sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

EXECUÇÃO

“a culpa é indubitável”

FRANZ KAFKA.

Ele ouviu os gritos da multidão e não pôde acreditar que a coisa ia mesmo acontecer. Não podia acontecer, não com ele, isso só acontecia aos outros. Mas ele estava lá e foi arrancado do seu pensamento por imenso tapa na nuca. “Filho da puta!”, pensou, mas nada disse a princípio, talvez ofender pudesse ser pior, entretanto se não havia mesmo mais jeito e o que o separava da morte eram apenas alguns movimentos do ponteiro no relógio da torre, então que esse guarda amarelo fosse mesmo tomar no centro do cu!
- Filho da puta! Gritou com todas as forças.
Recebeu nova pancada, desta vez no estômago. Curvou-se sobre a dor. O guarda de uniforme verde bem passado e quepe preto balbuciou alguma coisa que ele não entendeu e o puxou pelos cabelos. A princípio não se moveu, mas, assim que pôde se reerguer, foi ordenado que ajeitasse a placa pendurada no pescoço onde constava seu crime e sua sentença. Não entendia as palavras do guarda, mas ele, o guarda, apontava na direção da placa. Num país onde os ratos eram sagrados, era proibido que se fabricasse ratoeiras. Sim, era culpado pela morte de milhares de ratos, ou não era culpado pela morte dos ratos, mas tinha confessado, ainda que sob as mais cruéis torturas. E eles ainda chamavam a isso de justiça. Pior, chamavam de a melhor justiça do mundo, onde 100% dos crimes eram punidos com a morte, onde os advogados de defesa recebiam mais pela condenação que pela absorção dos réus.
Viu um par de botas, um sobretudo e um quepe se aproximarem. Desviou o olhar pra multidão. Estavam eufóricos, monstruosos. Um estádio inteiro de filhos da puta! Ainda não acreditava que seria realmente morto, como num filme, num conto do Sartre, ele acreditava que seria salvo no último momento. Ao mesmo tempo, sentia um vazio por dentro, como se não tivesse órgãos, nem sangue, nem nada, além do vento, dentro de si. “Agora tanto faz”. Pensou, só não iria mesmo era abaixar a cabeça como eles queriam. Não iria mesmo.
Subiu as escadinhas que o separavam do centro do espetáculo. Sentiu os tomates podres esborracharem-se sob seus pés. Que lindo tapete vermelho! Que espetáculo! Estava no fim e nem sequer tinha realizado algo de grande. Olhou pro céu, num ponto mais além do relógio da torre, e notou que, ao longe, entre as nuvens pesadas de água, os dragões já haviam se libertado e voavam como que em câmera lenta. Recebeu a primeira tomatada no rosto. Em seguida vieram mais dezenas delas. E cada tomate parecia que vinha com mais força. Era o grande momento de sua vida, seu grande espetáculo e toda aquela platéia se rendia, jogava-se a seus pés. As vaias são tão importantes quanto os aplausos e seus aplausos eram as vaias que os cretinos arrancavam do ponto mais profundo de suas gargantas. Podia ver de longe o suor no rosto deles, de cada um deles. E os dragões cada vez estavam mais perto, mas era só ele, que estava no palco, quem os via, os espectadores não ousavam voltar suas cabeças na direção da torre.
Come in from the cold ...
Sorriu ao imaginar que seu sangue se misturaria ao sumo do tomate. Nunca saberiam o que fazia parte dele e o que fazia parte dos tomates.
Ouviu o guarda anunciar, sem entender porra nenhuma daquela língua estranha, sua sentença. Balançou a cabeça com força quando tentaram vendar seus olhos. Queria ver o rosto da morte. Queria encará-la de frente. Sentiu o hálito quente dos dragões empestear todo o estádio. Olhou pros seus pés vermelhos entre os tomates. Ergueu novamente a vista e viu que as mangas do sobretudo verde preparavam a munição pra arma. No céu, os dragões voavam em círculos nervosos. A multidão em êxtase. Lembrou-se pela última vez dos girassóis que ela, às vezes, deixava na janela. Lembrou-se da alegria das crianças quando voltavam da escola, mas agora ele estava só, completamente só. A despesa da bala já tinha endereço certo. Nem sequer na hora do disparo fechou os olhos.

8 comentários:

Adriana disse...

Parece a cena de um filme, a descrição do ambiente, os sentimntos do personagem, as cores presentes no texto, as imagens. Lindo, forte, sereno.

Luciano Fraga disse...

Que apreensão meu amigo, parecia que o condenado era esse cara aqui.Isso aí,em nossos dias, olhar nos olhos, é coisa para poucos , grande texto, abração.

Bill Stein Husenbar disse...

Nesta época natalicia, desejo um Feliz Natal recheado de momentos bons e inesqueciveis na companhia dos que mais ama. Que a alegria e a esperança se espalhe e se concretizem no coração de cada um de nós.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

JC disse...

É a primeira vez que venho ao seu blog. Adoei!
Quanto ao texto, infelizmente ainda existem muitos países no mumdo onde há a pena de morte. Já devia ter sido erradicada, mas infelizmente ainda continua. Além disso deixo a pergunta quantas vezes já forann conenados à morte inocentes? Algumas, com ainda à pouco tempo se vericou nos EUA um condenado àm morte que estevve cerca de 25 anos preso e depois foi posto em liberdade por se ter provado que não era culpado daquilo a qe tinha sido julgado.
É necessário semos persistentes e não nos calarmos. quantas mais vozres existirem no mundo contra a pena de morte mais força existe para que ela possa vir a ser abolida.
Voltarei.
Um abraço

Arabica disse...

Morrer de girassois acesos nos olhos...


Abraço, boa semana

marcio mc disse...

Caro amigo Daniel,texto muito interessante,fiquei fixado em cada palavra até a ultima letra.Grande abraço.

f@ disse...

Olá Daniel,
Excelente como sempre teus textos...
Presa às palavras...
Beijinhos das nuvens

Fernanda Lima disse...

Tudo dava errado pra ele, ele nunca conseguia o que queria ele estava no fundo do poço e quase perdendo sua fé, até que em uma noite ele questionou:
-Porque senhor? porque fazes isso comigo?- foi então que ele teve uma visão era uma guerra e as pessoas lutavam por poder, então ele disse:
-me explique porque não entendo- foi ai que ele ouviu uma voz:
-voçê não precisa entender creia em mim que serei salvo
-mas o senhor nunca me atende-disse ele
-fazes por merecer?-então ele compreendeu que queria resposta mas não fazia por merecer, então ele parou de questionar e passou apenas a crêr...