sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MEMÓRIA DA ROCHA

René Magritte
para os que ficaram

Naquela época, pela janela do carro, eu via que a chuva caía. Já não havia mais nada pelo meu lado de dentro, mas nem por isso eu me sentia mais seguro, ou menos roubado. Já não havia mais livros a serem escritos e nem músicas a serem feitas, mas havia ainda quase toda uma velhice pela frente. Já era alguma coisa? Eu não sabia, eu não sei, tenho cá minhas dúvidas e todos os desesperos brotam em meio aos ressentimentos, feito essas pequenas plantas que brotam entre os tijolos dos muros. Veja bem, não é conformismo ou desistência é só um meio de me defender, de me proteger, pra sofrer menos. As desculpas jamais serão aceitas mesmo. Não há como escapar. Estamos todos presos. Encaixotados. Mortos, ou semi-mortos e é uma grande besteira achar que o cinema vai resolver, é besteira achar que a literatura vai resolver, que o vinho, a música, as crianças vão resolver, não passam de paliativos. Derivativos. Ainda assim era bom tocar guitarra num dia de chuva, sozinho, trancado, no carro ou no quarto. Ainda assim era bom cair no vinho a qualquer hora. Mas em todos os copos, em todos os corpos, em todos os banheiros, em todos os telhados e puteiros havia olhos. “O que foi feito da casa das nossas infâncias?” Nós nos perguntávamos sem saber que haviam tocado fogo nela, que haviam jogado-a ao chão. Pelo menos nos deram capacetes pra que nós nos protegêssemos dos tijolos que caíam por toda parte. Um capacete não é uma casa, ou é? Mas já servia, aliviava um pouco a potência das pancadas. Entretanto e apesar de tudo, escapávamos, às vezes, à noite e tocávamos teclados e baterias e guitarras. O problema eram as manhãs, sempre tão facistas e reacionárias nos empurrando para um caminho que não era o nosso. Tudo bem, nós nem sabíamos direito qual era o nosso caminho, só sabíamos que não era aquele. Mas aí alguns começaram a desistir, jogaram seus capacetes fora, eram sensíveis demais pra continuar. Não era fácil, cada vez os tijolos eram maiores e, a cada vez, vinham com mais força e a casa... a casa da nossa infância... estava morta, apenas as portas tinham ficado de pé, mas as portas davam para um vazio sem teto, era inútil entrar.
E os mais sensíveis continuaram a desistir. Um cortou os pulsos. O outro bebeu veneno de rato. O mais triste de todos pulou do décimo oitavo andar com uma corda amarrada ao pescoço, pra ter certeza de que não escaparia. Os poucos que ficaram vivos fugiram, ou deram um jeito de enlouquecer tranqüilamente, pra não sentirem saudades ou remorsos. Um foi pra Minas. Outro pra Manaus. Houve quem conseguiu fugir pra Santa Cruz de la Sierra, num trem que partiu a noite em duas e nunca mais voltou. No final, ficamos apenas eu e ela, encalacrados, e eu não era mais eu. Agora... agora eu era uma rocha, mas eu era rocha só por fora, porque o lado de dentro da rocha que eu era, era mole, cremoso, um creme triste de lembrança e saudade. O bom era que à noite ela me acariciava, acariciava essa minha superfície cinzenta e fria e tocava flauta pra mim, só pra mim. Todavia eu nem me movia. Sabia que se me esforçasse conseguiria voar, ou pelo menos rolar. Mas eu não conseguia me esforçar e ficava lá. Parado. Tornando-me poeira, vento, terra, aos poucos, esperando os trilhões de anos que, enfim, me destruiriam. Não me importava. Os tijolos batiam em mim e eram eles que se esborrachavam, havia força na minha imobilidade.
Até que uma noite ela não apareceu. Com uma talhadeira escreveram o nome dela na minha superfície e mais tarde eu soube que ela havia voado para o Canadá. A voar pra lá, preferi ficar. Não suportava mais ficar desesperado.
Ainda hoje, milhares de anos depois, desperto à noite assustado, ouvindo os sons da flauta, mas, após o primeiro instante, percebo que não é ela e permaneço imóvel, quieto. Dentro de mim, aos poucos, tudo se solidifica e se esquece. Resta apenas no meu cerne, no centro de mim, uma pequena porção de pedra gomosa: É a lembrança dos tempos em que pela janela do carro, dela, eu olhava a chuva que caía, enquanto acariciava a carne dos seus seios.

12 comentários:

Danilo disse...

Ótimos textos....
Vale a pena conferir!

http://anti-anti-amor.blogspot.com/

Luciano Fraga disse...

Daniel, muito bom cara.A casa da infância, acredito que muitos de nós buscamos ou não tivemos e o monte de coisas que vamos acumulando e colocando uma pedra por cima? São aquelas sujeiras debaixo do tapete,ficam alí vivas, vivas... Seu texto causou inquietação. Grande abraço.

Ingrid Guerra disse...

Coisas belas e confusas. Às vezes, fico tentando encontrar significados ocultos nos textos e me perco. Nunca sei o que escrever, então, prefiro me calar e refletir em silêncio. Gostei do texto.
Quanto ao vizinho de baixo, não sei. Acho que o vi uma ou duas vezes no máximo. Posso dizer apenas que gosta de reunir amigos nos finais de semana e fazer festa embaixo da minha janela. Mas isso só me incomoda quando preciso me concentrar. Então, de repente, posso até classificá-lo como tranqüilo.
Bom, hoje fico por aqui... grande abraço.

Alice disse...

Lembrei de Man in the Box. Essa nostalgia que não nos escapa mesmo quando escrevemos. A gente leva tudo pra dentro do texto e transforma coisas pra suavizar, exagera mortos e cria falsos alarmes. Gostei muito, Daniel. Leio sempre seus textos e quando você escreve certas coisas, queria ter escrito também.

"Já não havia mais livros a serem escritos e nem músicas a serem feitas, mas havia ainda quase toda uma velhice pela frente."

(Daniel Lopes)

That's it.

Reina del infierno disse...

a segunda foto ta meio afeminado mas tudo bem.. ainda ta lindo...
e aproposito
"Eu cavo,
tu cavas,
Ele cava,
Pode não ser bonito,
mas é profundo."
gostei da piadinha...
eu sei que não estava desfazendo do meupoema... e que vc eh uma gracinha...
não eh ave maria mas eh cheio de graça...

beijos continue sempre assim escrevendo muito e com qualidade!!!

f@ disse...

Brilho nas palavras ... inquietas lembranças qua assaltam a memória mesmo das rochas... beijinhos das nuvens

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Como já disse à sua esposa, não estou nada bem, tive que fazer um post de resposta às agressões que venho sofrido e não consigo comentar o seu texto, pois estou com os olhos rasos d´água.
Apareça, dê-me uma força
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Um abraço,
Renata

biazinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
biazinha disse...

o que trazemos em nossa memória acaba por refletir em nossos atos.
Excelente narativa!
Beijos.

marcio mc disse...

Caro pianista, viajei no texto e ele levou-me às ruínas.Pra ser sincero cara um belo texto.

Blood Tears disse...

Só é necessária a melodia certa, para nos acordar do sono pérfido da indiferença que escolhemos como defesa....

Um excelente texto!

Blood Kisses

Su(elen) disse...

Bom, muito bom. Vou voltar!!

Sue