sexta-feira, 7 de novembro de 2008

OBRA-PRIMA

Ele realmente não se sentia bem. Uma bruta ressaca e aquela típica vontade de morrer que sempre cerca os desesperançados. Mas para ele ainda havia esperança, ainda que fosse pouca. Muito pouca. Olhou a porra do rosto no espelho retrovisor. O lado direito parecia o lado direito de um monstro, inchado, roxo, cheio de sangue seco e de sangue pisado. Que merda! Que grande merda!

Acendeu o cigarro e deu uma longa golada na última garrafa de cerveja. Nada disso faz diferença, pensou, nem a estrada, nem os pássaros, nem esse rio (porque o carro estava parado bem próximo do rio) nem o céu, nem porra nenhuma, se a gente vai pro saco, se a gente entrega a rapadura, se a gente vai embora, tudo isso continua, e o sol continua, e a chuva continua, que bosta! Estava mesmo perdendo as esperanças, ainda havia uma última, mas ele com certeza não ficaria com ela, era só uma questão de tempo.

Então terminou a cerveja e jogou a garrafa no rio. Que se fodesse a ecologia. Acendeu outro cigarro, que se fodesse a saúde também, e foi fumá-lo embaixo de uma árvore. Olhou o relógio. Ela estava atrasada. Porra! Ele tinha enfrentado toda aquela encrenca. Tinha apanhado mais que um cachorro vagabundo e agora ela se atrasava. Era mesmo pra qualquer um perder a paciência... e a esperança. Jogou a bituca do cigarro no chão e a apagou com a sola da bota. Tirou a gaita do bolso e começou a tocá-la, não tocava muito bem. De qualquer forma aquilo ajudava a passar o tempo.

Antes de terminar a primeira canção, porém, viu-a surgir junto ao Sol que nascia, no fim da estrada. Sorriu, era aquele último pouquinho de esperança. Ela veio vindo feito um gato, quando ele, o gato, anda meio de lado, com cuidado e sorrateiro. Usava um daqueles vestidos de hippie azul que ficavam tão bem nela. Ele levantou, guardou a gaita no bolso e limpou a parte de trás da calça. Sorriu, e o rosto machucado doeu.

- Nossa você está horrível, caubói. – Ela disse tentando tocar o rosto dele, mas ele evitou.
- Sua família, aqueles anjinhos, fizeram isto.
- Que merda!
- Não tem importância. Vamos? Não podemos perder tempo.
Ela sorriu de lado. Realmente parecia um gato. Olhou pro rio. Olhou para as árvores. Olhou para o céu e para o chão: nada disse.
- Que foi? – Ele perguntou – Qual é o problema?
- É que estou confusa, não tenho certeza de que estamos fazendo a coisa certa.
- Como assim?
- Não sei. Só sei que estou confusa.
- E só agora que você me avisa, Ana, que grande merda! Depois de tudo que eu me fodi, você vem me dizer que está confusa.
- Não tenho culpa é que...
- Faça-me um favor, volte pelo mesmo caminho que veio.
- Não precisa ser assim, Danilo.
- Como não? Eu arrisquei tudo. Isso não é brincadeira, porra, é a nossa vida, menina. É a minha vida. Não posso mais voltar pra casa. Não tenho mais nada.
- Desculpe... eu não queria...
- Tudo bem, não faz diferença. Pegue minha gaita, um último presente, e volte pra sua casa.
- Você vai ficar bem.
- Não, mas foda-se.
- Desculpe.
- Tudo bem.
- Caubói?
- Fala.
- Não posso aceitar a gaita.
- Pega logo a porra da gaita e sai da minha frente, pelo amor de Deus.
- Desculpe. – Ela ainda disse mais uma vez, entretanto ele não disse palavra. Ela virou de costas e foi caminhando pela estrada. Diminuindo aos poucos, ficando cada vez menor, sua imagem ficou estremecida, por causa do Sol e, por fim, desapareceu. Ele caminhou até o carro, um Maverick, é necessário dizer, apanhou no banco de trás uma espingarda calibre doze, apoiou-a no chão, tirou a bota e a meia, colocou o dedão do pé no gatilho, a boca no cano e pressionou o dedão pra baixo. O estrondo fez os pássaros voarem das árvores, junto à última esperança que escapou do corpo do rapaz.

Minutos depois, uma jovem artista, pintora medíocre de paisagens, chegou ao lugar. Antes de chamar a polícia resolveu pintar toda a cena.

E pintou uma obra-prima, porque a morte ainda estava por ali e deixou o ar mais denso e nenhum artista, ainda que fosse medíocre, poderia ficar indiferente a toda aquela atmosfera. As pessoas que viam a tela, mesmo vinte anos depois, ainda se emocionavam, sobretudo com o pé descalço do rapaz.

11 comentários:

Paradoxos disse...

diálogos de elevar a alma do principio ao fim!!

abraços


5 estrelas

Blood Tears disse...

As obras primas nem sempre surgem de inspirações agradáveis....

Excelente texto.... :)

Blood Kisses

On The Rocks disse...

"a morte deixa o ar mais denso..."

do caralho!

grande texto, daniel.

conheço o woody guthrie e gosto de todos os artistas que você comentou lá no on the rocks.

rapaz, é o seguinte: meu amigo nelson magalhães quer fazer a parceria com o amálgama. então, ele me pediu para fazer a ponte. entre em contato, se possvel, com www.anjobaldio.blogspot.com

hava a nice weekend.

abraços

p.s: gostei muito do comentário que você fez no on the rocks.

Arroba disse...

Não sei se este será o post mais indicado para lhe responder, mas... relativamente ao seu comentário no meu blogue, gostaria de lhe dizer que filhos do mundo são aqueles que, normalmente apenam se apegam às riquezas e valores materiais, todos os outros que se esforçam em não o ser caminham para, ou procuram a Luz, daí serem designados os filhos da luz, e conforma a perfeição atingida serão mesmo Iluminados.
Beijo fraterno
Arroba

Luciano Fraga disse...

Caro Daniel, do caralho esse texto, tocante. Realmente o que nos resta tem sido muito pouco, migalhas mesmo...Grande abraço.

Luciano Fraga disse...

P.S. grande alegria com tua volta meu velho, abraço.

f@ disse...

Obra-prima tb este texto.
Mto bom teres voltado
Beijinhos das nuvens

ronaldo braga disse...

uma atmosfera que conduz o leitor e o empurra numa direção que a qualquer momento pode tanto ser reduzida quanto ampliada. Um texto que toma decisão, que não peca por omissão.
pesado e leve como o vestido que ela usava. a dor que mais se destaca é a dor do engano.

Adriana disse...

Gostei do jeito como conduziu a história, o clima que nos envolve, o desfecho. Muito legal. Abraço. Adriana

Cristiana Fonseca disse...

Obra prima de texto. Belo, simplesmente belo.
Deixo minhas desculpas pela ausência, voltarei para ler-te.
Abraços,
Cris

anjobaldio disse...

Muito bom. Grande abraço.