sábado, 6 de dezembro de 2008

Viagem ao Fim

Ele estava perdido. A maioria das pessoas está. Ainda carregava o machado na mão direita, mas não havia mais floresta. Era um lenhador, contudo seu trabalho havia terminado e ele, que jamais respeitara o perfume do sândalo, sentiu saudades do tempo em que havia ainda pela frente um trilhão de árvores a derrubar. Olhou para os dois lados e só havia a areia e o deserto avassalador. Soltou o machado no chão e enxugou com as costas da mão direita uma única lágrima pequena, que escorria pelas rugas da face formando quase que uma correnteza, quase que um rio. O corpo ainda era forte, resultado de sessenta e tantos anos derrubando árvores e mais árvores, contudo agora não havia mais árvores, nem pessoas, nem nada, só a areia e o deserto imenso. O machado era inútil, mas... porra... ele era um lenhador, e lenhador era tudo o que ele sabia ser, ainda que não houvesse árvores, de que maneira poderia abandonar o machado?

Pegou outra vez sua ferramenta de trabalho. Passou de leve a mão pelo fio afiado. Alguma coisa doeu em seu coração, mas o coração não doía nunca. Pelo menos era o que lhe haviam dito a vida inteira... então que diabo era aquele vento ruim soprando tudo que era sensação boa dentro dele? Sentiu as pernas enfraquecerem e sentou. Jamais sentira qualquer tipo de fraqueza, agora sentia, sentia uma fraqueza grande e profunda como o deserto, uma fraqueza de tamanho igual à da floresta, quando a floresta era grande e ele era pequeno. Acendeu um cigarro de filtro amarelo e tragou devagar. Doíam-lhe até as pernas da alma e ainda assim ele começou a se lembrar do tempo da infância, só pra se magoar e sofrer ainda mais. Era velho, mas parecia um desses meninos que cutucam a casca de uma ferida até que ela comece a sangrar outra vez. Examinou as unhas das mãos na esperança de encontrar alguma que pudesse ser roída, contudo todas elas estavam sugadas até o centro da carne.

“Agora é esperar a morte”. Pensou terminando o cigarro e se deitando pra deixar o Sol destruí-lo pra sempre. Era o que queria agora. Era só o que esperava agora.Todavia, mal fechara os olhos, ouviu a voz da menina chamando-o e os dedos dela cutucando-o. De onde ela, a menina, surgira só Deus o sabia.
- O que o senhor está fazendo aí? Ela perguntou.
- Nada, estou só morrendo. Ele respondeu.
- O senhor é muito bonito pra morrer assim... sozinho.
- Eu tenho culpa, acho que é assim mesmo que devo morrer.
- Ninguém merece morrer assim. – Ela disse e começou a mexer numa pequena mochila que carregava nas costas.
- O que é que você está procurando ai?
- É só uma coisa que eu trouxe pro senhor. – ela disse e neste exato instante encontrou o botão de rosa que pretendia dar ao lenhador. Ele ainda tentou argumentar que não merecia, que era culpado, mas ela insistiu e ele apertou o cabo da planta na mão, sem se preocupar com os espinhos. Por alguns momentos as almas de ambos se tocaram e eles souberam que eram iguais, que se pertenciam, ainda que ele tivesse mais de setenta anos e ela tivesse menos de quinze. Depois a menina virou as costas e foi embora sem dizer adeus. Quanto ao lenhador, tudo o que fez foi observar uma gota de sangue, saída da ferida na mão provocada pelos espinhos, escorrer pelo seu braço e cair sobre a areia quente. Poucos minutos depois a gota de sangue estava seca.

2 comentários:

Luciano Fraga disse...

Caro amigo,às vezes cometemos certos erros que mesmo regando a terra com nosso próprio sangue não tem conserto e nunca terá... Grande texto, abração.

Adriana disse...

Esses momentos em que as almas se encontram, nem que seja por segundos, é que deixa a vida com um certo sentido. Talvez o seu lenhador tenha percebido isso. Mais um texto que amei. Beijo.