quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SAULO E ANA


ELE

Cheguei em casa e ela estava lá, toda pompuda, escorada em seu diploma e passando aquele esmalte vermelho ridículo nas unhas. “Vaca velha”. Pensei, mas não disse nada, não queria começar outra briga. Estava de saco cheio de brigas. Estava sem paciência pra ser ofendido e pra ofender. Queria mesmo era o meu sossego: entrar no quarto, deixá-la na sala, fechar as janelas e ficar só com a minha poesia. Era a única coisa que andava me salvando, a poesia.
Cruzei a sala. Ela não me cumprimentou, não tirou os olhos das unhas vermelhas dos pés. Estava desfazendo de mim, a vaca. Conhecia ela muito bem. Estava só esperando que eu dissesse alguma coisa, pra começar a falar que eu era imaturo e que não tinha sobriedade pra encarar as coisas de frente. Aí, se eu respondesse, ela começaria a falar de Freud, de Deleuze, Jung, Foucault e essa porra toda. É tudo decorado, eu sei, no fundo ela gostava mesmo era de revistas de fofocas da televisão e das ditas celebridades. Ela deve achar é bonito todos esses nomes de filósofos. Coisa de intelectual. Eu do meu lado prefiro a fábula, a poesia, as plantas, a cerveja ou uma boa luta.
Fui pro quarto. Fechei as janelas. Lá fora havia chuva demais. Abri a gaveta do criado mudo pra buscar a minha poesia, mas tinham tirado ela de lá. Procurei no guarda-roupas e nada. Embaixo da cama, do tapete, do colchão. Nada. Estava começando a ficar irritado de verdade. Que porra! Não basta a gente trabalhar o dia inteiro no meio da sujeira? Tem que chegar em casa e ficar agüentando o mesmo joguinho sujo da rua? Não gosto de queda de braço, muito menos com mulher, prefiro a porrada em estado bruto. Ela tava querendo partir pra porrada, a filha da puta. Devia ter enfiado minha poesia no meio daqueles livros podres dela. Olhei lá também, entre os livros. Nem sinal. Vaca, onde poderia ter enfiado? Não era possível que ela tivesse jogado minha poesia pra se sujar no meio dos objetos íntimos dela: absorventes, batons, camisinhas e todas aquelas coisas imundas. Ou será que era possível? Fucei mais uma vez, agora entre os objetos. Nada de novo. Paciência tem limite. Se o que ela tava querendo era mesmo briga, então ela teria uma briga das boas. Como aquelas de antigamente.
- Onde você enfiou minha poesia? Perguntei de uma vez, logo que entrei na sala.
- Nem mexi, onde é que tava?
- Lá no quarto.
- Não mexi.
- Quem foi que mexeu então? Porque tava lá e agora não tá. Decerto foi o capeta que escondeu na boceta do mundo.
- Calma, por que é que você está tão nervoso? Depois a gente procura com calma e acha.
Tava dando uma de sóbria, a filha da puta. Ela era muito boa nisso, nesse negócio de dar uma de sóbria. É que vocês não sabem o que ela já aprontou comigo. Tem umas histórias que envergonhariam qualquer depravado.
- Depois a gente procura? Porra, eu preciso dela agora, será que você não entende?
- Tem certeza de que você deixou no quarto mesmo?
Ela continuava pintando as unhas, a filha da puta. Fiquei com vontade de meter o pé no esmalte, na caixinha de esmaltes, nas lixas, na acetona, no pé dela, em tudo...
- Dá uma olhada na cozinha. – Ela disse. Só faltava essa agora, ela ter jogado a minha poesia no meio das frituras, do óleo, da carne crua.
Fui até cozinha. Revirei o armário, a pia, o fogão, a geladeira: nada de poesia.
Voltei pra sala.
- Escuta Ana, tem certeza que você não viu mesmo?
- Não amor, eu não vi. – Ela disse fazendo aqueles trejeitos dela com o cabelo, mas sem tirar ainda o pincel com esmalte da unha.
- Será que você não pode pelo menos me ajudar a procurar?
- Ai amor, você não está vendo que eu estou ocupada? Depois a gente procura. - Ela disse e dobrou mais as coxas grossas, deixando à mostra os pelinhos raspados que começavam a nascer próximos da boceta.
De certo queria desviar minha atenção com aquele par de coxas. Mas eu não cederia, não dessa vez. Eu queria minha poesia de volta, mas ela achava suas unhas mais importantes! Não deixaria de fazer as unhas pra me ajudar a procurar a poesia que ela mesma tinha enfiado no cu. Era metida demais, orgulhosa demais, feminista demais, pra deixar de fazer uma coisa feminina: pintar as unhas, e ajudar a mim, um homem, a procurar a poesia.
Se achava muito superior, a vaca, mas entre quatro paredes era eu que fazia ela uivar como uma loba e chorar como uma criança. Se achava muito superior, mas era ela que ficava de quatro como uma cadelinha, esperando que eu fizesse o que bem entendesse. E eu sempre tive uma imaginação fértil e gostei de coisas escuras. O que ela queria mesmo era umas belas pauladas. O que ela precisava, era que eu a revirasse do avesso, que buscasse com o meu verbo... com o meu membro... os ovários... as trompas... o útero dela e deixasse tudo jogado no lençol, como um açougueiro, um psicopata. Bem que era o que ela desejava, mas não era o que eu estava disposto a fazer, não dessa vez.
Voltei pro quarto. No espelho eu parecia um monstro, o rosto inchado, vermelho, as pupilas dilatadas, verdes. Onde porra tinha ido parar a minha poesia? Revirei ainda outra vez todo o quarto... Aqueles livros dela... De que adiantava ter lido aquela porcaria toda, se depois era ela quem ficava de quatro, esperando meu ódio quente e cremoso? Nem todos os Freuds, os Jungs, os Deleuzes do mundo podiam salvá-la na cama. Lá, eu a assassinava. Lá, eu a fazia de escrava. Contudo eu não queria a cama, não agora, a cama era o meu território, mas meu único território era a cama. Todo o resto, o quarto, a casa, o bairro, o mundo, eram território dela. Era ela quem tinha começado a briga, era ela quem tinha tirado minha poesia de lugar, era ela quem tinha que perder.
Joguei as coisas dela pelo quarto. Deve ter feito barulho, porque agora ela veio correndo. Então agora ela tinha pressa? Então agora pintar as unhas não era mais tão importante?
- Que porra você está fazendo, Saulo? – Ela sempre diz está, nunca fala tá como todo mundo.
- Tô procurando a minha poesia.
- E precisa revirar todo o quarto? Bagunçar tudo?
- Precisa.
- Você é mesmo um crianção mimado.
- Sou mesmo. Foda-se. Você sempre soube que eu era assim.
- Mas eu não pensei que fosse ficar assim a vida inteira. Todo mundo cresce um dia.
Essa doeu. Desgraçada.
- Ora, vá se foder.
- Vá você. Tem que ser tudo do jeito que você quer, na hora que você quer. Se não for assim o bebezão quebra as coisas, esperneia, grita.
- É, é assim mesmo.
- Então se vira bebezão. Quebra tudo. Depois você vai ter que se virar para comprar tudo de novo. É assim mesmo que se resolvem as coisas. – Ela disse e voltou pra sala rebolando e encostou a porta devagar. Sempre quer parecer muito controlada, isso é que me deixa louco de raiva.
Continuei procurando minha poesia, estava obcecado por encontrá-la. Não me importava com o que ficava quebrado, com o que ficava bagunçado. Depois eu daria um jeito de arranjar tudo. Senti cheiro de incenso. Ela devia ter acendido um na sala. Sempre fazia isso. Eu odeio essas porras desses incensos, mas ela os acende só pra irritar mesmo. Então escutei ela assobiando uma canção na sala. Justo a canção daquele baiano que eu odiava. Ela sabia que estava me irritando. Era o jogo dela. Estava me chamando pra guerra e, se era guerra o que ela queria, era guerra o que ela ia ter. Seria um ataque fulminante.
Abri a porta do quarto com violência e invadi a sala. Ela estava sentada no sofá e sentada no sofá continuou. Não parou de pintar as unhas, nem sequer levantou a cabeça. Eu sentia o ódio latejar nas minhas veias. Sentia o ódio dilatar todas as partes do meu corpo. Fui pra cima dela. Abri o zíper. Puxei minha espada. E enfiei na cabeça dela pela boca. Enterrei fundo. Com todas as minhas forças. Queria transpassar o cérebro dela. Queria ver a ponta da minha espada sair ensangüentada do outro lado do crânio dela. Ela não reagiu.

ELA

Eu estava pintando as unhas quando ele chegou. Como sempre fazia, bateu a porta. Devia estar nervoso. Gostava dele nervosinho. Foi para a cozinha. Nem sequer me deu um bom dia. Seus passos eram pesados. Voltou para a sala. Ficou olhando pra mim. Fingi que não percebi. Acho que queria dizer alguma coisa. Reclamar, como sempre. Entrou no quarto.Ouvi o barulho da janela fechando. Eu tinha deixado a janela aberta para o Sol entrar um pouquinho, entretanto agora ele a havia fechado com força. Questão de ponto de vista.
Ouvi uns barulhos estranhos dentro do quarto. Devia estar procurando alguma coisa. Como das outras vezes, não encontraria, e então viria até mim, como um cão atrás do dono. Dali a pouco voltou para a sala. Perguntou-me pela poesia. Disse que não sabia, que não tinha visto. Soltou um palavrão. Divertia-me vê-lo tão zangado por um motivo tão bobo. Parecia uma criança da qual tiraram o brinquedo. Ficou ainda um tempo olhando-me e eu continuei pintando as unhas. Ele deve ter ficado lá com as sobrancelhas franzidas, como se todo o seu ódio estivesse entre elas. Era bonito, tanto nervoso, quanto calmo, mas o que me fazia perder a cabeça nele não era a beleza, a beleza também, mas não só ela. O que me fazia ficar louca era aquele jeito impetuoso dele, aquela crueza, aquela quase irracionalidade, como se ele não fosse um menino, mas um outro tipo de força da natureza. Por fim, falei pra ele dar uma olhada na cozinha, quem sabe a poesia não estivesse lá, ou em qualquer outro lugar da casa.
Ele foi pra cozinha. Ouvi o barulho da zona que ele devia estar aprontando. Voltou pra sala. Perguntou outra vez se eu não tinha visto a poesia. Repeti que não. Quis saber se eu não podia ajudá-lo a procurá-la. Respondi que ajudaria, mas depois, naquele momento estava ocupada. Sabia que a raiva dele estava aumentando, mas já disse, gostava dele nervoso. Gostava do jeito como ele me agarrava com força, quase como se fosse me bater, mas não baita. Pelo contrário, usava sua força para me acariciar. Só para provocá-lo, dobrei mais as pernas e as abri um pouco mais, deixando que ele visse alguma coisa, mas não tudo. Começava a sentir por dentro uma vontade louca de ter as mãos dele agarrando forte a minha cintura.
Ele, lá no quarto, começou a quebrar as coisas. Tudo bem, eu até que pagaria pelo estrago. Valia a pena. Era o jeito dele me chamar. Entrei no quarto fingindo raiva, afetação. Chamei-o de criança. Sabia que isso o deixava doido de raiva. E eu queria que ele viesse do fundo do seu ódio pra me derrubar. Deixei-o mais uma vez no quarto e voltei para a sala. Acendi um incenso, tinha certeza de que ele se revoltaria, de que arrancaria os cabelos no quarto por causa do incenso. Assobiei uma canção por cima do ódio dele, como pra zombar dele, do ódio, de tudo. Estava só esperando o momento dele entrar na sala. E ele veio. Fiz como se não soubesse que já estava por ali. Continuei com o esmalte. Ficou lá parado por um tempo, depois avançou para mim com sua tocha de chamas enormes nas mãos. Por puro despeito engoli a tocha... as chamas e as apaguei dentro de mim, com a minha água. A poesia estava em cima da cama, escondida dentro da fronha do travesseiro.

5 comentários:

f@ disse...

Gosto mto dessa imagem,... que eu costumo chamar de beijo às cegas...
beijinhos das nuvens

Blood Tears disse...

Os caminhos tortuosos da mente humana, a manipulação e os desejos...

Muito bom!

Blood Kisses

Reina del infierno disse...

que pancada pô?

o texto atehque tava bom né Dan??

Reina del infierno disse...

apesar gostei do seu textooo

biazinha disse...

O final foi hilário...hahahaha!
Incrível como se pode manipular a emoção do outro.
Demais, Daniel!

Beijos.