sábado, 4 de outubro de 2008

VOCÊ NUNCA PODERIA VOLTAR PRA CASA

“Então é assim que tudo termina? Um gosto amargo na boca e a sensação de que toda a aventura poderia nos ter dado mais coisas e coisas melhores?” Não aceitava a conta que lhe era cobrada. Não era justa, a conta. Exigia seu troco. E o único troco digno, era servir-se de mais uísque, sem gelo nem água, e se deitar pra ouvir ainda uma última vez a voz doce de Annie Haslam, aí sim, partir de vez pro outro lado, enquanto o dia começava a surgir e os galos haviam se transformado em pardais que também cantavam.
Olhou mais uma vez o apartamento sujo, cheio de cinzeiros cheios e garrafas espalhadas. Olhou o piano no qual tinha composto quase todas as suas canções. Lembrou das inúmeras vezes em que Virgínia lhe trouxera um café, ali, no piano. E ele sempre tomava o café e fumava um cigarro e depois, renovado e afastado, pelo café de Virgínia, do medo do fracasso, voltava e prosseguia, procurando as canções. Agora o piano estava lá, calado, e lá calado ficaria, não poderia levá-lo pro outro lado. Agora Virgínia estava longe. Quem sabe na Amazônia, percorrendo aqueles rios negros com um garoto qualquer, vinte anos mais novo que ele.
Bebeu todo o uísque de uma vez. Tentou se levantar. Não conseguiu. A dor era muito forte. Colocou a mão nas costas. Onde sentia a camisa empapada. A mão voltou melada de vermelho, de um vermelho escuro, quase negro. “A facada deve ter acertado o fígado”, pensou. Ao pensar no fígado, sorriu. Quanto trabalho tinha dado àquele órgão. Tinha visto drogas entrarem e saírem de moda. Tinha experimentado, usado, abusado de todas elas. E o fígado tinha ficado lá, pronto, determinado a trazê-lo de volta do outro lado. Agora a facada o tinha acertado bem ali. Não poderia mais voltar. Agora teria que ficar do outro lado de vez. Se pelo menos lá, do outro lado, houvesse a certeza dos violinos...
Fez mais força... Escorou-se nos braços do sofá... Arfou... Devagar... Levantou-se... Sentiu vontade de vomitar... As vistas entraram na noite... Não podia ir... Não ainda... Exigia seu troco e seu troco estava logo ali, na cozinha, sobre a pia... Tinha falhado como artista... Tinha perdido o jogo da arte... como um garimpeiro... tinha procurado seu diamante... do outro lado... mas não tinha encontrado a coisa... Tinha falhado como artista, mas não se permitiria falhar como homem. Tirou seus olhos da noite... As baratas já tomavam conta da pia... Mas o uísque ainda estava lá, intacto... Os passos eram lentos... Os quatro discos gravados há muito tempo não poderiam ajudá-lo agora... A guitarra azul não poderia ajudá-lo agora... Nunca mais poderia voltar pra casa... A casa estava demolida... destruída... no chão... tinha esse apartamento, mas não era uma casa... respirou fundo... pé ante pé... como um samurai paranóico... ganhou a cozinha... escorou-se na geladeira... faltava pouco... Droga pianista, eu só quero mais onze passos, mexa-se.

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Onze passos que pareciam impossíveis. Todas as mulheres ficaram pra trás. Todas as notas arrancadas com sangue, ficaram pra trás. A casa ficou pra trás. Ninguém pode entrar na morte acompanhado, mas ter de encarar tudo, sem ter sequer alguém que lhe dissesse: “ Você não foi tão ruim assim cara, até que você tinha umas qualidades, vou sentir sua falta” era impossível pra qualquer um. Entretanto as pessoas que poderiam dizer algo estavam no passado. O futuro era a solidão e os três passos que ainda o separavam do uísque.
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“Só mais três passos”. Pensou... Mais uma respirada funda... Era uma das últimas... Precisava aproveitar... Ouviu o disco chegar ao fim, ouviu os primeiros acordes do violino... Desde criança, à noite, gostava de ficar acordado sozinho, cutucando as melancolias e ouvindo os sons... Adeus Virgínia... que pelo menos um sorriso bom dele tivesse ficado dentro dela pra sempre... nem tudo era mentira e traição... havia coisas bem sinceras... tantas guitarras azuis! Esforçou-se mais... Esticou a mão esquerda... era canhoto... Alcançou a garrafa... Devagar... Encheu o copo... As costas doeram forte... Adeus Virgínia... O dia lá fora clareava, mas, dentro do apartamento, a noite se tornava cada vez mais profunda e sincera... Bebeu todo o uísque de uma vez, era a dignidade que lhe restava. Cães latindo em meio aos violinos lá fora. Olhou os números vermelhos no relógio digital em cima da geladeira. 4:55.

- Vem meu filho. Disse a noite e o acolheu com carinho. E Virgínia estava longe. E a casa era só uma lembrança de pedra.


7 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Peço a todos que tenham um pouco de paciência comigo, porque tenho demorado a comentar. Muito trabalho, muita loucura e muita cagada ultimamente.
Acho que agora passou.
Abraços,

Daniel

f@ disse...

"Imenso" texto ... inesperado sabor do choque... que a contagem dos passos quando o dia e a noite se fundem não tem o mesmo significado das passadas no chão....
beijinhos das nuvens

Arroba disse...

Casas demolidas, barcos naufragados, cinzeiros cheios e vidas vazias.Abencoados, no entanto, aqueles que tem nas mãos o poder da escrita.
Obrigada pela visita, também tenho andado preguiçosa,
Abraço

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Amigo:
É com tristeza e lágrimas nos olhos que venho aqui despedir-me, pois estou deixando a Blogosfera, pelo menos por ora. Estou com tantos problemas que nem sei por onde começar a resolvê-los. Mas o Blog ainda é meu e mantive o meu perfil, caso possa voltar. Fiz uma postagem de despedida. Se quiser despedir-se de mim, apareça.
Foi uma honra conhecê-lo.
Um abraço,
Renata Cordeiro

Luciano Fraga disse...

Contagem regressiva dos passos, cinzeiros, fígado bombardeado,às vezes a noite é tão pura quanto uma criança pronta para nos acolher, cruel meu caro, abraço.

Carla disse...

quantas vezes as casas se constroem de vazios e de dolorosas solidões...
ebijos

biazinha disse...

Seus textos sempre calam a alma.
Em breve nos reencontraremos.

Beijos.