sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sem lágrimas, ou Para ninguém...


O dia ainda não havia clareado quando ele acordou e ficou olhando pra ela que dormia. Entrava, pela janela da cozinha, uma luz levemente avermelhada. Ele deslizou devagar as mãos pelos cabelos dela e, quando baixou a cabeça com intenção de beijá-la, o relógio despertou. O beijo agora ficaria engasgado dentro dele, como se ele houvesse engolido uma águia, ou um corvo.

- Dá licença que eu preciso trabalhar. – Ela disse com seus olhos muito abertos e profundos. Havia mais de três meses que não se falavam, que não se tocavam, que não se ouviam. Quando alguma palavra escapava da boca dela e entrava pelos ouvidos dele, era, invariavelmente um palavrão, ou alguma frase mais agressiva.

Ele saiu um pouco para o lado. Tinha ficado mudo. Não conseguia mais falar.Era como se já estivesse dentro do túmulo, morto, tentando se comunicar com alguém vivo, desde o fundo da terra. Mas ela não ouviria e o túmulo dentro dele era lacrado com um concreto muito especial, que não deixava o que quer que fosse escapar. Ela caminhou até o banheiro e ele ouviu o barulho da água caindo pelo chuveiro. Enquanto ia pra cozinha, viu meio que de relance, seu próprio reflexo no vidro da janela. Estava barbudo, cabeludo, branco e feio. Os barulhos que vinham da rua o atormentavam e o amedrontavam profundamente. Será que nunca mais conseguiria encarar o mundo? Será que já estava mesmo morto? Estava se esforçando, mas não conseguia sair de dentro do túmulo que ele mesmo construira. Era um túmulo bonito, isso era, com uma estátua do Chaplin por cima, mas, mesmo com o Chaplin, não deixava de ser um túmulo e ele não conseguiria sair. Tudo doía dentro dele, o pássaro que era um beijo dilacerava seus intestinos, seu fígado, os rins, o coração e tudo o que ele poderia fazer era suportar a dor sem espernear. Porque era um homem. Um homem com um pássaro e um túmulo dentro do corpo.

Ela saiu do banheiro e começou a se vestir.Olhou pra ele parado a um canto do quarto e balançou a cabeça negativamente. Ele achou que ela continuava bonita, mas não conseguia fazer nada. Era como se estivesse completamente acorrentado à tormenta. Ela colocou um vestido vermelho e um sapato também vermelho. Havia uma echarpe salmão. Mas ela desistiu de usá-la no último instante. Penteou os cabelos enquanto os secava com um aparelho barulhento que também o incomodava. Por fim, passou um pouco de brilho nos lábios, que batom ela não usava, e foi pra cozinha, onde preparou um copo de chocolate.

O pássaro se debatia dentro dele. Precisava fazer alguma coisa agora. Ela já sairia. Havia muitas contas a pagar e ele não conseguia mais sair de casa. Alguém precisava pagar as contas e esse alguém não era um artista fracassado e morto. Mas ele tinha que fazer alguma coisa já. Sentia que esse era um momento definitivo, embora não soubesse muito bem porque. Correu até a sala. Pegou papel e caneta e escreveu com sua letra trêmula e nervosa

“Ainda temos uma chance?”

Colocou a folha sobre a mesa. Ela girou o copo entre as mãos tentando dissolver um pouco melhor o chocolate dentro do leite. Bebeu. Pegou a folha e levantou na altura dos olhos. Havia algum brilho, havia alguma água, havia alguma ternura em seus olhos, entretanto, em vez de chorar, ela sorriu e depositou outra vez a folha sobre a mesa, chegou a pegar da caneta, mas não escreveu coisa alguma, deixou-a cair novamente. Foi até o quarto apanhar sua bolsa. Beijou-o levemente no rosto sobre a barba e ele sentiu, pela milésima vez, o perfume bom dela. Alguma coisa dentro dele dizia que aquela era a última vez, mas nem assim ele conseguiu sair de dentro do seu túmulo. Em alguma praia do litoral norte um cachorro fazia cocô admirando o oceano.

12 comentários:

Blood Tears disse...

Há túmulos que nos encerram em vida....

Blood Kisses

Marcia Barbieri disse...

Como sempre um texto perfeito,de um homem perfeito.Ainda bem que na vida real a sua mulher não é tão fútil,aliás,eu diria que ela é profunda. Outra coisa, ela jamais deixaria de perdoá-lo.

beijos
P.S: te amo,mesmo em meio aos cacos do cotidiano...

anjobaldio disse...

Muito bom Daniel. Grande abraço.

f@ disse...

Bom demais e como sempre ... profundo...
Mortos vivos .. com pássaro em gaiola escura ...
Um abrir de olhos ... asas... e o mundo tem decerto mto mais cor...

Beijinhos das nuvens

Luciano Fraga disse...

Daniel, muitas e muitas vezes agente morre e ficamos sem as respostas. "Um pássaro dentro..." lembrou-me um poema do velho Buk.Altamente reflexivo, muito bom!Abraço.

Carla disse...

priosioneiros de si próprios...dorido esse sentimento.
Tão bem descrito este sentimento num texto muito intenso
beijos

jawaa disse...

Gostei muito do que escreve.
Natural, simples com o pássaro dentro. Até dói.
abraço

Blood Tears disse...

Passeipor aqui para te dizer que tens uma lembrança lá no meu "templo".

Boa semana, Bjs

Ingrid Guerra disse...

Ando relapsa com comentários, eu sei, mas minhas leituras continuam ocorrendo. Apenas me faltam mais palavras para expressar meus sentimentos. Ainda assim, passo, sempre que posso, por aqui para ler seus contos e poemas. Quero lhe agradecer as visitas, os comentários e dizer que em breve voltarei a fazer comentários mais especifico sobre os texto. Fico feliz que tenha gostado da minha crônica e da música que postei. Um grande abraço.

pradom disse...

Sempre ha' uma chance!

marcio mc disse...

Caro Daniel,grandioso texto,parabéns cara.Grande abraço.

Luciano Fraga disse...

Cadê você meu caro amigo? estamos sentindo sua falta, retorna para nosso convívio, tudo anda tão deserto, sua presença ilumina cara, grande abraço.