ossos de crânio, fêmur, dentes.
Ossos de Jackson Pollock nos Estados Unidos.
Ossos de Fernando Pessoa em Portugal.
Ossos de Federico García Lorca perdidos em algum lugar de Espanha.
Ossos branco, cinza, pretos, mas nunca vermelhos.
Debaixo da terra.
Enquanto aqui em cima a água escorre pelas tumbas e o cemitério não ofende a ninguém.
Na rua,
Paralela às cruzes molhadas,
Um senhor passa dentro de um carro,
Vai levar o netinho à escola.
Ao lado do cemitério
Construíram uma escola verde,
Onde, neste momento,
As crianças entram em algazarra.
Há um pé de laranja lima perto do pátio.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Bilhar

Última tacada.
Bola quinze
Na caçapa do canto direito
E o coração pergunta:
- Como pode o verde da mesa ter entrado nos teus olhos, menina.

Talento

Pode ser mera impressão, mas, do ofício de escritor, acho que só aprendi a beber e lastimar.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

PIANISTA BOXEADOR

Sempre gostei de rosas vermelhas!
Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.
Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.
Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!
***
Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.
Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.
Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?
Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.
Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.
Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!
Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.
Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.
Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.
Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.
Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.

A difícil noite do artista


sábado, 12 de julho de 2008

PORQUE DELAS É O REINODOS CÉUS

PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS.
“He ain’t heavy he’s my brother.”
The Hollies.
Para meu irmão Marcos, porque sempre esteve lá.

É estranho vê-Lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. Mas o sorriso é o mesmo, não fossem as rugas e alguns cabelos brancos eu poderia jurar que Ele ainda é o mesmo menino. Aproxima-se sem jeito, ainda rindo meio de lado e o sorriso dEle me desafina, me faz pensar que a minha vida inteira eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Que eu poderia ter demonstrado mais o que sentia pelas pessoas e poderia ter feito mais por elas, entretanto eu não fiz. O caso é que nunca fui mesmo muito bom com esse negócio de sentimentos e emoções. É minha natureza, ou será que esse negócio da natureza é só mais uma das minhas desculpas? Como aquelas que sempre inventei pra não ter assumido o filho que perdi, pra ter abandonado a mulher que amava, ou pra ter comido e descartado tantas outras mulheres pelas madrugadas do mundo? Vai saber.
Ele por seu turno continua sorrindo. Eu tento sorrir de volta, contudo há anos que desaprendi a sorrir e minha boca é como uma pintura colada na cara.
- Paga um doce. – Ele me pede, esfregando as mãos uma na outra como sempre fez a vida inteira. Eu estou tomando uma cerveja só para me lembrar, porque, afinal de contas, esse bairro pequeno e perdido no subúrbio é a minha memória, o meu lado mais humano, bonito e verdadeiro. Havia cinco anos que eu não vinha aqui. Nesse meu ramo de negócios não podemos ser muito humanos e nem muito verdadeiros. O fato é que, apesar de tudo, meu trabalho me deu muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. Contudo Ele, meu amigo, não se importa com todo o meu dinheiro e continua esperando apenas o seu doce ainda esfregando as mãos.
- Ô seu Mariano, o senhor tem caixa de bombom aí? – Pergunto ao dono do bar.
- Tenho.
- Faz um favor então, dá uma aqui pro meu amigo.
O dono do bar continua o mesmo desde que tínhamos oito ou dez anos. Tudo aqui parece continuar o mesmo. As pessoas envelheceram, mas não mudaram o olhar e nem o sorriso. As casas mudaram de cor, contudo conservaram o mesmo cheiro... o mesmo som. As ruas perderam o paralelepípedo e ganharam um asfalto novo e bonito com duas faixas amarelas pintadas no meio, no entanto ainda são as mesmas ruas onde jogávamos bola com gols feitos de chinelo ou de pedra.
- Posso me sentar aqui? Ele pergunta com a caixa de bombom nas mãos sorrindo ainda mais que antes.
- Claro. – Respondo e então Ele se senta ao meu lado no chão da porta de entrada do bar.
- Desse jeito, vocês vão me fechar toda a porta e aí como é que os fregueses vão entrar? – Grita o seu Mariano de trás do balcão. Os pêlos do meu braço se arrepiam. Como é que pode? É a mesma frase que ele gritava pra gente trinta anos atrás, quando nos sentávamos ali na porta, toda a molecada, depois do futebol, pra tomar um refrigerante qualquer em copos descartáveis que ele nos dava pra não ter que lavar tantos copos depois.
- Esquenta não Seu Mariano. Eu dou uma caixinha gorda pro senhor depois. – Falo e ficamos os dois sentados ali, lado a lado, em silêncio olhando a rua. Até que Ele abre um dos bombons e diz:
- Esse é o que eu mais gosto.
- Do que é?
- De chocolate, ora.
- Eu sei, mas ele não tem outro sabor, banana por exemplo?
- Não sei.
- Deixa eu ver a embalagem. – Ele me entrega o papel que envolvia o bombom. Crocante com recheio de creme de leite.
Eu peço mais uma cerveja e reforço para o seu Mariano a idéia de que ele tem que pegar uma cerveja lá do fundo, porque elas é que são sempre mais geladas.
- Tá tudo igual. –Ele grita de trás do balcão. Sempre teimoso e mal-humorado esse Seu Mariano. Há cinqüenta anos que vende a mesma cerveja morna.
- Esse carro bonito é seu? Ele me pergunta com os dentes ainda cheios de chocolate enquanto aponta para o meu carro preto, conversível e importado, com rodas de liga-leve, direção hidráulica, trio elétrico e sistema de freios ABS.
- É sim, gostou.
- É bonitão.
Há trinta anos foi também um carro que mudou a nossa história. Tenho que pedir licença agora, pois o que vou contar não é algo de que me orgulho e também não é uma coisa lá muito bonita. Se quiser abandonar a história ainda é tempo. Se não, creio que o que devemos fazer é nos lembrar dos sapatos de plataforma, dos cabelos black power, das calças boca de sino, do senhor Emiliano Garrastazu Médici e de tudo o mais que compunha o cenário dos anos setenta.
Não é necessário repetir que éramos pobres, entretanto eu era o mais pobre de todos. Sempre descalço, sempre poupando o mesmo velho conga rasgado e vermelho pra escola. Filho de mãe solteira, empregada doméstica. Não era fácil suportar a tiração de sarro dos outros moleques. Ao contrário do que pregam, as crianças nem sempre são boas e inocentes, há muita maldade entre meninos. Mas eu não me deixava abater porque era forte e despeitado, quatrocentas lutas e quatrocentas vitórias, de modo que eu era o líder da nossa turma, mas não era um líder bom e nem piedoso. Este mesmo rapaz que está aqui sentado ao meu lado agora, comendo inocentemente seus bombons, foi um dos que mais sofreu nas minhas mãos.Uma das diversões da nossa turma, talvez a maior delas, era persegui-lo pelo bairro jogando pedras, paus, lixo, ratos mortos e tudo o mais que encontrávamos em cima dele. Eu sempre na frente. Sempre liderando. Sempre tendo que me sobressair e mostrar a minha força, a minha coragem, a minha maldade. Não tinha mesmo piedade, se tivesse um revólver naquela época talvez tivesse dado um tiro na cabeça dEle sem pensar duas vezes. Só pra mostrar o quanto eu era homem, o quanto eu era forte, o quanto eu era gigantesco, potente, maior, melhor, o quanto eu era inquestionavelmente um líder.
Todavia um dia uma coisa aconteceu. É difícil contar isto com ele aqui ao meu lado sorrindo e desembrulhando seus bombons, mas vou contar de qualquer forma. Mais um dia, como sempre, nós o estávamos perseguindo. Eu ia adiante dos outros, como de costume, jogando sobre ele tudo o que encontrava pela frente. Ele era tudo o que eu mais odiava em mim mesmo, ele era a representação física da fraqueza, e eu não podia deixar espaço para a fraqueza, nem uma brechinha sequer. Naquele dia os outros desistiram cedo da perseguição, porque alguém havia acertado uma pedrada, ou uma paulada, ou coisa que o valha bem na cabeça dele e agora ela, a cabeça, sangrava em abundância e ele chorava, mas tinha que continuar correndo porque eu estava atrás com toda a minha fúria. Era tarde já e eu era o único a continuar na perseguição que já devia durar mais de três horas. Lembro que saímos do bairro, atravessamos a linha do trem, a avenida onde os ônibus passavam, entramos no outro bairro, onde moravam outros meninos, nossos maiores inimigos, mas não paramos de correr. Então, de repente, na adrenalina da perseguição, atravessamos uma rua sem olhar pra lado algum. Só ouvi o barulho da buzina e do carro derrapando e então senti o baque nas minhas pernas e voei pelos ares. O carro desapareceu na rua escura. Não fez sequer menção de parar. Minha testa agora também sangrava e minha perna devia estar quebrada, porque eu não conseguia movê-la um centímetro sequer.
Nem nós os havíamos percebido, nem eles nos haviam percebido, entretanto, com o barulho da batida, os meninos do outro bairro que estavam jogando futebol justo ali na esquina da próxima rua, pararam com a bola e foram ver o que tinha acontecido. Era muita sorte pra eles. Eu ali, no meio do bairro deles, caído no chão e com a perna quebrada. Nem em seus maiores delírios eles imaginavam um milagre desses. Nem em suas orações mais fervorosas eles tinham coragem de pedir a Deus que realizasse tamanho milagre, e, no entanto, era eu mesmo lá. Eles foram se aproximando devagar, feito hienas, feito ratos, feito vermes. Eu não sentia medo, há poucos dias tinha assistido ao filme Warriors, Guerreiros da Noite na televisão e estava pronto para morrer representando minha Gang. Não fechei os olhos e nem tremi, contudo num determinado momento eles pararam, ficaram todos quietos no meio da rua. Eu não entendi. Esperava a surra, a depredação, a morte e nada disso vinha. Então olhei pra trás e lá estava ele, com a testa sangrando, mas imenso, com um pedaço de pau enorme na mão. Depois de alguns minutos um dos meninos gritou:
- Ih! Olha lá! Agora o Doidinho pirou de vez. Vai enfrentar nós todos só com aquele pedaço de pau na mão.
Ele apenas levantou o pedaço de pau acima da cabeça e falou com uma voz grossa e calma, como tivesse trinta e não dez ou doze anos.
- Vem pra você ver o que te acontece.
O menino fez uma cara de espanto, não, de espanto não, de medo mesmo e se enfiou entre os outros. Aos poucos, como um exército em retirada, eles foram se dispersando. Primeiro as fileiras de trás, depois as do meio e, por último, as da frente. Um dos derradeiros garotos ainda gritou:
- Vocês estão fodidos quando a gente pegar vocês seus filhos da puta.
Ele fez mais uma ameaça com o pedaço de pau e o menino saiu correndo em disparada. Então Ele se abaixou e me pegou por baixo dos braços de frente e me sorriu esse mesmo sorriso de agora e... por Deus... eu não pude entender mais nada e chorei... chorei... chorei... como nunca tinha chorado nem na frente do espelho e muito menos na frente de quem quer que fosse.
- Pára com isso Marquinhos, você é o líder! – Ele disse e então me jogou nas costas com uma facilidade e com uma força que eu nunca imaginei que ele tivesse e me carregou de volta para a nossa Vila caminhando por mais de duas horas e doze quarteirões.
Agora ele sorri de novo comendo o último bombom e me pergunta enquanto eu limpo com o dedo a baba que escorre pelo canto da boca.
- Posso pedir um guaraná?
- Claro. – Eu respondo.
Ainda sorrindo ele bebe todo o guaraná, reclamando que está doendo a testa porque o refrigerante está muito gelado.
- Então bebe devagar. - Eu falo, só que em vez de beber devagar o que ele faz é virar todo o refrigerante na boca de uma vez. Depois exclama com a mão na testa.
- Aí!
Vendo que Ele não tem jeito mesmo, eu esboço também um sorriso com minha boca pintada na face e balanço a cabeça para os lados.
- Posso pedir uma última coisa. – Ele me diz.
- Vai lá, o que é?
Ele aponta para o carro meio sem jeito, sempre sorrindo.
- Que foi quer dar uma volta? – Eu pergunto.
Ele balança a cabeça indicando que sim. Então eu pago a conta com uma nota de cinqüenta reais e mando o Seu Mariano ficar com o troco. Ele sorri, o Seu Mariano, como sempre sorri quando vê dinheiro e me diz pra voltar mais vezes, não sumir assim. Eu digo que volto sim e abro a porta do carro e mando Ele, não o seu Mariano mas meu amigo, entrar. Em seguida coloco o cinto de segurança n’Ele, em mim também, ligo o aparelho de som para ouvir o bom e velho Elvis Presley... Like a bridge over troubled water... e dou a partida. Ele ensaia uma pequena batucada sorridente no painel, ao mesmo tempo em que nós saímos pelas ruas do bairro em baixíssima velocidade.
Antes de alcançarmos a primeira esquina ele aponta para o alto.
- Que foi quer que eu abaixe a capota? – Pergunto e ele mais uma vez balança a cabeça indicando que sim. Então aperto um botão e a capota aos poucos vai se guardando feito uma sanfona lá atrás. Ele está êxtase e faz um dia lindo lá fora, como há muito tempo eu não via. Atrás do céu azul, espelho de tudo, devia estar o universo e, atrás do universo, um sorriso nos lábios de Deus... um sorriso nos lábios de Deus...
















O autor, Daniel Lopes, é professor de Literatura e Língua Portuguesa e Espanhola do Colégio Objetivo e da Rede Pública Estadual. Em breve lançará seu primeiro romance, É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança, pela Editora Os Viralata. E-mail danielopes26@yahoo.com.br

terça-feira, 8 de julho de 2008

ultimo pranto para Rogério Carvalho de Freitas

ÚLTIMO PRANTO PARA ROGÉRIO CARVALHO DE FREITAS

CREPÚSCULO

Quando a criança morreu,
Seus assassinos colocaram novos sapatos vermelhos de bico fino e marcharam rumo às universidades, aos escritórios, aos supermercados, ao saco escrotal da psicologia moderna, ao cu do Freud com Jung aplaudindo.
Já vinha a noite já, mas ainda havia luz
E os bares vendiam cerveja
E nossas mães estavam longe
E eu estudava ainda...
Ó crepúsculo insano e vermelho
Ó outubro estranho
Ó rio de ratos e baratas deste chão
Ó corda velha de varal que não arrebenta
Um real o metro e teus sonhos todos dependurados
Ó Rogério, gnomo mais triste do mundo.
Vai o Sol quente e indiferente
Já pararam para imaginar a casa vazia e suja?
Fogão velho
Botijão de gás novo
Geladeira alienada e vazia
A cama, nunca arrumada
O som, meu Deus
O som.
E o corpo pendurado no meio, sozinho
Já pararam para imaginar ele enchendo sozinho sua mochila de morte?
E no acadêmico as meninas flertavam com os rapazes, que olhavam as meninas.
Já pararam para imaginar o quão vazio era o silêncio?
E na cantina tagarelavam os professores ao jazz de colheres nas xícaras de café.
Já pararam para imaginar as mãos ficando roxas, as unhas, sem meia-lua, ficando roxas, os olhos fora das órbitas e as órbitas abertas ao nada?
Já pararam para imaginar o cansaço, a tristeza, o ódio, o tédio, a sensação de abandono, as unhas rasgando a carne do pescoço tentando em vão talvez voltar?

Um cachorro entra pela porta
(Vem a morte vestida de mosca e põe larvas no menino)
As creches soltam as crianças nas tardes onde as crianças ainda têm mães
(Vem a morte vestida de mosca e tira a música do menino)
Um semáforo fica vermelho, um pedreiro cai do andaime, um marceneiro perde os dedos, um açougueiro mói as mãos
(Vem a morte vestida de mosca, varejeira, e toca alegre a vinheta do vídeo show)
Uma mulher olha sentada da cama
(Vem a morte vestida de noiva e corta as unhas do menino)

Água estancada
Pedra
A letra U
Um urubu
O silêncio
As notas mais graves
Cruz
A barba que cresce indiferente
A cor preta
Um rato morto na rua Procópio Dias
Um carro quebrado
Uma pedra de gelo
Uma camisa do Náutico, do Corinthians, do Fluminense.
Um bom conselho
Você tentando dar comida na boca da Sílvia doida
Um trem azul
Uma voz de criança ao telefone
Um contra-baixo
Um porco magro
Um palco vazio
Um estádio de futebol
Uma caneta
Uma pasta na mão e o plano de partida.
Nunca mais seremos os mesmos, Rogério.
Nunca mais sorriremos nos bares tomando cerveja e ouvindo o clube da esquina.
Nunca mais voltaremos à nossa velha casinha velha
“Houvera tantas madrugadas em vão nessa esquina?”
AAAhhh!!! Quebra o gelo, irrompe o escuro, explode o delírio,
Mas volta parceiro, nem que seja em sonho.

NOITE

Já se fecharam os bares
As dentaduras repousam nos copos
Uns casais que se amam e outros que nem se amam tanto assim fazem amor já
A lajota vermelha ainda está fria
Mas teus pés descalços já nem a tocam mais.
Já podes voar, parceiro
Indiferente às aranhas do mal que inundam a casa, aos ratos no chão.
Já podes voar parceiro
Indiferente à noite densa que escorre pelas vidraças, sobre os bueiros, nas paredes dos prédios de apartamentos.
Teu corpo já não é necessário
Queriam o teu sangue e o teu sangue tiveram
Agora podes te rir desta corda estúpida, deste silêncio.
Da tua mochila de viagem brotam leões selvagens, canários da terra, do reino, uma pantera, um tigre, um cavalo, um punhal, um endereço marcado no papel, lagartixas que também fazem parte, um natal, um mês de férias, camelos alucinados.
Já podes voar pelo todo
Foda-se o espaço da casa fechada
Fodam-se as reflexões do príncipe de Shakespeare
Teus amigos têm o crânio dormente
Voa que o infinito é irrisório
E o abismo não faz medo algum.
Teu coração brilha feito um Sol estático
Já vêm os anjos do Senhor ao longe e a roupa branca
Desmentindo tudo o que dizem a respeito dos suicidas
Se você fosse japonês seria recebido aí do outro lado com honras,
Samurai do parque Buracão.
Salve Rogério, salve
Segue, segue, segue Rogério, o rio,
Porque as águas dele são tão alvas.
Segue o rio, irmão
Segue o rio
Que os anjos estão chegando,
Com a roupa branca e tudo.

AURORA

Brotam rápido os girassóis do chão
E tuas mãos podem tocar os céus
Te faz sorrir a melodia mais bonita
O rio segue pelo campo de girassóis
Só não deves xingar os anjos
Em breve Van Gogh te fará um retrato com o baixo nas mãos e as capas daqueles discos bons atrás.
O álcool já não faz diferença
A água já limpou tuas feridas
Deus te quer ao lado
Quer ouvir tuas canções favoritas
Corre o rio como um longo diamante
Já não precisas passar de ano
Já não precisas aprender inglês
Já não precisas perdoar cicrano
Esquecer o amor
O inverno ficou pra trás
Todos os filhos da puta ficaram pra trás
Já te brilha nos olhos uma terra maravilhosa
Segura a mão dos anjos, segue o rio
Olha o campo de girassóis
O Sol já vem
Como nos tempos de Office-boy,
Na estação da Luz.

MANHÃ

E vendo o Senhor Deus
Que ainda lhe faltava luz nos olhos,
Encheu-lhe os olhos de luz,
As mãos de sons,
Contra-baixo de marfim.
O Sol ilumina sem esquentar muito
A voz de Milton Nascimento
Nascente
Caminhando numa terra maravilhosa
Um poema antigo
Uma mulher bonita
Caminhando numa terra maravilhosa
Um carrinho de brinquedo
Uma pomba branca no céu azul
Caminhando numa terra maravilhosa
Longe dos ônibus, caminhões, serras-elétricas, fios de luz que te cortavam os olhos
Caminhando numa terra maravilhosa.

A Sofia está crescendo queria que ela sentasse no teu colo e te chamasse de tio.
O Ceará vai ter um filho,
Caminhamos pela Dom Antonio rumo à velhice inevitável
Longe vão os tempos da banda Assis
Longe vão os tempos do Neguinho
Longe vão os tempos do nosso tempo
Agora é só um vazio
E esse Sol que não se põe nunca
Queria fazer um longa-metragem falando da gente.
Queria ter te dado um beijo de adeus
Queria estudar latim.
Queria, queria, queria,
Sempre quis o impossível.

sábado, 5 de julho de 2008

Sobre um livro ruim de crítica.

Então é mais um sábado que vai passando e eu continuo sem poder beber uma sequer cerveja. Estou sozinho em casa. Toda a semana foi como um sonho, como algo imaginado e não vivido. Daqui a mil anos os sábados ainda existirão, mas eu não, ainda bem, ainda bem? O romance empacou. O projeto da compra do carro empacou. Tudo empacou. Tudo não, quase tudo, pelo menos ainda posso ouvir o bom e velho Allman Brothers no youtube, sweet melissa... sweet melissa...

Não faço nada.

Não tenho a menor vontade de fazer nada.

Quiçá um cochilo agora seja a melhor pedida.

Mas vou escrever um pouco só porque comecei a ler um livrinho aí e cheguei à conclusão, mesmo sem terminar o livro, de que tem muito neguinho bancando o intelectual, o crítico, o formador de opinião nesse nosso paisinho. Esses caras repetem feito papagaio o mesmo discurso futuro da crítica passada e acham que descobriram o ovo de Colombo. Escrevem livros tão óbvios de crítica, quanto as próprias ficções óbvias que execram. Polêmicas literárias? Discussões estéticas e filosóficas? Uma nova questão Coimbrã ou qualquer merda assim no século XXI? Mas será que vocês não perceberam ainda que o discurso do crítico bilioso e iconoclasta e toda essa literatice já virou mais um chavão e o que é pior, um dos mais bobos?

A literatura brasileira está uma merda porque falta criatividade aos escritores, mas está uma merda tb porque nessa merda de país só existiram dois críticos de verdade Otto Maria Carpeax e Anatol Rosenfeld.

Ora, tocar outra vez a velha flauta do Cabotino não engana mais ninguém. Criticar o óbvio ululante não incomoda mais ninguém. Pousar de sabichão para escritores analfabetos e inseguros é um trabalho que beira o ridículo de tão medíocre que chega a ser. Só mesmo no Brasil para alguém, UM FORMADOR DE OPINIÃÃÃOOO, se dar ao trabalho de escrever um livro tão inútil quanto O Cabotino.