quinta-feira, 20 de novembro de 2008

OLHANDO E ESPERANDO


Eu estava pintando tudo. A plantação e a árvore e os pássaros negros. Olhando e esperando. Sempre olhando pro caminho e esperando alguém que me pudesse entender. Só que o caminho estava sempre vazio, como o forno à lenha sem lenha da minha avó. Mas eu tinha os meus pincéis e a plantação e a árvore e os pássaros negros e ficava lá bem quieto sentado à beira do caminho. É bem triste estar no mundo e saber que nunca haverá alguém que o compreenda. Num planeta tão cheio de gente e a gente ser sempre calado e só. Eu deveria ter ficado quieto no meu canto com o meu mundo e os meus pincéis, mas fui abrir a boca e me perdi e agora estou perdido e sozinho. De segunda a sexta, tenho um trabalho e algumas roupas que lavo engomo e ponho no corpo, mas existem então os finais de semana e os feriados e eu venho aqui pra esse lugar e fico pintando sempre a mesma paisagem. Imagino que estou tentando recuperar as coisas que deixei saírem da minha vida, ou as coisas que nunca estiveram na minha vida e o caminho é sempre vazio, como um velho navio abandonado e enferrujado que vi na infância em algum porto de Espanha, ou de Portugal, não me lembro bem.

Penso gentilmente se numa época qualquer, do futuro ou do passado, chegará o dia de eu ver de novo esse rosto que conheço sorrindo, contudo sei que o rosto se perdeu e o sorriso também. O outro lado da máscara do teatro é o choro. E não é mesmo esse planeta um imenso palco? Você disse que eu era pequeno-burguês, porque eu tinha um carro, um terno e um trabalho. Não era bem isso, eu também tinha filhos a quem dar de comer, ideologias nunca encheram a barriga de quem quer que fosse, você sabe bem, agora que passou a viver o outro lado da coisa e administra sua Arte como um negócio promissor e lucrativo. Fico orgulhoso quando penso no seu sucesso. Todavia, eu bem sei que o meu orgulho não faz a menor diferença pra você que é forte e olha pro futuro. Eu é que sempre fui um fraco. Às vezes, quase sempre pra dizer a verdade, os fortes me dão no saco. Às vezes até a tua lembrança me dá no saco. Você sempre olhando o futuro e as avenidas, enquanto dirigia, com aquela expressão de quem sabe exatamente onde quer chegar. Esse mundo escroto em que você vive me dá vontade de vomitar. Mas eu ainda te espero (ou não?) e sou paciente e tenho a paisagem e os pássaros negros e a estrada, mesmo que a estrada esteja sempre vazia, eu continuo por aqui. A menos que a semana comece outra vez.

Deus é testemunha de que tentei, de que fiz de tudo pra te arrancar de dentro de mim. Todos aqueles homens ao teu redor, circulando você, como se você fosse o prato principal. E você burra e bêbada esbanjando o teu corpo e o teu carinho com qualquer idiota que aparecesse. Todos eles só queriam te foder no rabo. E você, míope como sempre, foi e deu o rabo pra eles se fartarem. Sei que o rabo é e sempre foi seu e que todo o espetáculo não representou nada pra você. Mas em algum instante você parou pra imaginar como eu me sentiria, ouvindo aquele bando de idiotas comentando o que fizeram com você na sexta à noite, ou no sábado de manhã?
- Sexo é vida, meu bem! Você me gritou nos ouvidos.
- Você sabe, ele era gay, mas era tão bonitinho e tinha a festa e a cerveja, rolou um clima e aconteceu. Você me gritou nos ouvidos com a empáfia que lhe é característica.

Sei que sexo é vida, meu bem, mas pra mim também é sagrado. Não sou moralista. Nunca fui moralista, mas acho que a gente tem que pôr um pouco o coração no meio dessa coisa toda, se não fica muito vazio, mais vazio que masturbação. Sem transcendência é pura perda de tempo. Não sei o que você pensa, também não quero saber, você põe um salto alto e chuta todo mundo pra escanteio sem cerimônia. Na sua cabecinha de menina isso é ser forte e independente. Pra mim é só burrice e insegurança. Não é vergonha nem humilhação nenhuma a gente tentar dar o lado mais terno pra alguém. Não é vergonha nem humilhação nenhuma a gente acariciar quem ama. A própria Frida, que você tanto ama, se pintou de mãos dadas consigo mesma, com o coração de fora e seu belo vestido branco. Ela não tinha vergonha de dar o coração, como você, muito pelo contrário. Sei que vai parecer choradeira, mas que se fodam as aparências, pois eu quis criar um mundo inteiro e novo e bom pra nós dois. Eu quis te mostrar as coisas mais bonitas do mundo que moravam dentro de mim e você chutou minha canela com força. Característico. Previsível. Que a sua solidão, ao contrário da minha, seja leve. Você tem seus derivativos: a cerveja, os machos, as festas. Eu não. Gosto de beber, mas gosto demais e não posso.Tenho que viver só com a minha cabeça e esta paisagem. Agora chega, vou trocar os pincéis por uma faca e te arrancar de vez de dentro de mim. Assim que a ferida cicatrizar, e ela vai cicatrizar, vou comprar uns livros e estudar latim e russo. Quero ler Petrônio e Fiódor Dostoyévsky.

3 comentários:

Adriana disse...

ADOREI ESSE TEXTO. VOCÊ DIZ AS COISAS DE UMA MANEIRA TÃO NATURAL E AO MESMO TEMPO TÃO POÉTICA E TÃO FORTE! VAI NOS ENVOLVENDO DE UM JEITO SUAVE E FINALMENTE NOS FISGA ATÉ O FINAL. SEM PISCAR OS OLHOS. BJ.

Bill Stein Husenbar disse...

Perfeito.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

Arabica disse...

Tem que por coração: no sexo e na escrita.


Aqui não falta.


Abraço, boa semana