sexta-feira, 23 de maio de 2008

É PRECISO TER UM CAOS DENTRO DE SI PARA CRIAR UMA ESTRELA QUE DANÇA 2

4.
Um belo dia eu estava brincando sozinho com uma bola lá na quadra da escola, quando o Théo me veio com essa:
– Uma banda! Isso mesmo vamos montar uma banda. E aí cê tá afim? Quer fazer parte?
Pensei um tempo.
– E quem mais vai tocar?
– Por enquanto eu falei com o Tico e o Digão.
– E o que é que eu vou tocar? Não sei tocar nada direito.
– Tava pensando em você no baixo. Hein, já imaginou! O baixão!
– Mas eu nem tenho o instrumento!
– Isso aí eu já tô dando um jeito. Vou descolar rapidinho um baixo e jogar na sua mão. Aí você se vira, treina dia e noite, até pegar o jeito da coisa.
– Firmeza então. O Digão é um bom baterista.
– E o Tico então na guitarra... solando! Você precisa ver irmão.
– E quem vai cantar?
– Eu, e vou fazer a guitarra base também.
– Boa banda.
– Boa banda? Vai ser uma puta banda, parceiro!
– Se eu aprender a tocar.
– Você vai Maninho, tenho certeza que você aprende rapidinho. Você é um cara esperto! E sensível além de tudo! É impossível não dar certo! Agora vamos fumar um aí pra gente clarear as idéias e pensar melhor no assunto.
E foi nessas aí que eu fiquei quase um mês sem sair de casa, a não ser pra escola é claro. O tempo todo ouvindo The Who e com o dedão em cima do captador. Nem bola eu jogava mais. O Théo tinha descolado um baixo preto e uma caixinha pra mim. Gente fina aquele Théo. Nessa primeira parte aí, a de aprender o básico, até que eu me saí bem. O problema era depois, era ter confiança e segurança pra deixar a coisa sair natural, redonda. Além do mais, durante os ensaios, eu não podia me distrair um segundo sequer que acabava errando tudo.
Assim, até porque nós tínhamos um bocado de pressa, montamos um repertório e começamos a trabalhar em cima dele. Não era, nem podia ser por minha causa, dos mais difíceis, o repertório. Apelamos logo para os bons e velhos Beatles, Stooges, MC5 e um pouco de Nirvana. Até tentei um Roberto Carlos... mas foi melhor deixar quieto.
Não posso mentir, a banda tinha um bocado de paciência comigo, mas o problema é que eu precisava de mais uns dois ou três anos treinando e eles queriam se jogar na noite em um, ou dois meses. Fiz o que pude. Em alguns ensaios até que eu conseguia tocar direitinho, embora a coisa saisse meio quadradona; em outros entretanto eu cagava em tudo, não conseguia sair do lugar. Um horror! Meus dedos eram desobedientes demais, nunca faziam como eu queria. Eu olhava o tico e o Théo tocando e parecia que os dedos deles dançavam, deslizavam sobre o braço do instrumento. Do meu lado a coisa caminhava terrível, lastimável. No final de cada ensaio eu via a cara do Tico e do Digão, mal se despediam de mim. Não escondiam suas opiniões: achavam que eu deveria ser demitido imediatamente e no meu lugar colocariam outro baixista. Melhor, mais seguro, mais experiente. O supra-sumo dos contra-baixistas, praticamente o Ginger Baker ali do bairro, esse cara tinha um nome: Raul. Meu inimigo.
Era o Théo quem ainda se dobrava e se desdobrava pra me manter na banda. Gente fina aquele Théo!
Além desses problemas aí com a banda, eu tinha um outro bom problema: Minha mãe. A velha não parava de me aporrinhar. Era que depois que tinha inventado esse negócio de música eu não estudava mais. Era que daquele jeito eu ia acabar repetindo. Era que esse negócio de música era pra ficar em segundo plano e blá... blá... blá.
Um dia eu cheguei na casa do Théo pra ensaiar e de cara notei que tinha alguma coisa estranha.O Théo foi quem chegou pra mim e foi logo dizendo:
– Aí Maninho, a gente tá dando uns tiros aí. Tá afim?
Fui até o banheiro e vi as quatro carreiras trabalhadas no mármore da pia. Adeus vida de atleta, seja bem-vinda vida de Roqueiro. Peguei a nota enrolada e mandei a menina pra mente. No quarto onde a gente ensaiava tinha uma garrafa de uísque aberta e um copo cheio. Bebi um gole e esperei.
Bateu e bateu bem.
Pus o contra-baixo no peito. Liguei no amplificador e mandei a mão. Eu tocava e não me importava se errasse. Simplesmente mandava a mão sem medo ou receio.
Na minha cabeça eu tava tocando bem, mas, quando paramos pra retocar o nariz, o Digão disse:
– Aí Maninho, não é por nada não, mas hoje tá embaçado hein!
– Pior que nos outros dias! - Isso aí quem falou foi o Tico.
Com essas perdi o domínio. Eu achava que naquele dia tava tocando demais. Achava que eu tava tocando com alma, com o coração, com as bolas. Mas que nada, tava tudo uma grande merda, ainda pior que nos outros dias, como disse o Tico.
– Que nada, vamos dar mais um tiro que melhora. - Disse o Théo. Gente fina esse Théo!
E aí cheiramos mais e eu matei o copo de uísque todo de uma vez, mas nem assim eu me sentia melhor. Os caras tinham conseguido me nocautear. Estava tocando pior ainda.
– Assim não dá. - Disse o Tico e tirou a guitarra.
– Calma pessoal.
Continuei calado. O Digão entrou na conversa e fuzilou:
– Aí Maninho, vou ser sincero, você sabe que o que eu tenho que falar falo na cara. O negócio é o seguinte. Não tá dando parceiro, tá ruim demais!
Tirei o baixo, guardei-o dentro do estojo. Virei pro Théo e falei:
– Aí Théo, tem jeito de dar mais um tiro?
– Claro.
Fomos pro banheiro. Ele jogou o papel no mármore. Trabalhou duas carreiras e passou a nota pra mim. Mandei uma e deixei a outra pra ele.
Voltei pro quarto. Tomei mais um copo de uísque. Parei no meio da sala e emendei de primeira:
– Querem saber de uma coisa. Tirando você Théo, os outros podem enfiar essa banda no olho do cu. Falei bem assim e fui saindo, mas antes de sair, me virei novamente e cantei: Aí Digão, quer saber, vai se foder, você e essa sua sinceridade. Sinceridade de cu é rola, maluco. Aí virei de costas e sai.
Antes de alcançar o portão encontrei a Myriad que me cumprimentou e a quem eu agarrei pelos braços e meti um beijão na boca antes que ela pudesse esboçar qualquer reação. Depois ganhei a rua.
A caminho da padaria os Morros me deram um boa noite meio sem graça, estavam tristes aqueles Morros ali. Sentei ao balcão e pedi uma cerveja. Eu tinha dinheiro pra tomar umas duas. Fui bebendo devagar sentindo aquele gosto amargo descer pela garganta. Fiquei com vontade de largar tudo e sair correndo pra um lugar onde ninguém pudesse me encontrar. Mas o problema era que esse lugar não existia, então eu tinha mesmo que ficar ali e suportar todo aquele vazio, aquela ausência que faltava explodir o espírito da gente.
Pedi outra cerveja e bebi essa segunda ainda mais devagar que a primeira. Lá fora tudo estava vermelho por causa do Sol que se escondia. O cheiro de pão quente me fazia bem e eu fiquei com vontade de arranjar uma garota e me casar e comprar pão quente pra ela quando eu voltasse pra casa à tarde do trabalho.
Paguei as duas cervejas e comprei cinco pães. Cheguei em casa. Levantei o portão e o abri. Virei a maçaneta da porta. Estava trancada. Coloquei a chave na fechadura, girei e abri. E foi então que eu vi aquele cara, na maior folga, deitadão, só de CUECAS no sofá assistindo televisão.
– Que porra é essa? - Perguntei.
E foi bem nessa hora aí que minha mãe saiu do banheiro só de toalhas comentando qualquer coisa com aquele cara ali. Ela se assustou quando me viu, mas mesmo assim ainda teve coragem de dizer:
– Oi Osman, esse é o Ari.
– Ari?
– É Ari. Ele é meu namorado.
O cara ficou lá com aquela mão cheia de dedos estendida pra mim. Ignorei-o. Fui pro meu quarto. Coloquei os fones nos ouvidos e fiquei olhando o teto. Havia nele, no teto, pequenas rachaduras que se a gente usasse a imaginação poderia achar parecidas com um dragão, ou um canguru e até um tigre a gente podia imaginar olhando aquelas rachaduras. Podia mesmo.
5.
E como o negócio do futebol não dava mesmo certo, e como eu não tinha mais banda nem nada, resolvi me dedicar à poesia. É verdade que eu andava abstrato o suficiente pra construir as metáforas. Era lá bilbioteca que eu ficava e foi lá, numa tarde daquelas, que eu resolvi escrever um soneto (todo poeta que se preze tem que escrever um soneto uma vez na vida). Decassílabo e tudo. Seria um poema existencialista, inspirado naquele poema Ao cair da tarde, do grande Emiliano Perneta.
Comecei. Demorei três dias pra escrever o primeiro quarteto e mais dois dias para o segundo. Com os tercetos a coisa andou melhor. Numa tarde escrevi os dois. O poema era esse aí:
Ah! O coração do homem é um barco
Quase sempre muito longe das terras
Sempre perdido num mar entre feras
E tendo na alma a infância como marco.

E na adolescência cria suas quimeras
E na velhice torna-se só e fraco
Navegando a vida vai feito baco
Sensual, trágico, enfrentando guerras.

Mas os barcos voltam sempre ao cais
E aos homens a infância não volta mais
Toda volta se resume a recordar.

E se a vida é sofrer, morrer e amar
Que o homem leve a criança que traz
Dentro de si. Todo sempre a sonhar.
Pus ele no bolso e me senti poderoso. Eu era um artista enfim. Eu carregava o mistério na algibeira. Valia mais que dinheiro, na minha cabeça, é claro.
6.
Uma noite eu e o Théo estávamos jogando sinuca, quando entrou uma morena de tirar o fôlego. Ela tinha um cabelão liso escorrido até a cintura, parecia meio índia, mas tinha os olhos verdes, tão verdes que pareciam até bolinha de gude. Estava com mais três amigas que também não eram nada feias. O Théo, auto-estima nas nuvens, foi logo dizendo que iria chegar na morena, mas que é isso Théo? Essa morena aí não. Essa morena é minha e eu tenho no bolso, dentro da minha carteira, um baita dum soneto que vai fazê-la sair desse planeta. Quanto ritmo, meu rapaz! E que cadência! Não dá pra você Théo, não com um artista como eu por perto.
O problema nesses casos são as primeiras palavras. É difícil saber dizer alguma coisa que seja ao mesmo tempo coloquial e inteligente. Nesses momentos nem a Bíblia, nem Céline podem ajudar. Mesmo assim, repassei na mente todas aquelas passagens brilhantes do Viagem. Estufei o peito e com um ar de tristeza, desepero e mistério, emendei de primeira:
– Oi.
– Oi. - Elas responderam.
– Será que eu posso pagar uma cerveja pra vocês?
– Uma não. Se quiser pagar, pague pelo menos duas.- Disse a índia de olhos verdes
Chamei o Théo. Pegamos as cervejas e nos sentamos numa mesa próxima de onde elas jogavam. Seríamos os próximos, o Théo e eu. Sete reais nos bolsos era o que eu tinha e esse negócio de não ter grana acaba mesmo com a auto-estima de qualquer cristão, entretanto eu tinha a poesia e continuei firme em cima da índia. Jogava bem, ela, e disse que gostava de Velvet Underground, Andy Warhol, Leonard Cohen e Hadcliff Hall. Hadcliff o que? Hall. Você não conhece? Ó sim já ouvi falar. O poço da solidão, conhece? É um belo título, eu também escrevo poemas sabia? É sério? E quem são suas influências? Emiliano Perneta, conhece? Emiliano Perneta! Nunca ouvi falar! É um grande poeta, se quiser posso te recitar um soneto louco dele. Sei de cor. Então recite.
E foi assim que eu recitei pra ela o poema “Ao cair da tarde”, enquanto ela acabava de matar a bola 15 e encerrava o jogo. Transcrevo abaixo o poema só pra homenagear o Perneta, bom Poeta.
Ao cair da tarde.

Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo.
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa.
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo...

Nem rosas, nem luar, nem damas... Não me iludo
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O Sol! E no covil negro desse abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde!

Para que mais viver, folhas tristes de outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.
Depois disso tudo aí, imaginem o que ela disse seca. Saca só:
– Pra ser sincera, eu não gostei muito do poema, muito formal, óbvio, às vezes até cafona com esse enjabement e esse tema mais que batido.
– É mesmo?
– Sim, mas leia por favor algo seu.
Com essa eu perdi o rebolado. Se ela não tinha gostado do poema do grande Perneta, o que acharia então do meu pobre sonetinho!
– Anda, mostra algo de seu pra mim. - Ela insistiu.
– Não, melhor deixar isso quieto. - Respondi. O Théo, sentado numa cadeira, acenava negativamente com a cabeça.
– Deixa de ser bobo vai, mostra logo!
– Tudo bem, já que você insiste, lá vai.
E foi aí que eu li pra ela o meu soneto.
Enquanto recitava, não tinha coragem de tirar os olhos do papel. Quando terminei, houve um silêncio e aquele típico mal-estar que precede o desmoronamento. O Théo levantou e foi buscar mais uma cerveja. Enquanto houver cerveja há esperança, basta continuar enchendo os copos e foi o que fizemos. Matei o meu copo e o enchi novamente. Ela acendeu um cigarro, ajeitou o cabelo atrás da orelha e só depois disse:
– Olha, vou ser sincer com você. (Outra vez! O pior era que agora todo mundo tinha inventado de ser sincero comigo). O poema não é de todo ruim. É um tema até legal e você passa uma certa melâncolia, uma espécie de ingenuidade. O problema é que seu texto não chega a tocar a coisa, talvez por causa da forma, talvez pela confusão sobre o que é realmente poesia. O fato é que você não consegue entrar no vulcão e recolher a larva quente.
– É?
– Sim.
– Puxa, pelo menos o Théo aí ainda tem um pouco de dinheiro pra mais uma cerveja. - Falei e levantei pra brincar com a última bola que estava na mesa de bilhar. Só que aí fiquei nervoso. Voltei pra mesa e falei na cara dela:
– Acho que um cara que escreve um poema desses não tem a menor chance com uma mina como você. Mas aí, eu queria que você me visse batendo umas faltas. Aí sim você veria a larva, mas ela não sairia de vulcão algum e sim de dentro desse seu corpo delicioso.
– Do que é que você está falando? Faltas?
– É falta... futebol, entende? Você sabe o que é futebol, não sabe? Trave, gol, falta, pênalti, goleiro? Ou será que você é muito corôa pra saber dessas coisas? Quantos anos você tem mesmo? ( o que é que tinha a ver futebol com idade, nem eu sabia)
– Vinte e oito.
Com essa ela perdeu a empáfia, embora me desprezasse ainda mais. Era certo que mais uma vez eu tinha perdido a linha, que tava fazendo de novo papel de bobão. O indecifrável poeta bobão, mas naquela altura eu também não me importava mais.
– É verdade. - Ela disse – Você tem razão. Não tem como beijar você, porque você até que parece ser um cara legal e se eu te beijasse teria vontade de dormir com você, entretanto é mais que sabido que quem dorme com criança acorda molhado.
Uh! Essa doeu!
Fiquei mais nervoso ainda. Só que então, no meio da raiva, comecei a me entristecer. De novo era o vazio, o abismo dentro de mim que estava voltando. Parei de responder e de brincar com a bola. Fui até o balcão e pedi um copo de pinga. Bebi tudo de uma vez. Dei adeus a todos e fui pra rua e o espaço aberto me fez bem. Era uma noite nublada. Cinza mesmo. Se houvesse árvores naquela rua ali, elas seriam balançadas pelo vento. Coloquei os fones nos ouvidos, baixinho... a touca na cabeça e aquele abismo todo pelo lado de dentro. Ouvi alguém me chamando lá do fundo da tempestade, mas não dei atenção. Devia ser o Théo e eu também não estava afim... Ouvi chamarem de novo... e de novo... e de novo... mas eu não me viraria pra olhar. Não tinha mais vontade e nem coragem.
De repente, não mais que de repente, senti uma mão nos meus ombros, novamente. Olhei. Era ela. Não me impressionei.
– Que foi? Veio pisar um pouco mais?
– Não seja tão bobo! Por que é que você faz todas essas bobagens?
– Não tenho pai.
– E o que é que tem isso a ver?
– Não sei, sei que é assim.
– Pára só um pouquinho e me escuta.
– Que é que você quer porra? Deixa o otário aqui ir embora em paz.
– O que eu quero? É bem simples: Um beijo teu.
– É, e por que?
– Vai me beijar, ou não vai?
– Só se for agora.
Daí pra frente, tudo aconteceu muito rápido. Não sei se dali em diante foi a pinga que bateu, ou se foi a chuva que caiu forte demais. O que sei é que nós demos a volta no cemitério e chegamos à minha casa. Entrei primeiro pra ver se a mãe estava dormindo e, pra minha sorte, ela estava mesmo. Caímos pro meu quarto. Tranquei a porta e o que aconteceu depois seria deselegante da minha parte contar.
7.
Ela se foi antes do amanhecer. Não deixou telefone ou endereço. Chamava-se Benedita, ou pelo menos dizia se chamar Benedita. Nunca mais a vi. Manjava um bocado de literatura. Fumava muito também, feito a Morte. Disse-me algumas coisas sobre sua vida que me deixaram um bocado triste. Criava coelhos, a Benedita. Se algum dia estas páginas chegarem às suas mãos, sei que você vai ter um bocado de coisas pra criticar, mas que essas linhas fiquem para você como um beijo. Um beijo terno pela sua compreensão.
8.
Foram dias bem difíceis aqueles depois da Benedita. No começo foi ansiedade até dizer chega. Praticamente todas as noites eu voltava àquele bar onde a gente tinha jogado sinuca. Ela nunca mais apareceu por lá. Teria sido um sonho? Não sei. Agora é bem tarde pra saber. Numa daquelas noites, até por não ter dinheiro, fui até o balcão e pedi um copo cheio de pinga como da outra vez. Fiquei meio bêbado. Andei devagar até em casa, ao contrário daquela noite, esta estava bem estrelada e a lua minguante parecia que parecia um sorriso no rosto do céu. Dei a volta no cemitério e cheguei em casa. Levantei o portão, abri e entrei. Todos os móveis pareciam derretidos no meio da casa. Ali no canto da parede o bode tocava violino. Fui pro meu quarto. Bolei um baseado. Coloquei o David Bowie pra cantar. E fumei. Deitei na cama e pensei que ela merecia um poema. Peguei o papel e a caneta. Lembrei do reflexo da luz no corpo dela, dela matando as bolas, jogava bem a danada, a cerveja brilhando no copo. Devo ter sorrido sozinho ou chorado, sei lá. Sei que veio tudo lá de dentro e de uma vez eu escrevi:
Bilhar
Cerveja pela metade .
Última tacada.
Bola quinze na caçapa do canto direito.
E o coração pergunta:
– Como pode o verde da mesa ter entrado nos teus olhos, menina?
Na verdade, não foi exatamente assim que o danado saiu, mas o cerne já era esse aí. Deixei a massa descansando na gaveta alguns dias e depois foi só retocar a coisa.
Agora sim, um beijo Benedita.
9.
Porque minha mãe andava atormentando demais, resolvi arranjar um emprego. Tive que mudar para o noturno na escola e é claro que isso também não a agradou. Tudo bem, eu também não andava muito católico com ela depois do episódio do cara de cuecas.
O problema era que o emprego era um bocado ruim. Feira. Banca de pastel. Levantava às cinco da manhã. Pegava a perua. Ìamos eu e uma japonesa, filha do dono da barraca. Eu montava a barraca praticamente sozinho. Depois colocava o óleo pra esquentar. Pendurava na cordinha de varal as bandeirinhas com os preços e os sabores dos pastéis. Então era só esperar os fregueses começarem a chegar. Primeiro vinham poucos, mas depois das nove horas eles chegavam em bandos de cinquenta. Eu tinha que colocar os pastéis no tacho e fritá-los, às vezes que largar o tacho e ir correndo moer cana pro caldo. Outras vezes era a porra do gás que acabava bem na hora de maior movimento. Outras ainda era um freguês que enchia o saco porque o pastel estava encharcado, ou porque o pote de catchup estava vazio.
Eu ficava só pensando no depois, quando meus livros fossem publicados e eu aparecesse dando entrevista na televisão. Imaginava a cara que os fregueses fariam quando soubessem que aquele ser que fritava pastéis, aquele cara feio e cheio de espinhas, nas horas vagas, ficava sozinho no quarto escalando o Himalaia.
Numa dessas manhãs aí, antes de trabalhar, fumei um baseado e... cara... aquele fumo era dos bons. Num segundo eu não sabia mais nem quem eu era. Mesmo assim fui trabalhar. No caminho da feira desse dia aí a gente tinha que passar com a perua embaixo de um viaduto. Nesse dia eu tava tão doido que, quando passamos debaixo do viaduto, eu, dentro do carro, dirgindo, abaixei a cabeça com medo de bater com ela na ponte. Vai vendo.
A coisa não iria mesmo dar em nada que prestasse. Quase não consegui montar a banca... as coisas caiam... pros lados... não se encaixavam direito. A japonesa ficava o tempo todo falando na minha orelha:
– Sman, que tem você hã? Que você tem hoje hã?
Esqueci de ligar o fogareiro e quando os clientes começaram a chegar eu colocava os pastéis e eles iam lá pro fundo do óleo frio. O pior era que a brisa não passava de jeito nenhum.
– Sman, que tem você hã? Que tem você hoje hã?
E aí chegou a hora do movimento e o meu sofrimento você aí, no seu sossego lendo este livro, não pode imaginar. Era pastel que caia no chão, que ficava encharcado. Moendo cana quase prendi os dedos, mas fui esperto e puxei a mão fora no último segundo.
– Sman que tem você hã? Que tem você hoje hã?
Parecia que tudo que podia dar errado, acabava mesmo dando, pois até o gás acabou. Corri na perua... peguei outro botijão... troquei...
– Sman que tem você hã? Que tem você hoje hã?
Eu pensava, quando olhava pra cara dela, em dizer bem assim:
– Tenho tudo sua filha da puta... sua imbecil que só pensa em juntar o seu dinheirinho... o seu rico dinheirinho... Pra que, porra? Pense em algo grande, sua budista bunda seca. Será que você nunca pensou no mistério, na arrogância, no bem, no mal, na irrealidade de um pênalti cobrado numa copa do mundo, que bate na trave, volta nas costas do goleiro e entra?
– Sman que tem você hein? Que tem você hoje?
– O que eu tenho?
– Que tem você hoje?
– Nada.
E a gordura quente espirrando nos meus braços, queimando. Realidade filha da puta! E corre prum lado, mói cana e corre pro outro frita e entrega pastel. Quinze reais, isso... e aquela filha da puta da Benedita que tinha desaparecido pra sempre... e aquele cara de cuecas... e a bola... e os pastéis fritando... e a poesia no Alasca... e isso... e aquilo... e aquilo outro também... é pau... é pedra... é o fim do caminho...
Só escutei foi o grito da japonesa quando aquele óleo todo virou em cima das pernas dela. Foi sem querer, mas os clientes ficaram me olhando de um jeito estranho, pareciam me culpar. Tudo é culpa nessa porra desse mundo! Fodam-se todos. Senos e co-senos, rodopiando sem motivos na cabeça minha. Yppon nela e ela gritando e toda a gente me olhando. Se vocês querem mesmo saber... é o seguinte: Bem feito pra ela também. Toda vez que eu comia um pastel, ou tomava um caldo de cana ela sempre descontava do meu salário.
Pra finalizar, peguei um pastel que já estava frito no escorredor, comi e aí... bem... aí fui embora. Eu tinha a minha dignidade. É sério!
10.
Se antes já não eram poucos os meus problemas, pra completar agora eu tinha mais esse aí, o de ter mudado de horário na escola. Na verdade mesmo eu andava era querendo parar de estudar. Não agüentava mais aquela escola. O único lugar que ainda colocava no meu coração uma certa calma era a biblioteca. Tinha uma Bíblia lá. “Ele me faz descansar em verdes prados, a águas tranqüilas me conduz”. Ninguém entendia porque é que eu não conseguia mais estudar. Minha mãe então... essa aí é que não compreendia mais nada... estava indignada. Ela é boa nisso de se indignar. Eu, do meu lado, continuava pedindo a benção pra amenizar. Só que isso aí de pedir a benção não estava mais adiantando muito. Não sei se da minha parte era vagabundagem mesmo ou se era depressão. O que eu sei é que passava o dia inteiro na rua... fumando... nem futebol mais eu jogava.
Toda noite era o mesmo inferno. Eu não conseguia ir pra escola. Terceiro ano... só me restavam os discos... os livros. Então li: Morte à crédito, A mulher mais linda da cidade, Judas, o obscuro, O pequeno príncipe, A fome, Fogo morto, Os inocentes, Nirvana, enquanto a chuva cai, Meu pé de laranja lima, O processo, El cancionero gitano, Meu marfim que sangra, Eu e outros poemas, On the road, Pergunte ao pó, Sonhos de Bunker Hill, São Bernardo, Brida, Cozinha do inferno, Sob minha lápide de aço e sangue, Os pervertidos, O perfume, Trópico de câncer e mais alguns que agora não consigo me lembrar.
Ler era importante, só que tinha um problema sério: escrever, isso aí eu não conseguia. Parecia que quanto mais eu lia, menos idéias eu tinha pra escrever. Andei indo ao cemitério à noite pra ver se encontrava a Dona Morte, quem sabe se ela não batia mais cinco minutinhos de papo comigo. Mas qual Morte que nada. Nem sinal dela. Uma moça muito ocupada. Isso aí é que ela era, a Dona Morte.
Num desses dias aí de Sol e Solidão, eu estava em casa folheando uma revista pornográfica, quando alguém chamou no portão. Eram o Théo e o Macalé.
– E aí. Falei.
– E aí. Responderam.
– Que é que manda?
– Então, o negócio é o seguinte. Você anda aí meio sumidão. Sem coragem de sair pra rua. A gente queria saber se tu não tava afim de jogar uma bola e mais tarde, quem sabe, nadar. - Disse o Théo.
– Sei não. Tô afim de ficar entocado.
– Porra cara, tu não cansa não? De ficar o tempo todo aí dentro sem fazer nada?
– E quem foi que falou que eu não faço nada?
– E o que é que tu faz, porra?
– Escrevo.
– Escreve?
– É, escrevo.
– Porra Maninho, se liga, até te admiro dessas tuas histórias aí. Mas, cara, a gente é jovem. Olha o dia, o Sol. Vida meu irmão! Vida! Acorda, parceiro, daqui a pouco a gente tá com quarenta anos. - Isso aí quem falou foi o Macalé.
– Quarenta anos? - Perguntei.
– É, quarenta anos.
– Faz um tempo aí então que eu vou colocar uma sunga por baixo da bermuda. - O tempo, esse aí não é brincadeira. Taí um assunto no qual a gente não pode vacilar.
Fomos bater uma bola numa quadra lá da outra vila, com os malucos de lá. Gente fina aqueles caras ali, puseram um baseado bom.
Tudo até que corria bem, mas depois do jogo, me deu aquela coisa esquisita de novo e eu desisti de nadar. Cada um tinha sua vida pra continuar. Todos pareciam ter um rumo, saber para onde caminhavam, mas eu fiquei ali, no meio da rua, parado, olhando a tarde de fogo engolir a tudo e a todos, feito uma imensa fornalha. Se ao menos eu pudesse desaparecer, não existir mais, não estar mais em lugar algum, mas pra qualquer lugar que o Maninho ali, ele mesmo o Osman, fosse , estaria condenado a ser ele mesmo e o que era pior: Estava condenado a ser visto pelos outros como ele era.
O Théo e o Macalé, àquela hora, estariam já bem sossegados, nadando. Não percebiam coisa alguma. Não notavam que a coisa borbulhava, se debatia, fazia surgir a larva quente e vermelha desde o umbigo da Terra. Em mim a larva ferventava por dentro da pele.
Fiquei caminhando sem destino... a camisa encharcada de suor... o cabelo bagunçado... com uma vontade imensa de gritar ou de parar um ônibus com as mãos.
Anoiteceu.
Eu não tinha a menor vontade de voltar pra casa. Os ônibus lotados traziam os trabalhadores de volta pra casa. Parecia que todos estavam me olhando e que a qualquer momento, um deles tiraria um revólver da cintura e dispararia bem no meio da minha cara.
– Você não vale mesmo a pena. Só dá desgosto à sua família. Nem teu pai te suportou. Além do mais você, é você mesmo Maninho, você joga muito mal... você não aprende tocar instrumento algum... é feio feito um sapo e não sabe escrever. - Era isso aí que os olhos das pessoas me diziam sem dó e nem piedade. Elas são um bocado cruéis, quando querem, as pessoas.
Deve ser numa situação dessas que um sujeito acaba virando mendigo. Pra fugir das coisas e dos OLHOS, ele sai andando e andando e andando e não volta nunca mais. Só que eu não tinha culhão pra esse papo aí de sair andando e não voltar mais. Tomei portanto o rumo da minha casa. Lá pelo menos havia uma porta no quarto pra eu trancar. Rachaduras no teto pra eu olhar e alguns discos pra pôr na vitrola.
Contornei o cemitério... continuei andando... cheguei à padaria e lá o Japonês me ofereceu cerveja. Esse japonês aí não tinha nada que ver com a japonesa da banca de pastel. Aceitei a cerveja dele, mas ele queria conversar e eu não conseguia. Até abri a boca algumas vezes e tentei dizer umas palavras, só que as sílabas só formavam gemidos.
– Nossa irmão, você tá mal mesmo hein! Parece que vai morrer. - ele disse. - Vai pra casa, toma um banho e descansa. Vai ser a melhor coisa do mundo pra você.
O suor continuava escorrendo pelo meu rosto e meu coração batia tão rápido que parecia que ia explodir. Será que todas essas encrencas, essas angústias aí eram só falta de uma boceta?
– Anda Maninho, vai descansar. - Insistiu o Japonês.
Engoli mais um copo de cerveja e ganhei a rua de novo. Se pelo menos uma tempestade despencasse do céu agora! Mas que tempestade nada, a Lua é que fazia questão de deixar a tudo e a todos visíveis. Pelo menos no meu quarto ninguém me veria e eu poderia imaginar que palestrava no anfiteatro de uma grande universidade a respeito dos meus livros e aquela garota ali na primeira fila, de óculos e cabelos vermelhos não pára de me olhar e ela está realmente apaixonada e não consegue compreeender como um cara tão jovem como eu tinha entrado na barriga, no útero de tantas palavras.
Era bem nessas coisas que eu ia pensando, quando passei em frente aos Morros e fazendo um esforço que não era dos menores consegui balbuciar as palavras:
– Boa... noite...
Eles não responderam, pelo contrário, arreganharam os lábios e gargalharam no maior tom de deboche, ou de desdém, sei lá.
O sangue subiu na mesma hora.
– Que foi hã? Por que é que estão rindo, hein? Então eu aqui é que sou o palhaço, hã? A guerra está mesmo perdida e eu sou pior que Dom Quixote? Então sou eu o indecifrável poeta bobão? Aquele que guerreou e perdeu na guerra inútil?
Eles, os Morros, continuaram a rir, só que agora gargalhavam ainda mais alto. As luzes da Lua iluminava a pedra do rosto deles e eles eram insolentes, sólidos, imponentes. Parecia que as gargalhadas queriam dizer assim:
– Ei seu merdinha, é você mesmo, você não passa de um verme perto de nós. Estamos aqui há milhares de anos e vamos continuar aqui por milhares de anos. Já vimos dezenas de merdinhas como você, seu bunda suja. Portanto vá para a sua caminha e durma. Toda a sua vida não passa de um minuto da nossa existência e isso aí que você vem tentando fazer não representa coisa alguma. Só o sólido permanece. Esse teu desespero, essa tua dor aí é menos que um copo d'água derramado.
Filhos da puta, esses Morros. Eu tinha feito um esforço tremendo pra cumprimentá-los e agora eles vinham e faziam isso aí comigo! Eu até que concordava com eles, mas o que eu não admitia era ser menosprezado daquele jeito. Todo mundo tem sua dignidade. Mesmo que ela seja bem pequenininha, a dignidade.
– Concordo com vocês aí de cima. Vocês são mesmo uns caras imponentes... uns durões. Só que eu sou um homem e, além de ter alguma coisa na cachola, também posso me movimentar, sair do lugar. Só isto já me faz maior que vocês, com essas suas caras de pedra e esses pés cravados na terra. Por que é que vocês não vão ver o mundo? Por que é que não dão uma viajada? Vão ver as coisas, porra! - Foi bem assim que eu falei, ali, na cara deles, dos morros.
Com essa eles perderam um pouco a empáfia. Ficaram meio sem graça. Movimento hã, onde é que estava o movimento. Tudo o que move é sagrado.
– Já vimos mundos e mais mundos. - Responderam, mas agora com a voz bem mais baixa que as gargalhadas. - Nem por isso precisamos sair do lugar. O nosso movimento é de outra espécie. Nós nos movimentamos no tempo.
– Movimento de outra espécie? No tempo? Ora por que é que vocês não vão logo dar uma meia hora de cu hein? Por que não vão? Eu vinha bem quieto no meu canto. Desesperado, mas quieto. Fiz um esforço tremendo pra cumprimentar vocês, até porque eu os respeito muito. Mas aí vocês notam o tamanho da minha dor e vêm todos correndo, correndo não porque vocês não têm essa capacidade, de qualquer forma vêm e me esculhambam. Agora, depois de toda essa sacanagem vocês vêm me dizer que se movimentam no tempo? Sinto muito amigos, mas vocês pegaram o cara errado no dia errado. Agora, até porque eu posso sair do lugar, vou ser obrigado a subir aí em cima e mijar na cara de vocês. - Foi bem desse jeito aí que eu falei.
– Ora, não seja insolente rapaz, você não tem capacidade?
– Ah! Não! Não tenho capacidade? Esperem aí que vocês vão ver só.
Aí comecei a abrir caminho no mato pra meter o peito na escalada. Eles, os Morros, ainda tentaram balbuciar alguma coisa. Um protesto talvez. Só que agora eu não queria e nem iria ouvir mais nada.
O início da escalada até que foi simples. Os Morros, ali embaixo, não são muito íngremes. Além do mais, tem muito mato alto, onde a gente pode se segurar enquanto vai subindo. As dificuldades começaram a surgir mesmo quando terminou a parte de terra e eu tive que colocar a mão na pedra. A minha sorte era que a Lua iluminava bem, mas, mesmo assim, em determinados momentos, eu ficava em dúvida se uma protuberância qualquer na rocha era protuberância mesmo, ou se era algum bicho.
Esse negócio de Morro funciona assim: quanto mais a gente sobe, mais difícil vai ficando a escalada. As pedras cada vez têm menos cavidades e saliências. A subida parece que vai sempre ficando mais íngreme, as pernas e os braços vão ficando mais cansados, a cabeça velha começa a pensar um bocado de coisas ruins... e foi no meio de um pensamento desses... mais ou menos no meio do morro... que eu tive o feliz descuido de olhar pra baixo. O Morro que eu escalava tinha pelo menos uns trinta metros. O que quer dizer que eu estava a uns quinze metros do chão. Dava pra ver o poste de luz por cima iluminando a rua lá embaixo.
Travei.
Ouvi alguns sorrisos. Os sacanas estão por toda parte. Por falar em sacanas, e Deus? Onde estaria Deus agora? Será que estaria de camarote assistindo a história do meu desastre? E aquela garota, onde estaria? Aquela garota que completaria minha vida? A garota que entenderia minha ternura, meus sólos de trompa e cada segundo do meu desespero? Ela. Onde estaria ela naquele momento? Tive, por poucos instantes é verdade, vontade de soltar minhas mãos da pedra e me estatelar lá embaixo. É sério! Todos aqueles filhos da puta soltos pelo mundo ganhando dinheiro, ganhando mulheres, ganhando fama, ganhando concursos literários, ganhando fama de novo, ganhando partidas profissionais de futebol... e eu ali fodido. Sem saber como subir ou descer. Eu devia era ter ido ao cinema! Mas eu não tinha ido mesmo e agora precisava matutar uma maneira de escapulir daquela enrascada.
Lá do alto continuavam a vir os risos. Na verdade, isso aí é que me dava forças pra não desistir. Minha rapadura não é tão fácil assim de ser deixada. Pelo menos eu era jovem. Tinha um bocado de tempo pra tentar escrever um bom livro. Se em vinte ou trinta anos eu escrevesse pelo menos um ou dois livros importantes pra mim já estaria de bom tamanho. Futuro! Sim o futuro! Era disso que eu precisava: Ter fé no futuro. Afinal de contas eu não era tão burro assim e dali pra frente a tendência das espinhas era melhorar, afinal eu estava ficando velho... e quem sabe se com esforço e paciência eu não começaria a tocar melhor! E havia tempo pra tentar, ainda que uma última vez, um teste em algum time. Eu sou bom de bola, porra!
Força. Futuro. Fé. Isso aí, Maninho. Movo a mão até a saliência mais próxima. É bem grande, dá pra firmar bem a mão. Jogo todo peso ali. Coloco o pé num buraco, pequeno é verdade, mas é o bastante pra subir mais um pouco.
– Agora vai!!!! Grito lá do meio da rocha. Os risos param. Apesar da consciência de que agora a coisa vai dar certo, mantenho a cautela. Até porque não faz mesmo mal. Subo devagar e entretanto subo. Homem-aranha.
Passo pelo rosto da Pedra. Está imóvel. Não demonstra uma emoção sequer... piso no nariz... seguro na orelha... subo até no olho... muito bem feito. Isso é pra vocês aprenderem que com o Maninho aqui não se brinca. Seguro firme nas rugas da testa e subo o último pedaço da Pedra. Sem medo. Sem orgulho. Sem nada. Olho então toda aquela paisagem que se derrama nos meus olhos. Pela primeira vez na vida meus olhos estão abertos e eu posso ver o céu, o vento, a árvore, a escola, o cemitério e suas cruzes... minha casa. Tiro então o pau pra fora e mijo. Um mijo forte, cristalino. Não é o mijo de um conquistador eu sei, mas os homens comuns, às vezes, conquistam.... e mijam também. Depois de guardar o pênis, subo o zíper e aproveito pra olhar mais um pouco a paisagem. É quando, não sei se por causa do vento forte, meus olhos começam a se encher de lágrimas, de umas lágrimas fortes, robustas. E aí eu choro. Um choro silencioso por mim, pela minha família, por todos os desesperados do mundo... pelos morros. As rachaduras no teto do quarto me esperavam em casa.
11.
Lá estava eu novamente deitado com os fones nos ouvidos escutando um imenso Cream, quando vi a maçaneta da porta girando de um lado pro outro. Tirei os fones, levantei e abri a porta. Era minha mãe. Entrou e ficou parada no meio do quarto, olhando as paredes, os discos fora das capas, os livros abertos pelo chão. Pegou um dos livros. Olhou a capa. Era o pequeno príncipe. Ficou folheando o livro, observando os desenhos. A sobrancelha encolhida, a testa cheia de rugas.
– O pequeno príncipe? Perguntou.
– É, ótimo livro esse aí, O pequeno príncipe.
Pegou outro livro. Acho que era o Judas do Thomas Hardy. Folheou-o também e em seguida sentou na cama. Eu sabia que logo, logo ela iria começar. Estava só esperando. Não demorou.
– Filho, o que é que está acontecendo?
– Não tá acontecendo nada mãe.
Levantou de novo. Olhou o disco na vitrola. Sentou outra vez. Ao meu lado. Pôs a mão na minha perna....
– Filho, por mais que você diga que não, eu sei que alguma coisa anda errada. Sou mãe caramba!
– Ê mãe, que é? Não tenho nada não.
– Olha só... por mais que você queira dizer que não, eu tenho certeza de que a gente tem algum problema aqui. Você quase não sai mais com seus amigos. Não procura emprego. Nem estudar mais você estuda. Pensa bem filho. Pensa bem filho... só aqui no nosso bairro existe uma porção de meninos que dariam tudo pra estudar onde você estuda, pra estar no seu lugar... e você que tem tudo nas mãos... a faca e o queijo... prefere jogar tudo fora. Eu não te entendo Osman. O que é que você tem? O que é que está sentindo?
– Já falei mãe, não tenho nada.
– Então por que é que você não aproveita as suas chances? Por que não estuda? Olha, eu não queria te perguntar isso, mas ponha-se no meu lugar... filho... caramba! Você anda desanimado com tudo, tem bebido e não é pouco que eu sei. Outro dia chegou aqui em casa, de madrugada, com a roupa toda lambuzada de terra. Não é que eu desconfie de você, mas me responde com sinceridade... você anda usando drogas?
Fui até o som e coloquei baixinho a Joni Mitchel. Depois olhei no fundo dos olhos da minha mãe e respondi seco:
– Não.
– Tudo bem. Então a coisa não está totalmente perdida.
– Que coisa? Que perdida, mãe?
– Nada filho... nada. Olha, eu vou te fazer uma proposta. Não precisa responder nada agora. Pensa um pouco e depois você me fala, tá bom?
– Tá bom mãe. - Respondi e comecei a me sentir muito mal, porque, afinal de contas, ali estava uma pessoa que se importava comigo, que me queria bem de verdade. Só que eu não conseguia satisfazer as expectativas dela e nem me explicar pra ela e nem.... deixa pra lá... um sapo, isto é que eu era... um sapo boi. É.
– Olha Osman, eu sei que você não quer mais saber de ir à igreja... quando você era pequeno eu te levava, hoje que você cresceu, vai ter que ir pelas suas próprias pernas... agora tem o seguinte: do jeito que tá não pode ficar. Lá na igreja tem um rapaz muito simpático. Ele trabalha como psicólogo voluntário lá na igreja. É um bom menino, dá bons conselhos, se você quiser posso arranjar pra você.
Eu não tinha a menor vontade de ir, mas disse que ia pensar só pra agradá-la. Ela pareceu ficar um pouco mais feliz. Como quem pedia desculpas eu disse:
– Bença mãe.
E ela respondeu como se me desculpasse:
– Deus te abençoe.
Tranquei a porta do quarto depois que ela saiu e me deitei de novo. Lá elas estavam e lá elas continuaram. As rachaduras no teto. Fiquei olhando pra elas e pensando que já era hora de eu parar de dar dor de cabeça. Já era hora de eu deixar as frescuras de lado e dar um pouco mais de alegria pra quem se importava comigo de verdade.
Durante toda a tarde não tirei o nariz de dentro dos livros. Era hora de estudar. Ainda havia tempo pra eu me recuperar na escola. Nem tudo estava perdido. Tudo o que eu precisava fazer era tomar vergonha na cara. Meus dias de vagabundagem estavam definitivamente acabados. Chega de frescura! A pobre da minha velha se matando de tanto dar duro e eu lá... cheio de nove horas.
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Quando a noite chegou, fui à escola.
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Acontece que as provas do segundo bimestre estavam bem próximas e, quando elas chegaram de fato, eu não consegui me sair muito bem. Em algumas matérias de humanas tipo Português, História, Geografia, até que consegui aliviar, mas, no resto, fui um desastre total.
A mãe continuava insistindo pra que eu fosse ao psicólogo lá da igreja, entretanto eu resistia. Psicólogo da igreja! Aí também já era pedir demais.
Numa tarde de sábado, logo depois dessas provas bimestrais aí, desisti de ficar olhando o teto e resolvi correr pra rua. Era necessário tomar um Sol, acabar com o mofo. Fui até à quadra da escola bater uma bola. Toda a rapaziada tava lá. Beleza... Só que logo no início do jogo, dei um passe errado e meu time acabou tomando o gol. Ninguém disse nada, mas eu sabia que já tinha entrado dando mancada. Num segundo lance, fui tentar dar um elástico no Macalé e perdi de novo a bola, ele, o Macalé, ficou cara a cara com o nosso goleiro que, numa situação daquelas, teve que fazer o pênalti. O filho da puta do Digão bateu e não deu outra: GOL.
Como a coisa não estava dando certo mesmo pra mim, resolvi fazer o que dava e o que dava pra fazer era pegar firme na marcação. E era isso aí, eu ia com sede em todas as jogadas. Dentro de mim a raiva crescia, se agigantava. Eu dava carrinho, dividia todas, chegava chegando. Quando um filho da puta como aquele Digão pegava na bola eu entrava na maldade mesmo.
– Calma Maninho, qual é o problema, velho? Desse jeito você vai acabar machucando alguém, ou se machucando. - Isso aí quem falou foi o Théo. Não dei atenção. Continuei com o meu jogo. E o meu jogo era duro... pegado. Contudo quem acabou se dando mal por fim fui eu mesmo.
A coisa aconteceu assim:
Lá na frente o Théo chutou uma bola que bateu na trave e sobrou no pé de um maluco do outro time, o Jair. Bem... esse cara veio pra cima, passou por um, passou por outro, até que só fiquei eu entre ele e o nosso goleiro. Não tive dúvidas... meti o pé na dividida. Ouvi até o estalo... Senti que era grave no mesmo instante... Cai no chão e não consegui mais me levantar por causa da dor . Joelho. Inchou na hora. Ouvi alguém dizer:
– Bem feito, quem manda jogar feito uma vaca louca. Ainda bem que foi ele mesmo quem se machucou.
Pegaram-me por baixo dos braços. Escorei no Théo. Queriam me levar pro hospital. Não concordei. Sempre tive horror a hospitais. Como a casa do Théo ficava mais perto que a minha, ficou decidido que nós iríamos passar primeiro na casa dele e, depois, conforme a coisa corresse, ele me levaria pra casa de carro.
Mesmo escorado no meu camarada, não foi fácil chegar até a casa dele. Um coração batia dentro do meu joelho machucado, Gente fina, o Théo.
Assim que chegamos a Myriad ajudou a gente a subir até o quarto, mas só ficou lá o tempo de dizer:
– Nossa Maninho! Parece que foi feio! Se eu fosse você, iria direto pro hospital.
– Obrigado pela preocupação Myriad, mas não gosto muito dos hospitais.
– Bem.... se eu fosse você, eu ia, mas já que você não quer, normal. Preciso ir. Tchau.
Então ela me deu um beijinho na bochecha e se foi. O Théo, que tinha ido lá embaixo buscar gelo, voltou logo depois que a irmã saiu.
Aí aconteceu uma coisa estranha.
O Théo chegou e colocou o gelo no meu joelho. Eu mesmo queria ficar segurando o gelo ali, só que ele não deixou, ficou lá segurando. Por mim tudo bem aquele negócio dele ficar lá segurando o gelo. Acontece que, depois do gelo, ele pegou uma pomada e ficou esfregando onde a perna estava inchada. Estava esquecendo de contar uma coisa que deixa a situação ainda mais estranha, quando ele foi buscar o gelo, voltou pro quarto sem camisa. Dito isto podemos continuar. Onde foi mesmo que tínhamos parado? Ah! Sim... Lá estava ele massageando o meu joelho sem camisa nem nada e então começou a subir com aquela mão. Eu não tava entendendo muito tudo aquilo. Porra, a gente era camarada! Era difícil acreditar que de uma hora pra outra assim ele tinha virado veado. Mas a verdade é que tinha mesmo, porque aquela mão dele ali foi subindo.... e subindo até pegar no meu pau. Fiquei olhando bem nos olhos dele por uns instantes, depois dei um murro com toda força no braço dele. Tentei ficar em pé, mas me desequilibrei e caí. Ele veio tentar me levantar. Tomou outra porrada no meio do peito. Pobre Théo! Escorei na cama de novo, me levantei e saí pulando numa perna só, escorado nas paredes. Com dificuldade desci as escadas... o Théo atrás o tempo todo dizendo: Desculpe, Maninho, eu não tive a intenção. Por favor me perdoe. Vamos voltar lá pra cima. Vamos conversar.
– Vai tomar no seu cu, Théo.
– Por favor Osman me perdoa.
– Perdôo caralho. Mas pega logo a porra da chave pra abrir a porta.
– Vamos conversar.
– Conversar porra nenhuma, abre logo essa merda.
– Eu te levo até a sua casa de carro.
– Deixa quieto Théo, abre logo isso aí que eu me viro.
– Desculpe.
– Tudo bem.
– Não fala nada com ninguém não. Por favor.
– Tudo bem Théo, pode ficar tranqüilo.
Continuei pulando encostado nas paredes... parecia o Saci-pererê... quando cheguei em casa, minha mãe já tava deitada. Ainda bem! Fui pro meu quarto e tentei dormir, só que a perna doía demais... não queria chamar a mãe.... agüentei o máximo que pude, mas no final não teve jeito, tive que chamar.
Ela me deu um remédio que me ajudou a alcançar a manhã. Mãe é sempre mãe. Assim que o dia clareou a gente foi até o hospital. Não gosto deles, dos hospitais, mas naquele caso ali não tinha mesmo jeito. Tiraram chapa da minha perna... nada quebrado... ainda bem... o médico disse que eu tinha torcido o joelho, alguma coisa nos ligamentos. Engessaram. Receitaram remédio. Era mais um mês sem escola, sem futebol, sem nada.

Deitado no quarto, a perna coçando, os livros todos pelo chão, caderno e lápis na mão procurando desesperadamente uma boa idéia pra escrever... a mente escavando cada vez mais fundo dentro de mim. Não foi fácil, mas elas vieram, as idéias, em vez de uma,




logo duas. Só não sei se eram boas. De qualquer forma estão aí:
Se houvesse flores
A vida de todos teria sido poupada
Como havia apenas a terra seca
Vários disparos foram ouvidos
Além dos estalos de crânios partidos
Gerânios, por fim.
Essa aí foi a primeira idéia. A segunda, embora um pouco menor, foi muito melhor. Se liga:
O silêncio
vive do confronto
entre a última palavra e o ponto.
Deus não dá mesmo asa a cobra. O Théo Hein! Que fita! Logo ele que tinha tantas mulheres a seus pés.
12.
Num sábado a noite, eu tava deitado no sofá da sala, assistindo televisão, quando o telefone tocou. A perna ainda continuava engessada, embora já não doesse como antes. Tive que me levantar escorado no sofá e atravessar a sala inteira pulando numa perna só.
– Alô. - Falei, mas ninguém respondeu.
– Alô. - Repeti e novamente ninguém respondeu.
Desliguei o telefone e pulei de volta até o sofá. Meia hora depois, eu estava cochilando quando ouvi o telefone tocar de novo. Assim como da outra vez, atravessei pulando a sala e atendi. Silêncio do outro lado.
– Ou você fala logo quem é e o que quer, ou vai para puta que o pariu! - Falei. Ouvi alguém suspirando do outro lado e depois...
– Quem fala?
– Quer falar com quem?
– É da casa da Fátima? - Fátima era o nome da minha mãe.
– É.
– É o Osman que tá falando?
– É.
Ouvi mais suspiros do outro lado e depois o silêncio.
– Quem é que tá falando afinal? - Perguntei, eu já estava ficando nervoso.
O silêncio voltou do outro lado por mais alguns segundos e depois uma voz rouca, gaga, carregada de sotaque disse:
– Teu pai.
Achei que fosse alguma brincadeira de mau gosto, mas em seguida ouvi mais alguns suspiros do outro lado e as palavras...
– Sabe filho, nós dois temos muito o que conversar.
– Muito o que conversar? Agora?
– Antes tarde do que nunca.
– Isso aí quem tá falando é o senhor.
– A gente precisa conversar, tem muita coisa que você não sabe.
– Se precisa conversar, eu tô aqui escutando.
– Não é bem assim, tem coisas que não dá pra falar por telefone.
– Você não vai querer agora que eu me vire pra ir até aí só pra te escutar.
– Claro que não. Ouve só: Daqui a umas duas semanas eu vou chegar aí em São Paulo. A agente pode sair pra algum lugar e aí sim colocar os pingos nos is.
– Pingos nos is?
– É.
– Tudo bem então pai. Eu vou estar aqui. Se quiser pode aparecer.
– Certo... então até.
– Até, pai.
– E... filho.
– Fala.
– Obrigado.
– De nada.
– Um abraço.
– Outro.
Desliguei o telefone e voltei pulando pro sofá. Na televisão passava uma porcaria de filme. Por uns minutos fiquei ali, quieto, sem pensar em nada. Depois pulei até o quarto, peguei o lápis e o caderno e escrevi. Canção do ódio e da ternura. Eu tinha encontrado uma idéia que valia à pena. Daquele dia em diante eu me dedicaria à prosa também. Isso mesmo.

É PRECISO TER UM CAOS DENTRO DE SI PARA CRIAR UMA ESTRELA QUE DANÇA

É PRECISO TER UM CAOS DENTRO DE SI, PARA CRIAR UMA ESTRELA QUE DANÇA.















“Não preciso nem dizer
tudo isto que eu te digo,
mas é muito bom saber
que você é meu amigo.”
(Roberto e Erasmo Carlos)

Algum dia você poderia?

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de estanho
li lábios novos chamando.
E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
(Vladimir Maiakóvski)


















Para Rogério Carvalho de Freitas.








VIRA 16.












1
Bonito?
Bonito era como o Sol se punha naquela tarde. Dava até tristeza. Essas coisas bonitas sempre me deixaram triste. Nem cocaína, nem crack, nem cachaça, a tristeza é o pior dos vícios. Uma desgraça! Os outros são paliativos, nada mais. Firmeza, mas, por enquanto, deixemos a tristeza de lado e voltemos àquela tarde, àquele ano, àquele pôr do Sol. A beleza subjuga tudo. É engraçado, mas acho que é preciso ser um cara feio assim como eu pra dar o valor necessário às coisas belas. Quem é bonito se olha no espelho. Para quem o espelho é uma tortura o melhor a fazer é olhar pra natureza, pro céu. E por falar em céu, é interessante notar que. .. porra, eu não consigo falar do pôr do Sol. Bem que eu queria, mas ele vai escapando, escorrendo pra fora da cabeça, do papel, fugindo da caneta. Foda-se o crepúsculo também, vou contar o que aconteceu um pouco antes e ele, quando quiser, que venha para essas folhas. Antes éramos oito, quatro no meu time e quatro no outro, três na linha e um no gol. Tava legal de jogar aquele dia , porque a quadra da escola tinha acabado de ser pintada e reformada; melhor, reformada e pintada, e eu tava na seca, na sede no apetite e meter gol. Deus sempre dá alguma coisinha pra gente, uns têm a cara bonita, outros têm nos bolsos dinheiro, há quem tenha inteligência na cabeça, ou verde nos olhos. Eu tinha a perna esquerda. Só. E era com ela que eu agora destruía o outro time. Dava carrinho, roubava, batia, grudava a bola nele, no meu pé esquerdo, (Maradona deve ter passado por isto) batia falta... vamos lá perninha, no mundo eu só tenho você. Sede de bola! De gol! E fiz: 1,2,3,4,5. Vencemos por 8 a 4. Não que o jogo fosse muito sério, valendo alguma coisa; ou que os caras do outro time fossem nossos inimigos. Pelo contrário, eram até nossos amigos, mas é que em alguma coisa nessa porra dessa vida a gente sentia necessidade de ser o melhor, ou os melhores. Decidam vocês.
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Se ainda não disse, digo agora: Era sábado. A gente pulava o muro pra ficar o dia todo jogando bola na escola. Não a minha, uma outra escola. Depois desse jogo aí que ficou 8 a 4, a gente desceu lá pro pátio pra beber água e encharcar a cabeça embaixo da torneira Aí voltamos pra quadra de novo.
- Tava com fome hoje hein Maninho! Deu pancada até umas horas! Isso aí foi o Lelo quem falou enquanto dichavava. Na maioria das vezes ele jogava no meu time, mas naquele dia, não me lembro porque cargas d’água, tinha ido parar no outro time.
- Aí que nada Lelo, o jogo é jogado e lambari...
- Mas nem precisa sair batendo a torto e a direito.
- É a fome.
-Aí quem tem seda aí?
O Waguinho foi quem apresentou a seda e bolou, pilou, porque tinha fósforos acendeu e foi só aí que podemos dar um boa tarde pra vida e nos reconciliamos um pouco com essa filha da puta.
Já ia me esquecendo de falar do Sol e de sua queda. Eu sei... eu sei... águas passadas não matam a sede. Mas aquele ali, pôr do Sol, era um baita dum Narciso. Em matéria de espetáculo foi um e tanto. Primeiro ele, o Sol, ficou entre o vermelho e o amarelo, ao redor um azul claro era cortado por finas lâminas vermelhas. Um pouco mais distante estava o verde claro, que se harmonizava com o azul, mas que se debatia contra o vermelho. Depois o azul claro foi engolido pelo vermelho que crescia e o verde se transformou em azul escuro e lá atrás o azul escuro se transformou em negro. O Sol, aquele monstro ainda vermelho, insistia em não morrer. É preciso dizer que ele, o Sol, era um cara durão, resistiu o quanto pôde, mas, no final, não teve jeito pra ele: caiu, e a escuridão tomou conta de tudo. Com a escuridão nem ele, o Sol, pode.
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Então já era noite quando pulamos o muro de volta para a rua e na rua até que era bom porque a gente se sentia livre. Na periferia muros e grades são sempre um problema. Entretanto a rua onde a gente caminhava agora nem era muito periferia, mesmo o subúrbio tem sua área nobre. A daquele nosso bairro era ali, bem perto do cemitério.
Outra idiossincrasia da periferia é que aqui não é muito recomendável andar uma porrada de malucos juntos como a gente andava. Era até por causa disso que agora a rapaziada, nem muito rápida, nem muito lentamente, se dispersava. Primeiro vazaram o Tico, o Digão e o Waguinho. Depois o Paletó e o Macalé viraram à esquerda. Aí o Japonês entrou na casa da tia dele. Restamos apenas eu e o Théo e sobre esse Théo aí é bom a gente falar alguma coisa. Gente fina, o Théo. Meu amigo. Meu melhor amigo naquela época. A família dele tinha um bocado de grana. O avô dele tinha começado como alfaiate havia uns cinqüenta anos. Depois esse avô aí ensinou o ofício ao filho, o pai do Théo que por sua vez aperfeiçoou-se na profissão e montou uma fabriquinha de ternos. Conseguiu ter como cliente, além dos pastores de uma famosa igreja evangélica, uma porrada de fiéis: Ficou rico, ricaço. É preciso dizer que era um cara inteligente esse aí, o pai do Théo. Na casa deles tinha uma puta duma biblioteca. Eu gostava daquela biblioteca ali, achava legal mesmo, mas nem sei porque estou falando sobre isto aqui.
Só que o Théo, isso aí nem ligava pra biblioteca deles, mas de som ele manjava e curtia um bocado. Tinha mais de mil discos enquanto eu, do meu lado, não tinha nem cem. Agora que já falei um pouco do Théo, vou aproveitar enquanto a gente sobe estas escadas da casa dele para falar um pouco de mim.
Os outros me chamam de Maninho, dizem que o meu nome é esquisito: Osman. Minha mãe viu esse nome escrito na capa de um livro e resolveu colocar em mim. Os outros acham feio, eu acho legal. Feio mesmo seria se ela tivesse decidido me chamar de Avalovara. Sob este prisma até que eu sou um cara de sorte.
Meu pai... isso aí é um que não deve ter mesmo muita sorte, ou valer grande coisa. Sei lá. Deixou minha mãe e eu, quando eu ainda não tinha nem dois anos. Não devia gostar muito da gente. Gostava mesmo era do seu Pernambuco. Dias desses aí atrás escreveu uma carta pra mim explicando as razões dele e biriri e boróró. Não concordei muito, mas numa coisa a gente tem que dar o braço a torcer, pelo menos ele gostava de alguma coisa, do Pernambuco dele, com seus jumentos, sua farinha, sua carne seca, sua seca, sua infância. É pai, é mais que certo: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.
Chegamos ao quarto do Théo e enquanto ele coloca um tremendo David Bowie e eu bolo um, me lembrei de falar mais algumas coisas sobre a gente que não poderiam, de forma alguma, deixar de serem ditas.
Eu e esse aí, o Théo, estudamos na mesma escola. É uma daquelas escolas particulares que operam por franquia com um famoso sistema de ensino. O Théo paga para estudar lá, eu não, estudo lá porque minha mãe trabalha há um bom tempo nessa escola e sendo uma excelente funcionária conseguiu bolsa pro filho. Eu. Ela, a mãe, começou como faxineira e, de promoção em promoção, chegou a inspetora. Ela acha uma baita evolução! Não é desfazendo não, tenho o maior orgulho dela aí, mas é o seguinte, se é pra passar a vida inteira assim, pelas beiradas, eu prefiro pedir as contas, entregar a rapadura. O problema é que nesse ano aqui, 1997, eu faço dezoito e já vi que pra ser jogador de futebol está ficando mais difícil a cada segundo. O problema é que nesse ano aqui, 1997, eu faço dezoito e todo mundo já toca algum instrumento e eu... eu... eu mal arranho um violão velho preso por um adesivo do Che onde a cola está solta. O problema é que nesse ano aqui eu faço dezoito e a mãe reza apenas para que eu me forme e me case e fique bem de vida. Porra, eu quero ser grande, deixar de ser invisível, descolar uma garotinha perfumada e bonitinha, me vingar de todos esses filhos da puta que andam espalhados por todo lado. O problema é que são problemas demais. Acende então a luz, enquanto no som Jimi Hendrix arranha seus loucos blues.
E até que não seria mal ficar aqui neste quarto por mais um tempo, porque esse Théo aí é gente fina e o baseado é bom e a brisa é fina. Mas aí eu enjôo de ficar aqui também e quero sair pra rua. Digo um “falou” pro Théo, que responde “falou” e fica parado no portão parecendo uma estátua ou coisa que o valha.
Antes de chegar ao fim da rua encontro a gostosa da irmã do Théo, a Myriad, que como quase todas as mulheres gostosas tem muita bunda, muito peito e pouco cérebro. Tudo bem, a gente releva, com um rabo daqueles, pra que ter alguma coisa na cabeça? Continuo andando. Caminhar é bom e a brisa é boa e até a lua é bonita. Contorno o cemitério. Subo a viela. Não tenho pressa de chegar em casa. Olho pro lado dos morros e digo um “boa noite” para esses monstros sagrados do bairro. Estão escuros, melancólicos, os Morros, com a lua batendo no rosto deles. Não respondem ao meu “boa noite”. Com a ponta dos dedos vou acariciando a moeda de um real que tenho no bolso. Uma idéia surge fixa como um coqueiro: “Vou tomar uma latinha” digo e quase sorrio quando vejo a fachada iluminada da padaria.
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Caminho ainda e agora a cerveja ajuda a refrescar. Se não fosse domingo eu poderia até me sentir feliz por uns instantes, mas chego à rua da minha casa e a cerveja acaba e eu vou pisando nesses paralelepípedos frios, em cima dos quais meu próprio pai deve ter pisado um tempão atrás. São uns caras durões esses paralelepípedos, não demonstram a menor saudade: cada um com os seus problemas.
Levanto o portão com a mão direita e puxo o trinco com a esquerda. É que o portão está fora de nível. Entro devagar. Ouço o barulho da televisão no quarto da minha mãe. Digo “bença” à minha mãe e ela responde: “Deus que te abençoe e te dê juízo”. Vou para a cozinha. Corto um pedaço de bolo de chocolate e como. Bom. Escovo os dentes. Vou pro quarto. Que venha a madrugada então e a Segunda-feira. Horazinha mais triste essa do final do Domingo.
2.
Na Segunda-feira eu fiz como faço todos os dias. Acordei. Tomei banho. Escovei os dentes. Pus uma roupa. Penteei os cabelos. Peguei o walk-man e fui pra escola. Encontrei o Tico e o Digão fumando um na viela. Dei só uma bolinha pequena e fui pro ponto ouvindo Babylon by bus.
A gente tem que dizer as coisas logo como elas são. Essa escola aqui, onde eu estudava até que tinha uns bons professores e umas meninas bem bonitinhas, mas ô lugarzinho pra ter filho da puta. Parecia que eles brotavam do chão esses sarnentos, com suas roupinhas de marca bem engomadas. E até essas minas aí, a gente tem mesmo que ir dizendo, não estavam e não estão com porra nenhuma. É certo que são perfumadinhas e tudo, mas, vamos e venhamos, são metidas como umas cerejas. Uns caras esculhambados, filho de inspetora, assim que nem eu, não têm a menor possibilidade. Parece que o próprio perfume delas fala assim pra gente: “Eu não sou para o seu bico, seu pobretão, nem uma boa bicicleta você tem! Nem um passe de ônibus!” Não é só a bunda delas que é bonita, não são só os peitos delas que são bonitos, não são só as pernas ou os dentes que são bonitos, é tudo! E eu tantas vezes reles, tantas vezes vil, tantas vezes porco. Eu que não tenho tido paciência para tomar banho. Eu verifico que tenho que continuar minha caminhada. Só que então o Théo chega e diz:
- E aí.
E eu respondo:
- E aí.
E vamos para a sala de aula.
- Então vamos bater uma bola hoje de tarde? Ele pergunta.
- Até que vou, mas tem que se rápido, porque eu preciso estudar.
- É parceiro... quando a água bate na bunda...
- A idéia é aquela: a gente se vira como pode.
Quando toca o sinal é hora de entrar pra sala. São tantos cabelos e tantos perfumes! Aqui é assim, quem tem motor faz amor, quem não tem bate punheta. Eu, do meu lado, prefiro colocar o fone no ouvido, a touca por cima, entrar pra sala e fingir que presto atenção em tudo. Meu mundo e nada mais. Um dia ainda viro o jogo. Só preciso descobrir de que maneira. Senos e co-senos. Com o futebol fica cada vez mais difícil, tarde demais. Três metilbutano. Porra, aquela Thaís ali é uma gracinha. A idéia é fazer um teste na Portuguesa semana que vem. Boys don’t cry. Durante a guerra de canudos... Bem que eu podia arrebentar nesse teste. É neste momento que meu pé lá embaixo lateja, se manifesta, diz que deveríamos dar pelo menos uns bons chutes pela tarde... umas faltinhas...
TTTTTTTTTTTTRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMM
É o sinal do intervalo.
De volta à realidade, mas não seja bem vindo!
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Desço pro pátio com o Théo e esse Théo aí, a gente tem que dizer mais uma vez, era um cara que sabia falar com as mulheres. Às vezes eu ficava ali no intervalo do lado dele e quase todas as minas que passavam davam pelo menos um beijo no rosto do cara. A mim ignoravam, faziam como se eu não fosse homem, como se não fosse um ser humano, como se não existisse.. Também, as porras das espinhas no meu rosto pareciam carrapatos. E era até por isto que eu preferia a biblioteca. A maioria dos intervalos eu passava lá. Às vezes matava até aula pra ficar ali dando umas folheadas.
Eu tinha mesmo era que dar um jeito de sair dali daquele colégio. Não aguentava mais ver aquele bando de ricos do subúrbio folgando com a minha velha. Não suportava mais o nariz empinado daquelas minas me empurrando constantemente pra biblioteca, pra quadra, pra longe, pra última cadeira do fundo, aquela quase escondida atrás do armário.
Foi por essa época aí, num desses intervalos, enquanto eu tirava e recolocava os livros na estante, que eu o encontrei: O GRANDE LIVRO. O maior livro de todos os tempos na minha opinião. Enquanto todos os outros estavam de joguinhos literários. Enquanto todos os outros estavam preocupados com bobagens vanguardistas, como iniciar a história pela última página do livro, ou colocar quatro ou cinco narradores diferentes, ou relativizar o tempo e o espaço, ele simplesmente gritava, mas não era um grito comum, era um grito lento e indiferente, um grito de ódio, de sarcasmo, de tédio, de ternura, pois no livro havia Molly e Bebért, um grito de dor e havia método nessa dor e dele, desse livro, evaporava estética em seu estado mais bruto. O livro era Viagem ao fim da noite e eu autor, o grande Doutor Louis Ferdinand Céline. Li o livro três vezes seguidas, depois procurei suas outras obras. Gostei principalmente do Morte à crédito. Parecia comigo aquele Ferdinand Bardamu.
Mas deixemos, por enquanto, os livros de lado, porque naquela tarde ali o que eu mais queria era bater umas faltas. O Théo e eu colocávamos a camisa no ângulo esquerdo e tentávamos acertar com a bola. Depois colocávamos a camisa no outro ângulo e continuávamos a bater as faltinhas. Entretanto naquele dia ali as coisas não estavam dando muito certo, porque eu não conseguia me concentrar e perguntava a mim mesmo por que porra nunca havia ninguém ali naquelas arquibancadas? Treinar e treinar e continuar chutando sempre as bolas... No meio da escuridão. Invisível. Sem nunca existir alguém nas arquibancadas.
Deixei os chutes de lado e me despedi daquele Théo. Ele ainda me chamou pra ir até a casa dele estourar um e ouvir um som. Mas o que eu queria mesmo era ficar sozinho. Então deixei ele em pé lá de novo e resolvi ir pra casa andando pra espairecer. Só que quanto mais eu andava, mais as dúvidas iam grudando no osso da minha cabeça. Porra, eu já tinha sido dispensado de testes no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo e até no teste do supermercado Barateiro eu havia sido dispensado. Porra, eu tava ficando velho e não conseguia fazer uma pestana. Pra que merda afinal eu teria algum talento? Qual era o meu lugar no mundo?
Cheguei em casa e pus logo a comida pra esquentar, mas aí, sem mais nem menos perdi a fome. Fui até o banheiro e espremi umas espinhas, depois lavei o rosto e esfreguei bem a bucha pra matar essas filhas da puta de uma vez. E foi quando eu ia voltando pra cozinha que a coisa aconteceu. Senti minhas pernas bambearem em cima dos pés. Uma coisa ruim por dentro. O coração doendo. O ar se negando a entrar nos meus pulmões. Caí de joelhos e comecei a rezar. As lágrimas queimavam meu rosto que já tava ardendo por causa das espinhas. “Senhor... Senhor me perdoe e me dê uma luz! O que o Senhor quer de mim? Por que Senhor, me puseste aqui no meio desta porcaria toda? Alivia um pouco essa minha dor! Mostre-me um caminho! Eu não agüento... não suporto mais ficar apodrecendo em vida. Diga-me pra onde ir, Senhor. Ampare-me! Eu não suporto mais apodrecer!” Era bem assim que eu falava com Deus. Uma conversa bem formal, eu reconheço, mas pelo menos eu tinha conseguido falar das coisas que me estavam atormentando.
Depois desse piseiro todo aí, consegui me acalmar de novo. Esquentei o feijão, o arroz, fritei bife, pra minha mãe também, fiz suco de maracujá, enchi bem o prato e resolvi me fortalecer, pois a batalha, essa vigarista, era mesmo dura.
3.
Eu estava estudando, porque era semana de prova, quando o telefone tocou.
Atendi:
- Alô.
- Quem fala?
- Quer falar com quem?
- É o Maninho?
- É.
- E aí Maninho é o Macalé.
- Fala aí Macalé.
- Então, a fita é o seguinte. Hoje aí de tarde, lá pelas seis horas, a gente vai dar uns mergulhos lá no clube, tá envolvido?
- Quem vai?
- Vai uma pá de gente. Eu, o Tico, o Sapo, o Caroço. Vão umas minas também. E essas minas aí têm uma moeda, tá ligado. Vão levar uns rangos e uns gorós pra gente.
- Sei não Macalé
- Ei maluco se envolve. Vai fazê o que aí sozinho em casa, morgadão?
-Tenho que estudar.
- Que mané estudar. Vamo aí.
- Firmeza então. Que horas?
- Cinco e meia, lá na padaria.
- Firmeza então. Falou.
- Falou, até mais.
Desliguei o telefone. Liguei o som e meti logo um Gregory Isaacs. Aí fui até o banheiro pra verificar como andavam as espinhas. Eu tava tomando remédio, mas elas não melhoravam de maneira alguma. Quando parecia que estavam melhorando um pouco, quando parecia que eu ia ficar livre delas de vez, uma nova safra aparecia e deformava minha cara. Fazê o que?
Esse clube aí do Macalé, até que era um clube bem arrumadinho, só que não funcionava de segunda até quarta-feira. Era aí que a gente aproveitava, porque o vigilante lá era chegado nosso. A gente jogava o fumo na mão dele e já era. Aí o negócio era curtir a água, o céu, as estrelas.
Como eu tinha ainda um bocado de tempo, decidi fazer uns exercícios, afinal, se o rosto não era uma maravilha, pelo menos com o corpo eu podia contar um pouco. Comecei com umas flexões de braço. Fiz quatro séries de quarenta repetições. Em seguida malhei o abdôme. Quatro séries de cem repetições. Por último fiz umas barras, quatro de dez. Aí tomei um ducha, comi umas bananas e cai na cama. Walk-man nos ouvidos, tentando encontrar com Cure a solução, foi que eu tive a idéia de tentar escrever um poema. O problema era encontrar um tema, um tema não, tema era o que mais tinha: o ódio, a solidão, a invisibilidade, a culpa. O difícil era encontrar a maneira certeira de dizer a coisa. Penetrar surdamente no mundo das palavras e trazê-las ali pro papel em branco. Ninguém disse que era fácil, até porque se fosse todo mundo iria querer bancar o artista.
Peguei o caderno e o lápis. Devo ter olhado pro teto como todo mundo faz quando está pensando. Mas e aí? Nada de idéia. Rabisquei um desenho e o desenho acabou se transformando num machado. Então, acima do machado escrevi: “De que adianta?” De que adianta o que? O que é que eu queria dizer com aquilo? Abri a janela e dei uma olhada lá fora. O dia era bonito de fato. Devia ser umas quatro horas. Um cara de branco atravessou a rua, pensei que ele devia ser enfermeiro. Voltei pra cama e fiquei pensando nas minhas espinhas, na minha mãe, no meu pai lá no Pernambuco dele e foi então que me veio a idéia. Seria rápido e fatal como um drible, não pior, como um pico na veia. Peguei o lápis e escrevi de uma vez:
“ No final
De que adiantam os lírios
Se o machado sempre está a espreita?”
Não era de todo mal, pelo menos na minha opinião, para um primeiro poema. Na minha cabeça, eu imaginava que a coisa seria muito simples. Bastava escrever mais uns cinquenta daqueles. Publicar um livro que seria sucesso de público e de crítica, dar alguns autográfos e depois colher as garotas como quem colhe morangos, ou mangas no pé.
Deitei feliz na cama, só que uns dez minutos depois alguma coisa derreteu, ou virou água naquele poema ali. O fato é que a coisa perdeu o sangue, o fogo e dez minutos depois aquilo ali não era mais que palavras numa folha. Rasguei o papel em pequenos pedaços, joguei na privada e dei a descarga por cima. Pior que cocô.
Minha mãe chegou do trabalho e sem dizer nem um boa tarde, sem mais nem aquela, foi logo perguntando:
– E aí filho? Já decidiu pra que você vai prestar vestibular?
– Não mãe. Ainda não decidi não, mas tô pensando aí em Letras, ou em Artes.
– Bom filho, se essas são suas escolhas, tudo bem, mas não acho que essas profissões aí dão muito futuro.
– Não quero mesmo muito futuro não mãe, só quero me sustentar e construir alguma coisa importante de verdade.
– E o que é esse importante de verdade?
– Não sei bem ainda mãe. Não dá pra explicar.
– Como assim, não dá pra explicar?
– Não dando mãe e fui.
– Fui? Fui? E pra onde é que você vai moleque?
– Vou só dar uma chegada lá no Théo. Não vou voltar muito tarde não. - Falei e coloquei os fones nos ouvidos pra não ouvir o resto do esporro da minha mãe.
Quando cheguei à padaria ainda faltavam dez para as cinco. Dei uma olhada nas manchetes dos jornais na banca em frente e tentei não pensar muito na minha vida. MAS- ESSE-NEGÓCIO-DE-PENSAR-NA-VIDA-SEMPRE-FOI-ALGO-QUE-ME-APORRINHOU. Pior que uma doença. E essa história da poesia agora? Uma coisa a mais pra eu me aventurar e tentar escapar do fracasso. FRACASSO, palavra mais triste, parece um velho coçando os cabelos brancos e ralos.
Como eu ainda tinha cinquenta centavos no bolso, entrei na padaria e pedi uma tubaína. Foi bom porque a tubaína tava gelada e eu me concentrei em ir bebendo devagar pra ver se refrescava um pouco as idéias. Na vida sempre há uma primeira vez e, na maioria das vezes, ela não é das melhores. Haveria outras oportunidades para outros poemas. Poemas de verdade. Eu só tinha que ter calma e ser perseverante: não ir com muita sede ao pote e nem...
Aí todos chegaram. Como gritavam e estavam apressados não tardei a entrar no carro e até porque eu estava lúcido e pensando mais do que devia, aceitei o beque que me foi jogado na mão e aceitei também um bom gole daquela garrafa de vodca.
Estávamos ali, o Théo, o Macalé, eu e mais quatro minas que eu não sabia bem quem eram, mas que só pelo carro e a silhueta delas a gente podia logo constatar que eram cheias da grana... Os cabelos eram macios e sedosos, pareciam os cabelos daquelas minas que fazem comercial de xampú, os corpos eram bem delineados e arrogantes e os sorrisos... os sorrisos eram perfeitos, brancos e falsos. O rosto da grana.
– E os outros. - Perguntei ao Macalé.
– Não puderam vir.
Eu achava melhor mesmo que eles não tivessem vindo, era menos concorrência.
Chegamos fácil ao clube. O Macalé chamou o vigia e deu a idéia. Não fui com ele por timidez e por timidez também agora eu tentava conversar, ou mesmo olhar para aquelas meninas ali, mas não conseguia... metia os pés pelas mãos... como sempre.
– Tá fazendo bastante calor por estes dias. Eu falava.
– É. Uma delas respondia.
– Vai ser bom nadar. Eu dizia.
– Vai. Uma delas respondia.
Aí eu me invoquei e desisti de trocar idéias com elas. Que se fodessem também elas todas. Um dia eu me vingaria. Certeza.
O Macalé voltou:
– Tá liberado! – disse – só que aí, a gente tem que entrar rapidinho.
A portinha que dava acesso à cabine do vigilante estava aberta. Entramos todos de uma vez. Correndo. E correndo ainda arranquei a camisa, deixei cair no chão e mergulhei na piscina. Braçadas, braçadas e mais braçadas. Bati e voltei. Aí parei e foi justo nesse momento que eu as vi. De biquinis. Quatro beldades. A tarde atrás delas feito imenso arco-íris ou coisa que o valha. Eu podia ver seus movimentos deslocando o ar em volta de cada uma delas, eu podia ver seus movimentos deslocando as partículas na última camada do universo, do mistério. Eu tava doidão. Fiquei de pau duro.
Entraram na água devagar.
Pelas escadas.
Delicadas.
Sereias.
Anjos, enfim.
Quanto a mim, tudo o que pude fazer foi meter o peito na água e nadar mais.
O problema é que ficavam todas em volta do Théo, porque além de tudo, a gente tem que dizer as coisas como elas são, o filho da puta era um cara de presença. O Macalé ainda conseguia aparecer um pouco, porque tinha peito e era engraçado. Agora eu, tudo o que eu podia fazer era mexer os braços, as pernas, o sonho de um futuro bom e de uma vingança certa e nadar... nadar... nadar... De uma ponta à outra.
– Ei Maninho, chega aí! - Até que eles gritavam isso aí, mas eu respondia: “Vou nadar mais uma cara e depois eu vou!” E assim eu continuava nadando.
Mas aí eu me cansei e resolvi ir até onde eles estavam, até porque eu queria beber um gole e ele haviam acendido o baseado.
– Virou peixe? Tá nadando mais que golfinho! - Isso aí quem falou foi o Macalé.
– É, eu tava com vontade. - Falei e dei um gole na garrafa.
– Você nada bem. - Disse uma das minas, o nome dela eu me lembrava, era Vanusa, aliás, eu me lembrava do nome de todas as quatro. Puxa até que enfim uma delas tinha dirigido a palavra a mim! Só que aí, na mesma hora, o Macalé fez uma coisa. Ele era cheio dessas putarias.
– Aposto que Théo nada muito mais que você Maninho. - Disse o filho da puta.
– Nado nada. - Falou o Théo.
– Lógico que você nada Théo. Cê fez natação a vida toda.
– E daí.
– Aposto que cê bate o Maninho em dois tempos, Théo. Dois tempos nada, tempo e meio.
O pau-no-cu do Macalé sabia bem encher o saco.
– E aí Théo, você acha que pode me ganhar? - Perguntei.
– Sei não.
– Quer tentar?
Por fora eu me esforçava pra demonstrar calma, mas por dentro tava era mordido de raiva.
– Vamos.
Fomos pra beira da piscina. Pela primeira vez aquelas minas ali deixaram transparecer o que elas tinham por baixo do verniz. Ficaram tudo excitadinhas. Parecia que iam socar o dedo na xereca ali mesmo. Por mais que elas queiram dizer que não, que são modernas, civilizadas e biriri bororó, o que elas adoram mesmo é ver dois machos numa disputa.
O Macalé contou:
– Um... dois...
No três pulamos. Saí na frente, mas por pouca coisa. O cara nadava bem. Respirava direitinho. Espalhava pouca água. Parecia não fazer o menor esforço. Do meu lado a coisa era bem diferente. A água voava por todo lado. Eu respirava a cada braçada. Era um horror. Técnica nenhuma, mas raça ninguém podia dizer que eu não tinha. Isso é que não.
Um pouco antes de a gente virar, o Théo me deixou pra trás. Fiz mais força. Virei. Tomei impulso. Água pesada do caralho! Só pra mim, parecia. O Théo deslizava feito um peixe. Comecei a ver na minha frente os pés dele. Tentei fazer mais força, mas não deu. No finalzinho, ele ainda virou e nadou de costas, o filho da puta.
– IHIHIHIHihihihih. Se fodeu!!! - Foi logo dizendo o Macalé só pra me sacanear.
– Acontece sua bicha. Além do mais, eu já tava cansado.
– Ah! então a vaca peidou então agora?
Deixei o Macalé de lado e olhei pras minas. Estavam sorrindo. Babando o ovo do Théo. Bebi um gole tão grande que até estalou, doeu, na garganta. Acenderam outro baseado. Fumei de novo. Bebi mais. Só gole grande. Bebi mais uma vez e outra. Mais fumo. Em vez de me acalmar, fiquei foi mais nervoso e aí desafiei:
– Agora quero ver quem me ganha na flexão de braço. Seu bando de veados.
Meti o peito no chão e comecei a fazer as flexões. Ninguém tentou competir comigo, muito pelo contrário... estavam chapados... davam risadas altas. Mais uma vez eu fazia o meu belo papel de bobo da côrte. Cada um com o seu fardo, sua sina. No final, cai exusto pro lado... e vomitei. Eles continuaram a rir. Tudo o que eu mais queria naquele momento era ter uma metralhadora pra pintar a piscina, os azulejos, a noite, a lua, tudo... de vermelho. Mas eu não tinha a porra da metralhadora. Gente fina aquele Théo ali!

Sério mesmo, o cara era gente fina. Até porque depois de vomitar eu dormi. Eles não me deixaram lá. Se fossem uns canalhas teriam deixado. Eles, o Théo principalmente, fizeram uma coisa boa: jogaram-me na piscina, pra que eu acordasse. Acham pouco? Meus camaradas não foram gente fina só por isto não. Além de me jogarem na piscina, eles me tiraram de lá. Caso não fizessem isto, eu teria morrido afogado. Taí um pessoal firmeza, apesar de tudo. Pelo menos eu pensava assim no auge da minha brisa.
No carro, de volta pra casa, o Théo vinha grudado com duas minas. O Macalé vinha segurando outra e a quarta ia dirigindo. Eu, do lado dela, não tinha coragem de dizer uma palavra sequer. Olhei meu rosto no espelho retrovisor e era um rosto triste... feio. Vi os cabelos escorridos querendo, sem conseguir, ser os cabelos de um Beatle quarenta anos depois. Vi os olhos verdes e pequenos demais para o tamanho do rosto. Vi as espinhas e até eu mesmo senti nojo delas. Fiquei com vontade de mandar tudo tudo ir tomar no cu...
E foi o que eu fiz.
Desci do carro. Bati a porta com força. Eles ficaram lá, me chamando para que eu voltasse, mas eu não iria voltar porra nenhuma.
Andando naquele ritmo eu ia demorar umas duas horas pra chegar em casa. Tudo certo. Bem que a noite tava bonita, que a lua era cheia e que eu até tava com um pouco de vontade de caminhar, mas não tanto. A verdade verdadeira mesmo é que tava longe pra caralho e como miséria pouca é sempre bobagem, eu também tinha esquecido meu walk-man no carro e agora teria que caminhar sem ouvir sequer um sonzinho consolador. E aí comecei a pensar que tudo aquilo mudaria quando eu escrevesse meu livro de poemas. Podia até ser que Deus quisesse virar a mesa pro meu lado. Ele tem dessas coisas. Então, além de lançar um livro que seria sucesso de crítica e de público, eu seria chamado pra jogar num grande time de futebol. E aí, quando os repórteres viessem me entrevistar, eu só diria coisas inteligentes e todos ficariam pasmos com a minha erudição e o meu talento, e eu teria dinheiro suficiente pra tirar minha mãe daquela escola maldita, e até o meu pai eu mandaria chamar lá no Pernambuco dele pra ficar me dando um apoio, coisa que é o papel dele mesmo. E eu compraria um Vectra preto e um Audi também. E todas as garotas ficariam aos meus pés, mas eu só escolheria as melhores. E eu apareceria naquele bairro ali só de vez em quando, mas toda vez que eu aparecesse seria uma festa com cerveja e churrasco de graça pra todo mundo. E eu montaria também uma grande instituição que ensinaria música, literatura, teatro, capoeira, futebol, natação e o escambal pra molecada e... era bem assim que eu ia pensando, sonhando, no meio da noite clara de lua cheia. Contudo, de tanto ficar prestando atenção a todas essas imagens que surgiam diante dos meus olhos como num cinema, eu acabei não prestando atenção naquele bueiro que estava ali bem na minha frente, cuja tampa estava quebrada. Resultado: Afundei metade do corpo dentro do bueiro. Quase peidei de tanta dor. Ralei tudo as pernas. Melei-me todo com aquela água cheia de bosta, de lixo, de vermes, de ratos mortos, de ratos vivos, de tudo quanto era porcaria. We can be heroes?
Levante porque era mesmo o único jeito. Fui caminhando devagar. Uma vontade profunda de chorar.
“Tu que estás sob a proteção do Altíssimo
e moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor:
Meu refúgio e minha fortaleza,
Meu Deus em que confio”. Mas Senhor... Pai... por que me abandonaste? Por que não faz nada? Não manda uma reviravolta? Dê-me uma luz Pai, porque sozinho assim está ficando impossível de continuar. Ajude-me Pai! Faça alguma coisa por este seu filho que sofre! Diga... é assim mesmo que o Senhor quer que as coisas sejam? Por que é que o Senhor deixa tanta gente boa sofrer tanto e a gente vê tantos sacanas aí pelo mundão se dando bem o tempo todo?
Foi então que o céu começou a virar, assim mesmo, sem mais nem menos. De um instante para o outro tudo escureceu. Parecia o fim do mundo. Uma ventania dos Diabos. Não dava nem pra acreditar. E aí a água começou a cair. Parecia um dilúvio e nem eu me chamava Noé, e nem um barquinho sequer eu tinha. Senhor! Senhor, tá certo que eu pedi para Você fazer alguma coisa, mas, quando falei, não era bem nisto que eu estava pensando.
Coloquei a perna, pra limpá-la, embaixo de uma pequena cachoeira que caía de uma calha. Os machucados sangravam, eram grandes. Decidi colocar o corpo todo embaixo da água. A sensação era boa. Como eu já estava mesmo molhado, resolvi continuar andando. Embaixo da chuva e tudo. Só que parecia que quanto mais eu caminhava, mais longe de casa eu ficava. Comecei a encanar que eu tinha me perdido, mesmo conhecendo aquele bairro feito a palma da minha mão como eu conhecia.
Continuando a caminhada percebi que minha impressão fora errada. É que o cansaço e a tristeza e as pingas e os baseados tinham me deixado confuso.
Cheguei ao cemitério e fiquei pensando no trabalhão que seria dar a volta inteira nele. As pernas doendo, os ombros, o peito e os braços doendo de tanto que eu tinha nadado e feito flexão... A chuva agora tinha parado... o frio era grande... pensei bem e disse a mim mesmo: “Vou pular o muro e atravessar por dentro dessa porra!” E foi mesmo o que eu fiz, sem pensar duas vezes.
É bem verdade que, enquanto eu atravessava, sentia um bocado de medo, mas o cansaço era tão grande que o medo ficava meio de lado. A lua, que ainda era cheia, agora começava a surgir entre as nuvens, não havia mais chuva, mas o cheiro de terra molhada e flores murchas davam à noite um aroma todo particular. Parei embaixo de uma árvore. (Minha terra tem palmeiras, mas eu nem sei como elas são). Dei uma olhada naquele céu ali, onde, entre os galhos das árvores e atrás das nuvens, uma lua cheia, amarela, forçava passagem. Sentei embaixo de uma das árvores, abaixei a cabeça sobre os braços e as lágrimas caíram incontroláveis dos meus olhos. Eu até que tentava me controlar, mas a coisa vinha em jorros, soluços, gemidos... outra vez.
Eu não sabia porque aquilo tudo estava acontecendo, mas senti uma mão fria tocar meu ombro, na pele perto do pescoço. Não levantei a cabeça. Fiquei quieto, imaginando que fosse o vigilante do cemitério. Mexeu um pouco mais, a mão, e eu percebi que não poderia ser o vigia, porque a mão era uma mão fina, delicada, de mulher. Levantei a cabeça. Meus olhos estavam embaçados por causa das lágrimas e de eu os ter apertado contra os braços. Esperei uns segundos até os olhos melhorarem e foi então que eu a vi. Era a mulher mais linda que eu já tinha visto até então. Era bonita, se era! Mas não era alegre. Ela tinha aquela beleza e aquela sensualidade que só a tristeza confere às pessoas. Era pálida, mas não era magra e nem gorda também, tinha o corpo perfeito para o tipo de rosto dela. Tem gente que tem o corpo e o rosto bonitos, mas um não combina com o outro e aí vira uma desgraça. Outros têm um corpo e um rosto que... melhor deixar pra lá. Ela usava um vestido vermelho que realçava a pele branca. No busto do vestido tinha um desenho preto que parecia o Robert Smith, ou o Edward mãos de tesoura. Devia ter uns trinta anos e levava uma garrafa de vinho tinto na mão esquerda. Lembro-me bem da mão onde estava o vinho, a esqueda.
– Oi. - Disse e se sentou ao meu lado.
– Oi. - Eu respondi e fiquei olhando pra ela.
Deu uma golada no vinho e passou a garrafa pra mim.
– Triste? - Perguntou.
– Triste? Acho que não. Estou mais pra desesperado.
– O desespero faz parte.
– É, eu sei.
– Qual o problema?
– O problema é que são problemas demais.
Dei uma golada no vinho. Bom.
– Fale de alguns.
– Bom, pra começar tem essas espinhas. Depois tem o futebol que não dá certo, a música que eu não aprendo, a poesia que não vem, minha mãe que me aporrinha, meu pai que foi embora, as mulheres que não me olham, as palavras que eu não aprendi a dizer, a sensação de ser invisível, esquisito, quase um fantasma.
– É, não são poucos os seus problemas, mas os meus também não são brincadeira.
– Fale um pouco deles, se você quiser.
Ela tomou um pouco de vinho. Acendeu um cigarro e tragou como se estivesse refletindo sobre alguma coisa muito chata, ou muito grave.
– Basicamente tudo está ligado ao meu ofício.
Esperei que ela continuasse, mas, como ela permanecesse calada, perguntei:
– O que é que há de tão errado com o seu ofício?
– Tem a ver com as pessoas. Elas não o aceitam muito. Reclamam, acham que eu não presto, que sou injusta.
Comecei a imaginar, por aquela fala dela ali, que a Dona devia ser era puta. Tomei um pouco mais de vinho e pra mim a coisa tava ficando era boa daquele jeito ali: vinho... luar... mulher bonita... parecia poesia de verdade.
– Agora queria ver como elas, as pessoas, fariam sem mim – continuou -. Só sabem se queixar, aporrinhar, reclamar, não param nunca, nunca estão satisfeitas, são umas viciadas. Posso dize, sem falsa modéstia, que sem mim não haveria ciência ou religião, ou arte.
– Ainda bem que você é humilde.
– Humildade! Dispenso sua ironia. Só os medíocres são humildes.
– Nisso você tem razão.
– Qualquer dia saio de férias, ou me aposento de vez e aí quero ver como é que vocês vão se virar.
Acendeu outro cigarro. Parecia ser bem nervosa e devia fumar um bocado, porque seus dedos estavam todos manchados de nicotina.
– Preciso voltar ao trabalho. - Ela disse.
– Mas já! Fica mais um pouco. Tá legal aqui, não tá?
– É você até que não é mal. Quando chegar sua vez vou ser carinhosa com você. Mas agora preciso ir. Tenho minhas obrigações. O trabalho me espera.
Pegou o resto do vinho, se levantou e partiu.
Antes que ela desaparecesse ainda gritei:
– Qual é seu nome? Seu telefone?
– Telefone não tenho. Quanto ao meu nome, acho que você não vai mais se esquecer, é bem simples: MORTE.
– Morte? Mas e onde é que estão a foice e a capa preta?
– São invenções – ela disse – invenções. - E desapareceu nas esquinas da noite.
Sorri quieto pra mim mesmo. Levantei e saí caminhando entre os túmulos. Pulei o muro, cai na rua e continuei caminhando até que ouvi o barulho de tiros e depois o barulho de carro cantando pneus. Fui para trás de uma banca de jornal e fiquei lá até que o carro passasse. Só então continuei meu caminho, mas nem bem tinha começado a andar quando encontrei ali, no meio da rua, ainda trêmulo e vermelho, um corpo cravejado de balas. Já era ela trabalhando. Revirei os bolsos e a carteira do defunto. Tinha quarenta reais. Ele não precisaria mais daquele dinheiro. Pus no meu bolso e continuei caminhando rumo ao meu barraco, mas no meio do caminho voltei e devolvi o dinheiro do morto. Ele poderia precisar pra pagar o transporte do outro lado. Vai saber se o barqueiro faz fiado!
Cheguei em casa. Levantei o portão. Abri e entrei. A mãe já estava dormindo. Tomei um banho rápido. Comi a comida fria mesmo. Fui pro quarto. Sem fazer barulho é claro que barulho nada resolve. Pus no som bem baixinho The end, dos Doors. Depois liguei a luminária, peguei o lápis, o caderno e escrevi:
Talvez houvesse um outro caminho.
Mas ele preferia aquele, o que levava à beira do abismo.
Deixou em casa velhos discos
E bons livros.
Levava nos bolsos alguns cristais
E sorrisos de criança
Chegou ao abismo às 16:28
Mergulhou às 16:31
Deus sorriu no instante seguinte
Deus tem bons dentes
Na África, uma centena de leões atravessava a savana.
Era um dia de Sol.
Aí guardei o caderno, o lápis, apaguei a luminária, mas deixei o som ligado e fui dormir.
Que noite.

pianistaboxeador21

estamos começando o blog hoje. espero que gostem dos textos